sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O dia em que Jardel Filho quase morreu

Foto: Memória Globo
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Ele estava deitado, de olhos fechados. A respiração normal, o peito forte subindo e descendo regularmente. A camisa era alva como todo o enxoval da cama e contrastava com os cabelos louros do peito e os já alvejados nas têmporas. Um tubo de plástico enfiado pelo nariz tirava um pouco da sua beleza naquele momento. Entreabriu as pálpebras com alguma lentidão e com dificuldade seus olhos muito azuis apareceram. As sobrancelhas um pouco hirsutas, eriçadas, se levantaram e ele pôde enfim me ver.

Eu estava só.

Ameaçou um sorriso que foi proibido imediatamente com o tradicional sinal de silêncio juntando o dedo indicador nos lábios. Fez que entendeu com movimento lerdo. Sem querer andamos usando a linguagem muda para dizer que estava tudo bem (polegar para cima e a mão fechada), para pedir que não se movesse (mão espalmada para frente), para mostrar que já ia embora (movimentando a mão no sentido horizontal para lá e para cá), ate que recebi o olhar afetuoso de agradecimento pela visita, por tudo o mais, o qual achei por bem repelir como quem diz: “que é isso compadre, para nós não vale”, ou coisa parecida.

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Eu o levei ao hospital. Há poucas horas ele havia comentado com a mulher que iria descansar um pouquinho, mas o que fez foi descer e se lamentar para mim da dor intensa que sentia no peito. Falou calmamente como quem não quer assustar a ninguém (acho que agiu da mesma maneira lá em cima).

O que me veio na mente de imediato foi: infarto. Mais algum instante depois estava com o carro de um amigo levando-o ao hospital. Justificava a medida como “preventiva”, e na verdade era, pois alguém havia de pensar em ataque assim tão de repente? Os médicos ao primeiro exame se assustaram um pouco. Sem querer dar tal impressão ao paciente importante, como e de hábito.

Logo foi internado (por precaução e para exames mais profundos) e esta visita me foi concedida como um prêmio pelo fato de tê-lo trazido até ali. A todos os demais por enquanto as visitas estavam proibidas. Mas em breve muita gente estaria ali. Familiares, imprensa, TV. E não sairiam a não ser com a boa notícia da alta ou outra mais chata. Mas repórter é repórter. E foi assim, com esses temores, que me despedi dele. Na verdade, segundo um médico, eu o salvara da morte e não sabia.

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O queixo fendido ao meio, o jeito alemão, o nariz longo, davam-lhe certo ar de Karl Maden que o sorriso só confirmava. Antes de sentir tantas dores andou fazendo uma novela com nome de óleo de bronzear. Eram fragmentos de sua própria vida, narrados através do personagem que representava e das pessoas que com ele conviveram ou tiveram passagem relembrada em momentos de angústia, agora juntados num só vitral como cacos de vidros coloridos colados cuidadosamente um a um.

As dores no peito com reflexos desordenados em todo o corpo confundiram-no por surgirem assim em pedaços não tão coloridos, cacos negros da morte. Graças a Deus esta a salvo! Na verdade está deitado num leito de hospital, provavelmente se sentindo muito mal não tanto pela doença, mais por estar ali paralisado, estático, como nunca gostaria de estar, ele que sempre foi dinâmico. O peito arfando conformado, num sobe-e-desce irregular, pessoas ao redor falando em sussurro.

A visão cansada me confunde e o que vejo são muitas flores, cuja presença os médicos decerto condenarão – ou serão tubos plásticos conduzindo soro ao organismo debilitado? Eram médicos e enfermeiros que davam socos para fazer o coração retornar ao ritmo habitual ou era Betty Faria que, chorando desesperadamente, batia incontrolável os punhos em seu peito aos gritos, aos lamentos?

“Acorda, acorda! É tudo mentira, mentira! Você está apenas dormindo”.

Mas como podiam fazer tanto barulho num hospital, fotógrafos com flashes, as câmeras da TV, sem respeitar nem menos os doentes, mesmo que se trate de ator famoso?

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Ontem mesmo ele me dizia: “Já vivi mais de mil vidas no teatro, na TV, no cinema, mas esse Heitor, esse Heitor desta novela é a mim inteiro que retrata, eu mesmo”. Por isso não creio no que andam dizendo por aí. Claro que ele vai estar bem daqui a pouco e retornar ao trabalho, ao casarão, dar uma grande festa ou farto almoço para espantar a sombra da morte.

Comemorar a volta, não dele mesmo, mas do Heitor que e seu outro eu. E voltará sem queixumes, sem acusar as dores que atormentam internamente, como que para confirmar aquilo que um dia afirmou: "O artista vive mais de dor e suor que de glorias." Ele sabe que, terminada a novela, o telespectador no dia seguinte logo a esquece. Para ele assim também é a dor que o acompanha: coisa normal e faz parte da vida.

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Volta e meia, numa conversa fiada, eu lhe dizia: "Alemão", você já é famoso, realizado, poderia se aposentar e gozar um pouco a vida. Ele voltava os olhos azuis faiscando como se tudo aquilo fosse um insulto e me dava o troco com aquela frase da “dor”, “suor” e “glórias”. Ou então falava: “O sucesso é apenas uma palavra que deve ser pronunciada sempre entre aspas”. É claro que isso era dito de modo simples, sem a pretensão da eternidade, de maneira natural, coisa que saía fluente como predestinação.

Nesses momentos gostava também de recordar as boas representações tanto no teatro quanto no cinema e TV. Crescia-lhe certo orgulho, quase vaidade, saber – às vezes pelos próprios colegas – que tinha se saído muito bem num determinado trabalho. O mesmo ocorria quando afirmava ser monogâmico. Se é que tinha vaidade era só para essas coisas. A gente percebia depois que a monogamia anunciada era apenas fidelidade a si mesmo. Uma monogamia apenas para cada momento e para cada mulher, à qual se entregava total e amplamente. Uma monogamia, se e que se pode chamar assim, simultânea, múltipla.

Mas isso é porque se via claramente que seu coração era enorme e tinha amor para dar a muitas pessoas, a muitas mulheres. Inesgotável fonte de amor e carinho.

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Era uma lágrima cristalina. Eu vi. A claridade do lado oposto iluminou-a saindo do olho verde da Carla Camurati, escorregando lentamente na face, deixando um rastro úmido. Depois de uma pausa no canto dos lábios a gota d’água se perdeu absorvida na manga da camisa de malha.
        
“Não se preocupe Carla, pensei tentando consolar â distância, ele esta bem e logo ficara bom”.
        
Como que compreendendo minha atitude ele sorriu com o canto da boca um riso maroto. Assenti de modo imperceptível e em resposta dei uma piscadela cúmplice.

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Não falei? No dia seguinte (ou alguns dias depois?) lá estava ele lépido e fagueiro no vídeo, nas salas de milhares de casas em todo o Brasil, penetrando na intimidade dos lares, modificando um pouco a atitude de muitas pessoas. Bom. Lépido e fagueiro é certamente exagero, força de expressão. Via-se expressar no rosto certo cansaço que não era normal, e nos gestos um grande esforço para os menores movimentos, que contradizia o seu espírito desenvolto. 

Sentava-se mais frequentemente quando estava no cenário e foi curioso saber depois que numa cena de muitos abraços e apertos teve de sussurrar ao ouvido de Toni Ramos (que fazia papel de surdo-mudo): “Aperta devagar Toni. Estou sentindo muitas dores”. Mesmo assim, à vista de todos, ele estava bem, sem demonstrar qualquer sofrimento. 
        
Os olhos azuis ao extremo, aos poucos voltavam ao brilho exagerado e cintilante dos bons tempos. Na verdade ele deu um baita susto na gente!

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As sardas de Irene Ravache desapareceram do rosto lívido quando soube da notícia. Quando chegou ao local estremecida de emoção, foi impossível impedir de soltar grossas lágrimas, molhando inclusive o rosto dele ao leito. Enxuguei a face dele e então respirou aliviado. No fundo, no fundo, detestava tanto drama pelo que considerava um nada. Mas não poderia sequer repreender aquela que, sendo amizade nova, já era mais querida que muitos velhos amigos. Como se isso fosse possível.

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Vestido de macacão jeans, tipo holandesa, sentado num jardim improvisado, fingindo estar bêbado, bem parecia ele. Quis dizer “genial”, mas me lembrei da fúria fingida que o acometia quando ouvia alguém pronunciar essa palavra, querendo classificá-lo assim.

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“Veja só - disse-me depois - um médico receitar remédio de sinusite para curar coração.” O comentário ficou no ar. Não dei trela porque seguindo o hábito que tenho que ler tudo quanto é bula de medicamento vi entre as contraindicações o risco aos que sofrem de hipertensão. Não que ele fosse hipertenso, isso eu não sabia, mas que era multo emotivo isso era.

Disse logo: acho bom não usar essa porcaria (assim chamava todo remédio) e fui imediatamente tomando o nebulizador da sua mão porque sei que nessas horas ele ri e não liga muito para nada e vai comprar outro remédio ou mesmo não usa nenhum mais e fica satisfeito em saber que amigos têm cuidados especiais com a saúde dele. Inflava o tórax como Tarzan e soltava o grito animalesco.

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Grande Otelo, coitado, tem um coração de boi. Teve de sair carregado em prantos assim que soube. E só descansou quando foi colocado sob o efeito de calmantes. Qualquer dia desses morre um no lugar de outro.
        
(Mas ele vem morrendo aos poucos há anos toda vez que quase perde um amigo. Tem uma jarra de lágrimas nos olhos impossível de conter).

“Calma Otelo – murmurei de longe só para ele – Já fica bom. E concluindo adverti: cuida do teu coração.”

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Eu o via ali, descendo a escada do casarão com um copo de cerveja na mão, aos gritos, dando berros guturais, como que para anunciar ao mundo todo a sua presença.

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Dois ou três dias depois (ou uma semana, ou um mês?), tanta confusão confunde a memória da gente. Estavam todos reunidos no velho casarão reformado especialmente para filmar a novela. Era grande a movimentação de técnicos, câmeras, eletricistas, diretores e as pessoas estranhas sumiram, mesmo porque o serviço ê maçante, chato mesmo.
        
Agora o que se via era rostos só de conhecidos, de uns e outros mais intimamente ligados a ele pelo trabalho cotidiano. Ou no resultado do que dele é levado ao vídeo da TV depois da montagem, com trilha sonora. Algumas cenas secundárias foram antecipadas, mas as de maior envergadura e importância dependiam da presença dele.
        
Eu o acompanhei durante muito tempo, diariamente, e ali estava já há algum tempo, há horas, admirando a correria louca e nervosa daquele pessoal pra lá e pra cá, gritando, chamando por nomes que nunca apareciam, reclamando de coisas, elogiando outras, imagens esfalfadas, o calor irritante, e então compreendi porque a vida de certos atores é muitas vezes tão curta.

Estranhei por isso a razão de não me indagarem por ele.

Passavam para lá e para cá, como se eu não estivesse presente, só algumas vezes olhavam para mim demonstrando pena, não sei por quê.

Em sua casa não me disseram nada, nem “ele não irá hoje”, nem “ele já saiu”, nem sequer que “ele estava com pressa”, como algumas vezes ocorria. 

Nas faces de todos se via só apreensão, temor, sentimento de ausência, talvez causados mesmo por aquela demora inusitada. Até mesmo o jardim, que fora semidestruído para gravação de uma cena, parecia mais um cemitério. Ele certamente não iria gostar nada disso.

Mas estava mesmo demorando a e as cenas foram sendo gravadas, continuava o trabalho célere. A febre do trabalho tomou conta de todos, virou um tumulto generalizado. Podia ser um insulto, falta de coleguismo, assim, mal ausenta um amigo e será abandonado friamente? É assim mesmo? O espetáculo não pode parar? Para os demais sim, não para mim: aquilo tudo era habitual, como se ele estivesse presente, para sempre.

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       Jardel demorava muito e a vida parecia continuar sem se importar com isso. Saí então para dar uma olhada no tempo frio, girar um pouco a pé vendo vitrinas, tomar um cafezinho. Tudo para aliviar a cabeça de tanta confusão, esquecer a ilusão e a desilusão. Meti as mãos frias nos bolsos, caminhei no calçadão chutando chapinhas de cerveja. 

       O céu sem nuvens, azul e límpido como os olhos do Alemão, anunciava um verão inesquecível. 

Rio de Janeiro, Cachambi, 19 de fevereiro de 1983. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O mal que JK nos causou


(Publicado no ano de 2006 em: http://www.aconfraria.com.br)

O que pensou Juscelino Kubitscheck quando ousou assumir, como prioridade de governo, a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o planalto central? É claro que nenhuma má intenção lhe passou pela cabeça. O projeto era antigo, com raízes no Segundo Reinado, mas seja qual tenha sido o hálito histórico que ambientou todo o processo – hoje completamente documentado – a consequência refletiu na política brasileira como uma bordoada mal dada, cujo nocauteado foi a população. O que hoje nos aflige e nos derrota é o distanciamento físico entre o político e seu povo.

Acabou o corpo-a-corpo, a vaca das reivindicações foi para o brejo com corda e tudo, a pressão popular cujas raízes remontam à Revolução Francesa esvaiu-se, quando se quiseram reunir milhões de pessoas para clamar pela restauração da democracia, a responsabilidade caiu sobre o Rio de Janeiro e São Paulo. Lula como líder sindical no planalto seria uma tragédia satélite, uma piada sem quintal.

 O distanciamento da sede político-administrativa das grandes metrópoles implantou e trouxe consigo a pior de todas as tragédias políticas ao gerar e fazer nascer uma teocracia até então inimaginável: a democracia ditatorial. Aquilo que parece mais não é: a perpetuação de uma ordem política na qual a ética e a estética são descartadas de revés.

Na antiga capital federal, o Rio de Janeiro, o Senado ficava bem ali nos costados da Cinelândia, um reduto de tradição rebelde e revolucionária, onde até mesmo as reivindicações de ordem homossexual derrubavam convenções. Era o ponto do teatro, do cinema, das boates e, portanto das bichas velhas e das recém-assumidas. Qualquer movimento errado das autoridades, qualquer passo em falso, qualquer escândalo mesmo menor, logo provocava a reunião do populacho disposto a redirecionar os transviados.

A Câmara dos Deputados ficava logo ali na Praça XV de Novembro, ao lado ao Paço Imperial que já era, desde o tempo do Império, palco que refletia a efervescência social e política da época. A república chegou e permaneceu sujeita aos mesmos tremores, as reuniões que pautassem assuntos de mérito raramente ocorriam no silêncio pacífico dos gabinetes. O alarido lá fora ecoava em cada ouvido como a lembrar de que o eleitor estava atento ao deslize de seus mandatários.

Os estudantes tinham uma atuação política mais fecunda e conviviam no entorno do poder. A UNE era ali na Praia do Flamengo a quinze minutos do centro; a Faculdade de Direito, na Praça da República, mantinha o Largo do CACO (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira), em perene ebulição; a Faculdade de Filosofia, na Praça Itália, fazia vizinhança ao Restaurante Central dos Estudantes, o famoso Calabouço (Sede da UME), fundindo estudantes secundários e universitários num só elemento. O Ministério da Guerra, que nunca foi um órgão popular, tinha de conviver com a grande massa de trabalhadores que todos os dias os trens despejavam na Central do Brasil.

Quando JK tomou coragem para se antecipar à história estava escrevendo a própria história. No entanto em tudo que ocorreu entre a ideia, o projeto, a implantação, a inauguração e a transferência dos poderes para o planalto central, em nada transpirava a intenção de destravar o político do povo, o mandatário do voto, a promessa da cobrança. O papel de vilão sobraria para prefeitos e vereadores, se já não viesse do alto a desmoralização das gestões, carregando de impotência desmoralizadora qualquer sentimento de reação. Terceirizou-se o poder.

A câmara dos deputados, o senado, o poder judiciário, estabelecidos numa praça que não é a Praça XV de Novembro, ao lado ao Paço Imperial – o Palácio da Alvorada – deixou de ser o palco capaz de refletir a efervescência social e política, necessários ao debate das questões importantes. Não há mais o debate entre o político e o povo, a população não tem como se pronunciar, Brasília enterrou o plebiscito, a passeata, como a TV enterraria o comício.

O isolamento do poder numa redoma protetora fez com que aumentasse a sensação de impunidade, fazendo crescer demasiado o rebanho das ovelhas negras. Quem tiver mérito e paciência pode se dar ao trabalho de fazer a estatística que, no entanto, está bem latente: a nova capital promoveu também os casos de corrupção mais escabrosos, que passaram a ter uma magnitude inconcebível, alçando-se a cifras imagináveis, num país que todos os hóspedes do Palácio da Alvorada consideram pobre.

 A república que chegou depois da ditadura permaneceu sujeita aos mesmos tremores. As reuniões que pautam assuntos de mérito agora ocorrem no silêncio soturno dos gabinetes. O alarido ficou lá fora, bem longe, não mais ecoa nos ouvidos dos políticos a lembrança de que o eleitor é o responsável direto pelos mandatos e mantém o direito de cobrança. O poder hoje se exerce acobertado pelos ternos e jaquetões impecáveis, etiquetados pelos melhores estilistas italianos.

A transferência da Capital do Rio de Janeiro para Brasília acabou com a cobrança direta –, nenhum presidente se suicidará no Palácio da Alvorada.


A construção de Brasília de fato colocou o nome de JK num patamar elevado da história, levou nome do Brasil ao cume da modernidade, não só pela joia arquitetônica que a cidade representa, mas também pela audácia e coragem ao transformar um empreendimento árduo e utópico em realidade. Essa aura de modernidade, porém, não impregnou o espírito ético dos políticos, ao contrário, transformou o ideal numa mácula, o exercício da democracia em tragédia nacional. Alguém duvida?  

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Denise Bottmann: Lima Barreto em tradução


Lima Barreto está nas manchetes. Por isso, saiu bem a propósito o artigo Lima Barreto em tradução, publicado em www.academia.edu, no qual a tradutora e historiadora da tradução no Brasil Denise Bottmann apresenta breve bibliografia das obras de Lima Barreto traduzidas, “no que foi possível apurar”.

A própria autora adverte que “em que pesem inevitáveis lacunas e omissões, este levantamento abrange a grande maioria das publicações de obras de Lima Barreto em língua estrangeira, em livro físico e/ou digital”. O inventário minucioso está exposto em ordem alfabética de idioma e, dentro de cada idioma, por ordem cronológica da primeira edição”. 

Eram muitas as queixas de Lima Barreto pelo boicote às suas obras, censura que ele tentou superar se candidatando três vezes (todas frustradas) a uma vaga na A.B.L. Ao ver-se marginalizado nos meios literários, a que tinha algum acesso, enfim ele percebeu que era vítima de discriminação. O menosprezo oficial alimentado pela A.B.L. virá perdurar até depois de sua morte. Quando recrudesceu o clamor da liberdade contra a ditadura, o silêncio imposto ao conjunto da sua obra começou a ser levantado.

Assim, foi a partir do exterior que começamos a redescobrir a importância da literatura de Lima Barreto, enquanto que em terras tupiniquins o autor de “O homem que sabia javanês” foi ignorado ou largado em segundo plano, pois todos os incensos voluteiam em torno de Machado de Assis. Por que será?

O levantamento de Denise Bottmann, como dito, é minucioso e deve ser lido por estudiosos e interessados em Lima Barreto. Para saber quê e como a obra dele foi traduzida para Alemão, Catalão, Chinês, grandemente para Espanhol, para o Esperanto (imagine!), muitas traduções também para Francês e Inglês, para Italiano, Japonês, Polonês, Romeno, Russo (apenas uma obra, mas a Rússia merece muito mais), Sueco, Tcheco e uma para Islandês, por Luciano Dutra, ainda inédita.

Isso para falar em traduções oficiais, impressas, mas, ainda segundo Denise Bottmann, “na rede encontram-se algumas traduções ou compilações avulsas, disponíveis apenas em sites ou blogs, como, por exemplo, Cuentos del Brasil em https://goo.gl/CE7emS. Acredito que existe muito mais, pois as pesquisas feitas no Google e outros motores de pesquisas em geral estão emparedadas pela “democracia e moral” norte-americanas, que são, como se conhece, verdadeira censura...

Em resumo, escreve Denise: “Agora, detendo-nos brevemente nos dados apurados sobre as edições publicadas em formato de livro físico e/ou digital, podemos esboçar o seguinte quadro: Publicações: Encontram-se 49 volumes com obras de Lima Barreto em tradução. Idiomas: As traduções de obras de Lima Barreto se encontram em 15 idiomas”. Ademais, o levantamento revela que as obras de Lima Barreto mais traduzidas são: O homem que sabia javanês e Triste fim de Policarpo Quaresma.

Denise Bottmann é a mais importante referência sobre tradução e a história das traduções no Brasil. Seus trabalhos revelam fatos inéditos, traduções reaproveitadas, tradutores fantasmas, editores picaretas, especuladores, sabichões, piratas, editoras desonestas que usam traduções alheias para ganhar dinheiro. Suas descobertas são extraordinárias e inacreditáveis.

Para encerrar o trabalho sobre a obra de Lima Barreto, Denise deixa as portas abertas: “Em conclusão, são vários os fatores que se podem inferir ou conjeturar a partir de tais dados, abrindo várias perspectivas de novas pesquisas sobre a presença de Lima Barreto no exterior. O que fica claro é que Lima Barreto nunca esteve tão vivo quanto no século XXI”. Mãos à obra, pois!

Em 1917, de 26 a 30 de julho, realiza-se em Paraty – Rio de Janeiro a 15ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty – Flip onde o homenageado é justo Lima Barreto. Em entrevistas divulgando o evento os organizadores ressaltam as pedras no caminho da realização da feira devido à crise financeira que assola o país, resultante do assalto ao patrimônio público engendrado há décadas por políticos e empresários corruptos.

Sabendo-se que uma das tradições da Flip era trazer famosos convidados estrangeiros e brasileiros, que andam no topo das listas de vendas de best-sellers – por isso mesmo de cachê bem remunerado – deduzo que o convite mandado a Lima Barreto está conforme as necessidades atuais da economia de cinto apertado. Afinal, ele não estará presente para agradecer os aplausos, nem para receber cachê e direitos autorais, posto que a sua obra seja de domínio público.

Estou aqui com o programa do evento à minha frente. Minha primeira decepção é que não vi Denise Bottmann relacionada. Seria um acréscimo que iria enriquecer o falatório em torno de Lima Barreto. Vejo também que a abertura foi no dia 26 de julho com o tema Lima Barreto: triste visionário, apresentado por Lázaro Ramos e Lilia Schwarcz, sob a direção de Felipe Hirsch. Não vou comentar sobre os participantes, embora devesse. Mas “triste visionário”? Ah, caralho, não fode!


Rio de Janeiro, Cachambi, 27 de julho de 2017. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

14 Anos sem o Campeão José Másculo (1959-2003)

Por: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

“Teu roque, esse sarcófago vazio,
de vencidos peões vermiculares,
exposto ao mal de um xeque doentio,
espalha incenso triste pelos ares.”
- Hélder Câmara (1937-2016)

(Foto Flávio Rodrigues)

Em 15 de julho de 2003, vítima de câncer, falecia o enxadrista carioca José Soares Másculo, com a idade de 44 anos. Nascido em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, era advogado e contador. Foi tricampeão carioca juvenil, bicampeão brasileiro juvenil, duas vezes vice-campeão pan-americano de xadrez (1978/79), e aos 17 anos figurou entre os dezesseis melhores do mundo.

Cria do Clube de Xadrez Guanabara, Másculo representou o nosso país em diversas competições internacionais. Para ele o xadrez não se constituía apenas em um jogo, mas também em arte e ciência. Arte, porque através dele o homem extravasa a sua capacidade criadora, e ciência, porque o seu caráter lógico-matemático dela o aproxima. Por isso mesmo, é o xadrez adotado em escolas como um recurso auxiliar na educação juvenil. Aliás, são os jovens os que mais podem se beneficiar com a sua prática. A idade inicial para se iniciar uma criança no enxadrismo varia entre sete e doze anos.

A grande importância do enxadrismo, dizia Másculo, está no fato de que ele inevitavelmente conduz o seu praticante ao hábito da análise e da reflexão, tendo que avaliar as consequências de ações próprias e alheias. Responsável por uma pioneira escolinha de xadrez para crianças, em 1986, no Clube de Regatas do Flamengo – na maior renovação já conhecida pelo enxadrismo carioca –, afirmava que quem era bom no xadrez poderia ser bom em qualquer outra área, por causa da capacidade de concentração adquirida com ele.

Em um sistema educacional como o nosso, onde o ensino da filosofia foi abandonado e o aprendizado muitas vezes se resume em decorar fórmulas, o xadrez vem a fazer um bem. A importância do hábito de pensar é tão grande que a poderosa empresa de tecnologia da informação, a IBM, tinha a palavra “Think” (Pense) como lema – criado em dezembro de 1911 por seu fundador Thomas John Watson (1874 – 1956).

Ninguém precisa possuir um QI altíssimo para jogar xadrez, no entender do geminiano Másculo, um jogo até fácil. Basta um pouco de prática para qualquer um poder se beneficiar desta verdadeira ginástica intelectual e curtir horas agradáveis de lazer.

“O xadrez é um jogo de habilidade. O enxadrista mais hábil derrotará sempre o menos hábil. Esta habilidade, que é o segredo do jogo, se desenvolve com a prática e o estudo. Não há casos de habilidade alcançada somente com a prática ou apenas com o estudo. Neste peculiar o xadrez iguala-se a qualquer arte e ciência.”

“A habilidade individual, o poder de concentração, a capacidade de antecipação, a experiência, as manobras táticas, a estratégia e, sobretudo, a paciência e a tranquilidade influirão decisivamente no resultado final da partida.”

Moção da câmara em 1990

No Plenário Teotônio Villela, em 20 de abril de 1990, o vereador Túlio Simões (1957-), então líder do antigo PFL, na forma regimental, fez constar nos Anais da Câmara Municipal, “um voto de congratulações com o enxadrista carioca JOSÉ SOARES MÁSCULO pelo trabalho que vem desenvolvendo em prol da divulgação do xadrez no Rio de Janeiro, com o objetivo de conquistar um espaço para esta importante modalidade de esporte” (...).

“Como Parlamentar, como desportista amador, e principalmente como cidadão carioca, faço lavrar para sempre, nos Anais desta Egrégia Casa Legislativa, o nome de JOSÉ SOARES MÁSCULO, fazendo deste registro, o símbolo da admiração de todos os Cariocas, que nesta Colenda Câmara tenho a honra de representar”.

O amigo de praia

Conheci José Soares Másculo, o Zé, em 1987. Fui seu divulgador e amigo. Era um extrovertido parceiro de frescobol e aventuras nas praias de Ipanema, Diabo e Copacabana (Posto Seis) – praticou também futebol, surfe, peteca, vôlei e gamão, e ainda corria na areia.

De acordo com Másculo, “o xadrez fora inventado pelos povos árabes que viviam em guerra no deserto como forma de planejar melhor os ataques. Ao longo dos séculos o jogo foi sendo aperfeiçoado e hoje há verdadeiras teses sobre a melhor defesa”.

Em 1990, aos 30 anos, ensaiou uma volta aos torneios internacionais. Almejava a conquistar o título de Grande Mestre Internacional e tinha projetos de implantar uma Academia de Xadrez – a primeira do Rio de Janeiro – na sede de esportes aquáticos do clube Botafogo, no Mourisco. Queria ressuscitar o esporte em nosso estado. Lia mensalmente mais de dez publicações internacionais especializadas em xadrez.

Nessa época, namorava a Rose, que colaborava com ele na direção da tradicional Casa Soares, de bolsas femininas – herança do avô –, localizada na Rua Sete de Setembro, no Centro. O casal residia então em um pequeno apartamento na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, ao lado do Café Lamas.

Másculo partiu muito antes de sua hora. Não conseguiu evitar o xeque-mate que lhe impôs o mais temido, perigoso e traiçoeiro adversário que enfrentou: a Morte. Em outra dimensão, certamente deve estar aninhado aos braços de Caíssa, a deusa poética do enxadrismo. Ou, quem sabe, disputando animadas partidas de xadrez com o Criador.
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Registros póstumos de Másculo
CHESSGAMES.COM
JOSE SOARES MASCULO
Born Jun-02-1959, died Jul-15-2003, 44 years old, Brazil
Jose Soares Masculo
Number of games in database: 13
Years covered: 1977 to 1991”.
Overall record: +1 -7 =5 (26.9%)
Overall winning percentage = (wins+draws/2) / total games
Based on games in the database; may be incomplete

KIBITZER’S CORNER (Chessgames.com)
From Rio de Janeiro (*2.6.1959/†15.7.2003 ) Two times brazilian Junior Champion, played in two World Junior Ch 1977 and 1978, and some Opens and IT in Europe and USA. Not a pro full time, but his activities as trainer, teacher and player were remarkable - notably in the Flamengo Club from his native city. Always had a fragile health.

365chess.com
Masculo, Jose Soares
Years: 1977 - 1991
Total Games: 128
Wins: 41 (32,03%)
Draws: 53 (41,41%)
Losses: 34 (26,56%)
Score: 52,73% 

"Assim que o jogo acaba, o Rei e o Peão voltam à mesma caixa." - PROVÉRBIO ITALIANO

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Passaporte para o paraíso


Ivo Korytowski - Passaporte para o paraíso
Romance - Editora Fragmentos, Curitiba, 2017

A literatura está entulhada de depoimentos ficcionais ou memoriais, de emigrantes e exilados que fugiram dos horrores da guerra em busca de um futuro mais tranquilo. Entre a enorme massa humana que se movimentou por causa da guerra nazista os judeus se sobressaem, mas não foram a única classe perseguida: comunistas, ciganos, artistas, rebeldes, homossexuais, viciados, dissidentes – entre outros – navegavam o mesmo barco. Mas até hoje causa repulsa o tratamento inumano e violento empregado pelo governo nazista contra os judeus: a política ardilosa da solução final (cujas raízes estão no fim do império austro-húngaro) deixou-os num beco sem saída.

As opções seriam o exílio rumo ao paraíso ou à incógnita terra prometida – o Eldorado ou Israel. Na hora do desespero pouco importava o destino, mas a rota mais curta apontava para Nova York, a terra da promissão. Os antepassados de Ivo Korytowski, apesar do sonho da América (USA), vieram aportar no Brasil: não a Terra da Promissão, mas o desejado Paraíso. Devido à avalanche de histórias mais ou menos iguais, parece que Ivo Korytowski hesitou muito antes de publicar o seu relato pessoal. O texto também traz a ideia de que muita coisa ficou por ser dita.

Ao declarar peremptório que o livro não é um romance descarta a ideia de memória, mesmo sabendo-se que as duas expressões podem coexistir em paz. Ivo Korytowski não é o primeiro a se enredar ao classificar esse tipo de narrativa. Isaac Singer, atraído a New York pelo irmão, confessa: “Embora seja basicamente autobiográfico em estilo e conteúdo, Amor e Exílio certamente não é a história completa de minha vida. Na realidade a história verdadeira da vida de uma pessoa jamais poderá ser escrita. A história plena de qualquer vida seria a um tempo absolutamente aborrecida e absolutamente inacreditável”. (Amor e exílio, 1984). Melhor glosar Mário de Andrade e sacramentar: romance é aquilo que chamamos de romance...

O Talmude ensina que não existe recompensa no mundo material, só no mundo vindouro – ou seja, no paraíso. A recompensa para a mitsvot é o paraíso: os justos após a morte serão chamados de vivos. O paraíso não é o objetivo final e sim a ressurreição que ocorrerá após a era messiânica. No paraíso estacionam as almas que esperam a ressurreição (Nachmânides). Como seres dotados de livre arbítrio, temos chance de optar entre o bem e o mal. Deus pôs diante de nós a vida e o bem, a morte e o mal. Mas não se sabe se a vida é recompensa e a morte castigo. Isso tudo é só para dizer que Ivo Korytowski, dono de livre arbítrio e filósofo de formação, é livre pensador por opção e continua em busca do Paraíso.

De entremeio ainda no livro cabe espaço para especular sobre a existência e a vinda do Messias, a identidade de Jesus, a mística de ressurreição que, pelo menos para Machado de Assis, funcionou. Helena. Helena. Helena. Por que me deixaste? Exclama Ivo Korytowski em penúltima alegoria, pois também de alegorias é feito “Passaporte para o paraíso”. Talvez Alberto Dines tenha pensado algo assim ao escrever “Morte no paraíso” – não apenas a biografia de um escritor expatriado e infeliz, e sim um retrato de um mundo em transformação. No canal Arte-1 ainda sob a batuta do incansável Alberto Dines é possível assistir a bela série da TV “Canto do Exilado”. A série retrata a onda de perseguidos que entre 1933 e 1945 encontraram paz no Brasil e aqui plantaram sementes no campo do conhecimento.

Artistas, escritores, compositores, pintores, cientistas, poetas, passaram a figurar em nosso cotidiano deixando o legado do saber – porque tudo o que chegou foi dividido, expandido e compartilhado sem economia com os brasileiros. A Casa de Stefan Zweig (Rua Gonçalves Dias, 34 – Bairro Valparaíso, Petrópolis), oferece sessões dos documentários ilustradas com palestras de parentes, amigos e herdeiros. Ali se pode conhecer a trajetória do próprio Stefan Zweig; de Anatol Rosenfeld e Vilém Flusser; do compositor, flautista e mestre Hans-Joachim Koellreutter, que teve como alunos Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Eunice Katunda, Edino Krieger e Tom Jobim.

A mostra inclui a história de amor e arte entre a portuguesa Maria Helena e o pintor húngaro Árpád Szenes, que viveram um idílio em Santa Teresa, Rio de Janeiro; documentário sobre Paulo Rónai, brilhante intelectual e ensaísta; a vinda de Emeric Marcier, apaixonado pela obra do Aleijadinho, que pintou, entre 1942 e 1947, à luz de velas, cenas de arte sacra no interior da capela da Santa Casa de Mauá – a "Sistina brasileira". Também são retratados: o maestro húngaro Eugen Szenkar, primeiro dirigente da OSB; a pianista Felícia Blumental e o marido Markus Mizne (íntimos de Villa-Lobos), a quem o compositor dedicou o 5º Concerto para Piano e Orquestra de 1954. E muita coisa mais.

A família, os antepassados, os descendentes de Ivo Korytowski, fazem parte dessa história. Por isso, no exato momento em que leio o seu modesto livro sinto como se estivesse assistindo a um episódio da série, agora eternizado em letras, entremeado de espantos filosóficos e com um tempero a mais! As relembranças de Ivo Korytowski detalham um fato até então camuflado sob o sigilo do pudor, do melindre, da vergonha ou da covardia: já naquele tempo era preciso molhar a mão da autoridade responsável para liberar o visto consular e abrir as portas da liberdade. O famoso jeitinho brasileiro é explícito na cena:

“Vou lhe fazer uma revelação que o surpreenderá, mas que é a pura verdade. Você só conseguirá o visto para seus pais se ‘molhar a mão’ do cônsul”. – Molhar a mão do cônsul? – perguntou Otto embasbacado. – Com um perfume?”

Tal era a ingenuidade que permeava o estrangeiro, pois não desconfiava que altos dignatários pudessem estar se aproveitando da desesperança, envolvidos em corrupção. Geralmente o suborno – propina como está na moda – era disfarçado a modo de presente, entregue direto ao corrupto ou para alguém da família – diplomata, consulesa ou embaixatriz. Uma obra de arte aqui, uma joia ali, uma antiguidade acolá ofertada num jantar e zás! – as dificuldades que emperravam a concessão sumiam como por milagre. Mas quem terá coragem de esgravatar tal ferida ainda mais sabendo que esses cargos eram ocupados por intelectuais reconhecidos?

Desde os tempos de Maquiavel que escritores e intelectuais serviam a seus países como diplomatas, cônsules, embaixadores. Aqui no Brasil sabemos que Joaquim Nabuco, Aluísio Azevedo, Antônio Houaiss, Raul Bopp, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Alberto da Costa e Silva, João Almino, Geraldo Holanda, Cavalcanti, Edgard Telles Ribeiro, André Amado, Vera Pedrosa, João Inácio Padilha, Adriano Pucci, Murilo Komniski e mais de uma centena foram e são escritores-diplomatas. Quem terá coragem de meter a mão nessa cumbuca?

PS. O historiador Roberto Lopes escreveu o livro “Missão no Reich - Glória e Covardia dos Diplomatas Latino-Americanos na Alemanha de Hitler” (Odisseia Editorial, 2008) no qual “relata episódios de heroísmo e covardia da diplomacia latino-americana”. Será que ele toca no assunto?


Rio de Janeiro, Cachambi, 12 de junho de 2017. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mario Martins Meireles-São Luís, minha terra...

Foto: Marko Itapary

Hoje em dia, com o advento e predomínio dos transportes aéreos, o visitante chegado de avião desembarcado no Aeroporto do Tirirical, a treze quilômetros da cidade, entra em São Luís pelos fundos. Atravessa-a de ponta a ponta, desde os arrabaldes e subúrbios mais afastados, inclusive a pinturesca vila do Anil a meio caminho, até alcançar o coração da cidade, a tradicional Praça João Lisboa, até chegar à sala de visita da urbe, a modernizada Avenida Pedro II.

Não era assim, porém, quando o meio de comunicações ordinário e único era o marítimo, quando se lhe vinha, na colônia, no império e na primeira república, embarcado obrigatoriamente num veleiro de muitos panos ou num navio a vapor, que demandava o porto no fundo do golfão.

A ilha, que Aires da Cunha conhecera em 1535 como da Trindade, tal como a conheciam os franceses no século XVII quando nela vieram instalar a França Equinocial, que já fôra das Vacas e pretendera ser de Todos-os-Santos, mas que para os tupinambás nativos era simplesmente Upaon-açu – Ilha Grande, repousa no fundo do golfão que é tríplice desaguadouro do Munim, do Itapicuru-mirim e do Mearim, com o Pindaré seu afluente, formadores da mesopotâmia da baixada mara­nhense, de ubertosas terras; golfão que ela reparte em duas baías – a de São Marcos, ao poente, a de São José, ao levante.

O navio que nela entrasse, como ainda hoje, demandando ancoradouro no porto que os franceses de La Ravardière chamaram de Santa Maria, viria pela de São Marcos, com a ilha à esquerda, o continente à direita.

E na ilha, do convés de bombordo, o visitante veria se suceder urna sequência infinda de estendais de areia, limitados por insuladas falésias que os apartam, cada qual mais belo – as praias, dentre as mais formosas de todo o litoral nordestino brasileiro, de Araçagi, do Olho de Porco, de Jaguarema, do Olho d'Água, do Calhau e, por fim, da Ponta d'Areia que, com a pequena Ilha do Medo defronte, assinala a entrada da barra. E olhando-as à distância, pensar-se-á como serão, mas belas na extensão quase imensurável de suas areias e com suas muitas dunas: se à luz do dia, sob o sol causticante, se à meia luz da noite, sob o palor da lua, se mergulhadas na escuridão misteriosa das noites de muitas estrelas!

Do outro lado, no continente a estibordo, na fímbria do horizonte, veria a silhueta da vetusta e senhoril cidade de Alcân­tara, levantada nos chãos da nativa Tapuitapera, capital da donataria de Cumã no Estado do Maranhão e Grão-Pará; a veneranda Santo Antônio de Alcântara, hoje monumento nacional, de cuja praça principal, na esplanada que sobranceira ao mar é o ponto mais elevado do sítio, ergue-se, defronte à arruinada Matriz de São Matias, exemplar raríssimo e fielmente restau­rado, o Pelourinho, símbolo da autonomia municipal nos tempos do domínio lusitano.

E um binóculo o ajudaria, talvez, a adivinhar, entre as ruínas de São Francisco, do Convento do Carmo, do Palácio do Imperador, o perfil das igrejas do Rosário, do Carmo, da Casa da Câmara e do “Cavalo de Tróia”. E, no relampejo de uma fachada azulejada, ferida do sol ao perpassar da vista, veria – quem sabe! – o aceno amistoso de um convite a visitar a velha cidade prenhe da história de nossas melhores tradições, terra dos barões e dos estadistas do Maranhão Imperial.

A seguir, a entrada da barra, já dentro da Ilha-Grande.

À esquerda sempre de quem entra, na foz do Anil, o Maioba nativo, pela ordem – a Ponta de São Marcos, na ante porta, onde a luz de um farol mal deixa adivinhar onde ali fora o forte que anunciava, com os tiros de seus treze canhões, o número de navios que buscavam o porto; a seguir, a Ponta d'Areia, a antiga Ponta de João Dias, em cujas areias frouxas se afundam os alicerces da velha fortaleza de São Antônio, ini­ciada em 1691, guardiã intemerata da cidade e que teima em sobreviver, carcomida em suas cicatrizes pelas ondas do mar e esquecida embora dos homens na crônica de seus fastos glo­riosos; finalmente, a Ponta de São Francisco, jeviré dos tupinam­bás, onde, a seis de agosto de 1612, o Senhor Du Manoir, já aí de tempos estabelecida sua feitoria de corsário ofereceu lauto banquete de boas-vindas ao recém-chegado Senhor De La Ravardière  e seus nobres acompanhantes, e onde em 1720 foram lançados, no mesmo lugar em que em 1616 Alexandre de Moura fizera construir de pau a pique o Forte do Sardinha, os fundamentos da fortaleza do nome daquele santo, hoje igualmente desaparecida com suas vinte e uma peças de todos os calibres. Foi desta fortaleza de pau a pique, dita do Sardinha, que La Ravardière  datou, a 4 de novembro de 1615, o termo de sua rendição.
           
São Marcos, Santo Antônio, São Francisco, sentinelas avan­çadas desta São Luís do Maranhão e que a incúria e a sensibi­lidade das novas gerações não souberam conservar para a edificação dos pósteros e que o passar do tempo consome sob o peso dos anos!
           
À direita, na foz do Bacanga, ou melhor – Ibacanga, compondo a entrada da barra, a Ponta do Bonfim, onde hoje a Colônia Aquiles Lisboa de hanseanos, cujos chãos foram doados, em 1616, por Jerônimo de Albuquerque, primeiro Ca­pitão-mor da Conquista do Maranhão, à Ordem Carmelitana, cujo provincial em 1718, Frei Antônio de Sá, fez construir ali um hospício, hoje desaparecido. César Marques, incansável pesquisador de nossa História, aí não mais encontraria, em 1863, que uma lápide com estes versos:
           
Sabes já a invocação
Deste santo hospício? Sim.
É o Senhor do Bonfim,
Espelho do Maranhão,
Pois já vês, povo cristão,
Que se bom fim queres ter,
E a Deus bem parecer,
Te deves sempre compor,
À vista deste Senhor,
E dele espelho fazer.

Por trás da Ponta do Bonfim, a da Guia, doada aos carme­litas Frei Cosme d'Anunciação e Frei André da Natividade pelo General Alexandre de Moura quando da reconquista portuguesa em 1615, e onde existiu por muitos anos, nos primeiros tempos, a Ermida de Nossa Senhora da Guia, hoje também desaparecida como outras tantas relíquias e que se nos faria tanto mais valiosa porque em seus chãos, sugere Varnhagen, parece que uma voz íntima me diz que (...) jazem sepultados os veneráveis padrões da primeira tentativa frustrada de colonização do Maranhão.

Teria sido ali, então, que os sobreviventes do naufrágio da expedição mandada, em 1535, por João de Barros, primeiro donatário da Capitania do Maranhão, sob o comando de Aires da Cunha, estabeleceram a efêmera povoação de Nossa Senhora de Nazaré, na ilha a que chamaram de Trin­dade – como denunciado ao Imperador Carlos V, de Espanha, por seu embaixador Luís de Sarmiento, em Lisboa, por carta datada de 15 de julho de 1536. Denunciou-o porque, constara-lhe, os portugueses pretendiam, do Maranhão, ir à conquista do Peru!

Entre a pequenina ilha do Medo e a Ponta da Guia, o famoso estreito do Boqueirão, cujas águas traiçoeiras seriam as responsáveis pelo desastre de Aires da Cunha, em 1535, como pelo de Luís de Melo e Silva, o segundo donatário do Maranhão, em 1554, e que, passagem obrigatória dos veleiros e gaiolas que, de São Luís, demandam as vias fluviais que penetram o interior do continente e, por isso, sepultura de muitos deles pela força da correnteza sobre os escolhos que ali se escondem, fez-se temerosamente lendário entre os nossos homens do mar, tanto quanto para os marujos da Antiguida o fora o de Caribdes e Cila, na Sicília. Ali, no Boqueirão, passava-se em completo silêncio, as velas recolhidas, a boca muda, o ouvido surdo, que nada fosse despertar as Iaras que, se não lograssem encantar os navegantes com a sedução de seus cantos, enfureceriam as éguas e de qualquer modo arrastariam para as profundezas de seus domínios os incautos marujos.

Por fim, apontando sobre alcantilado promontório, no fundo da restinga formada pelo Anil e pelo Bacanga, como estreitado em carinhoso amplexo pelos dois ribeiros gêmeos, a cidade de São Luis, a terra das palmeiras onde canta o sabiá, a Atenas do Brasil – la petite ville aux palais de porcelaine, disse o visi­tante francês.

Enfim – São Luís, minha terra...

Notas:

Extraído de: São Luís, cidade dos azulejos-Deptº de Cultura do Estado-MA, 1964.

Mário Martins Meireles (1915-2003), nasceu e faleceu em São Luís do Maranhão. Professor desde 1940, fundou a Faculdade de Filosofia de São Luís, onde ocupou a cátedra de História. A Faculdade de Filosofia foi uma das instituições que deram origem à Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

Daniel de La Touche (1570-1631), intitulado Senhor de La Ravardière. Lugar-tenente General da Marinha Francesa do século XVII, fundou a cidade de São Luís em 8 de setembro de 1612.

Cavalo de Tróia – É assim chamado o casarão mais bizarro da cidade histórica de Alcântara, localizado à Rua Grande, no Centro Histórico. O prédio recebeu este nome por ser uma “esplendorosa edificação” que constituía orgulho dos proprietários.