quinta-feira, 13 de julho de 2017

14 Anos sem o Campeão José Másculo (1959-2003)

Por: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

“Teu roque, esse sarcófago vazio,
de vencidos peões vermiculares,
exposto ao mal de um xeque doentio,
espalha incenso triste pelos ares.”
- Hélder Câmara (1937-2016)

(Foto Flávio Rodrigues)

Em 15 de julho de 2003, vítima de câncer, falecia o enxadrista carioca José Soares Másculo, com a idade de 44 anos. Nascido em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, era advogado e contador. Foi tricampeão carioca juvenil, bicampeão brasileiro juvenil, duas vezes vice-campeão pan-americano de xadrez (1978/79), e aos 17 anos figurou entre os dezesseis melhores do mundo.

Cria do Clube de Xadrez Guanabara, Másculo representou o nosso país em diversas competições internacionais. Para ele o xadrez não se constituía apenas em um jogo, mas também em arte e ciência. Arte, porque através dele o homem extravasa a sua capacidade criadora, e ciência, porque o seu caráter lógico-matemático dela o aproxima. Por isso mesmo, é o xadrez adotado em escolas como um recurso auxiliar na educação juvenil. Aliás, são os jovens os que mais podem se beneficiar com a sua prática. A idade inicial para se iniciar uma criança no enxadrismo varia entre sete e doze anos.

A grande importância do enxadrismo, dizia Másculo, está no fato de que ele inevitavelmente conduz o seu praticante ao hábito da análise e da reflexão, tendo que avaliar as consequências de ações próprias e alheias. Responsável por uma pioneira escolinha de xadrez para crianças, em 1986, no Clube de Regatas do Flamengo – na maior renovação já conhecida pelo enxadrismo carioca –, afirmava que quem era bom no xadrez poderia ser bom em qualquer outra área, por causa da capacidade de concentração adquirida com ele.

Em um sistema educacional como o nosso, onde o ensino da filosofia foi abandonado e o aprendizado muitas vezes se resume em decorar fórmulas, o xadrez vem a fazer um bem. A importância do hábito de pensar é tão grande que a poderosa empresa de tecnologia da informação, a IBM, tinha a palavra “Think” (Pense) como lema – criado em dezembro de 1911 por seu fundador Thomas John Watson (1874 – 1956).

Ninguém precisa possuir um QI altíssimo para jogar xadrez, no entender do geminiano Másculo, um jogo até fácil. Basta um pouco de prática para qualquer um poder se beneficiar desta verdadeira ginástica intelectual e curtir horas agradáveis de lazer.

“O xadrez é um jogo de habilidade. O enxadrista mais hábil derrotará sempre o menos hábil. Esta habilidade, que é o segredo do jogo, se desenvolve com a prática e o estudo. Não há casos de habilidade alcançada somente com a prática ou apenas com o estudo. Neste peculiar o xadrez iguala-se a qualquer arte e ciência.”

“A habilidade individual, o poder de concentração, a capacidade de antecipação, a experiência, as manobras táticas, a estratégia e, sobretudo, a paciência e a tranquilidade influirão decisivamente no resultado final da partida.”

Moção da câmara em 1990

No Plenário Teotônio Villela, em 20 de abril de 1990, o vereador Túlio Simões (1957-), então líder do antigo PFL, na forma regimental, fez constar nos Anais da Câmara Municipal, “um voto de congratulações com o enxadrista carioca JOSÉ SOARES MÁSCULO pelo trabalho que vem desenvolvendo em prol da divulgação do xadrez no Rio de Janeiro, com o objetivo de conquistar um espaço para esta importante modalidade de esporte” (...).

“Como Parlamentar, como desportista amador, e principalmente como cidadão carioca, faço lavrar para sempre, nos Anais desta Egrégia Casa Legislativa, o nome de JOSÉ SOARES MÁSCULO, fazendo deste registro, o símbolo da admiração de todos os Cariocas, que nesta Colenda Câmara tenho a honra de representar”.

O amigo de praia

Conheci José Soares Másculo, o Zé, em 1987. Fui seu divulgador e amigo. Era um extrovertido parceiro de frescobol e aventuras nas praias de Ipanema, Diabo e Copacabana (Posto Seis) – praticou também futebol, surfe, peteca, vôlei e gamão, e ainda corria na areia.

De acordo com Másculo, “o xadrez fora inventado pelos povos árabes que viviam em guerra no deserto como forma de planejar melhor os ataques. Ao longo dos séculos o jogo foi sendo aperfeiçoado e hoje há verdadeiras teses sobre a melhor defesa”.

Em 1990, aos 30 anos, ensaiou uma volta aos torneios internacionais. Almejava a conquistar o título de Grande Mestre Internacional e tinha projetos de implantar uma Academia de Xadrez – a primeira do Rio de Janeiro – na sede de esportes aquáticos do clube Botafogo, no Mourisco. Queria ressuscitar o esporte em nosso estado. Lia mensalmente mais de dez publicações internacionais especializadas em xadrez.

Nessa época, namorava a Rose, que colaborava com ele na direção da tradicional Casa Soares, de bolsas femininas – herança do avô –, localizada na Rua Sete de Setembro, no Centro. O casal residia então em um pequeno apartamento na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, ao lado do Café Lamas.

Másculo partiu muito antes de sua hora. Não conseguiu evitar o xeque-mate que lhe impôs o mais temido, perigoso e traiçoeiro adversário que enfrentou: a Morte. Em outra dimensão, certamente deve estar aninhado aos braços de Caíssa, a deusa poética do enxadrismo. Ou, quem sabe, disputando animadas partidas de xadrez com o Criador.
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Registros póstumos de Másculo
CHESSGAMES.COM
JOSE SOARES MASCULO
Born Jun-02-1959, died Jul-15-2003, 44 years old, Brazil
Jose Soares Masculo
Number of games in database: 13
Years covered: 1977 to 1991”.
Overall record: +1 -7 =5 (26.9%)
Overall winning percentage = (wins+draws/2) / total games
Based on games in the database; may be incomplete

KIBITZER’S CORNER (Chessgames.com)
From Rio de Janeiro (*2.6.1959/†15.7.2003 ) Two times brazilian Junior Champion, played in two World Junior Ch 1977 and 1978, and some Opens and IT in Europe and USA. Not a pro full time, but his activities as trainer, teacher and player were remarkable - notably in the Flamengo Club from his native city. Always had a fragile health.

365chess.com
Masculo, Jose Soares
Years: 1977 - 1991
Total Games: 128
Wins: 41 (32,03%)
Draws: 53 (41,41%)
Losses: 34 (26,56%)
Score: 52,73% 

"Assim que o jogo acaba, o Rei e o Peão voltam à mesma caixa." - PROVÉRBIO ITALIANO

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Passaporte para o paraíso


Ivo Korytowski - Passaporte para o paraíso
Romance - Editora Fragmentos, Curitiba, 2017

A literatura está entulhada de depoimentos ficcionais ou memoriais, de emigrantes e exilados que fugiram dos horrores da guerra em busca de um futuro mais tranquilo. Entre a enorme massa humana que se movimentou por causa da guerra nazista os judeus se sobressaem, mas não foram a única classe perseguida: comunistas, ciganos, artistas, rebeldes, homossexuais, viciados, dissidentes – entre outros – navegavam o mesmo barco. Mas até hoje causa repulsa o tratamento inumano e violento empregado pelo governo nazista contra os judeus: a política ardilosa da solução final (cujas raízes estão no fim do império austro-húngaro) deixou-os num beco sem saída.

As opções seriam o exílio rumo ao paraíso ou à incógnita terra prometida – o Eldorado ou Israel. Na hora do desespero pouco importava o destino, mas a rota mais curta apontava para Nova York, a terra da promissão. Outros, como Ivo Korytowski, apesar de sonhar com a América, vieram aportar no Brasil: não a terra da promissão, mas o desejado paraíso. Devido à avalanche de histórias mais ou menos iguais, parece que Ivo Korytowski hesitou muito antes de publicar o seu relato pessoal. O texto também traz a ideia de que muita coisa ficou por ser dita.

Ao declarar peremptório que o livro não é um romance descarta a ideia de memória, mesmo sabendo-se que as duas expressões podem coexistir em paz. Ivo Korytowski não é o primeiro a se enredar ao classificar esse tipo de narrativa. Isaac Singer, atraído a New York pelo irmão, confessa: “Embora seja basicamente autobiográfico em estilo e conteúdo, Amor e Exílio certamente não é a história completa de minha vida. Na realidade a história verdadeira da vida de uma pessoa jamais poderá ser escrita. A história plena de qualquer vida seria a um tempo absolutamente aborrecida e absolutamente inacreditável”. (Amor e exílio, 1984). Melhor glosar Mário de Andrade e sacramentar: romance é aquilo que chamamos de romance...

O Talmude ensina que não existe recompensa no mundo material, só no mundo vindouro – ou seja, no paraíso. A recompensa para a mitsvot é o paraíso: os justos após a morte serão chamados de vivos. O paraíso não é o objetivo final e sim a ressurreição que ocorrerá após a era messiânica. No paraíso estacionam as almas que esperam a ressurreição (Nachmânides). Como seres dotados de livre arbítrio, temos chance de optar entre o bem e o mal. Deus pôs diante de nós a vida e o bem, a morte e o mal. Mas não se sabe se a vida é recompensa e a morte castigo. Isso tudo é só para dizer que Ivo Korytowski, dono de livre arbítrio e filósofo de formação, é livre pensador por opção e continua em busca do paraíso.

De entremeio ainda no livro cabe espaço para especular sobre a existência e a vinda do Messias, a identidade de Jesus, a mística de ressurreição que, pelo menos para Machado de Assis, funcionou. Helena. Helena. Helena. Por que me deixaste? Exclama Ivo Korytowski em penúltima alegoria, pois também de alegorias é feito “Passaporte para o paraíso”. Talvez Alberto Dines tenha pensado algo assim ao escrever “Morte no paraíso” – não apenas a biografia de um escritor expatriado e infeliz, e sim um retrato de um mundo em transformação. No canal Arte-1 ainda sob a batuta do incansável Alberto Dines é possível assistir a bela série da TV “Canto do Exilado”. A série retrata a onda de perseguidos que entre 1933 e 1945 encontraram paz no Brasil e aqui plantaram sementes no campo do conhecimento.

Artistas, escritores, compositores, pintores, cientistas, poetas, passaram a figurar em nosso cotidiano deixando o legado do saber – porque tudo o que chegou foi dividido, expandido e compartilhado sem economia com os brasileiros. A Casa de Stefan Zweig (Rua Gonçalves Dias, 34 – Bairro Valparaíso, Petrópolis), oferece sessões dos documentários ilustradas com palestras de parentes, amigos e herdeiros. Ali se pode conhecer a trajetória do próprio Stefan Zweig; de Anatol Rosenfeld e Vilém Flusser; do compositor, flautista e mestre Hans-Joachim Koellreutter, que teve como alunos Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Eunice Katunda, Edino Krieger e Tom Jobim.

A mostra inclui a história de amor e arte entre a portuguesa Maria Helena e o pintor húngaro Árpád Szenes, que viveram um idílio em Santa Teresa, Rio de Janeiro; documentário sobre Paulo Rónai, brilhante intelectual e ensaísta; a vinda de Emeric Marcier, apaixonado pela obra do Aleijadinho, que pintou, entre 1942 e 1947, à luz de velas, cenas de arte sacra no interior da capela da Santa Casa de Mauá – a "Sistina brasileira". Também são retratados: o maestro húngaro Eugen Szenkar, primeiro dirigente da OSB; a pianista Felícia Blumental e o marido Markus Mizne (íntimos de Villa-Lobos), a quem o compositor dedicou o 5º Concerto para Piano e Orquestra de 1954. E muita coisa mais.

A família, os antepassados, os descendentes de Ivo Korytowski, fazem parte dessa história. Por isso, no exato momento em que leio o seu modesto livro sinto como se estivesse assistindo a um episódio da série, agora eternizado em letras, entremeado de espantos filosóficos e com um tempero a mais! As relembranças de Ivo Korytowski detalham um fato até então camuflado sob o sigilo do pudor, do melindre, da vergonha ou da covardia: já naquele tempo era preciso molhar a mão da autoridade responsável para liberar o visto consular e abrir as portas da liberdade. O famoso jeitinho brasileiro é explícito na cena:

“Vou lhe fazer uma revelação que o surpreenderá, mas que é a pura verdade. Você só conseguirá o visto para seus pais se ‘molhar a mão’ do cônsul”. – Molhar a mão do cônsul? – perguntou Otto embasbacado. – Com um perfume?”

Tal era a ingenuidade que permeava o estrangeiro, pois não desconfiava que altos dignatários pudessem estar se aproveitando da desesperança ou envolvidos em corrupção. Geralmente o suborno – propina como está na moda – era disfarçado a modo de presente, entregue direto ao corrupto ou para alguém da família – diplomata, consulesa ou embaixatriz. Uma obra de arte aqui, uma joia ali, uma antiguidade acolá ofertada num jantar e zás! – as dificuldades que emperravam a concessão sumiam como por milagre. Mas quem terá coragem de esgravatar tal ferida ainda mais sabendo que esses cargos eram ocupados por intelectuais reconhecidos?

Desde os tempos de Maquiavel que escritores e intelectuais servem a seus países como diplomatas, cônsules, embaixadores. Aqui no Brasil sabemos que Joaquim Nabuco, Aluísio Azevedo, Antônio Houaiss, Raul Bopp, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Alberto da Costa e Silva, João Almino, Geraldo Holanda, Cavalcanti, Edgard Telles Ribeiro, André Amado, Vera Pedrosa, João Inácio Padilha, Adriano Pucci, Murilo Komniski e mais de uma centena foram e são escritores-diplomatas. Quem terá coragem de meter a mão nessa cumbuca?

PS. O historiador Roberto Lopes escreveu o livro “Missão no Reich - Glória e Covardia dos Diplomatas Latino-Americanos na Alemanha de Hitler” (Odisseia Editorial, 2008) no qual “relata episódios de heroísmo e covardia da diplomacia latino-americana”. Será que ele toca no assunto?


Rio de Janeiro, Cachambi, 12 de junho de 2017. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mario Martins Meireles-São Luís, minha terra...

Foto: Marko Itapary

Hoje em dia, com o advento e predomínio dos transportes aéreos, o visitante chegado de avião desembarcado no Aeroporto do Tirirical, a treze quilômetros da cidade, entra em São Luís pelos fundos. Atravessa-a de ponta a ponta, desde os arrabaldes e subúrbios mais afastados, inclusive a pinturesca vila do Anil a meio caminho, até alcançar o coração da cidade, a tradicional Praça João Lisboa, até chegar à sala de visita da urbe, a modernizada Avenida Pedro II.

Não era assim, porém, quando o meio de comunicações ordinário e único era o marítimo, quando se lhe vinha, na colônia, no império e na primeira república, embarcado obrigatoriamente num veleiro de muitos panos ou num navio a vapor, que demandava o porto no fundo do golfão.

A ilha, que Aires da Cunha conhecera em 1535 como da Trindade, tal como a conheciam os franceses no século XVII quando nela vieram instalar a França Equinocial, que já fôra das Vacas e pretendera ser de Todos-os-Santos, mas que para os tupinambás nativos era simplesmente Upaon-açu – Ilha Grande, repousa no fundo do golfão que é tríplice desaguadouro do Munim, do Itapicuru-mirim e do Mearim, com o Pindaré seu afluente, formadores da mesopotâmia da baixada mara­nhense, de ubertosas terras; golfão que ela reparte em duas baías – a de São Marcos, ao poente, a de São José, ao levante.

O navio que nela entrasse, como ainda hoje, demandando ancoradouro no porto que os franceses de La Ravardière chamaram de Santa Maria, viria pela de São Marcos, com a ilha à esquerda, o continente à direita.

E na ilha, do convés de bombordo, o visitante veria se suceder urna sequência infinda de estendais de areia, limitados por insuladas falésias que os apartam, cada qual mais belo – as praias, dentre as mais formosas de todo o litoral nordestino brasileiro, de Araçagi, do Olho de Porco, de Jaguarema, do Olho d'Água, do Calhau e, por fim, da Ponta d'Areia que, com a pequena Ilha do Medo defronte, assinala a entrada da barra. E olhando-as à distância, pensar-se-á como serão, mas belas na extensão quase imensurável de suas areias e com suas muitas dunas: se à luz do dia, sob o sol causticante, se à meia luz da noite, sob o palor da lua, se mergulhadas na escuridão misteriosa das noites de muitas estrelas!

Do outro lado, no continente a estibordo, na fímbria do horizonte, veria a silhueta da vetusta e senhoril cidade de Alcân­tara, levantada nos chãos da nativa Tapuitapera, capital da donataria de Cumã no Estado do Maranhão e Grão-Pará; a veneranda Santo Antônio de Alcântara, hoje monumento nacional, de cuja praça principal, na esplanada que sobranceira ao mar é o ponto mais elevado do sítio, ergue-se, defronte à arruinada Matriz de São Matias, exemplar raríssimo e fielmente restau­rado, o Pelourinho, símbolo da autonomia municipal nos tempos do domínio lusitano.

E um binóculo o ajudaria, talvez, a adivinhar, entre as ruínas de São Francisco, do Convento do Carmo, do Palácio do Imperador, o perfil das igrejas do Rosário, do Carmo, da Casa da Câmara e do “Cavalo de Tróia”. E, no relampejo de uma fachada azulejada, ferida do sol ao perpassar da vista, veria – quem sabe! – o aceno amistoso de um convite a visitar a velha cidade prenhe da história de nossas melhores tradições, terra dos barões e dos estadistas do Maranhão Imperial.

A seguir, a entrada da barra, já dentro da Ilha-Grande.

À esquerda sempre de quem entra, na foz do Anil, o Maioba nativo, pela ordem – a Ponta de São Marcos, na ante porta, onde a luz de um farol mal deixa adivinhar onde ali fora o forte que anunciava, com os tiros de seus treze canhões, o número de navios que buscavam o porto; a seguir, a Ponta d'Areia, a antiga Ponta de João Dias, em cujas areias frouxas se afundam os alicerces da velha fortaleza de São Antônio, ini­ciada em 1691, guardiã intemerata da cidade e que teima em sobreviver, carcomida em suas cicatrizes pelas ondas do mar e esquecida embora dos homens na crônica de seus fastos glo­riosos; finalmente, a Ponta de São Francisco, jeviré dos tupinam­bás, onde, a seis de agosto de 1612, o Senhor Du Manoir, já aí de tempos estabelecida sua feitoria de corsário ofereceu lauto banquete de boas-vindas ao recém-chegado Senhor De La Ravardière  e seus nobres acompanhantes, e onde em 1720 foram lançados, no mesmo lugar em que em 1616 Alexandre de Moura fizera construir de pau a pique o Forte do Sardinha, os fundamentos da fortaleza do nome daquele santo, hoje igualmente desaparecida com suas vinte e uma peças de todos os calibres. Foi desta fortaleza de pau a pique, dita do Sardinha, que La Ravardière  datou, a 4 de novembro de 1615, o termo de sua rendição.
           
São Marcos, Santo Antônio, São Francisco, sentinelas avan­çadas desta São Luís do Maranhão e que a incúria e a sensibi­lidade das novas gerações não souberam conservar para a edificação dos pósteros e que o passar do tempo consome sob o peso dos anos!
           
À direita, na foz do Bacanga, ou melhor – Ibacanga, compondo a entrada da barra, a Ponta do Bonfim, onde hoje a Colônia Aquiles Lisboa de hanseanos, cujos chãos foram doados, em 1616, por Jerônimo de Albuquerque, primeiro Ca­pitão-mor da Conquista do Maranhão, à Ordem Carmelitana, cujo provincial em 1718, Frei Antônio de Sá, fez construir ali um hospício, hoje desaparecido. César Marques, incansável pesquisador de nossa História, aí não mais encontraria, em 1863, que uma lápide com estes versos:
           
Sabes já a invocação
Deste santo hospício? Sim.
É o Senhor do Bonfim,
Espelho do Maranhão,
Pois já vês, povo cristão,
Que se bom fim queres ter,
E a Deus bem parecer,
Te deves sempre compor,
À vista deste Senhor,
E dele espelho fazer.

Por trás da Ponta do Bonfim, a da Guia, doada aos carme­litas Frei Cosme d'Anunciação e Frei André da Natividade pelo General Alexandre de Moura quando da reconquista portuguesa em 1615, e onde existiu por muitos anos, nos primeiros tempos, a Ermida de Nossa Senhora da Guia, hoje também desaparecida como outras tantas relíquias e que se nos faria tanto mais valiosa porque em seus chãos, sugere Varnhagen, parece que uma voz íntima me diz que (...) jazem sepultados os veneráveis padrões da primeira tentativa frustrada de colonização do Maranhão.

Teria sido ali, então, que os sobreviventes do naufrágio da expedição mandada, em 1535, por João de Barros, primeiro donatário da Capitania do Maranhão, sob o comando de Aires da Cunha, estabeleceram a efêmera povoação de Nossa Senhora de Nazaré, na ilha a que chamaram de Trin­dade – como denunciado ao Imperador Carlos V, de Espanha, por seu embaixador Luís de Sarmiento, em Lisboa, por carta datada de 15 de julho de 1536. Denunciou-o porque, constara-lhe, os portugueses pretendiam, do Maranhão, ir à conquista do Peru!

Entre a pequenina ilha do Medo e a Ponta da Guia, o famoso estreito do Boqueirão, cujas águas traiçoeiras seriam as responsáveis pelo desastre de Aires da Cunha, em 1535, como pelo de Luís de Melo e Silva, o segundo donatário do Maranhão, em 1554, e que, passagem obrigatória dos veleiros e gaiolas que, de São Luís, demandam as vias fluviais que penetram o interior do continente e, por isso, sepultura de muitos deles pela força da correnteza sobre os escolhos que ali se escondem, fez-se temerosamente lendário entre os nossos homens do mar, tanto quanto para os marujos da Antiguida o fora o de Caribdes e Cila, na Sicília. Ali, no Boqueirão, passava-se em completo silêncio, as velas recolhidas, a boca muda, o ouvido surdo, que nada fosse despertar as Iaras que, se não lograssem encantar os navegantes com a sedução de seus cantos, enfureceriam as éguas e de qualquer modo arrastariam para as profundezas de seus domínios os incautos marujos.

Por fim, apontando sobre alcantilado promontório, no fundo da restinga formada pelo Anil e pelo Bacanga, como estreitado em carinhoso amplexo pelos dois ribeiros gêmeos, a cidade de São Luis, a terra das palmeiras onde canta o sabiá, a Atenas do Brasil – la petite ville aux palais de porcelaine, disse o visi­tante francês.

Enfim – São Luís, minha terra...

Notas:

Extraído de: São Luís, cidade dos azulejos-Deptº de Cultura do Estado-MA, 1964.

Mário Martins Meireles (1915-2003), nasceu e faleceu em São Luís do Maranhão. Professor desde 1940, fundou a Faculdade de Filosofia de São Luís, onde ocupou a cátedra de História. A Faculdade de Filosofia foi uma das instituições que deram origem à Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

Daniel de La Touche (1570-1631), intitulado Senhor de La Ravardière. Lugar-tenente General da Marinha Francesa do século XVII, fundou a cidade de São Luís em 8 de setembro de 1612.

Cavalo de Tróia – É assim chamado o casarão mais bizarro da cidade histórica de Alcântara, localizado à Rua Grande, no Centro Histórico. O prédio recebeu este nome por ser uma “esplendorosa edificação” que constituía orgulho dos proprietários. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Waldemar Costa – 80 anos e um livro


O jornalista, amigo e companheiro de algumas jornadas Waldemar Costa neste janeiro de 2017 rematou 80 anos de idade bem vividos. Antes de se aposentar e se recolher ao retiro na mansão da Rua Baronesa na Praça Seca, deixou a marca do talento profissional no Jornal dos Sports, O Jornal, Agência AP, Rádio Tupi, além de ocupar o cargo de assessor de imprensa na ECT. Waldemar Costa nasceu em Bento Ribeiro, mas foi no Vale do Marangá que viveu toda a vida.

A segunda paixão de Waldemar Costa – a primeira é o jornalismo esportivo – é o xadrez aquele jogado com estranhas peças arrumadas num tabuleiro de 64 casas pretas e brancas. A terceira paixão de Waldemar Costa é o bairro de Jacarepaguá, exatamente na Praça Seca, onde ajudou a fundar o clube de xadrez PSXC e ainda dirige a seção de xadrez do Jacarepaguá Tênis Clube onde organiza torneios o ano inteiro.

Nas horas vagas Waldemar Costa perde tempo correndo atrás da burocracia e de políticos para realizar seu sonho de fundar a biblioteca do bairro onde poderá disponibilizar ao público e às escolas todo o acervo que juntou – organizou e guardou zelosamente – no exercício do jornalismo, na direção de entidades e clubes de xadrez do Rio de Janeiro, no comparecimento aos mais importantes eventos enxadrísticos em que esteve presente como atento observador.

Enquanto isso não ocorre Waldemar Costa vai publicando o registro de sua passagem pelo planeta Terra: O Vale do Marangá, Gol do Brasil (ambos em 1986), Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez Vols. I e II (1993/1994), Imagens de Jacarepaguá (1995), três romances: O estigma da cruz de rubis, O paraíso azul (ambos de 1997) e O ferrador (1998).  A Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez, publicação única no gênero, teve reedição pela Editora Solis em 2009. Depois veio: Aventura na História de Jacarepaguá (2011), Enciclopédia dos nomes das ruas de Jacarepaguá (2012), Aventura do xadrez no Jacarepaguá Tênis Clube (2013), História de Bento Ribeiro, no qual se redime ao bairro de nascença e O Jornal dos Sports do meu tempo (2016) onde narra toda a sua trajetória de 20 anos exercendo jornalismo no jornal cor-de-rosa – o primeiro dedicado exclusivamente aos esportes.

Segundo conta o próprio Waldemar Costa na Introdução dessa obra, "O Jornal dos Sports foi fundado em 13/03/1931 pelo jornalista Argemiro Bulcão Miragaia. A primeira redação foi na Rua São José 77/79, no Centro do Rio Janeiro. Bulcão formou equipe diretiva de grandes jornalistas esportivos da época: Secretário - Isaías Rosa, Redator-Chefe - Tenório de Albuquerque, Gerente: Álvaro Nascimento. Álvaro permaneceu no Jornal dos Sports até 1982, ano do seu falecimento. Foi um dos jornalistas do meu tempo no JS". Não há dúvida, porém, que o grande nome do periódico foi o jornalista e escritor Mário Filho – autor do emblemático livro O negro no futebol brasileiro (1964). 

E agora que completou 80 anos Waldemar Costa lança mais um livro: A gênese da Academia Brasileira de Letras (Editora e-papers, dezembro de 2016), no qual executa um trabalho minucioso e esquemático de reunir os fatos e notícias que antecederam a fundação da ABL por vinte e tantos literatos capitaneados por Machado de Assis. 

Acredito que com esse livro Waldemar Costa volta às raízes jornalísticas, pois se trata da recriação cotidiana não só dos passos iniciais – desde que a mera ideia da ABL surgiu – mas que vai até até o magnífico discurso de inauguração feito pelo Secretário Geral da entidade Joaquim Nabuco na sede provisória cedida pelo centro de ensino cultural Pedagogium, em 20/07/1897. 

Parabéns e obrigado Waldemar Costa. Tenho orgulho de ser amigo de alguém que não passou a vida em vão – o que torna grata esta convivência de mais de 50 anos.

O site do Waldemar Costa é: www.wsc.jor.br/


Rio de janeiro, Cachambi, 25 de janeiro de 2017.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Gregor Samsa passou aqui


Certa noite acordei aos gritos escapando de um pesadelo intranquilo que costuma se meter entre os meus sonhos indecentes e me deixar arfando com taquicardia como se tivesse corrido uma maratona inteira me senti como se estivesse metamorfoseado em algum ser sobrenatural. Sentia minhas costas doloridas e duras como couraça, o ventre abaulado em excessiva flatulência, a pele amarronzada dividida em fibras arqueadas como as de um besouro monstruoso. Ao levantar um pouco a cabeça vi no espelho que meu tronco se apartava do pescoço, prestes a deslizar para outro espaço que mal se sustinha. Abaixo de meus olhos minhas pernas tremulavam desamparadas em estado lastimável e mais finas em comparação com o resto do corpo. 

– Que merda aconteceu comigo?

Agora não era mais sonho. Olhei em volta do meu quarto, um autêntico quarto sub-humano: pequeno demais, calmo, de quatro paredes, porta e janela, mobiliário bem conhecido. Roupas penduradas aqui e ali, cheiro de mofo vindo do piso de tacos. Sobre a mesinha se espalhava o mostruário de tecidos de quando eu fui caixeiro viajante e um tabuleiro de xadrez com a partida em meio jogo. O ventilador rodava no teto roncando como um motor de helicóptero.
           
Dava para ver na parede esquerda emoldurada em dourado a irada imagem de Marilyn Monroe deitada sobre um lençol vermelho em posição recostada de joelhos dobrados, pés levemente sujos, erguendo o braço esquerdo que expunha toda a sensualidade da axila depilada, recortada da revista Playboy de janeiro de 1955. Olhando pela a janela vi o tempo turvo de nuvens enfarruscadas, algumas gotas da chuva batendo no vidro da janela me deixaram idiota e melancólico com a boca salivando.

Voltei a vista de novo para a foto de Marilyn, imaginando estar ali ao lado dela esparramado sobre o lençol de cetim vermelho e chupando aquele sovaco meio suado – e comecei a me masturbar. Depois lavei as mãos e consegui me levantar. Fui à cozinha e requentei um copo com o resto do café e leite do dia anterior, fritei o pão quase mofado na margarina, bebi e comi a mistura com um comprimido de cafeína. Estava sozinho e resolvi fazer algo que me tirasse daquela situação incômoda. Ainda era de madrugada e assim como o cérebro embotado pelo álcool, as nuvens chuvosas deixavam o ambiente em idêntico lusco-fusco. 

Acordar assim deixa a pessoa palidamente desbotada. O ser humano precisa ter o sono como se fosse mulher de harém. Quando volto no começo da manhã da padaria muita gente ainda está sentada no sanitário se desfazendo dos resíduos digeridos ontem para encarar o café da manhã. Eu não! Comigo não! Meu nome é Elesbão.

– Que droga! Não consigo fazer isso com o espírito que tenho: voaria no ato para a rua. Aliás, quem sabe não seria muito bom para mim? Se não me contivesse por causa dos preconceitos e convenções teria podido há muito tempo me postar diante da vida e feito o que penso do fundo do coração. Bem, ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar o dinheiro para pagar as dívidas, isso deve demorar ainda de cinco a seis anos, vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura! Por enquanto tenho de me libertar dessa estranha submissão. Mas ainda estava risivelmente morto de ressaca, com uma baita dor de cabeça e ânsia de vômito. Minha gastrite se irritara com a quantidade de burbom que havia ingerido e como vingança ecoava a raiva por toda a parede estomacal.

Afastar o lençol foi muito fácil, precisei apenas inflar um pouco o tórax e ele caiu sozinho no chão depois de um peido. Mas daí em diante as coisas ficaram mais difíceis porque me sentia largo e gordo como um americano comedor de hambúrguer com bacon e bebedor de cerveja de arroz. Outra merda: tenho precisão de braços e mãos para me erguer, ao invés disso só disponho de alguns cambitos desarticulados que fazem os mais díspares e incontroláveis movimentos. Se quisesse dobrar um deles era o primeiro a esticar, se conseguia realizar algo com essa perna as demais se moviam na mais fodida e dolorosa agitação como se estivessem soltas e fossem independentes. É mole?

Sentei-me diante do notebook, entrei no Youtube e pus-me a ouvir La Risurrezione di Cristo, de Lorenzo Perosi, diante da página em branco do Word pronto para escrever a continuação de um conto que espicha e ameaça se transfigurar em novela ou algo parecido e assim dissipar as agruras de tão tortuoso pesadelo. Foi então quando o asqueroso Gregor Samsa se aproveitando do vento forte que sopra antes das tempestades passou voando sobre minha cabeça e pousou o corpo repugnante na cortina. Reparei bem: era o próprio Gregor Samsa jovem atlético de asas viçosas pernas de esportista e anéis ventrais brilhantes. O malacafento era grande e musculoso.

Estivessem aqui todos os moradores da pensão na presença desse nojento e sairiam correndo em busca de socorro, outros se armariam com paus e pedras, chinelos e inseticidas para atacar de morte aquela aberração da natureza. Eu não! Comigo não! Nem interrompi meus escritos nem deixei de ouvir o belíssimo oratório. Dei uma olhada na cortina onde pousara o repelente Gregor Samsa e pelo que vi ele reparou no meu olhar guante e odioso pois o repulsivo fantasma deu outro voo que lançou sombra por debaixo da lâmpada e foi tão rápido que não consegui determinar a rota. Sumiu. O execrando fugiu covardemente à vista das minhas intenções mais cruéis e repelentes. Não voltará é certo! Estarei armado com o Defense System: kill bugs on contact, kill bugs at the source, keep bugs out. Foda-se Gregor Samsa!

E foi o que em absoluto aconteceu. Jamais a criatura voltou a espargir as asas asquerosas sobre minha cabeça nem mais ousou revoar pela sala pousando nas cortinas e paredes. Nunca mais o vi nem mais senti seu odor fedorento recender no ambiente ferindo-me de ácido as narinas. Só algum tempo depois, um mês mais ou menos a faxineira dona Anelise ao varrer o meu cubículo encontrou o cadáver de Gregor Samsa. Primeiro ela tentou acordá-lo brincando com ele e dizendo algumas palavras obscenas. Depois de limpar a gosma branca que sempre ele expelia pelas dobras de gordura cutucou as asas com a ponta do chinelo. Nada. Levantou a saia e mijou sobre o ventre dele – coisa que Gregor Samsa gostava pois ria muito. Nada.   

Ainda hoje não sei por que dona Anelise aceitou vir trabalhar aqui. Ao saber que o horrendo Gregor Samsa sem convite algum tinha se hospedado em meu quarto todas as faxineiras da redondeza se recusaram a cuidar da limpeza da minha adorável morada. Menos dona Anelise. Isso me deixou desconfiado, vocês sabem, as faxineiras tem a má fama das ciganas: são ladras, agourentas, feiticeiras, praticam artes adivinhatórias. Por isso não me furtei a pesquisar logo na internet o significado de Anelise para conhecer melhor com quem estava lidando.

Pedaço aqui, pedaço ali, deu um súmula razoável: seu nome significa “pequena graciosa” ou “pequena cheia de graça”. “Deus dá tudo para essa mulher graciosa” ou “Deus dá dinheiro para essa mulher cheia de graça”. Embora não seja possível comprovar a origem do nome Anelise, é provável que o nome Ana faça parte do seu étimo. (Cortei essa merda e outras de igual valor de tão claro e óbvio). De acordo com estudiosos da onomástica (mais besteiras). Anelise também pode ter vindo do hebraico. Nesse sentido o significado do nome Anelise é “Deus é abundância para essa mulher cheia de graça”. Trata-se de um bonito nome feminino que reflete delicadeza e aproximação com o divino.

Isso foi suficiente para me manter alerta e evitar que Anelise obtenha algum dinheiro que não venha de Deus e sim de meu bolso vazio. Mas tal presunção onomástica não me afeta nem levo a sério ainda que fantástica. Aqui mesmo está a contradição: dona Anelise era toda desfavorável ao que presumia a intenção do nome: era baixinha, gorda, antipática, as bochechas cheias como se escondesse um biscoito furtado de cada lado. Não tinha “graça” nenhuma. Não sei o que Deus daria a ela a não ser a oportunidade de aliviar todos os clientes ricos e pobres de alguns bens. Por isso tenho que tomar cuidados além dos comprimidos para baixar a pressão e diminuir a ansiedade quando ela está aqui.

Esta dona Anelise (que o diabo carregue para bem longe o seu corpo defunto) não servia nem para dar um amasso ou meter as mãos entre as coxas obesas grudadas uma na outra nem para chupar as tetas anormais. Por outro lado acredito que Gregor Samsa não teria se hospedado aqui se dona Anelise estivesse presente naquela noite fatídica. Com a habilidade que ela tem no manejo do objeto de trabalho ela teria aposto violenta traulitada interrompendo o voo elegante abatendo o infeliz de uma porrada só pegando-o em pleno ar.

– Seu Elesbão venha ver: o seu amigo bateu as botas! – gritou ela no jargão comum das faxineiras.

– Como assim – perguntei – quem morreu? Meu inimigo Gregor Samsa, esse monte de bosta fedorenta enfim bateu as botas? Respondi no mesmo jargão. E por via das dúvidas segui para o quarto armado com o poderoso Defense System: kill bugs on contact, kill bugs at the source, keep bugs out. Caso Gregor tenha resistido aplicaria duas baforadas dessa arma química sobre o corpo abominável e pronto o desprezível voaria de vez para os quintos dos infernos!

– É o que estou tentando dizer seu Elesbão, cáspite! – disse Anelise e para comprovar o que descobriu empurrou para o lado o cadáver com a vassoura.

Não sei por quais razões sentimentais ou instintivas ameacei um gesto para deter a vassoura em seu movimento vil. Também por instinto fiz o sinal-da-cruz e a graciosa mulher seguiu meu exemplo. A coitada da Anelise não desviava os olhos religiosos do cadáver como uma freira ao corpo inerte de Cristo.

– Veja só como ele estava magro caramba! Também, fazia tempo que não comia nada sólido, só algumas migalhas e farelo de pão. Ademais, assim como entrava tão rápido a comida saía de novo líquida, branca, gosmenta...

De fato o corpo de Gregor estava reduzido às proporções naturais de sua espécie: plano e seco, as perninhas dobradas, as antenas diminutas encolhidas – nada mais tinha para se olhar e ainda assim exalava um fedor nojento.

– Entre um instantinho – disse a senhora com o sorriso mais melancólico que pôde arranjar, não sem olhar para trás na direção do cadáver. Antes ela fechou a porta e abriu completamente a janela. Embora fosse manhã cedo já se anunciava o calorão natural do fim de março.

– Qualé? – perguntei.
           
Dona Anelise estava junto à porta sorridente como fosse anunciar a grande boa notícia, mas fazia cu doce. Ela balançava a vassoura num vai e vem durante a execução do serviço, sacudia o rabo em todas as direções como uma dança, gesto que me irritava, como ela bem sabia.

– O que é que a senhora está querendo afinal? – insisti.

– Ah, sim – respondeu Anelise empunhando a vassoura como se fosse um fuzil AK 47. – O senhor não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora essa coisa aí. E com trejeito mímico apontou o polegar para os restos do lastimável e querido Gregor. – Deixa comigo e ficará tudo em ordem. – Com um gesto rápido e profissional passou a vassoura, recolheu o corpo inerte na pá e sem delongas atirou o pobre Gregor Samsa na lixeira.  


Rio de Janeiro, Cachambi, 4/5 de dezembro de 2016. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um dia direi que te amo


Rumo às praias. Dia ensolarado e quente que prometia se estender pelo feriado que colou ao fim de semana. Seriam quatro dias de lazer. Mário dirigia em baixa velocidade pela estrada velha, mesmo porque o trânsito era intenso no sentido dos balneários. Marília cochilava ao lado. Na pista oposta não: os poucos carros passavam velozmente, os motoristas dos ônibus, caminhões e carretas estavam ansiosos por terminar o serviço e também aproveitar as poucas horas de folga com a família e amigos. Mário aproveitou o espaço que se abriu à sua frente e acelerou mais rápido. Ficou de olho numa carreta que se aproximava veloz e tirou o pé do acelerador. A carreta ainda distante freou forte e a fumaça azulada subiu dos pneus que derrapavam no asfalto quente.

Carretas na estrada! Mário sabia: são veículos loucos e assassinos que precisam de mais de cem metros para iniciar a obedecer a qualquer comando do motorista, por isso puxou a direção um pouco mais para a direita invadindo o acostamento. Foi o suficiente para poder se defender do container que a carreta trazia e que com a freada súbita se deslocou para o lado dos carros que iam em direção às praias. Marília acordou sem entender o que ocorria. O violento giro do reboque atingiu dois carros à frente antes de Mário ver a quina de aço se aproximar. Não tinha mais pista, não tinha mais acostamento. Marília se segurava ao porta-luvas com os dois braços de olhos arregalados. Sem poder evitar o choque o único jeito que Mário encontrou foi girar mais à direita e atirar o pequeno carro no rumo do barranco cheio de pedras, mato e arbustos.

Agora estavam num quarto de hospital. Mário cochilava dopado por conta da medicação. Além de estar com o braço esquerdo imobilizado, ele sofreu várias escoriações que se espalhavam por todo o corpo. A perna esquerda doía demasiado, mas não o impedia de andar. Marília sofreu muito mais com os choques no barranco e nas árvores. Ela dormia inconsciente naquele estado que os médicos chamam coma induzido, para que o organismo como um todo, concentre seus esforços na recuperação. Além do oxigênio tinha uma agulha enfiada no braço direito, por onde recebia o soro que a alimentava. Alguns aparelhos mediam a pressão sanguínea e cardíaca, que era anunciada por um monitor que emitia um bip-bip regular e constante. Segundo todas as avaliações, dentro de dois ou três dias ela estaria recuperada e todo aquele aparato seria desmobilizado.

Quando Marília despertou no tempo aprazado se alegrou ao ver a mesinha cheia de buquês de flores. O quarto estava vazio, a cortina flutuava sob a leve brisa, Mário ainda com as escoriações enfaixadas com curativos dormitava numa cadeira bem próxima ao leito com um livro semiaberto nas mãos. Ela pegou o livro com todo cuidado para não despertá-lo, tentou ler algumas páginas, mas em pouco tempo seus olhos se fecharam de novo vencidos pela fadiga. Pouco tempo depois foi a vez de Mário acordar e vendo o livro com Marília tratou de chamar o médico.

Depois de vários testes o médico examinou o fundo dos olhos de Marília enquanto a enfermeira media a pressão. Não se verificando nenhuma anormalidade ele retirou o tubo plástico infiltrado na boca e garganta:

– Bom, parece que está tudo bem. Tente mover as pernas.

Marília acedeu à ordem e conseguiu dobrar ambas as pernas levantando-as até o joelho. Depois de ver o olhar aliviado tanto do doutor quanto de Mário ela começou a rir sem parar. Mario se aproximou dando beijos, acariciando os cabelos acalmando assim o nervosismo disparado pelo exame. O principal temor de todos era que Marília perdesse o movimento das pernas.

– Com mais alguns exames e poucos dias de repouso para completar a recuperação terei que devolvê-la para casa, disse o médico sorrindo. Sua garganta ainda irá doer por uns dias, mas isso é bobagem. Beba água gelada.

A alegria pelas boas notícias refletia nos olhares. Mario não tinha vontade de responder ao semblante preocupado de Marília. – O que aconteceu? – era a pergunta que soava na cabeça Del. Em vez disso Mario procurou outro assunto.

– Então andou lendo o meu livro.

– É verdade. Você estava cochilando. Peguei o livro sem te acordar e comecei a ler algumas páginas. Aí foi a minha vez de cair no sono de novo...

– Você está cansada, eu estou cansado. O melhor lugar para nós dois é a casa. Tomara que amanhã já estejamos liberados. Ah, sua mãe esteve aqui com Irene. Depois veio seu pai. Dona Nely trouxe sanduíche de queijo e maçãs. Imagine! Claro que roubei de você e comi tudo.

Marília riu e tentou falar alguma coisa, mas levou a mão à garganta que ardia e doía como se estivesse sendo arranhada.

– Não diga nada. Depois teremos todo tempo do mundo para conversar.

– Mas acho que já li esse livro, ela disse com algum esforço, a voz rouca.

Mario não esticou a conversa. Fazia sinal de silêncio com o dedo indicador nos lábios quando entraram dona Nely e Irene. Ele se levantou, abraçou e beijou a sogra e a cunhada.

– Que bom que vocês vieram! Assim terei tempo de sair e cuidar de algumas coisas. Olhando para Marília: – Vou antecipar minhas férias e arranjar uma secretária para nos ajudar em casa.

Dona Nely logo protestou a essa última observação: – Nada disso, eu cuido da minha filha! – dando muita ênfase ao EU. Mário riu e aproveitou para se despedir. Saiu com o pensamento ligado na frase de Marília sobre já ter lido o livro. Como poderia ter lido se ele havia comprado na banca de lançamentos da livraria?

Quando viu Mario lendo no quarto silencioso, o médico deu a recomendação padrão:

– Já que está lendo, leia em voz alta. Ajuda e acelera em muito a recuperação. Quando puder, converse sobre coisas comuns.

Mas isso de ler a viva voz e falar sozinho é coisa a que ele não estava habituado, por isso continuava a ler em silêncio até que se lembrava da recomendação e passava a murmurar o que estava lendo. Nas horas sem leitura Mario se aproximava bem perto do ouvido dela e conversava. O que dizia acabava sendo qualquer frase sem nexo, que vinha à cabeça leviana e saudosa dita na esperança de vê-la boa e saudável – e isso o deixava desnorteado.

Agora em casa ele esperava a hora certa para esclarecer aquela história do livro. Certa vez, para detonar o assunto, pegou o livro que já havia terminado de ler e fingiu reler as últimas páginas.

– Eu só não entendo porque você escolheu um assunto assim, uma mulher em estado terminal, lutando contra um mal incurável. Será porque eu estava no hospital?

– Na verdade eu nem li a sinopse, nem a orelha. Comprei apenas pelo título. Achei bonito, romântico, não sei mesmo. Foi impulso. Mas a personagem não está em hospital. Nem luta pela vida, como seria de pensar. Foi levada para casa e a luta se voltou para seguir o fio da vida ou da doença seguindo critério pessoal: ela se recusou a tomar qualquer medicação. 

– Hum. Entendi. Isso é heroísmo puro. Aqui não tem isso: o hospital é quem manda no destino do paciente. 

Emile ganhou a batalha e foi levada para casa. Lá chegando encontrou um ramo de flores do campo e um poema:

Cem vezes direi que te amo, se com isso conseguir fazer com que tua face de novo resplandeça em luz, e que teus olhos assim iluminados tornem a celebrar nossas vidas.
Mil vezes direi que te amo, sim, cortando o silêncio com que a rudeza e o trabalho taparam minha boca e secaram minha voz.
Cem mil vezes direi que te amo, para rever a cor de pétalas rosadas que surgem em teu rosto incendiado quando terminávamos de fazer amor.
Direi que te amo, droga, porque desconhecia quão preciosa é essa palavra que impulsiona a vida e faz com que os pulmões se encham de ar quando se precisa de força e coragem. 
Mil dias direi que te amo como o disse em oração quando me despedia nas manhãs frias indo para o trabalho e à noite ao voltar a casa fatigado...

– Isso me traz a lembrança de determinado cara...

Marília usou todo o talento para dar ênfase ao sarcasmo que acompanhou a observação. Mario murchou de repente pego em flagrante delito. Só que ela não sabia que muitas vezes quando acordava à noite ele ficava espiando aquela mulher que dormia a seu lado e se imaginava na manhã seguinte dizendo eu te amo. Mas as tarefas se antecipavam, os afazeres tomavam contas das manhãs e as palavras não saíam. Afinal, dizia para si mesmo tentando se redimir, eu te amo é uma frase que circula tão farta e falsamente nas redes sociais que se tornou vulgar usá-la.

Emile e Marília quebraram suas vidas como uma estrada em forquilha. Cada qual foi para um lado. Emile lutou para ter o direito de sair do hospital no qual fizera um tratamento quimioterápico cruel e voltar para casa. Lutou para ter de volta a sua varanda, os passarinhos que saltitavam na janela beliscando alpiste, semente de girassol, maçãs e outras frutas deixadas ali. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Da inutilidade de rabiscar livros


Você não pode escrever nada sobre si mesmo que seja mais verdadeiro do que você mesmo é. Esta é a diferença entre escrever sobre si mesmo e escrever sobre objetos externos. Você escreve sobre si a partir da sua própria altura. Não sobe em pernas de pau ou numa escada, mas está sobre seus próprios pés.
(Ludwig Wittgenstein)

O escritor maranhense Joaquim Itapary tem uma biblioteca de dar inveja. Somos primos e toda vez que tenho oportunidade dou jeito de fuçar seus livros para breve leitura. Estávamos juntos no Rio de Janeiro quando ele comprou Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell. Não poder eu também ter em mãos um exemplar desse livro de cavalaria que conheci através do Dom Quixote me trouxe pesadelos. Cobrei dele a promessa (não cumprida) que depois me emprestaria. Numa cena curiosa do romance de Cervantes, os amigos de Dom Quixote queimam sua biblioteca por conta de achar que os livros de cavalaria eram os responsáveis pela loucura aventurosa que quase lhe custou a vida.

E sem querer mais ler livros de cavalarias, mandou a ama pegar todos e atirá-los ao pátio. Isso não foi dito à tonta nem à surda, mas a quem tinha mais vontade de queimá-los do que deles tirar teias, grandes ou delgadas que fossem. Ela pegando oito de cada vez atirou pela janela. Jogando assim muitos, um caiu aos pés do barbeiro, que teve curiosidade de saber o que era e viu que se chamava História do Famoso Cavaleiro Tirant lo Blanc.

– Valha-me Deus! – disse o padre soltando um grito. – Temos aqui o Tirant lo Blanc? Me dê ele aqui compadre, faço conta de ter achado nele um tesouro de contentamento e mina de passatempos. Aqui está Dom Kiriéleison de Montalbán, valoroso cavaleiro e seu irmão Tomás Montalbán e o cavaleiro Fonseca, e a batalha que o valente Tirante fez com o alão; as agudezas da donzela Prazer-da-minha-vida, com os amores e trapaças da viúva Descansada; a senhora Imperatriz, namorada de Hipólito, seu escudeiro.

Resultou que daquela inaudita cremação o padre só deixou salvar quatro obras. Uma delas foi a edição espanhola de Tirant lo Blanc (1511), de Joanot Martorell. As demais eram: Diana (1558) de Jorge de Montemor; o Palmeirim de Inglaterra (1547), de Francisco de Morais; as publicações avulsas das Églogas del excelentísimo Camões. Publicado em 1490, Tirant lo Blanc reúne todas as aventuras da tradição cavaleiresca, sem descuidar da condição humana dos personagens, pois os cavaleiros comem, e dormem, e morrem em suas camas, segundo está no Dom Quixote:

– Deveras vos digo compadre, que por seu estilo é este o melhor livro do mundo: aqui comem os cavaleiros e dormem e morrem em suas camas e fazem testamento antes de sua morte, juntamente com todas essas coisas de que todos os demais livros deste gênero carecem. Posto isto, digo-vos que merecia o que o compôs, pois não fez tantas asneiras que o pusessem na prisão por todos os dias da sua vida. Levai para casa e leia verá que é verdade tudo quanto dele vos disse.

Pois foi esse Tirant lo Blanc de Joanot Martorell, um livrão de 850 páginas traduzido direto do catalão por Cláudio Giordano (Ateliê Editorial 2004) que meu primo teve a petulância de comprar e na minha frente enfiar debaixo do sovaco pra nunca mais me mostrar, apesar das lamentações e meu implorar de joelhos.

Certo dia em que visitava o homiziado em São Luís eis que vejo na mesinha de centro da sala um livro. Era o próprio! Estava ali à minha frente o Tirant lo Blanc que eu tanto ambicionei ter nas mãos. Mal abro, emocionado, o volume o que vejo? Centenas de frases marcadas em amarelo, marcadas em rosa, sublinhadas. Folheio as mais de 600 páginas – vejo que tá tudo igual: rabiscos, notas à margem, acima, comentários a textos, números de referência.

Horrorizado abandonei o belo volume ali e nunca mais sonhar ler. Não aquele exemplar. Ler um livro desse jeito rabiscado e marcado é como comprar uma revista de palavras cruzadas com todos os problemas resolvidos. Como cada leitor é um novo leitor, o livro rabiscado só serve a quem rabiscou.

Feito esse preâmbulo, de cuja memória ainda me traz pavor, é hora de perguntar: – A que serve? Comecei a ler e escrever ainda adolescente, portanto naquela atitude natural não havia um por quê nem para quê. Não fazia sentido, nada foi planejado, ler era puro instinto, um tipo de psicografia adquirida que Freud não explica. A leitura que eu fazia era cumulativa e quantitativa na confiança que o cérebro bem alimentado terá condições de regurgitar o que apreendeu como nova obra, adaptada ao seu tempo.

Por isso é que a literatura se gera através da reescrita, releitura de variações sobre os mesmos temas, em novas épocas. Toda arte carece de uma arte anterior. Essa lembrança caótica veio trazida pela leitura do artigo Da utilidade de rabiscar livros, de Barbara Maidel e está em: barbaramaidel.blogspot.com.br, texto que me deixou de certo modo enfarruscado. Então esta a minha reação, na qual uso muitas vezes palavras da própria autora.

A primeira dúvida que o texto me trouxe é: terei sido um leitor ou um não-leitor? Muitas pessoas viram em minha sala estantes abarrotadas de livros e também perguntavam se eu já tinha lido todos. Claro que não, explicava, tem muitos livros que são apenas para consulta, como os quase cem dicionários, enciclopédias, etc. Mas ao contrário de Joaquim Itapary e Barbara Maidel, sou um bibliófilo (vá lá) relapso. Me desfiz de todos os livros que acumulei... Para depois recomprá-los.

Como me senti humilhado ao ser pego no segundo método de identificar o não-leitor, segundo Barbara Maidel: a exaltada repulsa a livros riscados. Odeio livros riscados como odeio revistas de palavras cruzadas já preenchidas. Odeio ver alguém apertar o bumbunzinho da lapiseira na mínima presença de um livro aberto. Fico horrorizado ao ver parágrafos sublinhados, acho feio, um desperdício. Como outra pessoa irá ler o livro desse jeito?

Entendo como puro egoísmo o leitor jamais passar um livro adiante só porque já foi lido. Um livro delirante terminado de ler é mais uma razão para ser difundido a outras pessoas para que possam também se maravilhar.

Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler esse livro arrebatador e [não] sentir necessidade de marcar nada, assumir que o livro é excelente e não doá-lo para alguém ou alguma entidade? Obsessivo-compulsivo, eis aí uma boa definição para quem acha que rabiscar um bom livro é quase um dever. Ter a humildade de reconhecer o fiasco desse ato, é apenas um lenitivo: Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas: tal livro, inutilizei-o com sublinhados; aquele outro, errei ao maculá-lo – diz Barbara.

A confissão soa como mea culpa, mas pode ser um erro de perspectiva. Serve ao caso o que disse Ludwig Wittgenstein: Estipulamos regras, uma técnica para um jogo e depois ao seguirmos as regras as coisas não se passam como tínhamos suposto. Estamos como que presos em nossas próprias regras. Neste caso Joaquim Itapary e Barbara Maidel estipularam regras das quais não podem se libertar, mas que em algum momento se mostraram inúteis, fracassaram.

Senão vejamos o que Barbara Maidel escreveu: O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem. 

Falemos agora entre leitores habituais. Todas as justificativas que Barbara Maidel dá para inutilizar os livros que lê caem por simples aritmética. Ela diz que lê em média três livros por mês. São 72 livros em dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram eternos. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos.

Aritmética pura: serão 400 livros em dez anos (o dobro em vinte anos) – e cada releitura que ela faz conta como outra leitura! Por mais que sejamos superdotados não teremos condições de localizar o que foi rabiscado. Ademais, do jeito que o tempo avança célere, em dez anos muito do que foi escrito e riscado estará obsoleto.

Uso suas próprias palavras: As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. (...) Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Outras justificativas para ela mesma:

* Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 
* Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção.
* Rabiscar livros é para quem tem o hábito de ler deitada e vai para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira para ir marcando e rabiscando.
* Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem.
* Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico. Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Ou será preguiça, comodismo? Que tal pegar um caderno ou fichas para fazer as notas? Ou mesmo no tablet? Comece com os dados: autor, título, ano, editora, assunto. Aí é só fazer as anotações e as páginas respectivas. O texto é longo? Anote as primeiras e últimas palavras. Seja como for tem mil métodos de fazer a mesma coisa sem destruir o livro.

Creio que Barbara Maidel e Joaquim Itapary – dos quais sou leitor incondicional – estão prestes a se perder no labirinto que inventaram para si mesmos, ao seu gosto de ordem. Repito: rabiscar livros é puro egoísmo! Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e não o passe adiante – ou não o guarde – tão imaculado como adquiriu.

Realces, rabiscos, sublinhas, parecem me indicar o quê devo ler, o quê devo entender, tira de mim a liberdade de interpretar, de arrevesar o entendimento do que leio, de sonhar meu próprio sonho ou pesadelo. Sei que esta lamentação em defesa do livro limpo não surtirá efeito. Sei que muitos livros Brasil afora estão assim desfigurados, estuprados, sem salvação. Ainda uma vez me valho da palavra inspirada de Ludwig Wittgenstein:

Do fato de que a mim ou a todo mundo pareça ser assim, não decorre que seja assim. Mas o que podemos nos perguntar perfeitamente é se há algum sentido em duvidar disso.

Rio de Janeiro, Cachambi, 20/09/2016