segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

CARTAS A THEO – LIÇÃO DE ARTE

Vincent van Gogh – Cartas a Theo - Porto Alegre - L&PM Packet 2007
Vocês certamente conhecem aqueles prefácios feitos para irritar o leitor. Pois a editora L&PM nesta nova edição de “Cartas a Theo” dá uma contribuição ao tema, num prefácio que não está sequer assinado. Não pelo entrecho em si: o prefácio trata de resumir a vida do pintor e sua relação fraternal e amorosa com o irmão Theodore van Gogh, um vínculo cuja importância da vida de Vincent mostrou-se transcendental. No entanto, lá pelas tantas, o prefaciador resolve extrapolar e – vaidade das vaidades! – parte para a crítica à escrita de van Gogh. 
Ora, em princípio pergunta-se: a correspondência é uma obra literária passível de crítica? Fica logo claro que não é – quem escreve uma carta está transmitindo uma palavra pessoal, um sentimento íntimo, algo que não deve ultrapassar as margens do papel nem as fronteiras da particularidade. São preocupações imediatas, muitas das quais ganham vida e morrem no mesmo instante que a comunicação se completa. Uma carta não é escrita com a preocupação literária e mesmo a maioria daquelas que comportam essa intenção morre inédita, transformada em pó pela corrosão fatal do tempo.
Não obstante o prefácio concorrer para a visão da vida e da comoção pela qual van Gogh passou lutando para ser reconhecido – não por seus contemporâneos – mas por si mesmo (não se trata de um sofisma), lá nos entremeios vem o tranco: “Como nas cartas anteriores, escritas em holandês, seu texto continua duro, ruim. Este grande pintor jamais teve o dom da palavra. Em seu estilo entrecortado e reticente, ele fala de suas idas e vindas, de seu método de trabalho, das características da região, do grande sol, dos hábitos das pessoas, de suas leituras, de sua casa e finalmente de seu sonho de fundar com os amigos um ateliê comum. Nelas também seguimos o despertar de uma crescente exaltação, sob a ação de um sol ardente”. É ou não é um tratamento irritante? Num mesmo parágrafo o prefaciador condena o “grande pintor [que] jamais teve o dom da palavra” e logo em seguida ignora que a matéria-prima de um pintor deve ser a pintura e não a escritura!
Sem dúvida uma típica atitude ultracrepidária... Vocês certamente se lembram daquela história que redundou na célebre frase: “Sapateiro, não vá além da sandália” [Ne sutor ultra crepidam [judicaret], alusão ao incidente que, segundo Plínio, o Velho ocorreu com Apeles, famoso pintor da Grécia. Apeles, que costumava expor suas pinturas na porta do ateliê para observar a reação dos passantes, notou que um sapateiro examinava o pé de uma figura. Ao indagar-lhe o que tanto atraiu sua atenção, foi avisado que tinha se enganado quanto à fivela da sandália. Apeles agradeceu o reparo e apressou-se a corrigir o erro. Porém, o sapateiro não conteve a vaidade e fez outras censuras ao quadro, mas Apeles o criticou com a frase que se tornou lapidar. (Fonte: http://www.sualingua.com.br/).
Não vamos exagerar com o ilustre prefaciador, posto que ele mesmo se redime ao longo da introdução, contrapondo textos que realizam interessantes efeitos sobre a vida de van Gogh. Mas o que exigir que um pintor escreva? Um romance? Peça a um padeiro que escreva sobre sua profissão e veremos que o exercício de fazer um pão se tornará uma obra de arte. Pois van Gogh consegue transformar as “Cartas a Theo” numa verdadeira universidade sobre a arte de pintar. E aqui o que menos se vê é a descrição da técnica apurada, mas a excelência do primado de ser artista desde a raiz até ao fruto.
Van Gogh trata de exercitar todas as sensações que antecedem uma obra de arte, analisa todas as tentações que a facilidade da primeira impressão traz, as impossibilidades do artista que se abstém de rabiscar, iludindo-o sobre a realização em si – a tudo isso ele resiste, não se deixa enganar, parte para os estudos, alguns dos quais atesta que poderiam já ser apresentados como uma obra de arte. Mas van Gogh resiste e resiste. Procura a cor, discute sobre a mistura, trata da perspectiva, dos tons, busca, antes de tudo, educar o olhar para a arte de pintar como um compositor educa o ouvidos para as sonoridades.
“Vêem-se aqui, ao redor dos jardins, dos campos e das lavouras, aquelas sebes de espinho negras, como em nossa região no Brabante se vêem as matas de corte e pequenos bosques de carvalho, ou na Holanda, cercas de troncos de salgueiro. Com a neve destes últimos dias, isto dava o efeito de escrituras sobre papel branco, como as páginas do Evangelho...”
Isso é quase poesia, diria, isso é poesia. Pois como achar que o homem não tinha o dom da palavra? Podemos dizer que van Gogh é um padeiro das cores? “Quando misturo vermelho e verde até chegar ao verde avermelhado ou vermelho esverdeado, obtenho, acrescentando o branco, o verde-rosa ou o rosa esverdeado. E, se você quiser, acrescentando o preto, obtenho o verde-castanho, ou o castanho esverdeado. Está claro ou não?”
Van Gogh discorre com o irmão a participação dos pintores antigos na história da arte e inclui seus contemporâneos entre aqueles que influenciaram seu trabalho. Com o irmão ele discute a cor, o preto, o branco, a dificuldade inicial que tem em traduzir para a tela o pensamento e a visão da paisagem extemporânea. Essa mesma dificuldade que tem o escritor, o poeta, em transpor para o papel toda a gama de imagens que correu o cérebro em busca da frase perfeita.
Como disse van Gogh na última carta: “Pois é, realmente [os pintores] só podemos falar através de nossos quadros. (...) em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão se arruinou em parte.”
Deixar de lado as discussões fúteis, comprar, ler e andar a descobrir o interior mais profundo desse pintor que não teve o dom da palavra, mas que em suas 652 cartas deixou um legado que nenhum pintor de nenhuma época pode recusar a aceitar, tantas são as informações, técnicas, estéticas, éticas e morais sobre as quais trafegam todas as artes, inclusive a pintura.
“Cartas a Theo” traz ainda um importante índice cronológico e um glossário minucioso, adendos que configuram todos os indícios que negam a fama de gênio e louco – e vice versa – com que a figura de Vincent van Gogh chegou até nós, se é que se pode chamar de gênio um pintor que avançou o seu tempo e chamar de louco alguém cuja lucidez se manteve até nos últimos momentos de vida.
Rio de Janeiro, Cacgambi, 28/01/2008

sábado, 26 de janeiro de 2008

7 CANÇÕES


1


CANÇÃO DE TEUS POEMAS

Estes poemas são teus

porque – bem vês – são o espelho

que te reflete inteira:

cabelos, olhos, boca, sopro, pés.

Porque são teus estes poemas,

são a tua sombra.

Estes poemas são teus

porque são teus.

Porque minhas mãos teleguiaste,

corpo e alma psicografados,

aqui e na distância.

Estes poemas são teus

porque sugerem primavera

quando não é primavera,

porque vieste verão abrasador.

São teus estes poemas porque

vários outonos alegraste,

são teus estes poemas,

somente teus...


2


CANÇÃO DAS DUNAS ESTELARES

Sardas são estrelas.

Teu corpo é a Via Láctea

salpicada de sardas.

São dunas de areia

as alvas ondulações estelares

desse corpo.

Desafios exigindo sabenças

as reentrâncias.

Leitosos caminhos cósmicos

desafiam o amante venturoso.

Sardas são estrelas, astros, sóis,

pontos minúsculos de universo

para sempre incógnito.

Teu corpo salpicado de sardas,

ponteado de alvas ondas estelares,

reentrâncias como desafios,

convida o venturoso amante.

(Colher uma a uma

as estrelas,

com os lábios apagar sardas,

deslindar o sabor lácteo

que as reentrâncias exalam).

Saber a sal o sabor da pele,

dos lábios salpicar de novo,

repor uma a uma as sardas todas

em seus devidos lugares.

Via Láctea chamuscada de sardas

que são artes estelares –

reproduzindo o trimilenar mistério.

Miríades de sensações:

teu corpo tem estrelas.

3


CANÇÃO DOS PÉS ROLIÇOS

Beijo teus pés com fervor

pois até mesmo eles têm

uma sensualidade própria.

Beijos teus pés roliços

e os dedos macerados

pelas sandálias ao caminhar.

Beijo teus pés com fervor:

pés como plantas

onde a raiz do desejo humano

nasce, atraca, cresce e fulge

como voraz trepadeira.

Beijo teus dedos roliços

e os pés redondos marcados

pelo calçado no caminhar.

Beijo teus dedos com fervor,

beijo teus pés redondos

que sustentam alvas colunas

de leite e mel.

Convidam para ir além,

muito além.

Beijo teus pés com fervor,

beijo teus dedos esmaltados,

vermelhos, muito rubros.

Beijo os tornozelos,

roliços como favos,

com muito ardor.

Beijo teus pés,

beijo teus dedos roliços

com o mais solene fervor!

4


CANÇÃO DAS OITO NINFETAS

Ayuara dos sóis,

cabelos flamejantes,

tuas lavaredas envolvem

e lambem os que te cercam

e decerto amar te desejam.

Boiaçu dourada,

olhos diamantinos,

lapidados, faiscantes,

brilho de lâmina nascido

que fere, corta e cega

os que volteiam teu corpo.

Janaína dos rios,

turmalina da gema

das minas gerais,

teu corpo entrelaçado

por tão longos cabelos

emerge das águas e colhe

humano escravo garimpo.

Mãe D’água encachoeirada

do verde das matas

fundos torpedos brilhantes

miríficos que enfeitiçam

os que desejar-te ousam.

Sereia dos lagos

de pelos oirados

ou louros trigais,

acarinham, abarcam,

aprisionam, matam,

de amor? de desejo? –

tão pobres mortais.

Sirena marinha

espumante (ou áspera?),

areia, braços tentáculos,

seqüestram à morte

corpóreos navegantes

perdidos a vagar.

Uiara das luzes,

miraculosa luminosidade,

laser ultrafulgurante,

a luz clareia corações,

almas desencarnadas,

epidermes em clarões.

Yara planetária

fulge das entranhas

a terrenal existência,

a redimir os seres

de humilde magnificência

nos céus, nos ares,

pecadores de amor e febre,

desejos e mais... e mais...

5


CANÇÃO DOS OLHOS LÍQUIDOS

Esses olhos mais que líquidos,

de transparência infinita,

olhos de pedra preciosa

que me fitavam em fuga,

faiscando as pedrarias.

Mãos rudes de garimpeiro.

esses olhos trespassados

de liquidez sem fundo,

olhos gemas verdadeiras,

(e não quinquilharias...).

Águas profundas em cor,

espaço e tempo indefinidos,

esses olhos preciosos,

esmeralda-do-brasil.

Olhos mineradores

de lavra descomunal,

perscrutadores, devassantes,

microvisão essencial.

Esses olhos preciosos,

olhos líquidos trespassados,

etéreos, vãos,

gemas a garimpar,

de transparência sem fim.

Olhos capazes de amar,

esses olhos, bem sei,

olhos de água e punhal

pertencem somente a ti.

Esses teus olhos líquidos...


6


CANÇÃO DO PÚBIS DOURADO

Sopro teu púbis dourado,

louro trigal.

Ao redor, fios de ouro.

rios de leite,

do mais puro alvaiade.

Brancura de algodão,

nuvens leves da tarde.

Sopro teu púbis sonhado

e os pelos de ouro fremem

como trigal ao vento.

Rios de leite,

brancura do mais branco.

Correm teus vales róseos,

alvura de alma inocente.

Ao redor,

no ventre, nas coxas,

fios de ouro cintilam repousados.

Rios de leite,

linho tecido cru,

mistura de todas as cores,

alvura do mais alvo branco.

Sopro teu púbis eldorado:

o sopro morno acorda

para o amor.

Ao redor – ouro –

nas entreabertas pernas

fios dourados cintilam

úmidos de sereno suor.

Beijo teu púbis alado,

beijo o trigal, beijo a flor...

7


CANÇÃO DE ALGUMA ETERNIDADE

(Ficaria ao infinito aquele dia

prisioneiro da lembrança

presente, passada, futura,

do que foi te conhecer).

Poderia cantar hoje e eternamente

o prazer de ter-te conhecido.

Poderia cantar a madrugada

da tua aurora luminosa

como um sol amanhecido.

Poderia cantar a tarde,

o ocaso dos cabelos brasidos.

Poderia cantar o pôr-do-sol,

o lusco-fusco do olhar esmaecido.

Poderia cantar a noite escura

refúgio do teu corpo adormecido.

Poderia cantar toda a paixão

que tua presença me teve oferecido.

Por isso trouxe a saudade

e o silêncio obstinado

do teu olhar fundo e quente.

Trouxe o aconchego desesperado

da tua boca – ferro em brasa –

desse sorriso descarado...

Do teu corpo impaciente

trouxe o desejo incendido.

Dos teus seios pequeninos,

um minuto muito excitado.

Das tuas pernas e pés

trouxe a carícia redobrada.

Do teu sexo feiticeiro

o gozo em vão derramado...

(Amaria ao infinito o momento

passado, presente, futuro,

prisioneiro da esperança

de um dia te pertencer).

Rio de Janeiro, set/out de 1987

AS COISAS DO MAR

AS AREIAS

Uma casa à beira da ria

sorri para o mar da janela.

No barco verde à deriva

pescadores tarrafeando.

Um sol na quase manhã

é como véu no corpo dela.

Guará goteja o mangue

vermelho içado de verde.

Os catadores de sururus

e caranguejos vermelhos.

Um corpo nu desmaiado

na alvura do lençol azul.

Maria, sim é Maria, é ela

que ri para o mar da janela.

A BAÍA DE SÃO MARCOS

Por aqui começa o mar noutro mar,

a mais fértil terra dos pescadores

eu penso em ti, em mais ninguém.

E nascem na praia campos de areia,

ali aonde o mar existe e não existe,

mais louco que nunca para te ver.

O pescador é o camponês do mar,

ameia os peixes de colheita insossa,

posso jurar ao vento que te amo.

Roçado de sal o pescador recolhe,

siri, caranguejo, flor de manguezal,

é um mar em forma de sedução.

AS HILDAS SEREIA

Quando a encontrei era só açúcar,

prazer, dança, doce de goiaba e mel.

Um mar de sal e sol para temperar,

vinho branco e, ou, cerveja gelada.

Criação boa a receita de felicidade:

e assim foi o tempo das maresias,

ondas rasteiras, espaços espectros,

pores de sol. É verdade: o sol se põe?

Todos estão pensando que vou falar:

Agora tudo é fel” (para rimar com mel),

mas que nada! Só a distância atrapalha

a convulsão mansa de nossa pele úmida.

Se possível, continua doce, mel e mel,

bacuri em calda, condimentos picantes,

sorvete de juçara... Já falei dos lábios?

Ara que boca! Ânsia devoradora! Ora...

AS DUNAS MENINOS

As crianças correm pelas dunas de areia fina

desviando os galhos verdes dos pés de muricis.

O vento estabanado, cabelos lisos em caudal,

esticam os lábios em sorrisos quilométricos.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

Era domingo sempre, mas o sol não via que era:

crianças livres corriam pelas dunas alvacentas.

A descida é escorregadia, patinam sobre grãos,

imitam anjos de algodão que vivem nas nuvens.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

Gritos se transformavam em cantoria musical

arrastados coloridos longe lá onde o som voa.

Antes que as pegadas dos pés miúdos sumam,

levadas pelo uivo irado do vento, estava o mar.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

Braços abertos são pássaros marinhas crianças,

enfrentam o desafio mais importante de suas vidas.

Para atender o chamado vital do mar, as narinas

dilatadas, correm igual tartarugas recém-nascidas.

Corre menino de areia

Corre direto pro mar,

Corre que o mundo é teia

Pra quem não sabe nadar...

OS SAIS E OS SÓIS

São as colinas de sal e sol,

o entardecer verde e roxo,

são as águas-vivas na areia,

os galhos podres na praia,

o silêncio da onda quebrando,

enquanto pescadores arrastam,

arrastam a rede no quebra-mar,

são as algas flutuando ao léu,

à noite que chega a barlavento,

são as altas palmeiras penteadas,

o som das dunas que se movem,

são crianças saltitando piruetas,

alguma novela de amor na TV:

todo o Universo relembra você.

ONDAS SAMBAS

Domingo na praia

Muito sol a brilhar

Teu corpo na areia

Moreno a dourar

Foi lá que eu te vi

Foi lá que te conheci

Foi lá que te paquerei

Foi lá que te namorei

Fiquei marcando bobeira

Debaixo daquele céu

Teu olhar de feiticeira

Me mandou pro beleléu

E Domingo na praia

Sol quente a brilhar

Senti teu corpo moreno

Muito doidão me deixar

AS AREIAS CORES

Um pouco de azul não faz mal a ninguém,

nem o verde que se esgueira entre as casas

ou a mesma estrela multicor que me segue,

cintilando mistérios, emprenhada de segredos.

Faz bem o cristal salinoso que emerge da onda

e penetra entre as frestas das roupas, botões,

a espuma que lambe a epiderme rugosa e sã,

lábios ressecados noutros lábios ressecados.

Não faz mal o cheiro de mar aromatizado,

vasa que entranha e fere as narinas da alma,

nem faz mal a água doce que corre nos dedos

enquanto o rio se mexe direito a outros rios.

Faz muito bem a luz clara, manhã aventurada

que se debruça em cumprimentos e mesuras,

perseguindo o som em partitura emoldurada,

letra de música ministrada às rezas vesperais.

Não é mal despertar sobre o corpo dela em duna,

lençol de areia monazítica, amplo de vivacidade,

salgada sebe, glândulas salivares, cuspe, licor,

pudor rouco, gozo em azul, destilado entre coxas.

AS MARÉS

Direi: é sábado, 30 de outubro,

a lua imensamente enorme,

muito maior do que o sol,

acachapante, humilhando

o pouco que restou de nós.

Boa noite antiguíssima lua,

pode entrar, o coração é seu,

aplastra as vagas sem dó:

mete de entremeio o amor,

(afinal eleva-se a palavra).

Não há sentimento nem maré,

nem provocação no céu vasto,

boa noite amiga lua, lua dela,

pode entrar, aplastam-se as vagas,

o coração é seu, ama-o sem dó.

Digo que é sábado de outubro,

de lua imensa (a mente dorme),

ó sol grande, de joelhos e casto,

indulgente e demasiado humano,

ama um pouco a sombra de nós.

OS MARISCOS

Saboroso senti-los vivos:

Água do mar na saliva,

uvas tintas de vinhos

e gotas azedas de limão.

Mariscos a la ostra - crus

bom tinto entre garfadas

agora vão morrer na boca

beijo venenoso das deusas.

Completamente de porre,

em Viña del Mar e Reñaca,

Oceano Pacífico valente,

ou no Atlântico pacífico.

São Luis, Rio de Janeiro,

em Araçagy ou Recreio,

sabem o puro rico sabor,

ressecada boca de areia.

OS RIOS LARES

Cantar os rios, sim, eles são belos

e contemplá-los muito nos ensina.

Mas para que servem as margens?

Sim, o rio tem águas importantes,

transforma as margens em paisagens

passageiras, em visões e miragens...

O rio é, sim, o Rei das Selvas

e das planícies, cujas águas límpidas

formam remansos e correntezas.

Mas – e as margens?

Ninguém canta as margens,

sós os rios e suas águas milagrosas.

Todos cantam, mas as margens,

serão simples terras a desfilar

rapidamente à vista dos passantes?

Terras férteis – filhas fixas e perenes

dos rios, imutáveis barrancos.

O rio passa célere, mas as margens

presenciam vidas verdes,

que ali permanecem pela eternidade.

Volta e meia revoltam-se, mudam de lugar.

Todos cantam os rios, mas as margens?

Os rios são assim: importantes

mais pelas águas cristalinas,

que pela margem.

As estrias das margens enodoam

de humo e lodo o rio e desse

contrastante milagre foi de onde

resultou a vida – não a morte...

OS MARES BLUES

Débil llega el mar

hasta mi cuarto

meciéndome

entre sus algas dedos”

Carmen Berenguer

Mar de meditação.

Mar primordial.

Mar principalmente carioca.

Origem e fim de tudo,

bate no Rio de Janeiro

mandado por Iemanjá

ou por Posídon.

Banha Uiaras de areia,

engole atrevidos, ousados.

Mar de cores impuras,

que manda a saúde embora.

Bendito seja o fruto

do teu profundo ventre,

zelai os pescadores.

Trazei no toldo das ondas

o alimento de todos os dias,

o sal amargoso do batismo,

o sal da fé e da vida.

Mar que aceita surfistas,

travessos amantes notívagos,

ambos enfeitiçados

pelo encanto das sereias.

Barcos, iates, saveiros,

mar de engolir navios.

Mar de desertos e praias:

Copacabana – verde de musgo,

Arpoador – altar de beleza,

Ipanema – convite ao carinho,

Leblon – caminho da Barra.

Grande ventre de silêncios,

algas negras que geram

moléculas viscerais,

amniótico líquen,

negro ventre abençoado,

rezai por nós predadores.

Mar perdido por meandros

das praias do Recreio,

lagoas, seios, pântanos,

coxas, restinga de Vênus,

rumo a outros litorais.

Mar de liturgias e orações,

mar essencial, onde navegam

pensamentos e pirilampos,

mar que é rio, mar de rosas,

mar da antropogênese de nós.

OS LENÇÓIS DUNAS

Dentro da praia deserta

Dentro do ventre do mundo

Não durou nem um segundo

Estar nos braços de Rita

Foi num dia de domingo

Um dia não uma noite

A ventania bailava o açoite

Na cabeleira de Rita

De longe divisei o Farol

Que me guiou para a praia

Nos braços de uma sereia

Que tinha o cheiro de Rita

A estrela que me guiou

E me livrou do tormento

Embaçou por um momento

As coxas negras de Rita

E ali mesmo me salvei

Foi um momento divino

Quis o sereno destino

Atracar no porto de Rita

E fui navegando a esmo

Nas dunas alvas dos Lençóis

Ao som das ondas bemóis

Bailava o sorriso de Rita

Sem documento ou celular

Sem passado nem futuro

Vou vivendo a cor do ouro

Na identidade de Rita

Por avenida tenho o deserto

Minha casa eterno oásis

A alma carregada de paz

Respiro o hálito de Rita

Ei meninada corre cá

Me diz quem é tua mãe

Não precisa nem dizer

É tudo escritinho a Rita!

AS ONDAS RECREIO

Entre dois horizontes,

entre o céu e a terra.

Entre quatro paredes,

entre o teto e o chão.

Entre os oito caminhos,

entre o muro e a estrada.

Entre os doze oceanos,

entre a margem e o vão.

Entre quatorze destinos,

entre mim e o amor dela.

Entre dezoito infinitos,

entre a nascente e o mar.

Entre vinte tormentos,

entre o começo e o fim.

OS DIAS MÁGICOS

Braços abertos, correndo contra o vento.

Por que de repente veio essa lembrança?

Só se foi o retrato de um dia da infância,

brincando na areia dura de Olho d'água.

Chorar a vida, se de tudo um pouco eu ri?

Esquecer pequenos amores que não tive?

São sonhos, terra para a lavratura, medos,

plantei-os tais sementes que jamais brotam.

Mas havia o demônio, indômito hóspede,

insaciável, Agnus Dei, libera-me Dominé.

Sobrevivendo à morte e à transfiguração,

arma teleguiada: um coração que explode.

A alegria me alegrou, de tristeza entristeci,

enquanto o tempo disfarça perigosamente.

Enquanto não metamorfosear em calendário,

uma data de nascimento, transporte e destino.

A data na lápide, a citação na enciclopédia,

verbete de biblioteca, livro que ninguém lê.