segunda-feira, 21 de maio de 2018

O pacto dos meninos da Rua Bela


“Num dos momentos mais turvos da vida deste País, eis um acontecimento luminoso. Luminoso e sério, e cheio de amor: Moronguêtá. Um livro de estórias encantadas. Estórias inventadas e contadas, através de séculos, pelos índios do Amazonas, recolhidas diretamente por um homem que, varando verdes e águas, consagrou quarenta anos de sua vida para realizar, com paciência e paixão, esta obra destinada a permanecer viva no tempo, pela sua alta importância cultural e também pela força de sua beleza”.

“Moronguêtá, ciência e magia. Livro em que viajam, em fraternal harmonia, a poesia e a ciência. A ciência vai por conta da sabedoria do autor: mestre Nunes Pereira, nome que aprendi a querer bem desde menino, quando já o seu trabalho entre os índios e até a sua própria e mansa figura, ganhavam na ternura dos nossos barrancos, os contornos de uma estranha lenda. Se os seus outros trabalhos já inscreveram o seu nome no Handbook of Ethnology – com este admirável Moronguêtá, Nunes Pereira – rio crescido e se fazendo mar e simplesmente – ocupa lugar entre os maiores da etnologia brasileira”.

“A magia do livro vai por conta da raça. Por conta do índio, no qual o autor, meio índio ele também, viu, sobretudo e profundamente, o homem. Não o bugre, não apenas o ser primitivo, o pré-lógico. Mas um homem, uma mulher, uma criança, sinto vontade de dizer um companheiro. Porque só assim é que Nunes Pereira quis e pôde recolher o que os índios tinham de melhor e de mais essencial e vivo: o seu pensamento, a sua imaginação, o poderoso sortilégio de sua literatura oral. E aqui estão, reunidas em acervo jamais antes conseguido, as suas lendas, mitos, tradições, fábulas e estórias. Mas também conta como padecem eles nos seus choques sociais com o chamado homem civilizado; e como lutam – até mesmo eles, os companheiros índios, lá nos longes centros da mata, para resistir, em rebeldia de altiva dignidade humana, à grande praga da sociedade moderna que é a exploração do homem pelo homem”.

“Moronguêtá – Um Decameron Indígena. Como o do florentino Bocaccio, obra-prima do século XIV, este é um livro romântico, heroico, fescenino, sarcástico, burlesco, lírico e obsceno. Moronguêtá: o dom da poesia, a riqueza erótica, a força da imaginação, trabalhados com ciência e amor por quem hoje melhor conhece os habitantes animais e vegetais, aquáticos e terrestres do Amazonas, imenso e sofrido pedaço verde do mundo: Nunes Pereira, irmão dos índios, porque irmão do Homem”.

(Thiago de Mello – Introdução a Moronguêtá – 1967)

I

– Uma tragédia, um triste equívoco.

Assim o detetive Braga, encarregado do caso, fazia aos repórteres as declarações de praxe tentando explicar o dramático fato ocorrido na Rua Bela, sem polemizar muito para não aumentar o já desmoralizado conflito existente entre a instituição policial, a imprensa e a sociedade.

– Já temos o esquema quase completo e poderíamos demonstrá-lo, mas vamos aguardar o fim de todas as variantes investigativas para esclarecer detalhadamente. Qualquer tentativa de conclusão no momento seria obviamente prematura e precipitada.

Braga andava de um lado para o outro entre os repórteres impacientes. Nunca se acostumou a lidar com a imprensa, gente que parecia tão distante da sua profissão quanto uma galáxia da nossa Via Láctea. Tirante alguns poucos repórteres policiais, que procuravam entender as duas faces da moeda, Braga sabia que fazer declarações à imprensa nem sempre é vê-la publicada integralmente no dia seguinte.

As notícias têm uma escala de partida e retorno que vem desde o pautista, ao repórter; este, quando regressa, altera a pauta que já não pode jamais ser cumprida com exatidão. Daí vai para as mãos do copidesque (antes era revisor), até chegar ao paginador. Em suma, a pauta faz uma longa viagem entre a verdade e a ficção antes de ser pendurada na banca de jornal. As redações foram informatizadas decretando o fim da revisão, agora a responsabilidade é dos computadores – que não é gente, nem pode ouvir reclamações, nem levar porrada. Assim...

Macaco velho na profissão, Braga era tido pelos repórteres como um policial à antiga e, por conseguinte destinado à extinção. Ligado mais ao tipo de investigação dito sherloquiano, jamais nunca se conforma com o itinerário a que é submetido as informações que, mesmo em nível interno, vão sofrendo poda, enxerto, maquiagem, até se travestir na inverdade de tudo o que foi dito – ou vice versa.

Às vezes o que sai publicado é mais bonito, mais colorido do que a realidade – ou mais ou menos horroroso. Bandidos e policiais são heróis da mesma história de quadrinhos, são os verdadeiros representantes, a verdade nua e crua que conhecemos no dia a dia, que deixa marcas de sangue nas paredes, nas calçadas, que espalha dor e faz chorar famílias, a cujo roteiro cotidiano se acrescenta passagens pelo IML e pelo cemitério de maneira brutal.

– Mas doutor Braga – foi a vez de um repórter intervir – os familiares das vítimas denunciam a atuação de grupos de extermínio no local, chacina de menores, de ações das milícias, da influência que traficantes têm nas escolas, se queixam de providências que foram pedidas e nunca tomadas, coisas assim. Repetição de crimes ocorridos recentemente, desde que virou voga com as famosas chacinas da Candelária, Vigário Geral, Queimados e Vila Vintém.

– Não precisamos detalhar o que todos vocês da imprensa já sabem. É lugar comum em casos semelhantes o protesto das famílias, a atuação de representantes do tráfico, invasão de milicianos, enfim, o desvio do foco principal para as periferias, para obter alguma vantagem. Depois de tudo muita gente vai pedir indenização coisa e tal. É fato. Mas também é algo que foge de nossa alçada, escapa do controle das simples delegacias. Portanto, vamos prosseguir na investigação, encontrar os culpados, objetivando entregar o processo bem elaborado ao corregedor para que as providências corram rápidas.

A cinza do cigarro desabou sobre a manga da camisa, que deveria ser branca antes de ficar encardida de suor e poeira. Braga tentou limpar a sujeira com a ponta dos dedos, mas foi pior a emenda que o soneto: a umidade deixada pelo suor desenhou uma trilha acinzentada como marcas de pneus derrapando no asfalto molhado. Suspirou resignado e usando os lugares comuns que assimilou durante a profissão, preparou todos os chavões para responder aos repórteres e encerrar aquela questão capciosa:

– Sentimos tanto quanto os familiares, que sofrem mais do que ninguém a perda dos entes queridos e têm motivos de sobra para ficar irritados. Tudo leva a crer, no entanto, que se trata de um trágico equívoco, lamentável, é certo, mas sem nenhuma ligação com a onda de violência que desce dos morros e sai das favelas alagadas para atingir menores e meninos delinquentes de rua. Uma coincidência, sim, mas fato isolado e triste. Por enquanto é só, gente. Bom trabalho para todos.

Braga saiu dizendo as últimas palavras e se encaminhou ao próprio gabinete, agradecendo aos repórteres como sempre fazia, dirigindo-se a cada um deles de modo individual. Aparecer nem sempre é vantajoso para o policial, mas há de haver alguma gentileza, uma tentativa de furtar algo que a imprensa sabe e não compartilha com autoridades, devido à proteção constitucional das fontes de informação. Aliás, a não ser que se pretenda ser candidato a algum cargo, nesses tempos bicudos de perseguição à figura do policial, aparecer demais nunca é vantagem. Ser leve e invisível é qualidade essencial a esse cargo tão vulnerável, que todo policial deveria carregar consigo.

Os repórteres se afastaram um tanto decepcionados, uns indo embora, outros procurando contatar a redação para encaminhar a matéria. É possível que entre eles alguém se interessasse pela linha investigativa, ou buscasse nos casos alguma pista a ser desvendada em entrevistas breves com escreventes e subalternos da delegacia – assim encontrar mais luz para elucidar o mistério que envolve situações similares. Alguém que pense enfim em ganhar o Prêmio Esso de Reportagem ou até o Pulitzer. Quem sabe?

O detetive Braga sumiu para o outro lado e se recolheu à tranquilidade da sala calorosa, mobiliada com mesas velhas polidas de preto, entre armários de aço, cadeiras desconfortáveis de encosto duro e cheiro de mofo que ele procurava eliminar abrindo as janelas para o sol. A mesa principal acumulava irregulares montes de papel, faxes, maços de cigarro vazios, cópias de relatórios, isqueiros, caixas de fósforo, misturados a contas de luz, gás e telefone (pagas e a pagar), alguns cadernos de jornais, revistas não lidas.

O sinal de modernidade do escritório estava instalado na mesa lateral branca: um computador conjugado com impressora, fax e telefone. O novo e o velho conviviam no mesmo espaço dividido com radiocomunicador de última geração, vários telefones funcionando, outros mudos, grampeador, máquina de escrever elétrica, cinzeiros cheios de clipes, raspa de lápis, um copo com várias canetas de tinta azul, preta e vermelha, além de filtros de cigarro a não mais poder e, claro, cinza e mais cinza voando por todos os lados.

Braga sentia-se em casa. Sentou e acendeu mais um cigarro olhando a principal manchete do jornal Diário Popular – dedicado a fatos sensacionalistas. As letras garrafais destacavam o encontro macabro dos cadáveres de quatro meninos num terreno baldio. As fotografias ressaltavam o sangue vermelho que sujava as roupas, se espalhando em volta dos corpos. Esse detalhe dava na vista e aumentou a curiosidade de Braga. Havia muito sangue e nenhum sinal de violência, nem sinal de torturas, arranhados, membros quebrados, marca de arrastões, coisas assim. O olhar experiente do detetive reparou que havia, inclusive, enorme serenidade local, uma aura, tudo circundando o ambiente, os cadáveres.

As fotos mais tristes ilustravam a reportagem. Fotos que não caberiam em nenhum álbum, mas que ele, por força da profissão, tinha de ver diariamente. Sua cabeça inventava flashes cheios de contrastes como fotografias que se vê em casa fazendo comentários e rindo, retratos dos álbuns de festas tradicionais, casamentos, aniversários, batizados, linkando-se à memória dos folhetos das agências de turismo: Bahamas, Hawaii, Fernando de Noronha, São Luís, Nordeste.

Por que o mundo não continuou sendo aquele paraíso edênico que a Bíblia nos contou? Quem destruiu tudo isso? Adão? A serpente? A maçã? Eva?

II

Enquanto duraram os trabalhos de construção do elevado da Linha Vermelha, a Rua Bela no bairro operário de São Cristóvão se transformou toda ela num vasto, sujo e deserto canteiro de obras. Máquinas, betoneiras, ferramentas, areia, cimento, ferro retorcido, madeira, tapumes, tudo se amontoava numa loucura só ao longo da rua. Em consequência as baratas, ratos, escorpiões, os mais diversos insetos, de repente ficaram despidos das entranhas da terra, dos ralos, tubulações, das veias subterrâneas, esgotos – afloraram à superfície em busca de espaço para sobreviver.

Daí em diante foi a vez da população se ver atacada pelos males que derivam desse ambiente nocivo, além da normal chateação e da poeira invisível. Alergia, irritação das mucosas, dor de cabeça, dificuldade de respirar, enjoos, vômitos inesperados. Idosos e bebês, por circunstância natural da idade, eram os mais afetados e viviam frequentando os ambulatórios disponíveis para suplementos vitamínicos, antialérgicos, vacinas, nebulizações, soros, tudo que viesse amenizar o ataque repentino de tantos males.

Por outro lado a molecada encontrou naquela confusão um espaço novo, naturalmente voltado às aventuras, perigosas algumas, que costumam atraí-la. Após as aulas os meninos se acostumaram a ir ao local alimentando ideias e invenções naturais da idade, futucando buracos, explorando as cavernas, catando coisas, fazendo descobertas naquele mundo estranho.

O ambiente incomum se transformou em imenso laboratório natural, provocando a imaginação e a criatividade, enriquecendo o efervescente pensamento dos adolescentes. Os meninos encontraram ali o espaço ideal para a fuga do cotidiano violento, em busca de heróis, imaginários ou não. Para eles mocinhos e bandidos transitavam livremente entre a tela da TV e a realidade do bairro.

Por outro lado, a maioria dos moradores – que já era obrigada a conviver com o alto índice de poluição das pequenas indústrias do bairro – percebeu que a obra do elevado chegou para se transformar num vizinho indesejável, capenga, lento, que veio converter a casa, a varanda, os cômodos todos, em ambientes empoeirados e sujos, sujeitos a intermináveis sessões de limpeza, com uma previsão futura mais triste ainda porque a pista de alta velocidade iria passar a poucos metros dos prédios que resistiram à onda de demolição.

Não é difícil se imaginar a situação num quadro de trânsito intenso e permanente, o ruído infernal dos motores, o barulho irritante das buzinas, o incômodo causado pelo pó finíssimo, que se tornaria cada vez mais filtrado pela passagem ininterrupta dos veículos, prenúncio de inevitáveis acidentes, fim da tranquilidade, do silêncio noturno. Uma Rua Bela transtornada, que jamais seria aquela mesma que consta das descrições históricas, pacata rua de subúrbio, calma, pacífica, distante.

III

Para a segunda semana de março de 1992 o calendário gregoriano reservou um dia aziago: a sexta-feira 13. E apesar de ninguém mais acreditar em superstições – pelo menos é o que dizem da boca para fora – o achado dos corpos de quatro meninos mortos num dos becos que circundam a Rua Bela foi atacado de maneira sensacionalista pelos jornais e vinculado diretamente ao dia azarado. Os jornais de resposta popular, principalmente estes, exploraram o fato em manchetes alarmantes, transformando-o em matéria para atrair público. A chacina da sexta-feira 13. Um filme de horror.

O assassinato de menores na Baixada Fluminense – área de maior periculosidade no Rio de Janeiro – desde há muito aparece na imprensa internacional até como fato corriqueiro. Mas no Bairro Imperial de São Cristóvão, bairro considerado proletário, no começo da Zona Norte, há acerca de 15 minutos do centro da cidade, abastecido de hospital, escolas, delegacias? Isso jamais tinha ocorrido, por isso será motivo das mais deslavadas explorações, comentários e maledicências sobre o Rio de Janeiro, críticas que culminariam em massacre da força policial. A repercussão entre as entidades de direitos humanos seria avassaladora.

Quatro meninos vestidos com uniforme do CIEPE Nunes Pereira, quatro crianças ainda em formação, incapazes de cometer qualquer crime, quatro garotos que jamais alimentariam as ambições de sequestradores, assaltantes e afins porque pertenciam a famílias pobres, classe média baixa, quatro guris que sequer justificariam as despesas com armas e balas para grupos de extermínio, quatro moleques que viviam cantando, imitando conjuntos de rock que viam nas TVs – uma coisa realmente difícil de entender e explicar, mesmo para a cabeça experimentada do detetive Braga.

O material escolar encontrado em posse dos meninos, cadernos, livros, mochilas, tudo foi recolhido e vistoriado pelo detetive, que não teve dificuldade com a perícia. O exame de corpo delito em poucos dias chegou a suas mãos sem que registrasse qualquer anormalidade como envenenamento, nem algo que indicasse uso de tóxicos, álcool, cola de sapateiro, éter. Apenas refrigerante, balas, doces, biscoitos, os meninos haviam ingerido naquele dia. Todos perderam a vida do mesmo modo: anemia profunda por perda extremada e incontrolável de sangue.

Passada a primeira euforia do achado, a imprensa o deixou de lado e ele pôde investigar tudo tintim por tintim, com a calma necessária, socorrendo-se primeiro do amigo e colega Dr. Fernando dos Santos, médico legista experiente e de alto conceito.

– Queimaduras de cigarros, marcas de tortura?

– Nada, negativo. Foi a resposta

– Picadas de agulhas?

– Negativo!

– Algum indício de tóxicos nos pulmões?

– Nada parecido. 

– Sangue, vísceras, estômago?

– Nada, só o trivial, comida de moleque mesmo.

O detetive Braga agradeceu ao colega perito e desligou o telefone lentamente, a mão flutuando no ar, segurando o aparelho silencioso, enquanto a mente fervilhava em pensamentos frequentando os altiplanos da imaginação. Braga sozinho pensava em voz alta, a lógica transportando-o veloz – como um voo ponto a ponto – direto a um ponto inacreditável. Então ele soltou um risinho nervoso:

– As histórias policiais REALMENTE existem.

Só que tudo o transportava a imaginação a algo incrível que nem os jornais mais espetaculares, nem as mães com o sentimento mágico que têm, nem as ONGS que atuam livre de peias, nem mesmo toda a população da humanidade, que se deixa levar por estórias extraordinárias, ninguém enfim (muito menos os repórteres sensacionalistas), seriam capazes de acreditar na solução apresentada ao caso.

Braga era o portador de uma bomba repousada entre as pernas prestes a estourar e transformar em picadinho suas entranhas. Pegou a maçaroca de papéis, cadernos, recortes de jornais, notas que poderiam ser úteis e levou tudo para casa. Já teria divertimento intelectual por longo tempo. Um trabalhinho extra para o fim de semana que poderia levá-lo diretamente à confirmação de tudo que imaginava e dar o caso por resolvido, mesmo ao custo de ouvir reclamações da família pela mudança de planos. Já imaginava a sogra e a mulher dizendo em coro:

– Esse Braga não tem jeito mesmo! Então? Não tínhamos combinado passar o fim de semana em Cabo Frio?

Não precisava dizer que, mais que a imprensa, entidades de defesa, as mães dos menores, os religiosos, a pressão para resolver o caso era mais forte em casa mesmo. Com o caso resolvido a vida voltaria à normalidade (se é que se pode achar a vida de detetive e policiais uma vida normal).

IV

– Ianomâmis. – Yanomanis. – Iânomanis. – Yanomamis.

Braga procurava acertar com a pronúncia e a grafia daquele nome bem brasileiro, mas não de todo conhecido. Depois de vasculhar todo o material – escolar ou não – que os garotos possuíam, o detetive descobriu algo que os unia em comum. Eram recortes de jornais, páginas de livros, textos sublinhados, fotocópias de revistas e de publicações consultadas em bibliotecas.

Curioso em saber mais detalhes da coincidência o detetive Braga procurou a diretora do CIEPE que confirmou suas suspeitas:

“Devido ao destaque ultimamente dado aos assuntos ecológicos e principalmente devido a realização da ECO-92 no Rio de Janeiro, a maioria das classes foi convocada a apresentar trabalhos sobre o tema da ecologia, recursos naturais, antropologia, populações indígenas e, evidentemente, as condições atuais de sobrevivência das tribos aborígenes.”

Pois o trabalho que unia aquele grupo de estudantes era a história da aculturação da tribo Ianomâmi, arredia e jamais contatada, cujos acessos visando à pacificação haviam sido feitos recentemente. Na realidade, os indigenistas procuravam salvar aqueles índios da anunciada invasão de suas terras, objetivando construir uma estrada que atravessaria o Norte na direção de países andinos, com vistas a alcançar o Oceano Pacífico pela Amazônia.

Os resultados da incursão, afora pequenas reportagens feitas pelas tevês, nunca foram divulgados, mas soube-se – em off – que fazendeiros, garimpeiros e exploradores de madeira se aproveitaram da pacificação e da ingênua credibilidade dos ianomâmis para ganhar muito dinheiro. Na ocasião algumas tribos resistiram à exploração de suas terras e vários índios morreram ou sumiram misteriosamente. Até as crianças sabem somar 2+2.

O trabalho de pesquisa do grupo realçava principalmente os aspectos conflituosos da aculturação, cujo resultado afetou direta e tragicamente crianças e adolescentes da tribo ianomâmi. Os cadernos apresentavam trabalhos fartamente ilustrados formando um belo quadro ecológico muito colorido, cheio de fotos de pássaros, vegetação, animais da fauna brasileira, a formação geométrica das tabas e, claro, índios vestidos em trajes cerimoniosos, utilizando o arco e a flecha, pescando, caçando ou mostrando a vida cotidiana da tribo, as lendas e crendices. Alguma coisa naqueles recortes soava familiar ao detetive.

V

O detetive Braga viu-se levado pela lembrança de um encontro que teve há muito tempo atrás com um velhinho de cabelos brancos, simpático e sorridente. Era Nunes Pereira que aos noventa anos, fazia passar as noites de aposentado sentado a uma mesa no Bar Amarelinho, na Cinelândia – local de encontro de artistas e intelectuais do Rio de Janeiro – para um bate-papo descontraído com amigos. Enquanto bebia uma tulipa de chope intercalava bicadas da cachaça Magnífica.

O prazer de Nunes Pereira era contar as histórias e aventuras que ele mesmo viveu durante os anos de convivência entre os índios da Região Amazônica, que o consideravam irmão. As aventuras na selva do Maranhão encheram-no de orgulho e sabedoria, tornando-se verdadeira enciclopédia sobre o assunto, referência para qualquer estudioso do tema. Foi ele o escolhido para ser entrevistado pelos alunos do CIEPE que levava o seu nome, homenagem de outro amigo dos índios, Darcy Ribeiro. 

Nunes Pereira conhecia como ninguém a vida dos índios ianomâmi, seu habitat, seus costumes, histórias, lendas, hábitos, leis, hierarquias, epopeias e o amor pela natureza. Desse famoso antropólogo maranhense Braga ouviu a primeira referência respeitosa e eloquente do índio brasileiro – muitas vezes levado ao alcoolismo por falsos antropólogos. Do indigenista também ouviu pela vez a palavra Ianomâmi – que nossos vizinhos hispânicos grafam Yanómane – porque a nação ianomâmi já ocupou a vasta região amazônica situada nas fronteiras do Brasil, Peru, Colômbia e Venezuela.

Depois de um massacre bandeirante, a tribo se dispersou e, contrariando as origens, se tornaram nômades. Portanto, para eles a fronteira não existia, eram moradores das terras situadas entre picos e montanhas, que conheciam como ninguém. Nunes Pereira contou a Braga como foram importantes os ianomâmis no auxílio à expedição que iria fazer o mapeamento do Pico da Neblina, num tempo que se buscava descobrir o teto do Brasil. E enquanto contava dava conselhos:

– Leiam meus livros, meus filhos, leiam os trabalhos dos irmãos Vilas-Boas, do Orlando, do Cláudio, do Leonardo, do Álvaro, gente que viveu entre os índios e pode falar mais sobre isso que muitos antropólogos de sala, salão, mesa e escrivaninha.

Corria o ano de 1946 quando missionários fizeram o primeiro contato com a tribo ianomâmi na Missão de Matucará. O sistema de aproximação ainda era a mesmíssima tática da tripulação de Cabral. Missionários, mateiros e indigenistas descobriam acampamentos abandonados – pois, como se disse, era tribo nômade – deixando presentes, utensílios de uso doméstico, colares, peças de adorno, bijuterias, espelhos, miçangas, um ou outro machado, uma faca. Mesmo aceitando a aproximação de modo pacífico os ianomâmis não se deixavam isolar nos parques anunciados porque eram de natureza a não aceitar moradia fixa.

Assim subdivididos dentro da própria família étnica os Ianomâmi tinham atritos constantes com seus parentes andinos em combates fratricidas. Então, quanto mais recôndita era a vegetação, mais servia aos propósitos da comunidade errante. Não obstante ser um povo de guerreiros, sempre se mostrou pacífico e pronto para ajudar os brancos, desde que não houvesse algum tipo de vínculo nem obrigação. Foi assim que muitos deles se prontificaram a acompanhar a expedição criada para escalar o Pico da Neblina, aventura que deixava os homens febris e loucos devido às circunstâncias selvagens incomuns da região. Mesmo assim todos iniciaram bem animados a caminhada. Apesar de notar que enquanto avançavam o frio se acentuava e a serra mostrava sua natureza inexpugnável, ninguém imaginou o quadro que se desenhava.

A situação foi ficando mais grave quando os índios seminus se sentiram ameaçados pela temperatura exageradamente fria. Habituados ao clima tropical dos baixios, simplesmente foram pouco a pouco abandonando a expedição, sumindo na mata densa sem dar satisfação, deixando o grupo sozinho. Mas, até mesmo os mais resistentes membros da campanha foram duramente castigados pelo terreno virgem, pelo frio noturno abaixo de zero, pela umidade excessiva das terras altas.

As tentativas de alcançar o pico foram infrutíferas e o grupo teve de desistir a pouco menos de três quilômetros do objetivo final, segundo calcularam. Os homens foram forçados a fazer uma retirada lenta que se tornou dramática e dolorosa ao ficarem retidos no solo pegajoso, na mata intrincada, na lama produzida elas folhas e galhos apodrecidos. Era um caminhar demorado, penoso, faltaram víveres, os mosquitos e a febre atacavam, alimentavam-se precariamente, dormiam pior ainda. O jovem Nunes Pereira anotou tudo no Diário do Pico da Neblina, que continua guardado na Biblioteca Nacional junto com o acervo doado àquela instituição.

A natureza implacável se mostrou impiedosa com aventureiros que, mesmo preparados para situações difíceis e com muita experiência na selva, não esperavam tantas dificuldades. Alguns índios já aculturados que serviam de guia e intérprete também foram castigados com a perda da própria vida, caboclos ficaram gravemente enfermos, outros se extraviaram nas brenhas e foram encontrados dias depois à beira da morte. Pelo menos uma coisa todos souberam: os ianomâmis foram mais espertos quando instintivamente desistiram da expedição retornando para as tabas na planície amazônica quente e úmida.

VI

– Leia livros, meu filho. Leia todos os trabalhos dos Vilas-Boas, sem esquecer do Leonardo e do Álvaro, que apareceram menos na imprensa. É relato de gente que conviveu com a natureza dos índios. Vivemos anos nas matas comendo, morando e até casando com indígenas e sabemos mais sobre eles do que muitos indigenistas que nunca saíram das salas das bibliotecas.

As palavras do velho amigo e antropólogo Nunes Pereira trouxeram recordações que fizeram o detetive Braga voltar o foco da investigação para o livro, com dedicatória e autógrafo do autor:

“Moronguêtá – Um Decameron indígena”.

Talvez estivesse ali o segredo para elucidar a investigação em andamento. A intuição do investigador policial (só igualada pela intuição feminina), dizia que ali iria encontrar ajuda direta à solução do caso. Lá pelas tantas da leitura minuciosa, Braga esbarrou numa lenda fantástica, “O Mito dos Baris - A Dança dos Mortos”, de inacreditável semelhança com a tragédia dos meninos da Rua Bela.

Quatro meninos Ianomâmis eram baris – isto é, cantores dançarinos – que viviam frequentando e animando com canções e bailados as festas religiosas e pagãs. Ficaram famosos porque tinham vozes maviosas que se casavam perfeitamente, completando-se uma com a outra. O quarteto mostrava perfeito entrosamento durante a exibição das danças, com coreografias inventadas na hora, mas que pareciam ter sido ensaiadas com afinco dado à concatenação conseguida. Tanta foi a fama e tantas as famílias que os convidavam para animar as festas que correu o mito de que a presença dos meninos trazia bons agouros ao lugar, às pessoas, aos objetos, à casa.

Tanto quanto fosse a festividade que havia lá estavam eles: nascimentos, batizados, nos rituais dos adolescentes, noivados e casamentos. Até durante o rito da morte e mumificação lá estava o grupo presente cantando e dançando as exéquias. Se um aldeamento novo era levantado os baris eram convidados de honra para cantar nas malocas antes de serem habitadas, nos roçados antes de serem plantados, nos paranás antes de ser feita a primeira pescaria, na florada e na colheita, no abate dos animais. Um dia foram chamados para um enterro e era funeral de muitos ianomâmis mortos em confronto com brancos, brancos fazendeiros, caboclos garimpeiros, brancos invasores, muitos madeireiros, brancos matadores.

A aldeia toda estava incendiada, as malocas destruídas, plantações derribadas, cadáveres por todo lado e os meninos baris pela primeira vez representaram os ritos em pranto, demorando-se mais num canto separado onde estavam as cabaças de barro ainda úmidas feitas às pressas para acolher os corpos dos curumins. Contaram quinze potes,  choraram quinze vezes, dançaram quinze danças, cantaram quinze cantos fúnebres. Os baris continuaram cantando e dançando sem parar durante toda a noite quando ficaram sozinhos na aldeia, abandonada pelos sobreviventes em fuga.

No dia seguinte um grupo de religiosos acudiu ao local e encontrou os baris mortos derreados sobre o montículo onde os potes com o corpo dos curumins estavam enterrados. Foi uma consternação geral. Os corpos corados de urucum conservavam a pele lisinha como a cútis dos anjinhos. A terra úmida estava regada de vermelho do sangue dos baris.

Somente após muita pesquisa os indigenistas descobriram que os baris escolheram para morrer o ritual dos feiticeiros ianomâmis: uma minúscula incisão era feita sob a unha do dedão pé esquerdo que – sem dor nem sofrimento – provocava a perda total do sangue, expelido diretamente para o solo através de um minúsculo tudo de capim bambu.

Os meninos baris viraram heróis e tiveram um enterro misto das tradições ianomâmi e cristã.

VII

– Alô Fernando, como está? Deus ajuda a quem madruga!

Assim o detetive Braga saudou o colega que cumpria o plantão de sábado no laboratório, no afã de esmiuçar corpos que perderam a vida tragicamente em busca de minúsculas pistas e sinais que ajudassem a encontrar culpados e levá-los ao julgamento dos homens. Fernando riu e respondeu de imediato:

– Deus ajuda a quem cedo madruga! – o que é mais ainda, Braga. É um prazer ouvi-lo. Aqui, como você sabe, trabalho é que não falta. Já sei o que você quer tão cedo. É sobre os meninos da Rua Bela, não é? É um trabalho e tanto, mas espero concluir em breve.

Depois de ouvir vastos cumprimentos pelo trabalho que executara, o perito ouviu calado o pedido demorado do colega detetive.

– Não precisa justificar nada, Braga, já ouvi todos os pedidos que podem ser pedidos no mundo. Não é agora que vou me admirar. E já que você está com pressa, aguenta na linha. É para já.

O detetive Braga não descolou o telefone do ouvido enquanto consumia ansiosamente quatro cigarros seguidos e vários cafezinhos. Pouco tempo depois o perito Fernando dos Santos retornou, relatando em detalhes a resposta. Braga ouviu tudo, respeitosamente calado, sem interromper a exposição. Depois o silêncio foi mútuo e o pensamento de ambos os policiais caminharam juntos a uma só conclusão.

– Suicídio, Braga, você tinha razão. Tudo foi um suicídio coletivo. Um pacto entre meninos.

– Suicídio coletivo. Você acreditaria nisso Fernando? Um pacto de suicídio entre meninos – repetiu para si mesmo. Quem, afinal, vai acreditar nisso? E como explicar?

O perito não soube o que responder por que não era chegado a lendas e costumes selvagens, mas se congratulou com o detetive Braga efusivamente.

– Mas você tem nas mãos todos os elementos necessários para basear e concluir o inquérito, Braga, embora seja difícil convencer a todos, principalmente às mães, porque aí envolve o sentimento de perda e dor.

– Procurarei mostrar às mães que, afinal, o sacrifício dos meninos foi por uma boa causa. Se é que a morte, em qualquer circunstância pode justificar a defesa de uma causa.

– Só você para chegar a essa incrível conclusão sem ser legista. Parabéns, Braga! E não se esqueça de me mandar uma cópia do inquérito para meu supersecreto Arquivo X.

Braga não escondeu a pontinha de orgulho diante das exclamações admiradas de Fernando. Essa, aliás, era uma das poucas compensações de tão ingrata profissão: o respeito e reconhecimento dos colegas. Fernando, porém, não demorou nadinha em estragar a alegria de Braga.

– Mas amanhã eu não quero por nada deste mundo estar na sua pele, caríssimo colega. Se chamarem você de charlatão, trapaceiro ou mágico, ainda será elogio! Vou mandar-lhe o laudo, mas não me chame para explicar nada. Vou viajar. Vejo você na TV.

Fernando disse as últimas palavras em tom de gozação, mas ao fim corrigiu:

– Se precisar sabe onde me encontrar. Boa sorte. Aliás, toda a sorte do mundo!

No outro lado da linha o detetive Braga riu nervosamente ao se imaginar jogado às feras, ter que defender a polícia, que mais uma vez seria atacada como instituição. Já se via alvo do ridículo, condenado por chegar à conclusão que não fosse a mais óbvia: chacina a meninos de rua. Enfim, fazer o quê? 

FIM

Rio de Janeiro, Cachambi, abril de 2006.
Revisto em maio de 2018.

© Salomão Rovedo

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O bêbado pede desculpas e cai


O bêbado
Paulo Mendes Campos

(...)
O bêbado quer morrer, se desfazer,
Andando sem vontade sobre a terra
Que oferece a seus pés o espaço hostil.
Seu ideal é simples, geométrico,
E o sorriso em que fala ao transeunte
É um sorriso de paz e de ironia.
Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã.
E nos apossamos do dia como nosso território natural,
Como entenderemos este ser obscuro
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo?
Quando seu rosto se inclina para o chão
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos
E tontos de lucidez nos disfarçamos.

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Embriaga-te
Charles Baudelaire

Deve-se estar sempre bêbado. Está tudo aí: é a única questão. A fim de não se sentir o fardo horrível do tempo, que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra, é preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.

(Trad. José Lino Grünewald, 1991)

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Estou literalmente desesperado, não aguento mais esta vida do Rio, e ou acabo comigo ou não sei. Pra disfarçar as mágoas, vivo bêbado. Tomo porres colossais, dois três por semana. O último médico que me examinou, poucos dias faz, me garantiu que tenho todas as vísceras esculhambadas pelo álcool e estou condenado à morte.
Mário de Andrade, carta a Paulo Duarte.
  
1
        
Fica cada vez mais difícil contar essa história, que pretendia fosse memorialística. Comecei com o título, o que já é mau sinal. “O alcoólatra pede desculpas e cai”, escrevi com orgulho e mostrei a vários amigos. Um deles, mais afoito, simplificou: “Genial!”. Mas, desconfiado com o foguetório, me embatuquei com a facilidade com que o título veio, bateu aquela mea culpa de plágio, que me aflige desde que comecei a ler o blog de Denise Bottmann. Pensei: – Será que já não li isso nalgum lugar, num conto de Luiz Vilela ou Lígia Fagundes Telles ou Dalton Trevisan ou Maria Amélia Melo ou Breno Accioly? Ou em crônica de Joaquim Itapary ou artigo de Napoleão Saboya? Sei lá! E fica cada dia mais difícil saber de quem mais dos escritores brasileiros li esse negócio.

Resolvi consultar a amiga Marilza, que, antes, precisa ser apresentada. Marilza, como alguns podem prever também bebe demais, é um tipo de amiga onisciente que aparece de sem mais nem menos nos lugares mais recônditos onde me escondo para encher a cara. Ainda não descobri quem me dedura. Ela chega já chapadona e na hora exata em que estou ficando bêbado. Daí para frente, pulando de um em um, vamos fechando todos os bares. Depois acordo em casa sem lembrar nada. Mas – não me perguntem como – Marilza não esquece nada. O álcool que ingere atua ao contrário: a memória dela vira uma biblioteca.

Então, ligo para ela e com aquela voz de óleo queimado que todo bêbado tem apresento o problema do título do conto. Nada disso, ela me disse. Tudo besteira. O romance é de Fausto Wolff, que conheci no Pasquim. Lembra aquele artigo do Fausto em que o Zé Andrade aparece com a máscara de Van Gogh pintando uma modelo nua? Pois a modelo sou eu. E desligou.

Fui dormir em paz deixando a questão como resolvida, disposto a não cometer plágio. Mas o sono é bicho traiçoeiro. Sonhei que a Denise Bottmann escreveu um artigo me esculhambando, com denúncia de plagiário. No dia seguinte acordei e vi que tudo tinha sido um pesadelo, mas corri para a internet, claro. Peguei os mecanismos de pesquisa, Google, Ask, Bing, Wikipédia, GoGoDucky – a maioria, enfim, para definir quem eu estava plagiando. E descobri. O título original é: “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”. Para ver como a memória trata os bêbados! Foi sequestro – como diria Mário de Andrade quando se inspirava em poesias e temas do amigo Manuel Bandeira.

No rastro da informação de Marilza, encontrei o livro: O Acrobata Pede Desculpas e Cai, José Álvaro Editores, 1966. Sai o trapezista, entra o acrobata. Sai o conto e entra o romance do gaúcho Fausto Wolff, gaúcho nascido em 1940 e falecido no Rio em 2008. Grande panfletário, Fausto Wolff foi parar no Pasquim. Mas já era admirado por seus artigos nos maiores jornais e revistas do país, com fã clube e tudo. Depois da descoberta decidi manter a adaptação do nome em justa homenagem ao verdadeiro Faustão (não esse do domingão), com quem esbarrei duas ou três vezes no antigo Bar Jangadeiro, na praça Gal. Osório, Ipanema.

Fausto Wolff era grandão, um armário de 2m de altura, encouraçado com uma massa corporal que se aproximava dos 200 kg, cujos sapatos se acercavam do número 50 – uma prancha! Carregava fama de grande bebedor de chope, notoriedade que defendeu num concurso ao qual nem estava inscrito. Foi em Blumenau onde ele estava para lançamento do romance À Mão Esquerda, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti. Após o ritual, pequena palestra e sessão de autógrafos, ele foi sequestrado para uma visita a Timbó, terra do poeta catarinense Lindolf Bell e da cervejaria de Brunhard Borck.

Em lá chegando, cansados, caíram na cerveja e na comilança. Os nomes das personalidades foram divulgados aos frequentadores, o que provocou aplausos, gritos de boas-vindas e a inscrição ex-officio de Fausto Wolff para o desafio de bebedores de cerveja, enfrentando o campeão local. Para encurtar a história, Fausto Wolff venceu a competição e logo retornou à mesa para comemorar a vitória, bebendo cerveja, claro.
        
         Então, como homenagem a Fausto Wolff, deixo a adaptação do título neste este conto, pois, de acordo com as normas internacionais estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde da ONU – a famigerada OMS – suponho que somos dois dignos alcoólatras. Não recuso a honraria, ao contrário de Jaguar, colega de Fausto no Pasquim, que em programa da TV jurou de pés juntos que não era alcoólatra, era apenas apreciador. Mas isso é outra história.

Sai o trapezista, entra o acrobata – sai o acrobata, entra o bêbado.

2

Tenho convicção de que a única pessoa que não pode escrever as próprias memórias é o bêbado. O bêbado bebe demais por qualquer razão: se estiver eufórico, bebe; se estiver depressivo, bebe; se encontra amigos, bebe; se morre alguém próximo, bebe; se estiver alegre, bebe; se estiver triste, bebe; se estiver acompanhado, bebe; se estiver só, bebe. E beberá sempre por qualquer motivo e beberá ainda que não tenha motivo algum.

“A vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora” – escreveu Fausto Wolff em seu último artigo publicado no Caderno B, do Jornal do Brasil.
                  
Por isso, o alcoólatra jamais poderá escrever suas Memórias: ao invés de escrevê-la – se tiver intenção – estará bebendo ou procurando razão para beber.  E depois de beber estará impedido de escrever porque o excesso de bebida trará a amnésia temporária. Temporária, mas suficiente para esquecer tudo o que ocorreu entre a bebedeira e o dia seguinte. Toda a pesquisa que fiz – com a ajuda preciosa de Marilza, claro – está resumida aqui. Ela não quer ser citada de jeito nenhum, foi o que me disse no último pifão. Mas consegui que aceitasse uma citação aqui outra ali. Passar em brancas nuvens, isso é impossível. Ela aceitou minhas explicações, sabendo que a amnésia alcoólica não é desculpa de quem bebeu demais, de quem deu vexame, de quem prefere não se lembrar das merdas que fez. Por via das dúvidas troquei o nome dela.

Marilza, mais que ninguém, sabe que sob o efeito do álcool a gente perde a capacidade de conversar ou executar atos normais e quando fica sóbrio não consegue lembrar o que aconteceu. Após a embriaguez, por um milagre inexplicável da natureza, o álcool age no cérebro e apaga todas as informações da memória. Esse nocaute mental é a proteção que a natureza criou para desagravar o inconsciente, tirar do bêbado a responsabilidade psíquica, aliviar o peso da consciência. Mas ela está imune a esses lapsos.

Por isso a presença dela aqui é mais que inevitável, é imprescindível. Ajudará a entender o destino do chamado bêbado crônico (que ela sabe mais do que ninguém), a amnésia que me acomete quando abuso do álcool, ou seja, a qualquer momento. Não sou como os bebedores esporádicos: sou um bêbado. O bêbado fica incapacitado de tudo, não se importa com o risco de doenças, avecês e pressão alta. Sabe aquele apito no ouvido que só você escuta e que fez Van Gogh cortar a orelha? Eu tenho, mas não ligo nem vou cortar minha orelha.

         Então, o que salva o bêbado é a amnésia, mas o esquecimento temporário degenera para a Síndrome de Korsakov (isso não é marca de vodca?), o universo da amnésia se expande, deixa de atuar só sobre os fatos do porre, mas também sobre o passado e a agenda futura. O velho vai à padaria e esquece o que foi fazer, esquece o caminho de volta para casa. Isso já ocorreu, deu nos jornais. A culpa é do Alzheimer... não do alcoolismo. A pessoa acorda sem fazer a menor ideia do que aconteceu são comuns. É gatilho bioquímico, salvaguarda dos bêbados para esquecer o que aconteceu durante a carraspana. O blecaute alcoólico é a lavagem cerebral inventada pelo DNA. O apagão faz o bêbado lembrar apenas as lembranças boas. Toda a merda que o bêbado apronta desaparece da cabeça como por milagre.

3

A história de que “Deus protege as crianças e os bêbados” é meia verdade. É certo que às crianças Ele dá algum tipo de proteção, porque senão elas ficariam à mercê do Diabo, exagerando nas travessuras, antecipando a sexualidade, prometida para depois. Psicanalistas acham que isso não é outra coisa senão a busca pela liberdade, genética remetida por Adão e Eva – que trocaram o Paraíso pelo livre-arbítrio. O Paraíso do bêbado é esse esquecimento involuntário – que também virou matéria freudiana. Os bêbados não guardam nem a memória dos imbecis, segundo a lei de Ribot. O fato é que a amnésia teve que ser recortada como boi no matadouro para que dela se apartasse o filé mignon da carne de pescoço.

Porca miséria! Para que fui me meter nisso? A loucura da internet me levou por caminhos que não cabem nesta história. Para que serve a hipomnésia – a diminuição da função mnésica? E a amnésia lacunar – variedade da amnésia de fixação, quando houve o “verdadeiro rictus amnésico”? E a amnésia anterógrada – incapacidade de guardar fatos novos na psicose de Korsakov. Porra! Pensei que Korsakov fosse nome de vodca. Meu! Isso é puro espiritismo!

Portanto, para escrever esta história vou pular a amnésia de recordação, a amnésia retroanterógrada, a hipermnésia (ainda que seja uma capacidade de mnésica elevada). Passo longe também da paramnésia e a porrada de amnésias subliminares, isso porque gostaria de me fixar na amnésia alcoólica. Apesar do quê, tenho interesse pessoal em estudos sobre a memória porque sou aficionado do xadrez, jogo que traz outro caralhão de fábulas, anedotas, mistérios e rabugices iguais às tratadas na amnésia, como se fossem antônimos, espelho do mesmo paradigma. A amnésia alcoólica nasceu para transformar o paradigma em disparate.

Também não vou entrar no mérito do absurdo nas pesquisas, pois então iria cair no buraco do coelho inventado por Lewis Carroll em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas:

Ainda garotinha, Alice Kingsleigh visitou um lugar mágico pela primeira vez e não tinha mais lembranças sobre o local a não ser em seus sonhos”.

Alice escorrega numa toca de coelhos e é transportada a um lugar fantasioso, povoado por criaturas estranhas. Toda a escrita, feita para crianças, transmite a lógica do absurdo, característica do sonho e da amnésia posterior à imaginação, ou seja, coisa de bêbado. Prefiro, porém, transitar pelas fronteiras da ciência e da fé, pois a memória é feita de momentos: bons, ruins, divertidos, de aprendizado e conhecimento, porém para nos lembrarmos deles tudo depende do cérebro. Lewis Carroll escreveu a história de Alice depois de um porre.

Uma das lembranças que Marilza me transmitiu foi a de que eu estava abraçado a uma mulher. Trocávamos beijos. Quem terá sido?  Decerto Marilza é um espírito iluminado que chega ao outro lado consciente de tudo que aconteceu.  Quando nos encontramos – os dois bêbados – nós estudamos juntos toda essa situação e depois de tudo, prometemos rir dos que não creem estar mortos, continuam a agir como os vivos, assistem ao próprio funeral e acham que é sonho.

E pensar que tudo começou quando nós, mesmo bêbados, fomos assistir ao filme Ghost no qual Demi Moore tenta se comunicar com Patrick Swayze através da médium de araque Whoopi Goldberg. Após assistir ao filme, decidimos beber mais umas e o assunto foi especular se o relatado no filme era possível. Marilza acha que sim, a vida depois da morte é possível.  Já cá eu tenho minhas dúvidas: ora concordo, ora discordo. Como estávamos bêbados, caímos na esparrela de prometer que, quem morresse primeiro iria repetir o enredo do filme, isto é, tentar se comunicar com o sobrevivente.

Fizemos isso tudo para não dar o vexame daqueles mortos que ficam circulando ao redor do caixão, entre familiares e amigos, tentando entabular conversa, ignorando o silêncio, a indiferença, sem entender porque alguns choram – porque se sentem vivos. Mas é um sentimento aparente. E depois? Na rua ou em casa, tenta se comunicar com naturalidade, mas ninguém contesta suas palavras e por fim se desorienta: o que está acontecendo? É um filme, é um filme...

Morrer leva muito tempo para cair na real, pois se aprende que os bons vão para o céu. O egoísmo faz a gente crer que somos um desses e ficamos esperando que o anjo nos pegue pelas mãos e leve a alma aos céus... Quando enfim percebe que tudo não passa de triste ilusão, quando se dá conta que nenhum anjo virá, que foi traído em suas convicções religiosas, em sua fé, vem a catástrofe: os espíritos ficam perambulando, agarrados aos bens materiais e entes queridos, até ser engolido pelo nada, o vácuo.

4

Eu e Marilza frequentamos o Centro Espírita Pai Joaquim de Angola para sacramentar nossa preparação e falsear a abstinência que nunca vem. Foi o próprio Pai Joaquim de Angola que – depois de virar um copo de Praianinha – nos atirou nos braços de Santo Onofre. Além das obrigações, oferendas e ebós prometemos saber da vida do pobre eremita barbudo, que se vestia com roupas de riscado e tinha como camisa os próprios cabelos longos, nunca cortados.

Devido à absti­nência religiosa – Santo Onofre nunca bicou uma cachacinha sequer – é indicado para derrotar o vício do álcool. Apesar disso, é tradição derramar um pouco de cachaça "para o santo", referindo-nos, claro, a Santo Onofre. Boêmios, grandes bebedores, apreciadores e cachaceiros também convocam o velho ermitão para padroeiro e protetor, porque, segundo reza a tradição, se você beber a ponto de não saber como chegou em casa, pode ter certeza: foi por intercessão de Santo Onofre que chegou a são e salvo.

Tudo o que se sabe de Santo Onofre nos chegou através dos relatos do abade Pafnúcio, datado do ano 400dC e da obra de Eça de Queirós, da qual alguns excertos estão aqui. Eça de Queirós conta que antes de fundar seu próprio mosteiro Pafnúcio desejou ser eremita e foi procurar santos que viviam em devoção, isolados em cavernas. Na busca encontrou o velho ermitão Onofre, de quem ouviu tudo sobre os setenta anos de solidão, meditando e adorando o Senhor.

O folclore diz que Onofre é Santo Forte, que atende pedidos impossíveis. No entanto, para a graça ser alcançada bom mesmo é pedir para o santinho roubado da igreja. Se não funcionar, deixe o Santo Onofre de costas para a bebida. Então, é tiro e queda. Na Bahia e no Maranhão um dos mais poderosos pedidos feitos ao Santo é o das putas chamando fregueses mostrando as partes. O saco que traz às costas deu ao Santo o infame título infame de padroeiro dos políticos. Ora, roubar o santinho, deixar o coitado de costas para as bebidas, tudo isso é mais infame que ser padroeiro de político, não é?

Nas igrejas um livrinho que contém a vida de Santo Onofre, sua novena, oração e ladainha é distribuído aos bebuns mais notórios. Durante a novena os devotos refletem sobre passagens bíblicas, fazem orações para o pedido da cura do bêbado acompanhadas do Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória-ao-Pai, Améns. A reza não pode ser feita por quem tem o vício da bebida, senão não pega, a graça é negada. No altar onde a imagem do santo está exposta, deixa-se um copinho de cachaça, tiquira, rum ou uísque – depende de onde se faz o pedido. Reza-se sempre a

Oração de Santo Onofre para parar de beber

“Ó Santo Onofre! Que tivestes a graça divina de vencer o vício do álcool. Conhecedor as atribulações que o vício proporciona, intercede por mim junto a Cristo, que gostava de um vinho. Santo Onofre estou fraco, preciso da sua força espiritual e da sua fé; estou doente, preciso de saúde. Santo Onofre, livra-me da tentação do primeiro gole, que é o melhor de todos! Livra-me do vício que nenhum humano pode vencer. Prometo me afastar de todos aqueles que querem me fazer desistir dessa decisão. Ó Santo Onofre, sei que beber é coisa do Diabo, mas preciso de seu poder espiritual, para não beber nunca mais! Afasta-me da bebida, de Satanás, hoje e sempre. Amém.”
        
Cumprimos a novena, mas como nem eu nem Marilza ainda morremos (tampouco paramos de beber) ficou a coisa assim no ar. Por isso e por ser mais cômodo, transferimos a responsabilidade para a ciência: acreditamos piamente que ter amnésia alcoólica é morrer um pouco e que nem Santo Onofre nos livra do vício e do esquecimento póstumo – a amnésia alcoólica...

5

Estava no metrô seguindo para a Praça Mauá quando o celular tocou. Não era um toque qualquer, era um som pornográfico, com gemidos, gritinhos, música ao fundo, decerto gravada desses sites pornôs. Sabe como é: muito ai ai, ui ui, vou gozar, vou gozar, mais, mais, gostoso, gostoso, gostosa, gostosa – e mais uma dezena de grunhidos de sexo explícito. É claro que àquela altura muitos passageiros se viraram para ver de onde saía aquilo, me olhando com a cara mais reprovável do mundo, como se eu fosse um criminoso. Ainda bem que não tinha crianças, mas uns estudantes começaram a rir...

O som se repetiu uma, duas, muitas vezes. Depois de enfiar a mão em vários bolsos consegui achar o telefone que continuava a reproduzir as pornográficas sensações como se fosse ela própria uma orgia. Apertei em alguns botões tentando silenciar a pornografia sonora, sem conseguir. O rapaz que sentava a meu lado me tomou o telefone, correu o dedo sobre a tela para um lado e me devolveu para atender a chamada. Era Marilza, bêbada naturalmente.

– Marilza! Você é louca? Eu pedi para trocar o som do meu celular, mas não era para botar música de filme pornô! Agora estou no metrô e todo o vagão ouviu essa porcaria e alguns já ameaçam me linchar.

E bem baixinho para que só ela ouvisse:

– Tem uns moleques aqui, uns estudantes, que já estão a ponto de se masturbar. Por outro lado, os senhores e as senhoras sérias, de cara franzida, estão prontos para me dar porrada.
 ...

– Você é louca? Trata logo de tirar esse negócio do meu telefone. Sei lá! Bota outra coisa. Aquela musiquinha Para Elisa, de Beethoven, por exemplo. Não quero gravação de filme pornô, ora.
 ...

– Não é filme pornô? Você mesmo gravou ao vivo? Mas que história é essa? Onde você estava para gravar essa porcaria toda e botar no meu telefone?

Eu disse e repeti a frase em tom mais alto para aliviar a barra. Dei uma olhada e vi até uns gestos de concordância com o esporro que eu dava em Marilza.
 ...

– Como? Você mesma gravou? Em sua casa, no dia da festa? Que festa? Não me lembro de ter ido a nenhuma festa.
 ...

– Ah. Aquela festa. Mas naquele dia eu bebi tanto que nada me passa pela lembrança. Só do dia seguinte, da dor de cabeça, da ressaca. O gato vomitou ao lado da minha cama...
 ...

– O quê? Eu bebi dois litros de uísque? Misturei com caipirinha e cerveja? Então tá explicado: como você quer que eu aguente tudo isso? Fiquei chumbado. Não sou mais um rapaz, Marilza. Se você gosta de mim não deixe que isso aconteça.
 ...

– É. Sim. Devo ter feito muita loucura. Bêbado só faz merda... Mas ainda assim não consigo entender como você gravou esse maldito som e ainda por cima botou em meu celular! 
 ...

– O quê? A voz masculina é minha? Ah, não enche...

A essa altura não conseguia mais controlar minha irritação e minha voz troava em todo o vagão. As estudantes riam, os moleques gargalhavam e surgiu até grito de torcida:

“Aí, coroa, tá com tudo, né?”

“Valeu, mandou bem, velho!”

– E outra coisa: aqueles gritinhos de ai ai, ui ui, não são nada verdadeiros. É tudo fingimento teu. É coisa de atriz pornô mesmo. Tenho autocensura suficiente para saber que não estou com essa bola toda, não faço mais ninguém gemer tanto, a não ser de porrada.
...

– Conversa fiada. Você me ama? Ah, me faz rir. Você tá a fim do meu dinheiro, mas também sabe que não sou nenhum Mike Jagger. Sou um durango. Um dia chega e essa mixaria acaba... 
...

– Mais o quê, Marilza? Ainda tem mais? Além do uísque, da caipirinha eu tomei dois viagras? Marilza, você é demente? Sua bêbada! Você não sabe que sofro do coração, que tenho pressão alta? Você quer me matar, Marilza?  
...

– Você não viu eu tomar o Viagra? Eu que te contei? Eu devia estar fora de mim... Marilza, se você gosta de mim um pouquinho como diz, não deixa isso se repetir. Pelo amor de Deus!

De novo bem baixinho no ouvido dela:

– Marilza, com dois litros de uísque, caipirinha e dois viagras eu sou capaz de comer até tua mãe... 
...

– O quê? Tá rindo de quê? Eu comi? A dona Cremilda? A minha sogra? Aquela voz, aqueles gritinhos, os gemidos, tudo é dela? E você gravando? Sua devassa! Beberrona! 
...

– É muita palhaçada tua. Então foi botar isso no meu telefone para me chantagear, né? Um presente? Tá bom... Mas comigo não cola, vá chantagear outro otário, não esse aqui.  
...

– Sei, sei. Mas uma coisa que não compreendo, tua mãe, aqueles peitinhos, sabe que ela está muito bem para a idade? Para falar a verdade te bota no chinelo! Ouviu Marilza? Te cuida. Abre teu olho. Te cuida! 
...

– É tudo silicone? Sei. Mas ficou ótimo. O dinheiro foi bem gasto. Foi em Miami? Dr. Décio? É aquele que tem até programa de TV? Valeu, sim, valeu a pena pagar por cada peito US$ 10 mil. 
...

– Mas isso não se justifica, Marilza, você me deixar fazer essas coisas. Uísque, dois viagras, caipirinha. Isso é loucura, Marilza, você é doida demais! Você sabe que sofro do coração, que tenho pressão alta. Você quer se livrar de mim, não é Marilza? 
...

– Se você quer que eu morra para vir falar com você como no filme Ghost, saiba Marilza, aquilo é um filme. UM FILME! Não é real. Você não é Demi Moore, eu não sou Patrick Swayze e tua mãe não é Whoopi Goldberg. 
...

– E ainda por cima teve a coragem de botar tudo isso no meu telefone? Não! Não precisa mandar mais som, nem foto, nem vídeo! Maluca! Olha, faz o seguinte...

Nesse momento a ligação caiu. Dei graças a Deus. Mas foi por pouco tempo. Daqui a pouco começa tudo de novo: ai ai, ui ui, vou gozar, vou gozar, mais, mais, gostoso, gostoso, gostosa, gostosa, urros e grunhidos de sexo explícito. Desta vez consegui parar o som mais rápido e atender.  
...

– Marilza! Alô, Marilza! Alô. Não me liga mais. Vou desligar. Te ligo depois.  
...

– Ah, é Dona Cremilda? Desculpe, não reconheci a voz. Como vai a senhora? Desculpe mais uma vez: Cremilda, pronto, só Cremilda. Então, como vai você? Sei, lembro sim, claro que lembro. Aquela festa foi de lascar. Você sabe que a louca da tua filha gravou tudo?  
...

– O quê, Cremilda? Foi você que pediu? E botou no meu telefone? E agora, sabe onde estou? No metrô, indo para a cidade e todo mundo – todo mundo, ouviu Cremilda? – todo mundo ouviu esse som e pela cara poucos aprovaram. Terei sorte se não for processado ou preso.

A essa altura o vagão todo estava ligado na minha conversa. Teve gente que até deixou de saltar para continuar ouvindo. Uma loucura, gritos, assobios, torcida para Cremilda! Cremilda! Torcida para Marilza!  Marilza!  
...

– Sim. Sim. Entendo. Mas você, sendo mais experiente, não devia ter me deixado beber tanto. Não, não estou chamando você de velha. Aliás, pelo pouco que guardei, o seu desempenho foi excelente. Melhor do que a Marilza! E esses peitinhos made in Miami... Espetacular, Cremilda! Fantástico!   
...

– Sim, Marilza também me disse que fiz muitas loucuras. Espero que com você também na cama eu não tenha decepcionado. A gente precisa se ver mais vezes, sabe? A Marilza precisa de jovem, garanhão, desses que transam jogando games...  
...

– Foi? Jura? Lá dentro? Olha, então foi inspiração tua. Nunca fiz isso com outra mulher. Quantas? Ah, Cremilda, meu amor, não mente. Pára! Me engana que eu gosto. Assim vou acabar acreditando...  
...

– Mas Cremilda, minha querida, convenhamos que aquela era uma festa atípica. Muita loucura. Repito para você o que disse a Marilza: com dois litros de uísque, caipirinha e dois viagras eu como até tua mãe...  
...

– Tá rindo de quê? Pode parar, pode parar.  
...

– O quê Cremilda? Eu comi? A dona Zizinha? A tua mãe? Mentira! Mentira tua. Você está me sacaneando...  
...

– Verdade? Mas como ela conseguiu levantar da cadeira de rodas? Não brinca! Eu desfilei pela sala na cadeira de rodas com dona Zizinha nua no colo? E a velha ria e cantava? Puta merda!  
...

– O quê Cremilda? A dona Zizinha nem precisa mais de cadeira de rodas? Doou para o asilo? Milagre, Cremilda! Milagre, Cremilda! Isso é que se pode chamar de verdadeiro milagre.

6

O telefone tocou. A essa altura já tinha tirado aquele toque imoral e mandei botar a chamada tradicional: meu telefone parecia com os velhos aparelhos pretos feitos de baquelite com buraquinhos numerados para discar. Tttrrriiimmm. Tttrrriiimmm. Tttrrriiimmm.  Atendi. Era Marilza. Incrível. A voz dela estava límpida como água mineral. Marilza estava sóbria! E começou a falar me dando um esporro entremeado com palavras morais que nunca tinha ouvido sair da boca dela. Não era o vocabulário de Marilza. Falava como um pastor evangélico.

– Quero te dizer que Jesus Cristo me libertou das imposições da bebida, da carne e dos pecados que o Diabo colocou sobre mim. Estou livre e a liberdade em Cristo me deu plenas condições de dizer: Não! Parei de beber. Mesmo socialmente. Preferi não brincar mais com algo forte e viciante quanto o álcool. Deus me deu um corpo para cuidar. Quero te ajudar também. Sei que você está viciado e acha que bebe controlado. Isso é um sério problema, mas confio em mim, em Jesus e em você.

– Marilza, você virou evangélica!

– Tudo bem, virei sim. Me entreguei a Jesus. E quero você comigo. Descobri que a bebida é fonte de pecados e vícios. Escute bem: por mais de dois mil anos prevaleceu a ideia de que a bebida é diversão, dádiva que só traz alegria. Que, ao contrário, a embriaguez sim é pecado. Lutero bebia vinho e era grande bebedor de cerveja. Foi num dia de muita bebida que ele resolveu se revoltar contra as indulgências. Calvino recebia todo ano sete tonéis de vinho belga, inspirador das criminosas reformas que ele fez na igreja suíça. 
        
– Mas Marilza...

– Não tem mais nem menos. Será a única vez que falarei a você sobre isso. Sei que você precisa de ajuda e não de acusações. Vem comigo: o alcoólatra que aceita Jesus será libertado do vício e se tornará homem de Deus. Por isso estou te ligando. Você foi a primeira pessoa que Jesus me encarregou de salvar. Para alcançar essa graça estou juntando forças com irmãos missionários... Para salvar você, para que você entregue sua vida a Jesus.

– Marilza, não estou mais bebendo como naquele dia, como naquela festa. Sei que tenho de maneirar, de dar um breque...
        
– Eu achei que não fosse ter mais esse tipo de conversa com você. Infelizmente eu estava enganada. Porque vi o seu pior lado. Enquanto estava só me atingindo doía. Quando você escolhe ferir a si próprio e beber até perder os sentidos, se transformar em chacota ambulante, conforme presenciei, é um mal, uma atitude desprezível e lamentável.

Meu Deus! Que sinuca de bico! Marilza evangélica! Marilza pastora! Marilza curando os bêbados. Quando eu contar a novidade ao Quincas, ao Napô, ao Braguinha – amigos de cervejadas e alegrias – sei que não irão acreditar, pois a coisa mais improvável de acontecer se realizou. Marilza, aquela devassa, virou casaca.

– Não tiro sua razão, Marilza, mas a gente não pode parar assim de repente como você fez.

– Pode sim! Eu pude. E mamãe está comigo. Só a vovó encasquetou que não quer se entregar a mais ninguém senão a você. A velha está caduca. Mas todos podem, com a graça do Senhor.

– Sua mãe, a Cremilda? Também virou evangélica? Não acredito.

– Pois acredite. Liga para ela! O que mais me emputeceu foi ver você beijar outra mulher. Você destruiu a nós também, a nossa amizade, nossa relação... Ao te ver agarrado a um poste, às paredes, tentando se equilibrar. Ver as pessoas te sacaneando e te zoando. Todos te tratando como a um bêbado escroto, não deu... Porque não sabem o grande homem que existe por trás dessa criatura bizarra que surge quando você sucumbe à doença, doeu muito!

– Tá certo Marilza, tá certo, reconheço: sou um bêbado! Mas vivendo num país como esse, terra de políticos ladrões, empresários corruptos, e pastores, sim Marilza, os pastores estão nesse bolo também! Não dá para aguentar tudo isso sem beber umas e outras...

– Claro que dá. Deu para mim, dá para você. Quero que saiba que para mim esse foi o limite! Para mim acabou! E você terá que tomar uma decisão na sua vida. Ou pára de beber ou morra sozinho. Não quero mais. Não admito mais. É doença. Vá se tratar. Ou eu tô fora!

– Mas como você resolveu assim tão rápido? Nem me falou antes, nada, não soube nada.

– Tomei a decisão porque vi você fora de si, sem consciência nem ciência. É triste demais de ver alguém que amamos nesse estado. Aproveita a chance que Jesus está dando. Mais uma dessas e resolverei de outra maneira e de uma vez por todas. Ou, conforme eu disse, vá morar longe dos olhos de quem te ama!

Sublinhei a frase porque não quero deixá-la no limbo da amnésia. Já vi na TV história sobre a mulher que virou evangélica e acabou por assassinar o marido alcoólatra que não conseguiu arrebanhar para a igreja.

Meu amigo Walter, que bebia muito comigo, sumiu. Fui saber notícias na casa dele e lá me contaram que tinha viajado. Walter nunca mais apareceu. Quando vi o quintal recém concretado, sem a mangueira sob a qual eu e Walter bebemos tanto, entendi tudo. Não quero ser o próximo. Foi a última vez que eu e Marilza fizemos contato. Nunca mais a encontrei em lugar nenhum. Aleluia, irmão!


Rio de Janeiro, Cachambi, setembro/outubro de 2017.