quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Sandra Pien

O segredo do mago de Palermo Viejo, a influência, a inspiração, o paranormal, o gesto, o labirinto, o ghost-writer, ao olhar de Sandra Pien: http://www.miborges.com.ar/

Ar artes de Xenia Antunes



Para conhecer Xenia... está tudo em:
http://www.xenia.com.br/

Personagens de ouro



Quem já conhece Zé Andrade, sabe do que estou falando.
Quem não conhece pode fazer uma visita ao site
http://www.zeandrade.com/ para saber mais...
Zé Andrade escreve a história em miniaturas de cerâmica!

LIVROS E AFINS

Alessandro Martins é o timoneiro desse visitadíssimo site.
Confira! Veja você também!
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Três vezes Gullar

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VirtualBooks
Formato:e-book PDF Código:3xgullar5432 ©Salomão Rovedo 2007 Idioma:Português

Trecho do livro eletrônico

Três Vezes Gullar - Autor: Salomão Rovedo

1) Tudo é invenção, mas também é verdade.Que fique bem claro que esta história/estória nasceu da leitura de Ficciones, que data de 1944 e em particular de “Pierre Menard, autor do Quixote” – não sendo, porém, modelar, nem um bis. Isto é, alguma coisa, como o excesso de notas de rodapé, é também paródia do poeta argentino, no sentido que Borges alimentava as ficções como quem dá alpiste a passarinho, de miudinho em miudinho, buscava dar veracidade ao inverídico e vice-versa. Assim – de mito em mito – se foi colando, colando, achegado ao estilo plástico da collage, criando pé e cabeça. A montagem ajuntou cuentos e histórias, paisagens portenhas, as lembranças vividas, as tragédias assistidas, até mesmo uma ou outra lágrima. Borges sempre foi assim: prolífico e curto, de literatura curta e grossa, de onde fugiam as alegorias, as histórias policialescas, as fantasias.Gullar entrou de gaiato, porque ambos – Borges e Gullar – tiveram colóquios felinos. Ocorre que em um tempo histórico os dois poetas estavam sob o mesmo céu, pisando as mesmas ruas e o provável encontro – que poderia ser confirmado com um mero e-mail ao sobrevivente Gullar – se deu na imaginação do escriba: se perguntasse perderia a graça mística das invenções. Imagino que me perguntei: em que ruas, quais bairros, tantos bares, em que livrarias, em qual quarto deserto, onde nasceu o Poema Sujo? Assim, fotografados os dois em pleno exílio, flagrados em dimensões imaginadas, a veracidade fica mais inverídica... e vice-versa.

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domingo, 5 de agosto de 2007

Mel e outras poesias

MEL

Quando a encontrei era só açúcar,
prazer, dança, doce de goiaba e mel.
Um mar de sal e sol para temperar,
vinho branco e, ou, cerveja gelada.

Criação boa à receita de felicidade:
e assim foi o tempo das maresias,
ondas rasteiras, espaços espectrais,
pôres de sol. É verdade: o sol se põe?

Sei que estão pensando que vou falar:
Agora tudo é fel (para rimar com mel),
mas que nada, só a distância atrapalha
a convulsão mansa de nossa pele úmida.

Se for possível, continua doce, mel e mel,
bacuri em calda, condimentos picantes,
sorvete de juçara... Já falei dos lábios?
Ara que boca! Ânsia devoradora, ora...

LAMENTAÇÃO EM DÓ

Pálpebras cobrem os olhos da alvorada
febris ainda não se levantaram: é noite.
Sinto-me como que nascendo – nada –,
surgindo à porta do ventre de uma mãe.
Haverá um regaço para me acolher,
seios para me alimentar, balangandãs,
um colo para o repouso tranqüilo.

Mas quem esconderá do meu olhar
esta visão de todos os sofrimentos?
Até que o corpo pouse pacificamente?
Até que chegue o descanso? Ventres...
A vida é sopro. Males – jamais deixas
de perturbar o repouso dos cansados?

Ó Espreitador dos Homens (queixas),
por que concedes luz ao miserável?
Por que dás vida aos amargurados,
eis que esperam a morte e ela não vem?
Por que iluminas o homem, ó Adorável,
cujo futuro é oculto pela mãe natureza?

Nós somos de ontem e nada sabemos,
nada, sobre nossos dias sobre a terra.
Não, nada sabemos sobre as sombras,
as que acompanham os nossos passos.
Em tais pensamentos e visões noturnas
sobrevive o espanto. Tremo, trememos.

Os ossos se estraçalham silenciosamente,
se espíritos passam ante mim, agourentos.
Os pêlos do corpo se arrepiam, espinhos,
fantasia, alma, distingue bem a aparência.
Vultos que se postam diante dos olhos nus
como uma tremenda interrogação. Cruzes.

Depois vem o silêncio de calmaria vasta
e desperto pensando se foi desta vez,
se nesse instante deceparam o fio de vida.
Imagino se afinal se derreteu estes meses –
em mim a dureza da pedra, do mármore.
Será afinal os olhos de granito que agora
me vêm já não me verão mais? Será?

Cada vez demais comprida é a noite
e a madrugada demora ainda mais.
Tenho de lembrar sempre: embora
a nuvem se desmanche rapidamente,
o vento amarfanha as folhas, árvores,
até curvar-se na estrutura da terra...

Verdade – quem desce jamais retorna.

NOVO

Já escrevi uns poemas desesperados
e tomei várias tantas cachacinhas,
me despedi da mulher que era minha,
agora escuto um forró bem rasgado.

Beijo os farelos e as sobras de pão
antes de atirar os flocos pela janela
aos pombos. Corpo de Cristo, vela,
aprendizado de catecismo, oração.

Quando quero ser mau e demoníaco,
na calada da noite e só (assim suponho),
com os pensamentos mais malditos,

emborco chinelos, sapatos, com ódio
mortal – e criminoso, assassino, infenso,
espero que os inimigos acordem mortos.

ANJO

Aqui nada sobreviverá,
o não tocado por Deus.

Os Seus dedos roçarão
esta fronte comovida?

Nada, nada aqui viverá,
sem a bênção de Deus.

Quando Deus me tocará?

SEMENTE

Diga algo que venha do alto
e eu avançarei compungido,
de braços abertos para o alto
com o coração estremecido.

Que seja em música diga algo,
que abale e me deixe afligido,
a comoção que ofenda, algo
que ainda nunca foi atingido.

Agrida-me forte com poesia,
a palavra que detona o ser,
fira a alma – bala da poesia,

Diga-me algo que possa ser
a lavra na terra da poesia,
fira a alma que ofenda o ser.

E O NÃO SER

O que mais posso fazer se o sol forte late na fronte?
Se lá longe naqueles montes casas dependuradas voam?
Se essa luz, que fulgura de distante, não é minha?
O que aqui posso dizer se algo iluminado não me diz?

O que posso dizer se o sol brilha em quilates lá fora?
Ouvir rumor de água no rio, fontes, ondas na praia à toa?
Se a claridade áurea reluz sobre mim e algumas nuvens?
Que posso fazer a algo que me ilumina em cor e giz?

São seres, retratos, que têm nossos olhos e nossas bocas.
Almas que eram irmãs, pensaram iguais, almas vivas e nós.
Casais que se amaram nas esquinas e nos fizeram viventes.

A repetição eterna que se apregoa nas palavras perdidas.
A fotografia de seres que se foram, filmes que movem almas.
Todos, alguém que pisou a terra e, antes de nós, viveu a luz.

TERRA

Não existe sal mais em meu corpo,
não existe porto em minha vida.
Os músculos se agitam e tremem,
e o coração – quem diria – dói.

É a terra líquida que se aproxima,
a fibra que pende descontrolada,
a falta do ar que ao pulmão anima,
a cabeça: uma massa desabitada.

Braços amigos que me dêem guarida,
não existe porto para o meu corpo,
nem mais o fumo, o beijo, a bebida.

Somente a noite, só a noite prometida,
não existe sol, nem mais um porto,
– o corpo amado que me dê guarida.

PESADELO

Não é maromba urdida
que minha vista abala
nem é verdade boato
ou uma mentira crida,
o que vejo é paisagem,
verdadeiro panorama,
o sol no ocaso vermelho
(ou será seu nascimento,
a Alvorada do Homem?).

Umas colinas campinas,
uma árvore só solitária,
umas ovelhas bastardas,
bodes caprinos caprinas,
cavalos éguas e crinas
vela enfunada ao vento,
eu solvendo tudo na TV...

Fica louco quem me lê?
Assim fora eu santo, eu
penso irmão com o vento,
viajar leve a leve passarola
levar a vida tecida enredo,
estar das melhores a medo.

A fim do homem espanto,
o que se inverte me invento
rede pra pescar outra rede,
paisagem d’outra paisagem.

Assim fosse eu centro santo,
assim fora eu santo credo
sob cercado de paisagem,
sonho ilusório panorama,
sol pôr-se acaso vermelho,
será meu nascimento sim,
outra Alvorada do Homem...

RECADO PRA DAVI

Vê Davi, não saiu nada do que a gente tinha planejado.
Não deu, não é?
Era que a gente fosse mais que amigo,
amigo assim que nem pai e filho. Mas o quê!
Nada não deu certo. Não, não deu certo, nada deu certo.
Sei que não crês. Nem eu.
Um dia você pegou meu nariz,
olhou espantados os meus olhos e sorriu...
Atirou-se sobre mim, arranhou meu rosto,
deixou a marca das unhas finas das crianças.
Eu ri. Eu ria a cada sorriso teu.
Ria a cada promessa que imaginava em tudo isso.
Não penses que foi ali o início. Não foi.
Falei muito antes contigo. Hoje não estás.
Estavas ainda na barriga da tua mãe e eu já tentava o bate-papo,
dar-te mais vida, essas coisas bobas.
Bem que amei teus olhos castanhos,
tua atividade dinâmica, tua força divina.
Eras isso, sim, como sonhei, um dínamo,
um dínamo de saúde querendo viver.
E eu pensei que iria ter-te ao meu lado,
como amigo, companheiro em força:
aquele que me sugerisse anotar alegrias outras,
que me abraçasse, mas não estás.
Aquele que me desse palpite sobre verbos
e amor, sobre pronomes e felicidade.
Tu és meu companheiro adjetivo,
sem fantasma, sem vírgula, sem substantivo.
És Davi e só. Meu anjo e meu amor.
Meu amigo e meu sorriso companheiro.
E se hoje estou aqui embaraçado
entre pautas e letras, entre sons e sonidos,
só, entre imagens somente sonhadas,
amigo e irmão Davi, como fazes falta.
Tu me dizias, ali não, nem ali,
tampouco ali e eu me ria todo, ao teu lado,
sonhando a cor das tuas idéias,
que eram idéias de não hoje – de longe.
Mas não estás. Acredite, tudo isso não foi me tirado não.
Nada me foi roubado. Nada me foi traído.
Tudo acreditou que estaríamos juntos,
tanto criei, sem rezas ou orações. Mas, nada!
Porque éramos espelho e te vi o meu espelho,
na imaginação sonhada da meia noite.
Então a imagem que é teu rosto,
principiante em teu olhar, tudo que nasceu de mim,
essa figura que se me antolha
os olhos e me tira a paisagem do horizonte.
Não está. A música que sonhei, as notas,
as harmonias, as rimas, o ritmo, a ilusão, não está.
Vê Davi? Nada saiu daquilo que a gente tinha
intimamente planejado. Não deu, não é?
Era que a gente fosse que nem pai e filho.
Que a gente fosse mais que amigo. Mais.
Tudo que estava criado em mim como
a fotografia tua, tudo se esvai em fumaça.
É noite – as galáxias passeiam,
aquela estrela não mais existe: – Davi, quem és?

(Rio, 09/02/2001).

AQUI

Senti, sim, mesmo longe, num momento mesmo longe, aqui,
o toque, senti tuas mãos, o calor delas, o poder táctil dos dedos.

Ouvi teu pensamento claro, formulando as receitas naturais,
as meizinhas santas que minha alma precisa para sarar, sarar.

Senti também o olhar pousado sobre mim, sereno e negro,
do alto, bem alto, a luz de teus olhos negra dava proteção.

Ouvi, mesmo na estrada, dirigindo velozmente, ouvi tua voz
murmurando a canção que eu gostava de ouvir, a voz mansa.

Senti que era pra mim aquela reza sem regra e ouvida somente,
senti que era pra mim, sim, a oração nova dita pra mim, diferente.

Ouvi que eram para mim gritos e saltos do menino dela, ao colo,
o riso e a alegria, o abraço e a lágrima, a fome e a sede, pra mim.

Senti grudada a mim a pele, a boca , porta aberta, hálito de fumo,
o suor do pescoço sem perfume, a nuca, minha mão perdida, ilha.

Ouvi hoje a solidão, à noite, a febre que não cura, comprimido, só,
apenas, só, o peso inteiro do planeta Terra pousado em meu peito.

Senti enfim o abandono, na carne, na noite, a febre que não se cura,
bem sobre mim total o peso inteiro da terra enterrando o meu peito.

Ouvi na hora tudo na alma emudecer: o verbo, som, a palavra, toque,
mãos sem calor, olhos inúteis, a voz mansa, beijos, calar a canção...

SALMO DO SABER

Quando nasci me ensinaram que Deus fez o mundo em sete dias,
Que sobre o Universo reinava onipresente em Sua infinita bondade.

Ensinaram-me que era pecado cheirar as partes pudendas das meninas,
E falaram que era pecado se masturbar vendo fotografia de judias mortas.

Contaram-me que o Sol nasce, gira sobre a Terra, se põe no ocaso, nasce,
Disseram que a lua traz presságios bons e maus (aquela dos enamorados).

Sofri a unção do óleo e do sal porque todas as crianças são batizadas sãs
Para livrar do Pecado Original suas alminhas puras, angelicais, anjos.

Aprendi que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, que é uma terra
Abençoada por Deus e bonita por natureza, que beleza, que reza, beleza.

Ensinaram-me que era pecado mortal chupar as partes peludas das mocinhas,
E falaram que era pecado se masturbar vendo fotografias de Luz del Fuego.

Ensinaram-me que existem céu e inferno, maldade e bondade, o amor, o ódio,
Que cometendo os pecados que cometi ao morrer ia para o fogo dos infernos.

Etc.

QUEM

Eu cobiço a mulher de todos.
Eu como, bebo as bebidas e comidas excelentes.
Eu não alcancei a plena liberdade.
Eu não alcancei o corpo de fogo.
Eu não fui aonde não sei.
Eu não sou bom, às vezes molesto.
Eu não sou paciente, muitas vezes agrido.
Eu não sou a consciência pura e infalível.
Eu não sou fundamental em nada.
Eu não sou intangível e inconcebível.
Eu não sou isto nem aquilo.
Tampouco sou a eternidade.

Eu não sou invariável e invisível.
Eu não sou o alvo sublime.
Eu não sou o conhecimento da libertação.
Eu não sou o EU, eu não sou o UNO.
Eu não sou o que ficará ainda.
Eu não sou o que mora em cada ser.
Eu não sou o som, a vibração primordial.
Eu não sou o último fruto.
Eu não sou o dom humano.
Eu não sou toda a sabedoria.
Eu não sou isto nem aquilo.
Tampouco sou a eternidade.

Eu não sou tudo o que se sabia.
Eu ouvi o ruído das carnes cobiçosas.
Eu ouvi o tumulto da inteligência vaidosa.
Eu tenho inveja e peco todos os pecados.
Eu tenho medo.
Eu tenho medo da doença.
Eu tenho medo da doença, da dor.
Eu tenho medo da doença, da dor, da velhice.
Eu tenho medo da doença, da dor, da velhice, da morte.
Eu não sou isto nem aquilo.
Tampouco sou a eternidade.

VENTO

Vento norte que passou
sobre a casa dela
movendo as plantas e os pés.

Enfim estás de volta,
orla do meu nariz ,
como reconhecer o perfume?

Ventos norte, nada dizem,
no entanto sei que ela
tomou ares de ti.

E agora eu que espanto
com perguntas, vento norte,
respostas? Nada, nada...

Podia estar naquele avião
que passou rumo ao Norte.

Mas não hoje, nem amanhã,
nenhum sol para me salvar.

QUAL DOR?

O tempo nos obriga a dissipar a dor que não é dor,
uma certa dor de ausência quando se prevê infeliz,
ou dor – por que não? – que traz algo de felicidade.

De revés assoma o tremor de experimentar outra dor,
psicografada, dor-de-corno, a traição como se repensa,
um desvão do comportamento ou inveja por não ser.

As arritmias que trazem a dor-de-cotovelo, que não é,
não a física dor de cabeça, mas aquela do espírito,
a dor estética depois de anos sem sentir consciência.

Dor da saudade – existe? – outras que levam ausência,
em contrapartida dialética à dor física inimaginável,
essa não tem cura nem com pílulas nem com oração.

Haveremos de clonar cérebros antes de atravessar
a fronteira, cegar o fio da navalha, romper, romper,
parir todas as dores ou somente imaginar-se impune.

ELEGIA

Todo dia tem um som, som que enriquece,
vibra como riquíssimo intimismo passional,
vasta expressividade, intensamente contida.

Palco da vida ensimesmado em lauta agonia,
talvez quase perfeita maestria sinfônica que...
...reflete excepcionalmente a tensão criadora.

Alegoria de ritmo impuro, riso que enlouquece?
Fluxo, pugna contínua, sombra melancólica inicial?
Pôr-do-sol que dói e canta as cores da harmonia?

O veio dissoluto sacralizado, carnaval noite e dia,
o reencontro irretocável em catarse ao final do dia,
a dança iluminada, evocativa, em estilos e defeitos.

Enquanto som – vastidão de luz e tons orfeônicos,
tudo resplandece, a sopesar a claridade, o arranjo
– simplicidade, veio espiritual, torre e céu, fogo e ar.

Porque ela não ouve ninguém ouve. Porque, porque?
Mágico tempo de encantamento espiritual soerguia,
épico, lendário, a semiforma clássica perder, poderia.

ABANDONO
(samba-canção)

Sei que vou te deixar um dia
Mas não levo nenhuma alegria
Porque não semeio os laços de dor.
Quem criou entre nós a distância
Só pensou que a inconstância
Vamos colher em vez do amor.
Quando chego fico muito feliz,
Quando parto é a lágrima que diz
Que é hora de viver de saudade.
Tudo não será ironia do destino,
Ou mesmo hipocrisia, desatino,
Dessa besta chamada felicidade.

ASAS

A borboleta negra chega.
Eis que passou setembro
e vem o mês de outubro!
A borboleta negra passa.
O calendário não tem culpa.
Um novo terror se anuncia,
de novo, tenebroso, o temor.
A borboleta negra já é.
Se verá o novo Messias?
Essas torres que tombam
sem alçar ao céu. Pecado.
A borboleta negra revoa.
Mães postas em oração,
oram uma reza piedosa,
rezam a oração piedosa.
A borboleta negra voa.

SEM DESTINO

Mesmo que se conheça
o dia de amanhã,
mesmo que se saiba
que de manhã estaremos
subindo aos céus,
ainda se tem de tomar
banho, lavar os cabelos
com xampu, fazer a
barba, ouvir Beethoven,
passear à toa por aí...

Mesmo que amanhã,
amanhã de manhã cedo,
seja o dia de estar sentado
ao lado direito do Criador,
ainda assim é pegar o ônibus
e cair na estrada (cabelos
ao vento), com a mulher
amada, passear no mundo,
esse mundo todo errado,
maltratado, que a nós sorri...

CALIMA

Uma vacina contra paixões terminais,
como guardar o coração num púcaro,
roteiro para itinerários sem bússola.

Algo que faça ver a morte sem temer...
Não, como um acontecimento cotidiano:
pode dizer como evitar qualquer amor?

Acima de tudo que nos protege e guarda,
o vento carrega o vírus, silencioso e letal,
chamamento epidérmico, ardor, suor.

Navegar o abismo, voar na cachoeira livre,
ruir de novo sobre lábios, abraços, laços,
desejar-se envenenado e querer mais, mais.

BRISA

A morte não pede discurso,
agora que ganhou o silêncio
só aspira a brancura maior,
a morte quer a luz dos dias,
claridade grande de campo.

– Em tudo o silêncio cala.

A morte não mede oração
ou que sejamos omissos ante
o dever de tê-la à mão, não
hoje, o cromatismo desfeito,
o corpo em si repousado.

– Em tudo o silêncio cala.

A morte não quer o som
das lavras largadas ao léu,
nada quer o derradeiro erro,
sequer o pedreiro, a larva,
missa cantada a três vozes.

– Em tudo o silêncio cala.

Ganhou o espaço incorrupto,
a morte nem mesmo ocupa,
olhos ou estrelas que brilham:
tensa, apenas que amanhã será
sem o elo que o tempo levou.

– Em tudo o silêncio cala.

O dono da noite perdeu medo
do sepulcro adquirido, vácuo,
nem teme o mudo som do pó,
olvido, olvido, olvido, olvido.

– Em tudo o silêncio cala.

Só.

DIA

Hoje quando fazia a barba e me cortei levemente,
o vermelho do sangue que vi refletido no espelho
Fez-me pensar quão perdido está o país do coração...

Alcançar o Z desconhecido, ao primeiro instante,
passar o dia leve, comovido – homem sem emoção,
estimular o tempo, esquecer o que é velhice, voar.

A pele tremeu rubra diante do espelho respingado,
a lâmina de aço cintilou, o raio de sol varou a janela,
ganidos, latidos do cantaor gitano ecoaram guturais.

Fazer o dia, fazer o dia seguinte, depois de amanhã,
desesperadamente, procurar, achar o mundo novo,
sugar o leite materno, a cotidiana essência da vida.

Pouco depois o tempo virou ridículo, dono do azul,
Mahler soou ao ouvido como um frevo de Capiba,
e pude sorrir de tudo isso – e não é para rir mesmo?

DIÁRIO EM BRANCO

Sonhos que continuam sonhos,
a curva do horizonte infinito,
o ocaso do universo redondo,
vindimas de Nicarágua e Fez,
sombra que parece cimentada,
limpo e concreto perfil de você.

Sonhos que continham sonhos,
Astros, Estrelas, Sóis, Adrômedas,
piratas de mares, oceanos, ilhas,
outras galáxias, constelações,
as feições dela, corpo da alma,
fronte debruçada em lágrimas.

Sonhos que renegaram sonhos,
viagens colombinas ao semi-eixo,
ir e não vir sem jamais perceber,
semi-ente, semidor, semitarde,
nossa terra de círculos vários,
que o corpo em carne viva arde.

Sonho, sonho, que é quase sonho,
espasmo do peito tenso de você,
quando o afago é apenas um sinal,
leve vida curta, temporal, breve,
sol dos guarás, restinga de ninhais,
e por que não? Por que não ser?


Sonho, sonho, que sonho não é,
a fé do instante desconhecido
é uma fuga, sim, fuga sem dó,
hálito de um espírito destruído,
entre a boca de você e o desejo
sobrevive o espectro do amor...

ÁLBUM

Um pouco de azul não faz mal a ninguém,
nem o verde que se esgueira entre as casas
ou a mesma estrela multicor que me segue,
cintilando mistérios, emprenhada de segredos.

Faz bem o cristal salinoso que emerge da onda
e penetra entre as frestas das roupas, botões,
a espuma que lambe a epiderme rugosa e sã,
lábios ressecados noutros lábios ressecados.

Não faz mal o cheiro de mar aromatizado,
vasa que entranha e fere as narinas da alma,
nem faz mal a água doce que corre nos dedos
enquanto o rio se mexe direito a outros rios.

Faz muito bem a luz clara, manhã aventurada
que se debruça em cumprimentos e mesuras,
perseguindo o som em partitura emoldurada,
letra de música ministrada às rezas vesperais.

Não é mal despertar sobre o corpo dela em duna,
lençol de areia monazítica, amplo de vivacidade,
salgada sebe, glândulas salivares, cuspe, licor,
pudor rouco, gozo em azul, destilado entre coxas.

MARÉ

Direi: é sábado, 30 de outubro,
a lua imensamente enorme,
muito maior do que o sol,
acachapante, humilhando
o pouco que restou de nós.

Boa noite antiguíssima lua,
pode entrar, o coração é seu,
aplastra as vagas sem dó:
mete de entremeio o amor,
(afinal eleva-se a palavra).

Não há sentimento, nem maré,
nem provocação no céu vasto,
boa noite amiga lua, lua dela,
pode entrar, aplastra as vagas,
o coração é seu, ama-o sem dó.

Digo que é sábado de outubro,
de lua imensa (a mente dorme),
ó sol grande, de joelhos e casto,
indulgente e demasiado humano,
ama um pouco a sombra de nós.

CONSTRUÇÃO

Há o tijolo, que pode ser puro, pedra preciosa
a erigir paredes, muros, sonhos – quem sabe?

Nenhuma construção se faz sem abalar a fé,
se finalmente é necessário dar o primeiro passo.

Telhados de jade irradiam o sonho para dentro:
muitas e muitas casas levantadas sobre nuvens.

A FLORESTA

Na reportagem da TV o velho casal de camponeses suados,
no afã de reflorestar a terra quase morta à margem do rio,
cujas barrancas de pó já desmoronavam ao longo dos anos.

Lembravam, com voz de saudade, a mata que havia ali,
as árvores com nomes, desmontadas para fazer casas,
móveis, bancos, berços de filhos, lenha para a noite fria.

Ao fim da tarde sentavam na varanda embalando os netos,
vendo o sol vermelho lustroso, o vapor subindo da água,
enquanto os filhos ferviam leite de vaca para fazer queijo.

Agora, construída a noite, outra luz traz e renova a imagem
de uma mata com nome, cheia de pássaros, micos, ruidosa,
os bisnetos percorrendo as mesmas árvores anos à frente.

PAUSA

Os anos de danças passaram rapidamente,
em fogo – como devem ser os anos de graça.
– Conseguirei enfim a merecida paisagem?

Já se aproxima o tempo da rede na varanda,
tempo de aturar a tremenda lentidão dos dias.
– Alcançarei à vista a névoa acolchoando o monte?

Devo recordar-me que foram lindos e belos,
flores de carne, olhos de sorrisos e mais risos.
– Sentirei a maresia, o odor do salitre que a brisa traz?

Os sons de baile e bebida se foram velozmente,
vem chegando o tempo da cadeira de balanço...
– Verei por fim o meu exclusivo horizonte verde?

Os óculos de leitura sobre o livro esquecido,
alguém que grita meu nome em vão: durmo.
– Deitarei acalantado pelo cicio da onda na praia?

Hei de lembrar dos amores devastadores, infiéis,
nichos de carne, lábios fumegantes, olhar de paz.
– Pedirei ao amor que não venha porque é tarde?

E contentar-me com a surpresa daquilo que vier,
agradecer ao mar, amar o sonho que me for dado.
– Terei no ocaso da vida o pôr de sol púrpuro?

VITO PENTAGNA

Piracicaba-SP (1914) – Valença-RJ (1958)

Poeta, diplomado em Direito. Livros: “Três Momentos de Poesia” (1939), com Augusto de Almeida Filho e Amiar Fares e “Poemas” (1978).

“3/jun/54: Vito Pentagna lê alguns de seus poemas, que me parecem excelentes. Todos eles misteriosamente entrelaçados, com certa pompa de expressão ligeiramente fora da moda, e que traduzem tão bem sua curiosa personalidade, aliás das mais autênticas, das mais ‘vivas’ que tenho encontrado ultimamente. Tudo que o cerca, móveis, cortinas, livros e objetos de adorno, lembra esse gosto um pouco rebuscado e fora de uso que exprime o mundo secreto de um homem realmente sensível – e revelam o artista até seus menores detalhes. Não creio que seja estritamente um poeta, mas um romancista também. A qualidade de sua inteligência, seu Dom de analisar e compreender, fazem suspeitar a presença de um criador de tipos, amadurecido e grave, que ainda não ousou encetar a grande tarefa que provavelmente o espera.”

Lúcio Cardoso – “Diário Completo”


“Não foi só através do inesquecível livro de Maria Helena Cardoso “Por Onde Andou Um Coração”, que ouvi falar em Vito Pentagna: ela própria, antes de me dar uma cópia do original para eu ler, já tinha me falado desse amigo, que deixara em sua vida a marca das grandes amizades. (...) O conhecimento de Vito me levou à Valença, a querer conhecer Léa, sua única irmã e a perscrutar a casa dos Pentagna, na tentativa de descobrir em cada objeto – principalmente em seu escritório, que permanece com a mesma disposição com que ele o deixou – o toque de sua mão de dedos longos e alvos. (...) Eu li estes poemas no silêncio largo de sua casa em repouso – e ao mesmo tempo em que me sentia privilegiada por travar conhecimento com um artista que conseguia dizer, em sua poesia, aquilo que eu ainda não consegui exprimir em prosa, já começava lamentar que tantos – quase todos! – não conhecessem estas páginas, cuja inarredável destinação é o leitor.”

Maria Alice Barroso – “Em Busca de Vito”


“Salen, por fin, a la luz estos versos que durmieron casi veinte años... No, no es esto: no puede decir que salen a la luz porque no se someten a ella. Su sombra, invulnerable, irrumpe com brillo de azabache, por entre la claridad que la acata... Veinte años, es cierto, pero tampoco puedo decir que durmieron porque estos versos son el clamor del insomnio. Clamor, no lamento, pues no hay en ellos quejido lastimero: son como la voz de la campana, que vibra com toda su materia herida y da la nota justa, dobla com la medida correspondiente al mazo que la golpea... Justeza, reflexión especulativa en el espejo negro del insomnio, tan opuesto al color de la vigilia, pero no menos riguroso... (...) ahora, aquí, en este caso, antes estos versos no es un empeño de análisis crítico lo que me acucia, es el conocimiento de su origen, el haberlos visto brotar en su fuente cuando, antes de ser versos, palabras rimadas, pulidas y tendidas sobre un papel, eran sonrisas o miradas brotando del hontanar humano: eran chispas del pedernal de la mente, duras, brillantes, súbitas ideas... (...) No pretendo explicar nada: los poemas están ahí – una presencia íntegra, para el que sepa leer. Misterio de la persona.

Rosa Chacel – “Vito en Mi Recuerdo”


POEMAS


OS NOTURNOS


(II)


Fiquei só ao relento por um céu de extermínio,

entre nuvens esparsas, sob astros impacientes.

As palavras soavam de uma urgência remota,

estes frutos distantes, estes frutos tão próximos.

Quantas árvores altas quando soa o abandono,

quanta voz sem garganta, quando eco sem muro.

um ladrar já sem cão, numa estrada poeirenta.

Tanta luz de fantasma enche o espaço noturno,

tanta luz que se move sinalando o perigo.

O que arde não sei, assim só, ao relento.

O que arde, o que punge, o que fere, o que mata.

Eu só sei que estou só, e esta noite me guarda

não sei mais que promessa, não sei bem que ameaça.

Que importa um peito a arfar descompassado,

um coração que insiste,

que pulsa, ruminante, inquieto,

desejos, e tormentos, e ânsias vãs?

Um puro estar, inerte, bloqueado

sob a pendente ameaça deste gume

na infinita abóbada do vazio.


(III)


Medidas de contemplação, - Aurora –

Ocaso. Duplos pesos paralelos.

Cinco portas do corpo, cinco chagas,

habitantes do túnel, testemunhas,

de um crepúsculo a outro partilhando

incessantes pupilas – as estrelas.

Sem pálpebras, sem pálpebras nem venda,

sem pestanas – subsidiárias da noite

complementos, de uma total e plena

conseqüência...

Oh! – Trescalo,

as narinas na sombra te recolhem,

e um sabor nunca provado experimentam.

Mãos que não tocaram e já possuem

vozes bem anteriores à garganta.

Todos os sentidos estão despertos.


OUTRO MOMENTO


Mergulho os olhos no céu de maio,

e penso que breve será noite em tudo.

Não essa noite coletiva e fácil,

em cada alma se contempla e busca

– porém a outra, individual e trágica,

a grande noite sem reconhecimento.

Não sei porque tanta emoção me alcança!

Um corpo só já é tão desolado

que mais não pode outro estar sozinho,

mesmo que as trevas se refaçam plenas

no mais profundo de uma noite, opaca.


OS AFLUENTES


Todos os rios desembocam na noite.

Mar antiquíssimo, ela os recolhe todos,

em promíscuo albergue sem privilégios.

Um murmúrio único soma silêncio e queixa,

misturando antídotos sem indagar origens.

Em solidão bem íntima desabrocha o arroio,

ignora horizontes e sóis, e ventos;

em solo ou entranha, abre caminho e passa,

não importa que águas, que céus bebeu,

quantas estrelas conduziu, flutuantes,

em torno a que árvores campeou sua angústia.

Boca sem pressa ela tritura tudo

em confusa lama – substância e abismo.

É como se um desejo o conduzisse cego,

e a própria fonte já aspirasse à queda,

ao sombrio lagar onde o cansaço e o medo

fermentam um mosto, indiferente, anônimo.


SONETO NÚMERO DOIS


Desde o balcão suspenso sobre o mar,

desde esta alta varanda sobre a vida,

tão alta e solitária, tão perdida

que nenhum eco traz o resfolgar


de peito igual e humano ao peito ímpar.

Contemplo a luz que teima já vencida,

no sangue de sua última ferida,

um doloroso e lento retardar.


Esta tarde não é primeira tarde,

encontro derradeiro, despedida,

desfalecendo à morta soledade.


No entanto, que aderência descabida,

uma carne tão frágil, tão covarde,

que mercadeja o transe da partida!


TÁCITO DE ALMEIDA


Campinas-SP (1899) – São Paulo-SP (1940)


Poeta. Diplomado em Direito, Promotor, participou da Semana de Arte Moderna (1922). Irmão de Guilherme de Almeida. Obra: “Restos de um Assalto” (1917); “O Movimento de 1887” (1934); “Túnel e Poesias Modernistas-1922/23” (1987). Colaborou em Klaxon, Revista Nova e Terra Roxa e Outras Terras.


“Na Paulicéia, pleno 1922, o moço bonito e chique entoa “o claro riso dos modernos”. Seus poemas, porém, permitem a brecha da dor na alegria esteticamente proclamada pela Semana de Arte Moderna e pela revista Klaxon. A marca do século XX, bem nítida em todos os nossos renovadores, vem envolvida em sombras e meios-tons neste poeta que se curva perante o seu sofrer, entendendo-o como reflexo da dor maior e antiga do homem. Aqui está Tácito de Almeida. (...) “Entusiasta do progresso ou amargo perante a sociedade, Tácito é o modernista cultor da frase telegráfica, da polifonia poética à Paulicéia desvairada vazando a simultaneidade, oferecendo sons e barulhos da trilha dos futuristas; cartazes, anúncios luminosos em colagem, intensa movimentação das palavras e dos versos no diagramar dos poemas. Como uma câmera cinematográfica, toma planos grandes e closes, justapondo-os, obrigando o leitor a segui-lo com a fantasia e... com os olhos; a prender o alento, nos destaques em caixa alta. (...) Tácito, apesar do pessimismo e da ironia encanta-se com o ‘mundo claro e radiante’, impregna-se de seus sinais e pergunta, na esteira de Marinetti: ‘Quem irá dirigir os homens?’ (...) concluído o rito de passagem, renascido da dor, Tácito não será um ‘fingidor’.”

Telê Porto Ancona Lopez – “Tácito Tempo de Passagem”


POEMAS


A CANÇÃO DO BARRO


Eu sou feito de barro.


Eu sou uma terra,

sou um globo deformado,

um sol morto, apagado, quase em cinzas,

cinzas que o vento não espalha,

porque estão molhadas...


Eu sou um barro úmido de lágrima,

uma terra que brilha no princípio

de uma noite silenciosa e universal...


Eu sou uma terra...


E a outra velha Terra triste, branca e preta,

malhada as vezes pelos eclipses

ou pelas neblinas grávidas de trevas,

a outra velha Terra triste

é para mim, é para a minha vida

um grande, um belo, um forte sol ardente,

paralisado no poente...


A PEDRA


Sonhos esvoaçantes,

sonhos feitos de restos de névoa...


Sonhos leves,

trapos de nuvens,

trapos de neve,

trapos de gaze,

quase imateriais,

mas a cair pesadamente,

retos e ríspidos,

cortando o vento,

rasgando o azul,

porque envolvem a grande pedra cinzenta da vida!


DESENHO


Vamos vivendo, vamos vivendo...


Não imaginamos como deve ser,

como queremos que seja a nossa vida...


Vamos vivendo, vamos vivendo...


Deixemos que a nossa vida

seja como essas figuras despreocupadas

que a nossa mão vai desenhando sem querer...


Essas figuras que só depois de terminadas

começamos a achar parecidas com alguém...


Vamos vivendo, vamos vivendo...


CARNAVAL


Garotas multicores,

cortinados de confetti...


Ó como os corpos fervem no teu leito, Carnaval!


Os homens...

Máscaras alegres,

máscaras cor de rosa,

máscaras cheias de gargalhadas...


Máscaras brancas, lustrosas,

sobrancelhas muito curvas,

olhos miúdos,

rugas de choro, rugas de lágrimas...


Máscaras de álcool,

máscaras de éter,

geladas como os dentes brilhantes,

como a alegria,

como os braços dos mortos...


Máscaras desvairadas...


Os covardes da alegria


Os medrosos do sorriso...


Máscaras de éter,

para arrancar sem dor a Dor das almas...


O VÍCIO


A noite ergueu no espaço absorto

o espelho morto,

para as almas se comporem...


E a noite é fria,

a noite é ardente!


SOSSEGO


Não há ninguém na cidade pequenina...

Apenas um sol bem amarelo

e uma igreja vermelha, fechada, lá no alto...

E um silêncio mole e cansado...

E um vento bambo e sem volume,

que desce devagar a ladeira

e vem sentar-se no jardim vazio...


E cai uma folha bem verde

da árvore maior sobre o jardim vazio...


VANILDO BRITO


João Pessoa? (1937) –


Livros: “A Construção dos Mitos”(?) ; “Memorial Poético”(?);“Sinal das Horas * Cantigas de Amor para Inalda” – 1987


Sinal das Horas e Cantigas de Amor para Inalda, livro duplo, revelam-nos um Vanildo Brito mergulhado, de corpo e de alma, nas águas fundas de um lirismo assumidamente confessional, de um lirismo em que o eu poético vê-se flagrado nu, nas suas ressonâncias da mais vibrátil sensibilidade. Sem pesquisar as cordilhas míticas da palavra poética, como o fez em A CONSTRUÇÃO DOS MITOS, nem palmilhas a reescritura épica tão bem ensaiada em outros momentos de seu MEMORIAL POÉTICO, interessa a Vanildo, nessa hora – hora assinalada por tantos tons de auras e crepúsculos – o pontear a perplexidade face ao fio do tempo, ao mesmo tempo em que procura destecê-lo, abismado na pacificação do amor conjugal. Amor e tempo, portanto, se conjugam para perfazer a nucleação temática dessa poesia. Trilhando uma dicção que reflete o maturado domínio da composição técnica, a batida e rebatida acentuação de certas marcas estilísticas, o tom clássico da expressão, o léxico adequado, o vasto campo dos volteios imagéticos rico de metáforas, anáforas, sinestesias, etc., o poeta Vanildo Brito vem de ampliar, com esse novo lançamento, as perspectivas estéticas de sua lírica. E o faz como quem anuncia: amadurecer também é renovar-se...:

Hildeberto Barbosa Filho (Contracapa de “Sinal das Horas”)


“Contrariar expectativas previsíveis é o procedimento constante dos poetas. Uma forma de ser com a linguagem que também se faz jeito de estar no mundo. (...) Falar em Vanildo Brito é admitir a necessidade de adotar a peculiaridade dessa perspectiva. E, sobretudo, a impossibilidade de estabelecer, com segurança, a divisão entre um estado que fosse da vida e outro da poesia. Sempre foi assim: meu amigo vive os dois estados, indistintamente, encontrando na confluência dos reais o espaço natural para sua forma característica de ser. (...) Um velho tema da preferência do poeta predomina, como motivação mais forte, na maioria das composições que constituem o SINAL DAS HORAS. O tempo ‘vazio’, ‘esquivo’, ‘sem retorno’, ‘cruel senhor’, ‘desilusão’. Por isso, um livro de consecutivas elegias. Um livro de Outono, pode-se dizer, sintetizando-o no título de seu melhor poema. (...) Fundem-se, portanto, as duas vertentes temáticas do livro. E o amor, integrando dessa forma a ideologia da obra, está a salvo do referencial. É mito e resistência contra ‘um tempo vazio, carcomido/Pelo estigma da dor e da tristeza’.

Ângela Bezerra de Castro – “A Esperança Inventada”


POEMAS


ELEGIA


Quando nublou-se o lume do meu sol

E se tornaram alvas minhas têmporas,

Tardo os passos, húmido o semblante,

Vi a face do tempo em cego espelho.

Não era o fulvo e maturado tempo

Que se mirava nos meus olhos baços,

Mas um tempo vazio, carcomido

Pelo estigma da dor e da tristeza.

Diante do abismo da implacável morte

Em vão busquei o constelado espaço

Mas os de outrora fulgurantes astros

Sobre minha cabeça escureceram.

As terras percorri e os horizontes

Do aberto mar em sonhos desatados.

Escuro via apenas, se é que via

Alguma coisa em meu olhar opaco.


Eis que me fico. Sobre as derribadas

Faces, a névoa das ardentes lágrimas.

Depois secam-me os olhos. E me sinto

Esvaziado ante esse tempo nu.

Por fim me calo. E permaneço quedo

E escurecido, náufrago rochedo

Nos desvãos desse mar emparedado,

Até que venha a sempiterna face

Redimir-me da sombra que me cerca.


O ENIGMA


Das minhas horas um enigma de suspende

Como sinal ou estranho presságio.

As coisas continuam como dantes

Girando em suas invisíveis órbitas.

As árvores e as paisagens, os homens e as cidades,

Constróem sem lacunas os seus fixos calendários.

E suspenso das minhas horas

O enigma mantém-se imutável

Como sinal ou maligno presságio.

Não tem forma nem cor, ou seiva ou sangue.

Mas é tão ameaçador em sua implacável presença,

Que um dia eu hei de destruí-lo

Com as minhas mãos em fúria.


ELEGIA/III


Eu não posso esquecer a voz das antigas faces

Iluminadas de mistério.

Elas sempre retornam como espelhos

Onde a alegria se reflete.


Eu não posso esquecer as límpidas paisagens

Nem as quietas ruas

Nem o fluir das esgarçadas nuvens

No lento céu sem máculas.


Eu não posso esquecer as presenças redivivas

Que chegam de repente como asas silenciosas

Sobre essa tarde fugidia.

Elas me chegam com a pura luz de que se vestem

E são tão fortes em suas cores e semblantes

Que pressinto que ainda vivem noutros tempos e lugares.

(É por isso que suas imagens ecoam

no meu coração em chamas).


Eu não posso esquecer essas lembranças

Pois começo a viver entre elas,

E entre elas já começo edificar

Minha morada definitiva.


CANTIGAS DE AMOR PARA INALDA


SEXTA


Inalda, vê que tudo é maduro e que o sol

Desta tarde já doira e tramonta.

A areia do tempo escoa

Por entre a noite dos nossos dedos.

É preciso reter da vida a chama

Nem que seja na memória ou pelo sonho

Antes que venha o grande esquecimento.


Vê que as paisagens já não são as mesmas;

Vê que esmaecem, lentas, as lembranças;

Vê que os rostos não têm a mesma luz.


Somente o céu continua como sempre

Na solidão da sua côncava distância.

Somente o céu e o nosso amor

Perene e forte no seu destino.


OITAVA


Com teu amor eu exorcizo as sombras;

Com teu amor eu ponho asas sobre as pedras;

Com teu amor eu reconstruo o próprio tempo.


Podeis morrer, ó flores de setembro!

Podeis partir, ó salitrados centos!

Não vedes que encontrei o meu refúgio,

O porto em que me ancoro e me acalento?


UNDÉCIMA


Quando eu te conheci, mal florescias:

Eras ternura pressentida apenas,

Recém-vinda das águas do mistério.


Quando eu te conheci, eras silêncio

E palavra de amor nos lábios presa,

E gestos esboçados e promessas.


Mais tarde, quando a ausência te levava,

Eras perene imagem de alegria

Na esperança de ver-se renascida.


Agora eu te reencontro como quem

Ressuscita depois de um negro sono.

E és a excelsa presença que dos longes

Do destino chegou feito um milagre.


VIOLETA FORMIGA


Pombal-PB (1931) – Idem (1982)


Poetisa, contista, cronista, diplomada em Filosofia. Participou em várias Antologias e movimentos, colaborou em diversos jornais e revistas. Livros: “Contracena” (1982); “Sensações”(1984).

POEMAS


LUA CHEIA


Ancorar

no espaço

feito nuvens

e estrelas.


Você diz que

me ama,

é lua cheia.


AMOR


Na instância

do desejo

executo um ato

secreto

de paixão e medo.


TORMENTO


Perdida é a noite

que os homens

se calam.


Pois deste silêncio absoluto

absurdo

se derivam todas as trevas.


SOÇOBRO


Naquela casa

a noite chega mais

cedo

do que normalmente

se espera.


Há morcegos passeando

na mangueira,

fazendo pousadas

nos quartos

procurando

seu olhar

tão peculiar

às feras.


O branco das paredes

já não faz lembrar

pureza

ou coisa semelhante.

Confunde os passageiros

o preto das desgraças

ou tristezas

de abandonados

cemitérios.


As flores dos jambeiros

não florescem

como antes.

perdem a cor, o sabor

e apodrecem prematuramente

verdes

porque naquela casa

enigmas de sonhos

e mistérios

habita agora um único

ser.

Estranhamente

maléfico.


ARENA


Entregar-me

sem limitações

do verbo

ou da cena.


Você existe

na plenitude

totalizante

do poema.


BACELAR VIANA


São Luís-MA (1938) – Idem (1982)


Alfredo Luiz BACELAR VIANA, nasceu em São Luís do Maranhão no dia 23 de dezembro de 1938. Ingressou na Faculdade de Medicina em 1960, fez curso de psiquiatria no Rio de Janeiro, professor de psicopatologia e clínica psiquiátrica, Presidente da Associação Maranhense de Psiquiatria. Poeta, ensaísta, membro da Academia Maranhense de Letras, filho do também Acadêmico Fernando Viana. Livros: “Elegia da Rosa” (poesia); “Três Evocações” (ensaios); colaborou em diversos jornais e revistas.


“Existe um sentido profundo nas obras póstumas. É que na verdade são obras feitas em vida, apenas publicadas post mortem. No caso de Clamor de São Luís, encontramos os poemas da última etapa vivida na terrena peregrinação de Bacelar Viana. Representam, portanto, o grau mais avançado da evolução literária a que chegou o poeta de “Aula da Saudade”. (...) Bacelar Viana não é um poeta hermético, à semelhança do Nauro Machado de “Testamento Provincial” ou da Adalgisa Nery de “Mundos Oscilantes”. Bacelar Viana é transparente como as fontes de seu cantar. Porque para ele estrela é estrela, pedra é pedra, amor é amor. (...) Claro que o tema São Luís não podia faltar em poeta que assumiu conscientemente sua condição de maranhense. Ao lado de Dagmar Desterro, de José Chagas, de Bandeira Tribuzi, de Carlos Cunha, de Nauro Machado, de Evandro e Ivan Sarney, de Odylo Costa, de Luís Augusto Cassas, Bacelar Viana integra a plêiade dos cantores desta urbe feiticeira. Contudo, em Bacelar Viana a formação do médico direciona o paladar do poeta. É que ele não abre os olhos nem estende os braços para as sacadas e telhados e azulejos e mirantes da cidade (en) cantada. Em Bacelar Viana o humanista contempla, impotente, o desamor destrutivo de uma miragem, e com isto submerge na nostalgia de estrofes que não cantam a arquitetura, porque a força antropológica lhe parece mais vibrante. Mais do que os sobrados, quem neles vive e morre torna-se a inspiração para “Clamor de São Luís”. (...) Sem dúvida Bacelar Viana inscreve-se entre os poetas maranhenses que mais dramaticamente enxergaram e denunciaram todas as frentes de miséria nesta cidade tão cantada por tantos.”

João Mohana – “O Poeta que Voltou das Morte”


POEMA


CLAMOR DE SÃO LUÍS


Não que não a ame, não, não, não e não...

Amo-a, sim, com a alma trespassada

De muitas dores e muitos desencantos.

Revolta-me pressenti-la estertorosa,

Envelhecendo qual velha prostituta

Na sombra gordurosa dos bordéis.

Amo demais esta cidade velha

Que se desfaz de muitas de suas graças

Para acompanhar os passos lestos

Do Tempo deletério e molestoso.


Vejo-a perder o encanto de suas faces,

A fagueirice risonha de seus gestos

Que ora se perdem nos sórdidos ruídos

Que escapam dos intestinos podres

E dos ventres rotundos, saciados

Do consumo voraz e antropofágico,

Cujos dejetos correm pressurosos

Para adubar a miséria periférica

Que circunda a cidade, quais correntes,

Agrilhoando a alma primitiva

Da gente genuína e inconspurcável.


Olho-a desfigurada, agônica e inquieta,

Sem tempo pra vagares cismarentos,

Envolvida no vórtice da Máquina

Que a quer trepidante e produtiva,

Gerando rosto sem nome e sem passado,

Mãos afanosas que obedecem cérebros

Manipulados pela Nova Ordem

Cujo lábaro de fogo é o Rei Dinheiro

Que se encastela nos bolsos infindáveis

Da infinitésima parcela dos barões.


Pressinto-a muda e desfigurada,

Sem sinos jubilosos, sem girândolas,

Tecnicalizada, cibernética,

Triste, triste, cada vez mais triste,

Sem poder beber a água do Anil,

Sem poder tomar banho no Bacanga,

Sem poder morder a polpa sumarenta

Das mangas, sapotis e dos cajus.


São Luís, São Luís, o que fizeram de ti?

Os ventos mornos do Atlântico

Não passam mais por aqui,

Não trazem o beijo e o abraço

Do africano sedento

Cujo canto morno e lento

Embalou o sonolento

Verão tupi-guarani.

As aves pancoloridas

Não mais povoam as ribeiras,

Seus trinos já se perderam

No rumor das avenidas,

São vidas, são muitas vidas

Que não vivem mais aqui.


Onde estão as procissões,

O som macho dos rojões,

As festas embandeiradas,

As grandes saias rendadas,

Verdes, azuis, encarnadas,

Vestindo moças brejeiras

Sapecas, namoradeiras,

Escondidas nas varandas,

Cumprindo alegres cirandas

Ao bom compasso das bandas

Do coreto da Matriz?

- Onde é que estás, São Luís?


Onde está o povo bravo,

Heróico no desagravo

Da afronta e do desrespeito?

Onde está o nosso irmão

Que herdou do Bequimão

A coragem e o destemor,

Que levantava a sua voz,

Que enfrentava o poder,

Que pagava com seu sangue

O direito de dizer?

O que é que teu povo diz

Nestes dias, São Luís?


Mui heróica e leal cidade santa,

Estás desfigurada e diferente.

És uma contrafação estranha e dolorosa

Da outrora mimosa capital.

Corre em tuas veias sangue novo

E os germes do progresso a todo custo.

Copias com desfaçatez incrível

Os modismos danosos de outros povos

E não te deitas mais à sombra plácida

Das palmeiras impávidas e indomáveis.

São Luís, São Luís, faze um confiteor, Princesa,

Pára um pouco pra pensar.

Não te enredes na trama

Dos que te querem mudar.

Mantém tua alma intocada

Não te deixes conspurcar.

Tens de crescer para todos,

Não te deixes enganar.


Querem transformar tua beleza

Em algo mecânico e deformado,

Engordam os teus núcleos de miséria

E drenam do teu sangue envenenado

Os sórdidos valores alienados

Que se transferem para as bolsas gordas

De insensibilíssimas figuras

Que cospem e escarram nos teus monumentos.


São Luís, São Luís, cidade amada,

Solarenta pousada à beira-mar,

É com a alma triste e dilacerada

Que entôo esta canção pra te acordar.

Acorda desse horrível pesadelo

Em que te querem pra sempre acorrentar,

Arranca de teu peito o escalpelo

Que pretende tua alma dissecar,

Revolta-te, enfurece-te, ouve o apelo

Dos teus filhos que querem te salvar.


JOAQUIM ITAPARY


São Bento-MA (1936) –


Poeta, cronista, ensaísta. Político, advogado, formado pela CEPAL (ONU), desde moço se envolveu com os problemas culturais da sua terra. Membro do Movimento Nacionalista Acadêmico, Líder universitário. Diretor do “Jornal do Povo”, sob a direção de Neiva Moreira, diretor de “O Combate”, “Diário da Manhã” e “O Estado do Maranhão”. Fundou a revista “Legenda”, com Bernardo Almeida, Reginaldo Teles, Ubiratã Teixeira, Yêdo Saldanha, Antônio Almeida e outros. Conduziu o programa de revificação das artes populares através da SUDEMA, responsável pela reedição da bibliografia básica sobre o Maranhão. Joaquim Itapary foi Secretário-Geral do Ministério da Cultura e elaborou o projeto que resultou na Lei Sarney de incentivo à cultura, sob a orientação do Ministro Celso Furtado. Chefiou a delegação brasileira no Comitê Interamericano de Educação, Ciência e Cultura na OEA (Washington). Membro da Academia Maranhense de Letras. Livros: “Do Incerto Ócio” –1989 (Poesia); “História da Fábrica Rio Anil” (História); “Crônicas”(?)


POEMAS


FRUSTRAÇÃO

Com macia seda e tecido nobre

teci meus sonhos vendo o infinito

mas outras mãos vestiram-me do cobre

de cacos de luas e ruinoso grito.


O outro que me quis olho na vigia

dos porões de naus que não navego

metamorfose me incompleto todo dia

e à diversa geometria me entrego.


Pesa-me o processo mudo na carteira

o parecer concebido sem proveito

letal rotina que pela vida inteira

mata o espírito e massacra o peito.


Desato o nó górdio e no cabide ponho

inútil gravata algoz do meu pescoço

porém a vida que perdi e sonho

é tenaz quimera do meu tempo moço.


VERDE PAZ


O dia sobre o tempo sobe

e verde invade meus olhos;

planta profundas raízes

nas entranhas do meu ser

nutrindo-me de paz e clorofila.


HOLOCAUSTO


Homens na terra no céu máquinas

estralam o estrepitoso orbe

rosas fumorosas desabrocham

fragorosamente rubras infragrantes.


Rápidos raios soldam o horizonte

em sólidas linhas ao orco escarlate

e assoma rubra à abrasada litosfera

a massa mineral de magma ebulido.


Esvai-se a vida verde e breve

em voraz ciclone de ar quente

por imenso esôfago de amargura.


Caminho humano de viscoso piso

findo fervente em cáustico cadinho

fornalha da orbívaga aventura.


CONTRIÇÃO


Eu pecador contrito me confesso

de joelhos sobre lisas cantarias

bato no peito e pecados meço

cometidos em ti noites e dias.


Cubro a cabeça e em solenidade

busco o perdão de ruas e janelas

lavo o espírito nas fontes da cidade

virgem de cal azeite e pedras belas.

VIDA


Onde está a densa tristeza

que tanto em mim demorava,

ígneo punhal do peito dentro,

qual noite de negro ônix?

Levou-a da madrugada a chuva,

tornou-a orvalho nos rebentos verdes,

pérolas de prata na bruma da manhã,

colorindo flores no jardim do dia.

Lavar-me nesse orvalho devo agora,

banhar meu rosto nas gotas do relvado,

plantar mil árvores para proteger-me

do duro sol da humana iniqüidade.

Ao fim do dia a casa regressar,

Íntegro, integralmente alegre,

do despropósito da tristeza certo,

que apesar da vida a vida vale

e vale mais que o pesar da vida.


LEANDRO GOMES DE BARROS


Pombal-PB (1865) – Recife-PE (1918)


O maior dos poetas populares, que nós chamamos de cordelista. No entanto, situar Leandro Gomes de Barros simplesmente entre cordelistas é negar a existência do poeta dentro do poeta. Com efeito, Leandro teve o cuidado de entremear histórias populares com poemas de feição erudita, o que fazia muito bem. São poemas geralmente de feição satírica, beirando o absurdo mas sem perder o lirismo. É fato corrente entre poetas de cordel, devido a exclusão a que são submetidos, mostrar que têm conhecimento da poesia culta. Assim, não perdem oportunidade de mostrar talento e esmero nas composições chamadas eruditas.


“Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo o resultado a má informação porque o título, a ser concedido, só podia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista Fon-Fon!, mas vastamente popular no Norte do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor do “Ouvir Estrelas”. (...) E aqui desfaço a perplexidade que algum leitor não familiarizado com o assunto estará sentindo ao ver defrontados os nomes de Olavo Bilac e Leandro Gomes de Barros. Um é poeta erudito, produto de cultura urbana e burguesia média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão. (...) A poesia parnasiana de Bilac, bela e suntuosa, correspondia a uma zona limitada de bem estar social, bebia inspiração européia e, mesmo quando se debruçava sobre temas brasileiros, só era captada pela elite que comandava o sistema de poder político, econômico e mundano. A de Leandro, pobre de ritmos, isenta de lavores musicais, sem apoio livresco, era a que tocava milhares de brasileiros humildes, ainda mais simples que o poeta, e necessitados de ver convertida e sublimada em canto a mesquinharia da vida. (...) Não príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil, em estado puro.”

Carlos Drummond de Andrade - Leandro, o Poeta (Jornal do Brasil, 09/09/1976)


“Poetas populares! Eis uma terminologia que por sua generosidade e propósito de designar a parte com o nome do todo gera ambigüidades. (...) Com a vivacidade e senso de humor de Leandro Gomes de Barros, só podem ser encontrados similares nos grandes poetas Firmino Teixeira do Amaral, Manoel Vieira Paraíso, José Adão Filho, cujas obras se perderam quase completamente, delas restando pequena amostragem. É preciso levar em conta que a métrica, a rima e o senso de humor faziam o poeta beber mais nos versos do que na realidade. Câmara Cascudo descreve-o com precisão: ‘Baixo, grosso, de olhos claros, o bigodão espesso, cabeça redonda, meio corcovado, risonho contador de anedotas, tendo a fala cantada e lenta do nortista, parecia mais um fazendeiro que um poeta, pleno de alegria, de graça e de oportunidade’. Espírito crítico, não deixava escapar uma oportunidade [para exercê-lo]. Viu e retratou numa “Ave Maria”, com deliciosa mordacidade, o processo eleitoral de seu tempo.”

Átila de Almeida-José Alves Sobrinho – Dic. Bio-bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada


“Leandro Gomes de Barros foi o epítome do poeta popular do Nordeste. Foi não só um dos primeiros a escrever e imprimir folhetos que incluíam o melhor da tradição oral, mas também o mais prolífico dos poetas populares. É, porém, a qualidade mais que a quantidade de folhetos que lhe dá posição saliente entre os poetas populares. É reconhecido por colegas, poetas contemporâneos e estudiosos como o melhor dos poetas populares. Embora escrevendo todo gênero de folhetos, seu forte era a sátira. (...) Sua originalidade, seu humor, e especialmente a sua sátira, vistos no comentário social, fazem de seus folhetos obras-primas. (...) É o comentário social que representa o melhor de sua obra. Como os outros poetas populares, ele devia sentir um desejo e mesmo uma obrigação, como poeta do povo, de criticar a falta de justiça daquela época, e de oferecer soluções, embora muitas vezes jocosas ou pessoais, para os problemas da sociedade.”

Mark J. Curran – A Sátira e a Crítica Social na Lit. de Cordel


POEMAS


A TARDE


Tomba a tarde, o sol baixa seus ardores,

Alvas nuvens no céu formam lavores

E a voz da passarada o campo enchendo:

O juriti em seu ramo de dormida

Soltando um canto ali por despedida,

Dando adeus ao sol que vai morrendo.


E mergulha o sol pelo ocaso,

Já o dia ali venceu o prazo,

Abrem flores, o orvalho em gotas vem;

Limpa o céu, o firmamento se ilumina,

Uma luz alvacenta e argentina

Já se avista no céu, mas muito além.


Regressam do campo lavradores,

Apascentam os rebanhos os pastores,

E o mundo fica ali em calmaria;

A matrona embala o filho pequenino

E prestando atenção à voz do sino

Quando dobra no templo a Ave-Maria.


Vem a noite, dormem ali as cousas mansas,

Dormem qu’etos os justos e as crianças,

E a Virgem envia preces à divindade;

A velhice recorda arrependida

Todo erro que fez em sua vida

E murmura: Quem me dera a mocidade.


AVE MARIA DA ELEIÇÃO


No dia da eleição

O povo todo corria,

Gritava a oposição

Ave Maria!


Viam-se grupos de gente

Vendendo votos na praça

E a urna dos governistas

Cheia de Graça.


Uns a outros perguntavam:

- O senhor vota conosco?

Um chaleira respondeu:

- Este o Senhor é convosco.

Eu via duas panelas

Com miúdo de dez bois,

Cumprimentei-as dizendo:

Bendita sois!


Os eleitores, com medo

Das espadas dos alferes,

Chegavam a se esconder

Entre as mulheres...


Os candidatos andavam

Com um ameaço bruto,

Pois um voto para eles

É bendito fruto.


U mesário do Governo

Pegava a urna contente,

E dizia: - Eu me gloreio

Do vosso ventre!


SE ALGUM DIA EU MORRER


Preveni a todos cá de casa,

Por acaso um dia eu falecer,

É favor ninguém chorar perto de mim,

É caipora com zoada se morrer.


Ataúde, se alguém quiser fazer,

Não precisa de madeira delicada,

Eu prefiro as tábuas da vasilha

Onde bota-se aguardente imaculada.


A mortalha também isso dispenso,

Água benta no cadáver nem um tico,

Antes quero uma freira inda moça

Que me exorte cantando o mangirico.


Não precisa de frade, preveni,

Para que quero eu esse prefácio,

Eles andam com cordões de S.Fº,

Amarrem com eles a mãe de Inácio.


E também não quero freira,

Toda vida não gostei de romaria

E não quero que os meus colegas

Digam lá que eu carrego bruxaria.


Digo isso apenas prevenindo,

Não confio na minha mocidade,

Tenho apenas 72 janeiros,

Pouco mais passei da flor da idade.


O ANTIGO E O MODERNO


Quando o velho Santo Jó

Viu-se doente e leproso

No Recife Alfeu Raposo

Mandou-lhe uma fricção,

A mulher dele mandou

Pedir ao Dr. Tomé

Na farmácia São José

O Elixir da Salvação.


Nas bodas de Canaã

Que Cristo fez da água vinho

A Lanceta de Agostinho

Exagerou sem limite

Soares Raposo deu

Carne para lombo e bife

E o Jornal do Recife

Fez os cartões de convite.


São Pedro era pescador

Antes de seguir Jesus

Quando o Dr. Santa Cruz

Tomou conta de Monteiro

Nero Imperador Romano

Mandou um seu paladino

Chamar Antônio Silvino

Para ser seu cangaceiro.


A URUCUBACA


Este ano é o ano da cigarra,

Este século das luzes é tão escuro!

Vejo um rio se encher de sangue puro

E no mar civilizado ir fazer barra.


A miséria com desdém no mundo escarra,

O desastre diz garboso, estou seguro

Já rasguei as vestes do futuro,

E o meu curso de herói ninguém esbarra.


Tenho as chaves da Alemanha em meu poder

O futuro francês hipotecado

E a Rússia aos meus pés há de gemer.


A Inglaterra terá que se render,

A Turquia lamenta o seu estado,

O Brasil é um cão sem dono há de sofrer.