sexta-feira, 20 de abril de 2018

O bêbado pede desculpas e cai


O bêbado
Paulo Mendes Campos

(...)
O bêbado quer morrer, se desfazer,
Andando sem vontade sobre a terra
Que oferece a seus pés o espaço hostil.
Seu ideal é simples, geométrico,
E o sorriso em que fala ao transeunte
É um sorriso de paz e de ironia.
Nós que andamos certos e orgulhosos na manhã.
E nos apossamos do dia como nosso território natural,
Como entenderemos este ser obscuro
Cujos passos se extraviam e se afastam de nós
E se aproximam de novo e se perdem em atropelo?
Quando seu rosto se inclina para o chão
E outra vez se levanta com um sorriso de paz e de ironia,
Sentimos uma luz de mentira em seus olhos
E tontos de lucidez nos disfarçamos.

**********

Embriaga-te
Charles Baudelaire

Deve-se estar sempre bêbado. Está tudo aí: é a única questão. A fim de não se sentir o fardo horrível do tempo, que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra, é preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.

(Trad. José Lino Grünewald, 1991)

**********

Estou literalmente desesperado, não aguento mais esta vida do Rio, e ou acabo comigo ou não sei. Pra disfarçar as mágoas, vivo bêbado. Tomo porres colossais, dois três por semana. O último médico que me examinou, poucos dias faz, me garantiu que tenho todas as vísceras esculhambadas pelo álcool e estou condenado à morte.
Mário de Andrade, carta a Paulo Duarte.
  
1
        
Fica cada vez mais difícil contar essa história, que pretendia fosse memorialística. Comecei com o título, o que já é mau sinal. “O alcoólatra pede desculpas e cai”, escrevi com orgulho e mostrei a vários amigos. Um deles, mais afoito, simplificou: “Genial!”. Mas, desconfiado com o foguetório, me embatuquei com a facilidade com que o título veio, bateu aquela mea culpa de plágio, que me aflige desde que comecei a ler o blog de Denise Bottmann. Pensei: – Será que já não li isso nalgum lugar, num conto de Luiz Vilela ou Lígia Fagundes Telles ou Dalton Trevisan ou Maria Amélia Melo ou Breno Accioly? Ou em crônica de Joaquim Itapary ou artigo de Napoleão Saboya? Sei lá! E fica cada dia mais difícil saber de quem mais dos escritores brasileiros li esse negócio.

Resolvi consultar a amiga Marilza, que, antes, precisa ser apresentada. Marilza, como alguns podem prever também bebe demais, é um tipo de amiga onisciente que aparece de sem mais nem menos nos lugares mais recônditos onde me escondo para encher a cara. Ainda não descobri quem me dedura. Ela chega já chapadona e na hora exata em que estou ficando bêbado. Daí para frente, pulando de um em um, vamos fechando todos os bares. Depois acordo em casa sem lembrar nada. Mas – não me perguntem como – Marilza não esquece nada. O álcool que ingere atua ao contrário: a memória dela vira uma biblioteca.

Então, ligo para ela e com aquela voz de óleo queimado que todo bêbado tem apresento o problema do título do conto. Nada disso, ela me disse. Tudo besteira. O romance é de Fausto Wolff, que conheci no Pasquim. Lembra aquele artigo do Fausto em que o Zé Andrade aparece com a máscara de Van Gogh pintando uma modelo nua? Pois a modelo sou eu. E desligou.

Fui dormir em paz deixando a questão como resolvida, disposto a não cometer plágio. Mas o sono é bicho traiçoeiro. Sonhei que a Denise Bottmann escreveu um artigo me esculhambando, com denúncia de plagiário. No dia seguinte acordei e vi que tudo tinha sido um pesadelo, mas corri para a internet, claro. Peguei os mecanismos de pesquisa, Google, Ask, Bing, Wikipédia, GoGoDucky – a maioria, enfim, para definir quem eu estava plagiando. E descobri. O título original é: “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”. Para ver como a memória trata os bêbados! Foi sequestro – como diria Mário de Andrade quando se inspirava em poesias e temas do amigo Manuel Bandeira.

No rastro da informação de Marilza, encontrei o livro: O Acrobata Pede Desculpas e Cai, José Álvaro Editores, 1966. Sai o trapezista, entra o acrobata. Sai o conto e entra o romance do gaúcho Fausto Wolff, gaúcho nascido em 1940 e falecido no Rio em 2008. Grande panfletário, Fausto Wolff foi parar no Pasquim. Mas já era admirado por seus artigos nos maiores jornais e revistas do país, com fã clube e tudo. Depois da descoberta decidi manter a adaptação do nome em justa homenagem ao verdadeiro Faustão (não esse do domingão), com quem esbarrei duas ou três vezes no antigo Bar Jangadeiro, na praça Gal. Osório, Ipanema.

Fausto Wolff era grandão, um armário de 2m de altura, encouraçado com uma massa corporal que se aproximava dos 200 kg, cujos sapatos se acercavam do número 50 – uma prancha! Carregava fama de grande bebedor de chope, notoriedade que defendeu num concurso ao qual nem estava inscrito. Foi em Blumenau onde ele estava para lançamento do romance À Mão Esquerda, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti. Após o ritual, pequena palestra e sessão de autógrafos, ele foi sequestrado para uma visita a Timbó, terra do poeta catarinense Lindolf Bell e da cervejaria de Brunhard Borck.

Em lá chegando, cansados, caíram na cerveja e na comilança. Os nomes das personalidades foram divulgados aos frequentadores, o que provocou aplausos, gritos de boas-vindas e a inscrição ex-officio de Fausto Wolff para o desafio de bebedores de cerveja, enfrentando o campeão local. Para encurtar a história, Fausto Wolff venceu a competição e logo retornou à mesa para comemorar a vitória, bebendo cerveja, claro.
        
         Então, como homenagem a Fausto Wolff, deixo a adaptação do título neste este conto, pois, de acordo com as normas internacionais estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde da ONU – a famigerada OMS – suponho que somos dois dignos alcoólatras. Não recuso a honraria, ao contrário de Jaguar, colega de Fausto no Pasquim, que em programa da TV jurou de pés juntos que não era alcoólatra, era apenas apreciador. Mas isso é outra história.

Sai o trapezista, entra o acrobata – sai o acrobata, entra o bêbado.

2

Tenho convicção de que a única pessoa que não pode escrever as próprias memórias é o bêbado. O bêbado bebe demais por qualquer razão: se estiver eufórico, bebe; se estiver depressivo, bebe; se encontra amigos, bebe; se morre alguém próximo, bebe; se estiver alegre, bebe; se estiver triste, bebe; se estiver acompanhado, bebe; se estiver só, bebe. E beberá sempre por qualquer motivo e beberá ainda que não tenha motivo algum.

“A vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora” – escreveu Fausto Wolff em seu último artigo publicado no Caderno B, do Jornal do Brasil.
                  
Por isso, o alcoólatra jamais poderá escrever suas Memórias: ao invés de escrevê-la – se tiver intenção – estará bebendo ou procurando razão para beber.  E depois de beber estará impedido de escrever porque o excesso de bebida trará a amnésia temporária. Temporária, mas suficiente para esquecer tudo o que ocorreu entre a bebedeira e o dia seguinte. Toda a pesquisa que fiz – com a ajuda preciosa de Marilza, claro – está resumida aqui. Ela não quer ser citada de jeito nenhum, foi o que me disse no último pifão. Mas consegui que aceitasse uma citação aqui outra ali. Passar em brancas nuvens, isso é impossível. Ela aceitou minhas explicações, sabendo que a amnésia alcoólica não é desculpa de quem bebeu demais, de quem deu vexame, de quem prefere não se lembrar das merdas que fez. Por via das dúvidas troquei o nome dela.

Marilza, mais que ninguém, sabe que sob o efeito do álcool a gente perde a capacidade de conversar ou executar atos normais e quando fica sóbrio não consegue lembrar o que aconteceu. Após a embriaguez, por um milagre inexplicável da natureza, o álcool age no cérebro e apaga todas as informações da memória. Esse nocaute mental é a proteção que a natureza criou para desagravar o inconsciente, tirar do bêbado a responsabilidade psíquica, aliviar o peso da consciência. Mas ela está imune a esses lapsos.

Por isso a presença dela aqui é mais que inevitável, é imprescindível. Ajudará a entender o destino do chamado bêbado crônico (que ela sabe mais do que ninguém), a amnésia que me acomete quando abuso do álcool, ou seja, a qualquer momento. Não sou como os bebedores esporádicos: sou um bêbado. O bêbado fica incapacitado de tudo, não se importa com o risco de doenças, avecês e pressão alta. Sabe aquele apito no ouvido que só você escuta e que fez Van Gogh cortar a orelha? Eu tenho, mas não ligo nem vou cortar minha orelha.

         Então, o que salva o bêbado é a amnésia, mas o esquecimento temporário degenera para a Síndrome de Korsakov (isso não é marca de vodca?), o universo da amnésia se expande, deixa de atuar só sobre os fatos do porre, mas também sobre o passado e a agenda futura. O velho vai à padaria e esquece o que foi fazer, esquece o caminho de volta para casa. Isso já ocorreu, deu nos jornais. A culpa é do Alzheimer... não do alcoolismo. A pessoa acorda sem fazer a menor ideia do que aconteceu são comuns. É gatilho bioquímico, salvaguarda dos bêbados para esquecer o que aconteceu durante a carraspana. O blecaute alcoólico é a lavagem cerebral inventada pelo DNA. O apagão faz o bêbado lembrar apenas as lembranças boas. Toda a merda que o bêbado apronta desaparece da cabeça como por milagre.

3

A história de que “Deus protege as crianças e os bêbados” é meia verdade. É certo que às crianças Ele dá algum tipo de proteção, porque senão elas ficariam à mercê do Diabo, exagerando nas travessuras, antecipando a sexualidade, prometida para depois. Psicanalistas acham que isso não é outra coisa senão a busca pela liberdade, genética remetida por Adão e Eva – que trocaram o Paraíso pelo livre-arbítrio. O Paraíso do bêbado é esse esquecimento involuntário – que também virou matéria freudiana. Os bêbados não guardam nem a memória dos imbecis, segundo a lei de Ribot. O fato é que a amnésia teve que ser recortada como boi no matadouro para que dela se apartasse o filé mignon da carne de pescoço.

Porca miséria! Para que fui me meter nisso? A loucura da internet me levou por caminhos que não cabem nesta história. Para que serve a hipomnésia – a diminuição da função mnésica? E a amnésia lacunar – variedade da amnésia de fixação, quando houve o “verdadeiro rictus amnésico”? E a amnésia anterógrada – incapacidade de guardar fatos novos na psicose de Korsakov. Porra! Pensei que Korsakov fosse nome de vodca. Meu! Isso é puro espiritismo!

Portanto, para escrever esta história vou pular a amnésia de recordação, a amnésia retroanterógrada, a hipermnésia (ainda que seja uma capacidade de mnésica elevada). Passo longe também da paramnésia e a porrada de amnésias subliminares, isso porque gostaria de me fixar na amnésia alcoólica. Apesar do quê, tenho interesse pessoal em estudos sobre a memória porque sou aficionado do xadrez, jogo que traz outro caralhão de fábulas, anedotas, mistérios e rabugices iguais às tratadas na amnésia, como se fossem antônimos, espelho do mesmo paradigma. A amnésia alcoólica nasceu para transformar o paradigma em disparate.

Também não vou entrar no mérito do absurdo nas pesquisas, pois então iria cair no buraco do coelho inventado por Lewis Carroll em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas:

Ainda garotinha, Alice Kingsleigh visitou um lugar mágico pela primeira vez e não tinha mais lembranças sobre o local a não ser em seus sonhos”.

Alice escorrega numa toca de coelhos e é transportada a um lugar fantasioso, povoado por criaturas estranhas. Toda a escrita, feita para crianças, transmite a lógica do absurdo, característica do sonho e da amnésia posterior à imaginação, ou seja, coisa de bêbado. Prefiro, porém, transitar pelas fronteiras da ciência e da fé, pois a memória é feita de momentos: bons, ruins, divertidos, de aprendizado e conhecimento, porém para nos lembrarmos deles tudo depende do cérebro. Lewis Carroll escreveu a história de Alice depois de um porre.

Uma das lembranças que Marilza me transmitiu foi a de que eu estava abraçado a uma mulher. Trocávamos beijos. Quem terá sido?  Decerto Marilza é um espírito iluminado que chega ao outro lado consciente de tudo que aconteceu.  Quando nos encontramos – os dois bêbados – nós estudamos juntos toda essa situação e depois de tudo, prometemos rir dos que não creem estar mortos, continuam a agir como os vivos, assistem ao próprio funeral e acham que é sonho.

E pensar que tudo começou quando nós, mesmo bêbados, fomos assistir ao filme Ghost no qual Demi Moore tenta se comunicar com Patrick Swayze através da médium de araque Whoopi Goldberg. Após assistir ao filme, decidimos beber mais umas e o assunto foi especular se o relatado no filme era possível. Marilza acha que sim, a vida depois da morte é possível.  Já cá eu tenho minhas dúvidas: ora concordo, ora discordo. Como estávamos bêbados, caímos na esparrela de prometer que, quem morresse primeiro iria repetir o enredo do filme, isto é, tentar se comunicar com o sobrevivente.

Fizemos isso tudo para não dar o vexame daqueles mortos que ficam circulando ao redor do caixão, entre familiares e amigos, tentando entabular conversa, ignorando o silêncio, a indiferença, sem entender porque alguns choram – porque se sentem vivos. Mas é um sentimento aparente. E depois? Na rua ou em casa, tenta se comunicar com naturalidade, mas ninguém contesta suas palavras e por fim se desorienta: o que está acontecendo? É um filme, é um filme...

Morrer leva muito tempo para cair na real, pois se aprende que os bons vão para o céu. O egoísmo faz a gente crer que somos um desses e ficamos esperando que o anjo nos pegue pelas mãos e leve a alma aos céus... Quando enfim percebe que tudo não passa de triste ilusão, quando se dá conta que nenhum anjo virá, que foi traído em suas convicções religiosas, em sua fé, vem a catástrofe: os espíritos ficam perambulando, agarrados aos bens materiais e entes queridos, até ser engolido pelo nada, o vácuo.

4

Eu e Marilza frequentamos o Centro Espírita Pai Joaquim de Angola para sacramentar nossa preparação e falsear a abstinência que nunca vem. Foi o próprio Pai Joaquim de Angola que – depois de virar um copo de Praianinha – nos atirou nos braços de Santo Onofre. Além das obrigações, oferendas e ebós prometemos saber da vida do pobre eremita barbudo, que se vestia com roupas de riscado e tinha como camisa os próprios cabelos longos, nunca cortados.

Devido à absti­nência religiosa – Santo Onofre nunca bicou uma cachacinha sequer – é indicado para derrotar o vício do álcool. Apesar disso, é tradição derramar um pouco de cachaça "para o santo", referindo-nos, claro, a Santo Onofre. Boêmios, grandes bebedores, apreciadores e cachaceiros também convocam o velho ermitão para padroeiro e protetor, porque, segundo reza a tradição, se você beber a ponto de não saber como chegou em casa, pode ter certeza: foi por intercessão de Santo Onofre que chegou a são e salvo.

Tudo o que se sabe de Santo Onofre nos chegou através dos relatos do abade Pafnúcio, datado do ano 400dC e da obra de Eça de Queirós, da qual alguns excertos estão aqui. Eça de Queirós conta que antes de fundar seu próprio mosteiro Pafnúcio desejou ser eremita e foi procurar santos que viviam em devoção, isolados em cavernas. Na busca encontrou o velho ermitão Onofre, de quem ouviu tudo sobre os setenta anos de solidão, meditando e adorando o Senhor.

O folclore diz que Onofre é Santo Forte, que atende pedidos impossíveis. No entanto, para a graça ser alcançada bom mesmo é pedir para o santinho roubado da igreja. Se não funcionar, deixe o Santo Onofre de costas para a bebida. Então, é tiro e queda. Na Bahia e no Maranhão um dos mais poderosos pedidos feitos ao Santo é o das putas chamando fregueses mostrando as partes. O saco que traz às costas deu ao Santo o infame título infame de padroeiro dos políticos. Ora, roubar o santinho, deixar o coitado de costas para as bebidas, tudo isso é mais infame que ser padroeiro de político, não é?

Nas igrejas um livrinho que contém a vida de Santo Onofre, sua novena, oração e ladainha é distribuído aos bebuns mais notórios. Durante a novena os devotos refletem sobre passagens bíblicas, fazem orações para o pedido da cura do bêbado acompanhadas do Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória-ao-Pai, Améns. A reza não pode ser feita por quem tem o vício da bebida, senão não pega, a graça é negada. No altar onde a imagem do santo está exposta, deixa-se um copinho de cachaça, tiquira, rum ou uísque – depende de onde se faz o pedido. Reza-se sempre a

Oração de Santo Onofre para parar de beber

“Ó Santo Onofre! Que tivestes a graça divina de vencer o vício do álcool. Conhecedor as atribulações que o vício proporciona, intercede por mim junto a Cristo, que gostava de um vinho. Santo Onofre estou fraco, preciso da sua força espiritual e da sua fé; estou doente, preciso de saúde. Santo Onofre, livra-me da tentação do primeiro gole, que é o melhor de todos! Livra-me do vício que nenhum humano pode vencer. Prometo me afastar de todos aqueles que querem me fazer desistir dessa decisão. Ó Santo Onofre, sei que beber é coisa do Diabo, mas preciso de seu poder espiritual, para não beber nunca mais! Afasta-me da bebida, de Satanás, hoje e sempre. Amém.”
        
Cumprimos a novena, mas como nem eu nem Marilza ainda morremos (tampouco paramos de beber) ficou a coisa assim no ar. Por isso e por ser mais cômodo, transferimos a responsabilidade para a ciência: acreditamos piamente que ter amnésia alcoólica é morrer um pouco e que nem Santo Onofre nos livra do vício e do esquecimento póstumo – a amnésia alcoólica...

5

Estava no metrô seguindo para a Praça Mauá quando o celular tocou. Não era um toque qualquer, era um som pornográfico, com gemidos, gritinhos, música ao fundo, decerto gravada desses sites pornôs. Sabe como é: muito ai ai, ui ui, vou gozar, vou gozar, mais, mais, gostoso, gostoso, gostosa, gostosa – e mais uma dezena de grunhidos de sexo explícito. É claro que àquela altura muitos passageiros se viraram para ver de onde saía aquilo, me olhando com a cara mais reprovável do mundo, como se eu fosse um criminoso. Ainda bem que não tinha crianças, mas uns estudantes começaram a rir...

O som se repetiu uma, duas, muitas vezes. Depois de enfiar a mão em vários bolsos consegui achar o telefone que continuava a reproduzir as pornográficas sensações como se fosse ela própria uma orgia. Apertei em alguns botões tentando silenciar a pornografia sonora, sem conseguir. O rapaz que sentava a meu lado me tomou o telefone, correu o dedo sobre a tela para um lado e me devolveu para atender a chamada. Era Marilza, bêbada naturalmente.

– Marilza! Você é louca? Eu pedi para trocar o som do meu celular, mas não era para botar música de filme pornô! Agora estou no metrô e todo o vagão ouviu essa porcaria e alguns já ameaçam me linchar.

E bem baixinho para que só ela ouvisse:

– Tem uns moleques aqui, uns estudantes, que já estão a ponto de se masturbar. Por outro lado, os senhores e as senhoras sérias, de cara franzida, estão prontos para me dar porrada.
 ...

– Você é louca? Trata logo de tirar esse negócio do meu telefone. Sei lá! Bota outra coisa. Aquela musiquinha Para Elisa, de Beethoven, por exemplo. Não quero gravação de filme pornô, ora.
 ...

– Não é filme pornô? Você mesmo gravou ao vivo? Mas que história é essa? Onde você estava para gravar essa porcaria toda e botar no meu telefone?

Eu disse e repeti a frase em tom mais alto para aliviar a barra. Dei uma olhada e vi até uns gestos de concordância com o esporro que eu dava em Marilza.
 ...

– Como? Você mesma gravou? Em sua casa, no dia da festa? Que festa? Não me lembro de ter ido a nenhuma festa.
 ...

– Ah. Aquela festa. Mas naquele dia eu bebi tanto que nada me passa pela lembrança. Só do dia seguinte, da dor de cabeça, da ressaca. O gato vomitou ao lado da minha cama...
 ...

– O quê? Eu bebi dois litros de uísque? Misturei com caipirinha e cerveja? Então tá explicado: como você quer que eu aguente tudo isso? Fiquei chumbado. Não sou mais um rapaz, Marilza. Se você gosta de mim não deixe que isso aconteça.
 ...

– É. Sim. Devo ter feito muita loucura. Bêbado só faz merda... Mas ainda assim não consigo entender como você gravou esse maldito som e ainda por cima botou em meu celular! 
 ...

– O quê? A voz masculina é minha? Ah, não enche...

A essa altura não conseguia mais controlar minha irritação e minha voz troava em todo o vagão. As estudantes riam, os moleques gargalhavam e surgiu até grito de torcida:

“Aí, coroa, tá com tudo, né?”

“Valeu, mandou bem, velho!”

– E outra coisa: aqueles gritinhos de ai ai, ui ui, não são nada verdadeiros. É tudo fingimento teu. É coisa de atriz pornô mesmo. Tenho autocensura suficiente para saber que não estou com essa bola toda, não faço mais ninguém gemer tanto, a não ser de porrada.
...

– Conversa fiada. Você me ama? Ah, me faz rir. Você tá a fim do meu dinheiro, mas também sabe que não sou nenhum Mike Jagger. Sou um durango. Um dia chega e essa mixaria acaba... 
...

– Mais o quê, Marilza? Ainda tem mais? Além do uísque, da caipirinha eu tomei dois viagras? Marilza, você é demente? Sua bêbada! Você não sabe que sofro do coração, que tenho pressão alta? Você quer me matar, Marilza?  
...

– Você não viu eu tomar o Viagra? Eu que te contei? Eu devia estar fora de mim... Marilza, se você gosta de mim um pouquinho como diz, não deixa isso se repetir. Pelo amor de Deus!

De novo bem baixinho no ouvido dela:

– Marilza, com dois litros de uísque, caipirinha e dois viagras eu sou capaz de comer até tua mãe... 
...

– O quê? Tá rindo de quê? Eu comi? A dona Cremilda? A minha sogra? Aquela voz, aqueles gritinhos, os gemidos, tudo é dela? E você gravando? Sua devassa! Beberrona! 
...

– É muita palhaçada tua. Então foi botar isso no meu telefone para me chantagear, né? Um presente? Tá bom... Mas comigo não cola, vá chantagear outro otário, não esse aqui.  
...

– Sei, sei. Mas uma coisa que não compreendo, tua mãe, aqueles peitinhos, sabe que ela está muito bem para a idade? Para falar a verdade te bota no chinelo! Ouviu Marilza? Te cuida. Abre teu olho. Te cuida! 
...

– É tudo silicone? Sei. Mas ficou ótimo. O dinheiro foi bem gasto. Foi em Miami? Dr. Décio? É aquele que tem até programa de TV? Valeu, sim, valeu a pena pagar por cada peito US$ 10 mil. 
...

– Mas isso não se justifica, Marilza, você me deixar fazer essas coisas. Uísque, dois viagras, caipirinha. Isso é loucura, Marilza, você é doida demais! Você sabe que sofro do coração, que tenho pressão alta. Você quer se livrar de mim, não é Marilza? 
...

– Se você quer que eu morra para vir falar com você como no filme Ghost, saiba Marilza, aquilo é um filme. UM FILME! Não é real. Você não é Demi Moore, eu não sou Patrick Swayze e tua mãe não é Whoopi Goldberg. 
...

– E ainda por cima teve a coragem de botar tudo isso no meu telefone? Não! Não precisa mandar mais som, nem foto, nem vídeo! Maluca! Olha, faz o seguinte...

Nesse momento a ligação caiu. Dei graças a Deus. Mas foi por pouco tempo. Daqui a pouco começa tudo de novo: ai ai, ui ui, vou gozar, vou gozar, mais, mais, gostoso, gostoso, gostosa, gostosa, urros e grunhidos de sexo explícito. Desta vez consegui parar o som mais rápido e atender.  
...

– Marilza! Alô, Marilza! Alô. Não me liga mais. Vou desligar. Te ligo depois.  
...

– Ah, é Dona Cremilda? Desculpe, não reconheci a voz. Como vai a senhora? Desculpe mais uma vez: Cremilda, pronto, só Cremilda. Então, como vai você? Sei, lembro sim, claro que lembro. Aquela festa foi de lascar. Você sabe que a louca da tua filha gravou tudo?  
...

– O quê, Cremilda? Foi você que pediu? E botou no meu telefone? E agora, sabe onde estou? No metrô, indo para a cidade e todo mundo – todo mundo, ouviu Cremilda? – todo mundo ouviu esse som e pela cara poucos aprovaram. Terei sorte se não for processado ou preso.

A essa altura o vagão todo estava ligado na minha conversa. Teve gente que até deixou de saltar para continuar ouvindo. Uma loucura, gritos, assobios, torcida para Cremilda! Cremilda! Torcida para Marilza!  Marilza!  
...

– Sim. Sim. Entendo. Mas você, sendo mais experiente, não devia ter me deixado beber tanto. Não, não estou chamando você de velha. Aliás, pelo pouco que guardei, o seu desempenho foi excelente. Melhor do que a Marilza! E esses peitinhos made in Miami... Espetacular, Cremilda! Fantástico!   
...

– Sim, Marilza também me disse que fiz muitas loucuras. Espero que com você também na cama eu não tenha decepcionado. A gente precisa se ver mais vezes, sabe? A Marilza precisa de jovem, garanhão, desses que transam jogando games...  
...

– Foi? Jura? Lá dentro? Olha, então foi inspiração tua. Nunca fiz isso com outra mulher. Quantas? Ah, Cremilda, meu amor, não mente. Pára! Me engana que eu gosto. Assim vou acabar acreditando...  
...

– Mas Cremilda, minha querida, convenhamos que aquela era uma festa atípica. Muita loucura. Repito para você o que disse a Marilza: com dois litros de uísque, caipirinha e dois viagras eu como até tua mãe...  
...

– Tá rindo de quê? Pode parar, pode parar.  
...

– O quê Cremilda? Eu comi? A dona Zizinha? A tua mãe? Mentira! Mentira tua. Você está me sacaneando...  
...

– Verdade? Mas como ela conseguiu levantar da cadeira de rodas? Não brinca! Eu desfilei pela sala na cadeira de rodas com dona Zizinha nua no colo? E a velha ria e cantava? Puta merda!  
...

– O quê Cremilda? A dona Zizinha nem precisa mais de cadeira de rodas? Doou para o asilo? Milagre, Cremilda! Milagre, Cremilda! Isso é que se pode chamar de verdadeiro milagre.

6

O telefone tocou. A essa altura já tinha tirado aquele toque imoral e mandei botar a chamada tradicional: meu telefone parecia com os velhos aparelhos pretos feitos de baquelite com buraquinhos numerados para discar. Tttrrriiimmm. Tttrrriiimmm. Tttrrriiimmm.  Atendi. Era Marilza. Incrível. A voz dela estava límpida como água mineral. Marilza estava sóbria! E começou a falar me dando um esporro entremeado com palavras morais que nunca tinha ouvido sair da boca dela. Não era o vocabulário de Marilza. Falava como um pastor evangélico.

– Quero te dizer que Jesus Cristo me libertou das imposições da bebida, da carne e dos pecados que o Diabo colocou sobre mim. Estou livre e a liberdade em Cristo me deu plenas condições de dizer: Não! Parei de beber. Mesmo socialmente. Preferi não brincar mais com algo forte e viciante quanto o álcool. Deus me deu um corpo para cuidar. Quero te ajudar também. Sei que você está viciado e acha que bebe controlado. Isso é um sério problema, mas confio em mim, em Jesus e em você.

– Marilza, você virou evangélica!

– Tudo bem, virei sim. Me entreguei a Jesus. E quero você comigo. Descobri que a bebida é fonte de pecados e vícios. Escute bem: por mais de dois mil anos prevaleceu a ideia de que a bebida é diversão, dádiva que só traz alegria. Que, ao contrário, a embriaguez sim é pecado. Lutero bebia vinho e era grande bebedor de cerveja. Foi num dia de muita bebida que ele resolveu se revoltar contra as indulgências. Calvino recebia todo ano sete tonéis de vinho belga, inspirador das criminosas reformas que ele fez na igreja suíça. 
        
– Mas Marilza...

– Não tem mais nem menos. Será a única vez que falarei a você sobre isso. Sei que você precisa de ajuda e não de acusações. Vem comigo: o alcoólatra que aceita Jesus será libertado do vício e se tornará homem de Deus. Por isso estou te ligando. Você foi a primeira pessoa que Jesus me encarregou de salvar. Para alcançar essa graça estou juntando forças com irmãos missionários... Para salvar você, para que você entregue sua vida a Jesus.

– Marilza, não estou mais bebendo como naquele dia, como naquela festa. Sei que tenho de maneirar, de dar um breque...
        
– Eu achei que não fosse ter mais esse tipo de conversa com você. Infelizmente eu estava enganada. Porque vi o seu pior lado. Enquanto estava só me atingindo doía. Quando você escolhe ferir a si próprio e beber até perder os sentidos, se transformar em chacota ambulante, conforme presenciei, é um mal, uma atitude desprezível e lamentável.

Meu Deus! Que sinuca de bico! Marilza evangélica! Marilza pastora! Marilza curando os bêbados. Quando eu contar a novidade ao Quincas, ao Napô, ao Braguinha – amigos de cervejadas e alegrias – sei que não irão acreditar, pois a coisa mais improvável de acontecer se realizou. Marilza, aquela devassa, virou casaca.

– Não tiro sua razão, Marilza, mas a gente não pode parar assim de repente como você fez.

– Pode sim! Eu pude. E mamãe está comigo. Só a vovó encasquetou que não quer se entregar a mais ninguém senão a você. A velha está caduca. Mas todos podem, com a graça do Senhor.

– Sua mãe, a Cremilda? Também virou evangélica? Não acredito.

– Pois acredite. Liga para ela! O que mais me emputeceu foi ver você beijar outra mulher. Você destruiu a nós também, a nossa amizade, nossa relação... Ao te ver agarrado a um poste, às paredes, tentando se equilibrar. Ver as pessoas te sacaneando e te zoando. Todos te tratando como a um bêbado escroto, não deu... Porque não sabem o grande homem que existe por trás dessa criatura bizarra que surge quando você sucumbe à doença, doeu muito!

– Tá certo Marilza, tá certo, reconheço: sou um bêbado! Mas vivendo num país como esse, terra de políticos ladrões, empresários corruptos, e pastores, sim Marilza, os pastores estão nesse bolo também! Não dá para aguentar tudo isso sem beber umas e outras...

– Claro que dá. Deu para mim, dá para você. Quero que saiba que para mim esse foi o limite! Para mim acabou! E você terá que tomar uma decisão na sua vida. Ou pára de beber ou morra sozinho. Não quero mais. Não admito mais. É doença. Vá se tratar. Ou eu tô fora!

– Mas como você resolveu assim tão rápido? Nem me falou antes, nada, não soube nada.

– Tomei a decisão porque vi você fora de si, sem consciência nem ciência. É triste demais de ver alguém que amamos nesse estado. Aproveita a chance que Jesus está dando. Mais uma dessas e resolverei de outra maneira e de uma vez por todas. Ou, conforme eu disse, vá morar longe dos olhos de quem te ama!

Sublinhei a frase porque não quero deixá-la no limbo da amnésia. Já vi na TV história sobre a mulher que virou evangélica e acabou por assassinar o marido alcoólatra que não conseguiu arrebanhar para a igreja.

Meu amigo Walter, que bebia muito comigo, sumiu. Fui saber notícias na casa dele e lá me contaram que tinha viajado. Walter nunca mais apareceu. Quando vi o quintal recém concretado, sem a mangueira sob a qual eu e Walter bebemos tanto, entendi tudo. Não quero ser o próximo. Foi a última vez que eu e Marilza fizemos contato. Nunca mais a encontrei em lugar nenhum. Aleluia, irmão!


Rio de Janeiro, Cachambi, setembro/outubro de 2017. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Fernando Braga: Conversas vadias

Rimances de ontem e sempre *

Recebi pelos correios ‘Canções de Roda nos pés da noite’, que seria na ordem cronológica de publicações, o 44º livro de Nauro Machado e ‘Colheitas’, de Arlete Nogueira da Cruz. Nauro, nos estertores da morte, pedira à Arlete, sua mulher, que o fizesses de logo publicar dentre seus trabalhos póstumos, vez que este livro é dedicado às netas Luísa e Júlia, filhas do cineasta Frederico Machado, filho único e herdeiro da eugenia brilhante do casal.

O outro exemplar, ‘Colheitas’, é uma antologia poética de Arlete Nogueira da Cruz, a enfeixar poemas de ‘Canções das horas úmidas’, 1973; ‘Litania da velha’, 1996/7 e ‘O quintal’, 2013/14.

Essas duas lembranças vieram acompanhadas de um terno e generoso bilhete de Arlete, a falar da dimensão do tempo que a assoberba de afazeres, bem como da nossa tríade saudosa, querida e fraterna. Juro que meus velhos e míopes olhos lacrimejaram. Realmente, o tempo é implacável!

I

N’O quintal dos Prazeres’, que se mais parece com um título de um romance dalguma quinta portuguesa, e o é por semelhança, porque lá foi a antiga morada do poeta, onde se ergue hoje a ‘Casa de Cultura Nauro Machado’, ele enobrece mais ainda aquele seu recanto neste canto:

“A poesia com que falo
pela boca em mim maldita,
querendo a que canta o galo
que pela manhã mais grita,
a poesia sem a sola
dos sapatos do poeta,
é a que leva em sua sacola
as cadernetas da neta,
a cantar pela manhã,
como quem abre a janela.”

E para o ‘Hotel Nazareth’, sobradinho verde, que abrigava nos baixos ‘A Casa Ribamar’, especialista em instrumentos musicais, e defronte do ‘Atenas bar’, nosso velho tugúrio alcóolico e poético, Nauro canta em contraponto:

“Se tocas cordas
cercando lívidos
pescoços-covas,
meus vocábulos
são de enforcados,
tombando do alto
de outros sapatos.”            

No ‘Sobrado do Carmo’, solar do clã dos Machado, velho e intransponível quartel das oposições coligadas do Maranhão e ainda redação de ‘O Combate’, onde nasceu o poeta e viveu parte de sua vida, seu choro é ecoado pelas centenárias sacadas a ferro:

“Do outro lado só há o nada:
ninguém te segura os dedos,
nem mesmo tua ama, a fada
que ainda te guarda os segredos.”

E clama em ‘A idade da pedra’, num laivo quase uterino:

“Nenhuma mãe
me teve velho;
vivendo em mim,
sou um homem órfão
desse menino
que não morreu.”

E ‘De vidro e treva’, Nauro projeta-se:

“Era tu espelho, filho,
o resto que era o meu.
Era o espelho de um pai,
a face que era a tua.
Nessa eterna presença
viverá nosso tempo.”

“Aos pés desse tempo em projeção do qual cada anoitecer precipita tanto nova aurora quanto o fim a todos comum, encontram-se os polos dos poemas aqui reunidos: o socorro do verbo a conclusão da matéria humana”, disse nas abas do livro, com muita propriedade, Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos.

Quem viu o rosto de Nauro não morre nunca! Nauro está vivo!

II

Sobre ‘Colheita’, de Arlete Nogueira da Cruz, endosso Assis Brasil quando diz que “ela atinge o ser da literatura poética, e, por sobre a norma da língua, atinge a arte da palavra, com seus poemas inefáveis, fiel à tradição da imagem, que tem marcado a poesia.”

E Arlete canta à Cidade de São Luís:

“Ó cidade de São Luís
estanco nestes degraus
subindo escadas que fiz
suando os mais altos graus.
Acolhe esta andarilha
subindo no desamor
das águas que me querem ilha,
de outras que me trazem dor.”

Ao alongar a vista desarmada para Itapu tapera [lê-se Alcântara], Arlete acende uma estrela na tosca luz da aristocrata cidade escondida na linha do horizonte, a cantar:

“Onde o verdugo passou
e a solidão ainda mora.
Alcântara suportou
sua noite e a sua aurora.”

E finaliza:

“Na quitanda que não vejo
para a fome deste dia,
da criança que eu almejo
nos paços da burguesia.” 

Como filha querida, volta à prosa, numa bela crônica, e canta sobre o pai em ‘Raimundo, simplesmente Raimundo’, de onde extraí este excerto:

“Era um homem recatado, contrito, humilde, que rezava o pai-nosso todas as noites com as limpas mãos cruzadas entre as pernas, e, depois de fazer o sinal da cruz, deitava e dormia sem remorsos, porque tinha o dever cumprido e a consciência limpa.”

Arlete retorna ao verso novamente e diz à sua mãe Enói, com muito amor:

“Neste mês de novembro
encontro a minha lua generosa.
Tu me tens, lua-luar,
desde quando me protegias
nessa tua forma ovular crescente,
mesmo depois, quando minguavas,
também hoje em plenitude,
nesta noite de novembro,
lua-minha que vai e volta,
lua cheia, tu me tens.”

E para Nauro, o velho marido e querido poeta, Arlete, engolindo o soluço e esboçando um sorriso se esforça para dizer em ‘Relíquia’:

“Nuvens avançam sobre líquidas travessias
enquanto sólidas lágrimas te guardam
sob pálpebras congeladas de assombro”.

E em ‘Regozijo’:

“Ó consumado gesto de uma alma
que aflorou desperto de seus dedos.
Para sempre, sobre a morte,
ele triunfa em tais segredos
para sempre ficará em júbilo de versos.”

Que trajetória ascendente e bem construída foi o caminho literário de Arlete Nogueira da Cruz, que ainda muito jovem, sob as vistas de uma crítica ferina encastelada nas muralhas centenárias de São Luís, fez explodir a novela ‘A Parede’, com uma apresentação emocionada de Josué Montello.

Depois a vida em si. o casamento, uma união do útil com o agradável, a paciência e a fragilidade de Arlete ante o espírito ambulatório e a genialidade de Nauro Machado, surgindo os dois de uma mesma lâmpada mágica.

Depois Frederico, a estudar cinema, a dar, assim, um conteúdo acadêmico ao que o pai de há muito já aprendera na forma poética nas telas do Roxy e do Éden.

Por fim, o nascimento de Luísa e Júlia, as netas. A litania da velha que é um livro fantástico. E mais versos, contos, conferências. Entendi Arlete, porque faltou tempo para te alongares no bilhetinho que mo fizeste! 
__________________

*Fernando Braga, in Apontamentos para jornal e para a antologia de textos do autor.

Ilustração: Capas dos livros ‘Canções de roda nos pés da noite’, edição póstuma, de Nauro Machado, [poemas], 2016 e ‘Colheita’ [antologia] de Arlete Nogueira da Cruz, 2015. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

João Rovedo, A outra face da Ilha


João Rovedo, meu irmão, foi poeta. Poeta-menor, porque prisioneiro da poesilha – a poesia que encarcera do mesmo jeito que o mar enclausura a ilha. Não foi o primeiro nem será o último a se emaranhar nesse asilhar voluntário que encerra corpo e espírito. Uma ilha é potencial Alcatraz da alma, no entanto, nem tudo se enjaula, nem tudo se fecha em si.

No primeiro clamor, a própria natureza que isola e prende e recolhe, sob a tranca de aparência inviolável, a assombração se revolta, liberando o espectro da poesia. Então, tudo se transfigura, tudo é visão, aparição daquilo que o poeta viveu e morreu.

O livro “A outra face da Ilha” – do qual segue uma antologia – reflete toda a fantasmagoria que os meios sobrenaturais e extraordinários da ilha estilhaçam o ser e a poesia. Quimera, utopia, aparições, fazem parte do conjunto de visões fantásticas e irreais que povoam a poesia de João Rovedo. Está tudo ali, sem tirar nem pôr.

O poeta Fernando Braga conta como escreveu a introdução ao livro, onde esmiúça com melhor visão a poesia de “A outra face da Ilha”:

Parece que foi ontem... Uma noite só nós dois, na casa em que eu morava no Araçagy, diante de uma pinga boa que trouxera do Mercado Central, começamos a bebericar, e eu apostilei essas notas.  Nós dois nos encantamos... Deu-me vontade de chorar agora...

Apresentação

Fernando Braga

João Rovedo é o autor de “A outra face da Ilha”, livro com que abre uma porta ao universo poético maranhense, mais particularmente, de São Luís, esse território de artistas e pensadores, de lendas e abusões.
Nesse campo real e mítico, os versos desse mercador de sonhos atrelam-se em espaços lúdicos onde, na maioria das vezes, se abstraem tomados pelas formas livres como a viração nas tardes da Ilha.

São versos quase dispersos que migram entre si, se identificam com os fatos visíveis da paisagem ludovicense, marcante no seu todo como contexto a realizar-se como ancoradouro emocional e visionário tendo como objetos os sobrados e sacadas, portais e janelas, fontes e mirantes, becos e azulejos como projeções em seus sentimentos e lembranças, símbolos mais que suficientes para motivação poética.

São ainda carregados de signos os poemas deste livro, que os fazem cambiantes, alguns aflitos e com gritos sociais, estridentes mesmo, bem à moda do tempo que ora passa; outros, embalados na boa querência, falam de amor à Ilha e aos frutos de sua eugenia, mas todos recortados por vezes de uma realidade que o limite é a franqueza.

“A outra face da Ilha”, do poeta João Rovedo, é manejado com características pessoais: são versos que emergem como partes naturais de seu intimismo, engenhados por crença do autor, sem pontuação, a conduzi-los a um único fôlego, mas que mesmo assim chegam plenos e inteiros ao outro lado da travessia, agarrados à palavra, essa lavoura indomável de estrutura verbal, esse encanto linguístico que faz a essência do poema ser eterna e com ela se corporifica e se espiritualiza e se personaliza.

Meu caro João Alfredo Boabeyd Rovedo, em obediência às determinações de Deus, sempre é tempo de ser poeta, mesmo que ali não mais tenha a face de ontem.

Antologia
RETRATOS

O que descrevo da cidade
É o que os artistas pintam
É o que os poetas cantam.

Está tudo aí à luz do sol
Sobre este chão que pisamos
Sob este céu que nos cobre.


VITRAIS

Nos entrepassos do alvorecer
sobre paralelepípedos da rua grande
rumo ao abrigo da praça João Lisboa
para saciar a ressaca do bar
Duas Nações.

É quando os reflexos do sol
como vias cambiantes da vida
irradiam novo ciclo na Ilha
nas sacadas e janelas abertas
da manhã.


IDOS

Quando ainda existiam
na Rua da Palma
os cabarés e a boemia
deixei a minha alma
dividir amor em demasia
entre putas que fingiam
na ilusão não percebia
a verdade nua e crua:
de que muitos chorariam
a morte daquela rua.


MATUTINA

Na excomunhão da noite
foi somente o que restou:
uma estrela a testemunhar
as lágrimas da lembrança.

Na Ilha sequer a lua cheia
que o amor incendeia
vem dar o ar da sua graça
para aplacar a solidão.


ÍNCOLA

No entremeio dos gatos
e ratos do Beco da Bosta
uma rosa viceja ao rés
dos últimos raios de sol.

Somente então o poeta
adormece os seus medos.


LAGOA

            “Porque o que é verdade à luz da lamparina,
            também é verdade à luz do sol”.
                                   Salomão Rovedo

Lagoa Nhá Jansen empírica
vives de causas e de dramas
entre uma e outra política
muitas lágrimas derramas.

Lagoa Nhá Jansen cativa
dos prédios e dos manguezais
que ainda te mantém viva
ecoando gritos e tristes ais.

Lagoa Nhá Jansen concreta
de coração sangrado e exposto
estás sem rimas e sem poeta
que te possa cantar sem desgosto.

Lagoa Nhá Jansen sem pose
foram-se os tempos de esplendor
és somente uma lagoa – à la rose
com o mesmo cheiro e a mesma cor.


PALAFITAS

Sobre o reino do Chama maré
As vidas em pau a pique e embira
Brincam no boi-de-taipa e de fé
Outras brincam no boi da mentira.


LIUZ

Pelos cantos das ruas e do passado
piso as pedras calçadas da história,
marco os passos e ao silêncio atado
trago amores e encantos à memória.


LUX

Estou no pensamento isolado
na folha que baila ao vento
no papel que carece de sorte
sonho mais que um sonhador.

Estou no fim da fumaça
olhando o mundo inteiro
começo no meio da ilha
na ilha que está em mim.

Estou na estrela pálida
na terra que não tem luz
sou o fluido do carinho
do amor que não se calou.


MÃE D’ÁGUA

O corpo das vestes despido
que o circo lar te conduz
sabe ser inconteste na fome
da rima faz o pão.
Na viagem de uma gota d’água
a luz viole(n)ta da vida
converge às palafitas
que emergem da solidão.
E do mirante dos pós
onde a palavra edita
os dias que a vida escoa
no escarro dos avós.


AS PRAÇAS

“Mas o nosso povo, punge dizer, tem particular
desamor à coisa pública, mormente ruas e praças”.
Domingos Vieira Filho

Algumas sem graça mas belos acervos
são essas tais praças jardins florestais
umas com muitos ou poucos relevos
outras com pompas são quase reais.

Se uma do Lobo leva o abono
uma outra seu dono é o Reis
a do Dias é sem abandono
até a noite tem muito freguês

A do Leite não assiste a enterro
esse evento é diário na Saudade
enquanto reina calma na do Desterro
a do Lisboa movimenta toda a cidade

Nem a do Souza nem a do Andrade
não se empresta sequer para fuxico
além da do Deodoro por sua idade
tiraram a sombra também do Odorico.

O poder não tem pena da Misericórdia
nem do Catulo nem do Duque de Caxias
já que servem como exemplo em paródias
incluam a do Panteon nas profilaxias

A Primeiro de Maio foi com a da República
rogar com Pedro II junto a Santaninha
para que seja praça de fato pública
e escusa aquela que omitiu a mente minha.


ROSA DOS VENTOS

Se me sinto nulo
Mudo e sem norte

Como a prece no escuro
A incomodar o silêncio

Logo me conduzo
Ao róseo retilíneo

Onde me transverso
Na via púbere do ócio

Pois a Ilha saliente
Em versos me convida

A bailar como um louco
Na dança do cio da vida.


MIRAMAR

Nos mirantes da cidade
Ervas nascem plantação

Nos mirantes ziguezague
Racham réstias

Lodo limo construção
Nos mirantes da cidade

Vigas do tempo que pariu
Pontes vias invasões

Nos mirantes da cidade
Delírios visuais

Bondes odes procissão
Nos mirantes da cidade

Os fantasmas ameaçam
Do Portinho ao Pespontão

Nos mirantes da cidade
O só e a solidão.


SEDIMENTAÇÃO

Na Ilha vou ficar
Vou andar até aonde
Deus não andou
Vou ficar sem pauta

Não irei sem lume
Como vagalume no dia
Sem algo além da solidão
Ilhado vou ficar

Sem pedir e sem medir
Fico o tempo preciso
Para que eu veja
O que Deus não vê

Antes de vagar pela Ilha
Travesso
Do que ir sem depois
Ou que eu me sinta

No anverso
No avesso.


OLHO D’ÁGUA

Do Olho d’Água
a água nos olhos
nos olhos da menina
espraiam a mágoa.

Meus olhos enxáguam
a menina dos olhos
seus olhos espelham
nos olhos da água.

A minha menina
dos olhos deságua
na menina da praia
do Olho d’Água.


OCASO

Quando o canto da andorinha emudece
O bando de guarás ao manguezal desce

O sol se esconde no mar
A Ilha se instala no bar

Lá do alto do céu estrelado vigia
Um homem na noite de almas vazia

A OUTRA FACE DA ILHA

Foi amor à primeira vista
Por ser menino não sabia
Que a Ilha o atraía
Com a bruma do amanhecer
Para seus braços mornos
Braços de verde mar e sol
Onde brancas dunas o acolheram
As sombras de verdes matas
Muitas garças poucas farsas
No Largo dos Amores.

Foi paixão à segunda vista
Ainda rapaz não percebera
Que a Ilha o seduziria
Com o céu estrelado
Como um véu de luar
Luas diurnas na Beira-Mar
Cheia de cruzes vazia de luzes
Aonde o sal das lágrimas
O transpôs às lembranças
Que adulto não esquece jamais.

Foi solidão à terceira vista
Pois homem logo se deu conta
Que era a Ilha uma fantasia
Emergida de histórias desbotadas
Azulejadas de casualidade histórica
Porque a realidade do homem ilhéu
É que na maresia ele se esvai
Entre becos de lioz e cantaria
Até que de si ecoa um sussurro a Deus
Enquanto a Ilha festeja o Boi Barrica.


JURIS(IM)PRUDÊNCIA

...que poesia seria escrita hoje para o caso
do Convento das Mercês?
...qual bardo falaria do promiscuo caso
entre a memória e o poder?
Wagner Cabral Costa

À mercê está o sacrossanto Convento
Sem o oráculo do Padre Antônio Vieira
Que não permitiria servir de alojamento
A alma impura e fausta em eira e beira
Fosse ainda das Mercês o santo escudo
Epistolava aos quatro ventos sem louvor
Quem opugnou sua obra em fulcro mudo
Em espaço vadio e pagão o transformou
Ao discorrer o padre e verdadeiro mito
Usou o sermão como punhal latente
Em todos os escritos nos revelou
A certeza que não calaria o grito
Do estupro jurídico à luz do presente
Que ao bigodear espúrio acordo sela
O sepultar do corpo sem alma e sem critério
Convento é lugar de vida e contemplação
Lugar de mausoléu é no cemitério
Sem manto de jurisconsulto sem apelação.


TAPUITAPERA

“Ainda hoje em cada grupo de doze
há sempre um que se vende por 30 dinheiros.”

Alcântara
De lendas em ruínas
E das doces ervas.

Enquanto a chuva
Encharca o corpo
Os teus nativos
Ressecam o suor
Nas almas do Divino.

E desse parágrafo histórico
Ao espaço te lançam metálica
Pois da Mesa do Imperador
Ao Pelourinho
Tens hoje o perfil
De futuras Malvinas.

RURAL

Ai quanta saudade do meu chão
            Da lua cheia que a Ilha acata
Da luz oscilante do lampião
            Ai saudade como és ingrata.


S.O.S.

Elevem-me aos cumes santos
Atirem-me contra as pedras carcomidas
                                                           Desta Ilha
Levem-me aonde não possa eu
Ver-me nos esgotos da superfície
Tirem-me de dentro dos becos
De paredes racistas
                                                           Salpicadas
Com bosta de burros
Suguem-me o sangue e derramem-no
Nos murmúrios do sonho
                                                           Nas raízes do mar
Joguem-me dos curtidos mirantes
Dos telhados suicidas
Das sacadas salitradas
Cercadas de medo
            De se ir
                        De se ficar
                                   E não se voltar.


ILHÉU

Venho no caminho longínquo
Da Ilha pequena maior que eu

Sentindo a veia pulsar
A saudade que eu deixo

Que levo das paisagens
De rosas no verde florir

Com doce sorriso despeço-me
Do silêncio profundo do mar

Para  sair em grande cidade
Sem passar a minuída vivência

Mas com toda certeza de ser
Maior que o gigante concreto.


TRANSE

Em justa memória a esses malucos-beleza que, com peculiaridades distintas, marcaram época no calendário da Ilha.

Nos paços da Ilha há falso traquejo
Ao lembrar Maria-Tostão em becos insanos

Como de um fantasma o mesmo manejo
De Cara-Cagado veem ecos profanos

Incide o tempo travesso com graça
Mangando de João Pessoa e assim

Como íncola das travessas da Ilha
Ser Vassoura um dos parentes afins

O abrigo passarela de bondes na praça
Testemunho à desgraça de Boca-de-Solha

Que nas roucas estórias noturnas sofria
Bógues e chutes de putas e qualhiras
Sobre portuguesas pedras em simetria
Rei-dos-Homens infante e dândi desfilava

Nenhum por mais que fosse afoito
De Bota-pra-Moer o lábaro tomava

Aquém do Paralelo-Trinta-e-Oito.


ENTRETANTOS

“minha cidade não é mais aquela...
... os demônios do passado não são mais
meus companheiros”.
                                   Fernando Braga

Embora que muitos ainda te queiram
Já não quero tanto quanto quis outrora
Mesmo porque de uma ou outra maneira
Em mim muita saudade tua inda mora

Ébrio no entanto nos cantos das ruas
Vezes sem conta fiquei sem par
Sem saber qual face nua e crua
Na lenda das Minas querias ocupar

Assim te guardo na minha algibeira
Para não se perder a lírica encantada
Depois de ser a Atenas Brasileira
És capital da cultura nomeada.


BECOS

“... E porque tudo tem dois, três e mais nomes”.
                                   Joaquim Itapary

Beco da Alfândega
da Baronesa
da Barreira
da Bosta
da Cadeia
da Cancela
da Faustina
da Felicidade
da Funerária
da Imprensa
da Lapa
da Pacotilha
da Palhoça
da Passagem
da Prensa
da Quinta do Barão
da Sé
da Varacaria

Beco das Águas Verdes
das Garrafas
das Laranjeiras
das Minas

Beco de Catarina Mina
de João do Vale
de Santo Antônio
de Todos os Santos

Beco Escuro
            Feliz

Beco do Capela
do Caga Osso
do Coito
do Couto
do Deserto
do Desterro
do Jaú
do Mijo
do Oscar Frota
do Panaca
do Portão
do Portinho
do Precipício
do Prego
do Quebra-bunda
do Quebra-costa
do Rancho
do Seminário
do Silva
do Teatro
do Vira-mundo
do Xirizal
do Zé Coxo

Beco dos Barbeiros
dos Barqueiros
dos Burgos
dos Burros
dos Catraieiros
dos Craveiros
dos Engenheiros

Beco da Vida
Beco sem Saída.


SOB O CÉU

“Todas as coisas de que falo
estão na cidade entre o céu e a terra”.
Ferreira Gullar

No baixo do casarão
            O artesão

No Beco da Faustina
            A cafetina

Na cachaçaria do Batista
            O artista

No Canto da Viração
            O ladrão

No Convento das Mercês
            O burguês

Na Fonte Maravilhosa
            A religiosa

No Largo dos Amores
            Os sedutores

No Comércio do Ezequias
            As especiarias

Na padaria Santa Maria
            A iguaria

Na Ponta d’Areia
            A sereia

Na praça Maria Aragão
            O cidadão

No rés do abrigo
            O mendigo

Na Rua do Chafariz
            A meretriz

Na Travessa do Mercado
            O diabo

Na Vista do Mirante
            O traficante.


AS FONTES

Na Ilha das fontes vertentes
            A das Pedras é de lioz perene
Em águas de encantos perpétuos
            Na Colonial ou na do Marajá
Há contos reais quase inconfessos
            Como a das Bicas de indutiva sonata
Na do Ingazeiro ou na do Apicum
            Onde as mentes como almas afins
Assombram o tempo na do Mamoim
            Com louco tropel nas cantarias
Que ecoa nas galerias do Ribeirão
            Mas a face elipse da Ilha inata
No silêncio da Saudade se desnuda
            Se a face rebelde da Ilha reclama
A bênção a do Bispo inócua lhe dá
            Então a outra face da Ilha
Suplica à Fonte (Iara) Maravilhosa
            Que na dança das águas ensina
Entre cores e sons lágrimas derrama
            Com medo da Fonte da Vida secar.


FRAGMENTOS

Da Ilha despeço-me

Nos subúrbios da solidão
Deixo meus traços meus laços
E o meu ensandecido aceso
A seus filho e netos e bisnetos

Da Ilha despeço-me

Nos braços tão gastos
Deixo meu coração em pedaços
Que os antigos azulejos
Moldam seu pretenso ser

Da Ilha despeço-me

Deixo na ótica do tempo
Os anos sem quatro estações
Alço voo dos seus mirantes
Como aves de arribação.


TELHADOS

Nos telhados da cidade
Os preconceitos no tempo param
Sob os telhados sob entalhados
Nos tristes jardins suspensos
Como operários da mesma agonia
            Da construção

Nos telhados da cidade
Um guardião do censo aborta
O encontro de todas as verdades
Nos mirantes alcoólatras
Como túmulos sobre a cidade
            Em hibernação

Nos telhados da cidade
Gerações surgem sem comunhão
Sob as torres inservíveis catedrais
Ao homem sem padrinho sem telhado
No sobe e desse no desse e sobe
                                                                       Da especulação

Nos telhados da cidade
Memorial compromisso do passado
Que sob aflitos telhados sofre
Apunhalado pela solidão cosmopolita
Que flutua como grilos como gritos
                                               De paixão

Nos telhados da cidade
A história de estórias adormecida
Na integração do tempo nulo
Como encardido cemitério burgo
Destelhado sem opção de futuro
                                                                       Sem ação.


MARÃ ILHA

Ilha
Beijada por marés e chuvas
Abraçada por fauna e flora
Por vezes até triste beleza
Em certas partes da História

Ilha
Às voltas com gaivotas em delírio
Agalha nas águas doces do tempo
As graças da garça alvo do homem
Como vigia os filhos da madrugada

Ilha
Sob o céu de soluaestrelas luzentes
As ondas de espuma avisam ao Norte
Que a brisa marinha azul espelhada
É um reflexo do semblante do Sul

Ilha – Complexa maravilha!


UPAON AÇU

A chuva respinga no telhado
O rouxinol canta no ninho da nação

A rosa vira estilhaços carnais
Na brisa florida estuprada

Pela pipira amarela e branca
Ou azul quem sabe verde

O sabiá já canta lá fora
No clarão do amanhã

De natureza sem dono sem patrão
Pois sem matas sem passarada

Já não há mais cores na Ilha
Não mais se ouve o canto da terra

A criança de encantos mil
Com se fosse de outro filho

Que quando nasce logo emperra
O ventre que lhe pariu.


MIRANTE

Para Artur Vieira

Ele viu a terra distante
Numa nau amurada de ferro
Flutuando no mar ondulante
Que lhe afogou o berro

Então seu grito emigrante
Gravou na areia o recado
De quem pariu soluçante
Deixando o coração fincado

Na certeza de voltar ele seguiu
Sentindo da intempérie a colisão
Até que um viver sólido sentiu
Ao desembarcar no berço irmão

Fica na Ilha o recado escrito
Esperando hora quase chegada
No regresso se ouvirá o grito
Avivando a palavra semiapagada.


BEIRA MAR

Manhãs de sol
São tantas são
O céu azul
Pinta de azul o mar
Doce balanço
Banco a navegar
Navegando o amor
No coração

Eu vou amor eu dou
Eu dou amor eu vou

Vejo mil letreiros
Coloridos
As copas na brisa
A bailar
Sonham em si
Sonhos queridos
Os que não tem
Tempo de amar

Eu vou amor eu dou
Eu dou amor eu vou.


IDÍLIOS

Os meus sonhos estão na Ilha
            Perdidos na solidão da noite
                        Se encontrá-los
Não os pise
            Pois os sonhos
                        São tudo o que tenho.


SENTINELA

Tu que ficaste na Ilha
A velar pelos restos de vida
                                   Mortais
De um brado sem pai sem mãe
                                   Sem filha
Buscando o quê homem-ilhéu
Sem pensamentos sem ventos
                                   Sem cais?

Tu que ficaste na Ilha
Não pela ausência infinda
Ou pelos anos sedentos
Mas pela sepultura úmida e fria
Onde mesmo quando lembrada
Em coitos vadios e ébrios
                                   Não vás.

Tu que ficaste na Ilha
Com a vida inerte isolada
No parêntese dos parentes
Sem voz sem aparte
                                   Penais.

Tu que ficaste na Ilha
Sem rota sem leme sem rima
Nem simples contos arrotas
                                    Sem paz.

E desavisadas mentes padecem
Por não te separarem da Ilha
Ou não poderes ser como tu
                                   Jamais.


São Luís, Maranhão, 1984/2014.