domingo, 20 de abril de 2008

CARUARU e a História de Topada ou Os Heróis Desconhecidos

Por Stefan Welkovic
"As vilas vão passando
com seus santos padroeiros.
Primeiro é Poço Fundo,
onde Santo Antônio tem capela.
Depois é Santa Cruz
onde o Senhor Bom Jesus se reza.
Toritama, antes Tôrres,
fez para a Conceição sua igreja.
A vila de Capado
chama-se pela sua nova capela.
Em Topada, a igreja
com um cemitério se completa.
No lugar Couro d'Anta,
a Conceição também se celebra.
(João Cabral de Melo Neto: O Rio)
O antigo arruado de Valdemar Lima (PE), mais conhecido como Topada ou Riacho de Topada, hoje pertence ao município de Frei Miguelinho. Frei Miguelinho fica localizado em terras de antigas sesmarias concedidas no século XVII. Olho d’Água da Onça (antiga denominação de Frei Miguelinho) teve seu início de povoamento nas proximidades do Riacho Topada, afluente do Rio Capivaras, hoje Capibaribe. Distrito do município de Vertentes recebeu sua atual denominação em homenagem ao herói-mártir da Revolução Republicana, de 1817, Miguel Joaquim de Almeida Castro, através da Lei Estadual nº 1.931 de 11/09/1928. Sua emancipação ocorreu em 20/12/1963, através da Lei Estadual nº 4.977, desmembrando-o de Vertentes. Os outros povoados de Frei Miguelinho são: Algodão do Manso, Capivara, Chã do Carmo, Chã Grande (não confundir com a cidade de Chã Grande), Lagoa João Carlos e Placas. Minha mãe nasceu quando Topada ainda pertencia a Vertentes. Topada recebeu o atual nome em homenagem a Valdemar Lima, o qual foi um tenente simpatizante da Coluna Prestes emboscado e morto às margens do Rio Capibaribe (que corta o arruado), quando tentava cruzá-lo, rumo à Paraíba. Este artigo (que transcrevo parte dele) foi publicado no Jornal Vida Rural de novembro de 2000 e é de autoria de Severino de Moura:
“Na mesma época que a Coluna Prestes se encontrava no Nordeste foi transferido do Rio de Janeiro para o Recife o tenente Cleto da Costa Campelo Filho, que havia prometido ao comando da Coluna Prestes que iria levantar parte do Exército em Pernambuco e juntar-se à mesma na região do Pajeú. No Recife estavam alguns oficiais revoltosos, participando da tropa secretamente outros na clandestinidade, que programavam fazer um levante. Era época de Carnaval e o articulador do movimento foi o jovem tenente Cleto Campelo. O plano foi descoberto, alguns conspiradores presos e o levante fracassou. Cleto Campelo conseguiu fugir para Jaboatão, onde junto com 25 companheiros tomou a cadeia pública e as oficinas da Great-Western, libertou os prisioneiros prendeu os policiais e cortou a linha telefônica para o Recife. Apossaram-se da munição que existia na estação ferroviária, tomaram o trem de passageiros descarrilando os vagões que não precisavam utilizar. Integraram ao movimento alguns operários da Great-Western, saquearam parte do comércio e viajaram pela ferrovia Central com paradas sucessivas em Tapera, Vitória de Santo Antão e Pombos. Em Vitória de santo Antão os rebeldes passavam de 80 homens, almoçaram no Hotel Fortunato e seguiram em frente. Em Gravatá os legalistas haviam organizado a resistência. os revolucionários desceram do trem e foram surpreendidos com muitos tiros. O tenente Cleto Campelo caiu morto. era 18 de fevereiro de 1926. A derrota trouxe grande desgosto para os revoltosos e começou a desistência de vários componentes da tropa, porém o comandante substituto, tenente Valdemar Lima, dominou a situação. Valdemar Lima, pernambucano de Recife, conhecido como "Tenente Limão", ordenou o maquinista a seguir em frente com destino Bezerros-Caruaru. No entanto, devido a uma sabotagem, o trem descarrilou alguns quilômetros antes da cidade de Caruaru, num povoado denominado Gonçalves Ferreira. No momento outros rebeldes fugiram, ficando com o tenente apenas 30 companheiros. O tenente Valdemar Lima, depois da queda do trem, sem condução e muito preocupado, desistiu do plano, que era chegar às margens do Rio São Francisco, onde se encontrava uma parte da Coluna Prestes comandada pelo tenente João Alberto Lins de Barros, esperando o tenente Cleto Campelo, até receber a notícia do fracasso dos companheiros do Recife. A Coluna atravessou o Rio São Francisco com destino ao Sul. O tenente Valdemar Lima, do povoado de Gonçalves Ferreira, comandando 30 homens, rumou para o norte com a idéia de atravessar o município de Vertentes e entrar no estado da Paraíba, onde dispersaria a tropa. Sabia da dificuldade que enfrentaria para alcançar estes objetivos, pois estava cercado pela polícia com ordem para matar. O governo designou o sargento José Joaquim e seus homens para margear o Rio Capibaribe, segundo a informação de que os revolucionários iriam atravessar o rio na fazenda Pitombeira, bem perto do povoado de Topada, pertencente na época ao município de Vertentes e atualmente ao município de Frei Miguelinho. O sargento José Joaquim e seus comandados estrategicamente fizeram uma emboscada por trás de umas pedras, ficando muito bem protegidos, com as armas em pontaria à espera da tropa composta com 30 pessoas. O tenente Valdemar Lima vinha montado a cavalo, guiado pelo senhor Amaro Jerônimo, proprietário da região, que apreensivo hospedara os revoltosos na noite anterior. Na hora em que iam atravessando o rio Capibaribe os revolucionários receberam muitos tiros vindos dos esconderijos dos policiais. O tenente Valdemar Lima foi o primeiro que caiu do cavalo, morrendo imediatamente, sem ver seus inimigos. Dois soldados também caíram sem vida, outro soldado recebeu ferimentos leves e o senhor Amaro Jerônimo foi atingido, ficando esses dois últimos sem condições de correr. O resto da tropa, ou seja, 26 homens, sem comando, desertou mato adentro com alguns feridos de leve, sendo socorridos pelos moradores dos sítios às escondidas. Trocaram as fardas, coturnos, armas e munição do exército por roupas de camponeses e alpercatas. Nunca mais foram vistos. O soldado ferido foi fuzilado. O senhor Amaro Jerônimo, depois de provada a sua inocência, foi levado para Vertentes e ficou bom. Os quatro cadáveres foram expostos na calçada da capela de Topada e em seguida levados com desprezo para serem sepultados no cemitério de Vertentes, sendo os três soldados numa só cova e o tenente em outro lugar, no pé da parede do cemitério. Após algumas horas da triste ocorrência, chegou a Topada o tenente Zumba da polícia, no comando de 32 soldados, encontrando o sargento José Joaquim e seus 16 subalternos senhores da situação, conversando na casa do senhor Manoel Alves. O tenente Zumba se apresentou como herói e o sargento José Joaquim não gostou. A discussão aumentou ainda mais quando o tenente Zumba exigiu do subordinado uma bolsa que diziam conter muito dinheiro e que estava em posse do revolucionário Valdemar Lima. O sargento José Joaquim entregou a referida bolsa com 32 contos de réis. Zumba duvidou da honestidade do sargento e por pouco não houve um desfecho trágico. Para maior irritação do sargento José Joaquim, o tenente tomou o revólver de Valdemar Lima que o sargento desejava guardar como troféu. Na troca de ofensas o sargento chamou o tenente de medroso, citando que o mesmo, comandando 32 soldados acampados em Vertentes, bem perto e sabendo da aproximação dos revoltosos, permitiu que o sargento chegasse primeiro. A pedido do Sr. Manoel Alves os militares pararam de discutir. Até 1930 os mortos eram considerados traidores e o sargento José Joaquim herói, porém depois da revolução, os heróis passaram a ser os que foram mortos no leito do rio Capibaribe. Vitoriosa a revolução de 30, vieram buscar os restos mortais do tenente Valdemar Lima e dos três soldados no cemitério de Vertentes. Foram feitas honrarias militares e homenagearam o tenente mudando o nome do povoado de Topada para Capitão Valdemar Lima. Valdemar Lima era Sargento ao morrer. A patente de Capitão foi, provavelmente, póstuma.”
O senhor Manoel Alves foi meu bisavô. Era carinhosamente conhecido por todos do lugar como "Pai-Né", não sei se por conta do Manoel (Mané), ou por conta da patente de Coronel, que comprara naqueles anos (prática comum). Mas foi Pai-Né quem apaziguou os ânimos dos militares exaltados em Topada. Na figura abaixo, Pai-Né é o que está de gravata no centro, minha mãe está com a mão sobre o rosto, todos diante do furgão Fargo 1951 do meu pai, que por sua vez está diante da casa onde aconteceu o encontro dos militares. A casa fica diante da capela de Topada, onde os corpos dos revolucionários ficaram expostos. O pé de figo (ficcus) existe até hoje. Cleto Campelo e Valdemar Lima foram homenageados com nomes de ruas e praças em Recife e outras cidades. Esta, pois, é uma história que poucos sabem.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Arte do Jornalismo...

Os novos terroristas da mídia
por Marcelo Salles
Poucas vezes uma reportagem a respeito do MST foi tão distorcida quanto a do Jornal Nacional da última quarta-feira. Nos dois minutos e vinte e quatro segundos da matéria busca-se a criminalização dos camponeses; para tanto, imagens e palavras são cuidadosamente articuladas para transmitir ao telespectador a idéia de que os militantes do movimento são os responsáveis por todo o medo que ronda os paraenses. Logo na abertura da matéria, o fundo escurecido por trás do apresentador exibe a sombra de três camponeses portando ferramentas de trabalho em posições ameaçadoras, como a destruir a cerca cuidadosamente iluminada pelo departamento de arte da emissora. Quando os militantes aparecem nas imagens, estão montando o acampamento e utilizando folhas de palmeiras - naturalmente já arrancadas das árvores. Quando a matéria corta para ouvir a opinião de um empresário local, ele tem ao fundo exatamente uma folha de palmeira, só que firme no solo - vistosa e viva. O representante da Vale do Rio Doce é o que tem mais tempo para se manifestar, até gagueja e balbucia: "esses movimentos... estão [nos] impedindo de trabalhar". Em nenhum momento os representantes do MST são ouvidos, o que contraria, inclusive, as próprias regras do manual de jornalismo da Globo. Mas quando os interesses comerciais de empresas amigas estão em jogo essas regras são postas de lado. Outro dado marcante desta reportagem é a descontextualização dos fatos. O telespectador é apenas informado que o MST “ameaça invadir a Estrada de Ferro Carajás, da Companhia Vale”, mas não se explica que esta ação direta tem uma origem: a privatização fraudulenta da empresa que era estatal. A companhia foi leiloada, em 1997, por R$ 3,3 bilhões. Valor semelhante ao lucro líquido da empresa obtido no segundo trimestre de 2005 (R$ 3,5 bi), numa clara demonstração do prejuízo causado ao patrimônio nacional. Desde então, cidadãos e cidadãs vêm promovendo manifestações políticas e ações judiciais que têm por objetivo chamar a atenção da sociedade e sensibilizar as autoridades competentes para anular o processo licitatório. Se há uma diferença brutal entre discordar de uma determinada opinião e omiti-la, este caso torna-se ainda mais grave porque não se trata de uma opinião, e sim de um fato político: a privatização da Vale é questionada na Justiça – e com grandes chances de ser revertida. Ao sonegar esta informação, a Globo comete um crime. Com a mesmíssima parcialidade age o jornal carioca O Globo. A reportagem publicada no mesmo dia sobre o MST não deixa dúvidas quanto a posição contrária do jornal. A chamada na capa diz: “MST desafia a Justiça e volta a ameaçar a Vale”; o pequeno texto, logo abaixo, aprofunda a toada: “O MST ameaça descumprir ordem judicial e invadir novamente a ferrovia de Carajás, da Vale, no Pará. Moradores da região estão atemorizados, com a cidade cercada por mais de mil militantes do MST, a quem acusam de terrorismo”. A reportagem principal, à página 9, é acompanhada de outra de igual tamanho. Ambas ouvem apenas a versão da mineradora privatizada pelo governo tucano de FHC. Imediatamente abaixo, como a reforçar a visão policialesca, uma fotografia de um homem morto sobre o título: “Em Porto Alegre, um flagrante de homicídio”. Nenhum dos dois veículos (O Globo e JN) registrou o apoio recebido pelo MST por artistas, intelectuais e lideranças partidárias. Esta falsa preocupação do Globo com a defesa do povo brasileiro não é de agora. O mesmo jornal que sugere que os militantes do MST são terroristas há 44 anos agiu da mesma foram quando um golpe de Estado derrubou o presidente constitucional João Goulart. Em texto editorial do dia 2 de abril de 1964, o “Globo” assinalou: - Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas (...) para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas (...), o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições (...) Assim como para o “Globo” os inimigos do passado eram aqueles que se insurgiam contra a ditadura que seqüestrou, torturou e matou milhares de brasileiros, hoje os terroristas são aqueles que lutam contra as multinacionais que roubam o patrimônio público, danificam o meio-ambiente e produzem graves problemas sociais. É por isso que ao interromper o fluxo de exportação de uma dessas empresas os militantes do MST acertam em cheio no sistema nervoso do capitalismo. Dotados apenas de enxadas e coragem, os sem-terra enfrentam jagunços armados, policiais e poderosos grupos de comunicação - esse coquetel que tem como objetivo massacrar o povo organizado. Os militantes do MST ensinam ao povo brasileiro: não é uma luta justa, mas é uma luta que pode ser vencida. Por outro lado, o jornalismo dos Marinhos mais uma vez revelou seu caráter covarde e submisso. Aliou-se aos poderosos e rasgou o juramento profissional da categoria, sobretudo no seguinte trecho: "A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade". Mas não há de ser nada. A História vai se ocupar de reservar a cada qual seu devido lugar.
Marcelo Salles é correspondente da Caros Amigos no Rio de Janeiro e editor do jornal "Fazendo Media".
http://carosamigos।terra.com.br/

sexta-feira, 11 de abril de 2008

16 consejos para quien quiera escribir libros

Foto: Paola Agosti
Adolfo Bioy Casares contó en un número especial de la revista L’Herne que Borges, él mismo y Silvina Ocampo proyectaron escribir a seis manos un relato ambientado en Francia y cuyo protagonista hubiera sido un joven escritor de provincias. El relato no llegó a escribirse, pero de aquel intento ha quedado algo que pertenece al propio Borges: una irónica lista de dieciséis consejos acerca de lo que un escritor no debe nunca poner en un libro. Ahí va este curioso inédito borgiano:
En literatura es preciso evitar:
1.- Las interpretaciones demasiado inconformistas de obras o de personajes famosos. Por ejemplo, describir la misoginia de Don Juan, etc.
2.- Las parejas de personajes groseramente disímiles o contradictorios, como por ejemplo Don Quijote y Sancho Panza, Sherlock Holmes y Watson.
3.- La costumbre de caracterizar a los personajes por sus manías, como hace, por ejemplo, Dickens.
4.- En el desarrollo de la trama, el recurso a juegos extravagantes con el tiempo o con el espacio, como hacen Faulkner, Borges y Bioy Casares.
5.- En las poesías, situaciones o personajes con los que pueda identificarse el lector.
6.- Los personajes susceptibles de convertirse en mitos.
7.- Las frases, las escenas intencionadamente ligadas a determinado lugar o a determinada época; o sea, el ambiente local.
8.- La enumeración caótica.
9.- Las metáforas en general, y en particular las metáforas visuales. Más concretamente aún, las metáforas agrícolas, navales o bancarias. Ejemplo absolutamente desaconsejable: Proust.
10.- El antropomorfismo.
11.- La confección de novelas cuya trama argumental recuerde la de otro libro. Por ejemplo, el Ulysses de Joyce y la Odisea de Homero.
12.- Escribir libros que parezcan menús, álbumes, itinerarios o conciertos.
13.- Todo aquello que pueda ser ilustrado. Todo lo que pueda sugerir la idea de ser convertido en una película.
14.- En los ensayos críticos, toda referencia histórica o biográfica. Evitar siempre las alusiones a la personalidad o a la vida privada de los autores estudiados. Sobre todo, evitar el psicoanálisis.
15.- Las escenas domésticas en las novelas policíacas; las escenas dramáticas en los diálogos filosóficos. Y, en fin:
16.- Evitar la vanidad, la modestia, la pederastia, la ausencia de pederastia, el suicidio.
Veja em:

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Vade Mecum de Paulo Mendes Campos









Imagem: http://www.cultura.mg.gov.br/

O sábio editor Ênio Silveira já dizia na orelha do livro Diário da Tarde: “Paulo Mendes Campos é, mineiramente, a soma de várias personalidades que se superpõem, que se mesclam, ensejando-nos a cada instante uma visão de sua pessoa, que no instante seguinte já é outra, nenhuma delas permitindo clara e completa definição do todo. Algo assim como se ele fosse um calidoscópio, regalando nossos olhos com sucessões aparentemente infinitas de arranjos, todos eles fascinantes”.

Deve-se dizer que Ênio Silveira não fazia orelha de livro pra qualquer um. Se o autor, mesmo estreante, merecesse algumas palavras assinadas pelo editor na orelha de seu livro, poderia se considerar um privilegiado. Pois, aproveitando a ocasião desse registro, já é bom alguém pensar reunir em livro as orelhas que o Ênio Silveira escreveu. Teremos então um compêndio histórico da literatura brasileira, dentro de um ciclo que delimita bem claro a importância desse intelectual literato, que teve como escrivaninha o prelo e escolheu o arrojo da edição corajosa para exercer sua arte: a literatura como um todo.

É provável que Diário da Tarde seja um dos livros menos conhecidos de Paulo Mendes Campos, entre os muito desconhecidos que ele escreveu. Aqui o poeta escolheu a informalidade estética e temática, ajuntando num pacote de temas e escolhas um complexo cotidiano que supera a crônica, a poesia, o conto, o comum e o excepcional. Na verdade, ao final de todo capítulo chega-se à conclusão que cada pacotinho de temas tem na verdade a informalidade de um bate-papo de botequim.

Paulo Mendes Campos – poeta do qual não se pode falar sem mencionar o nome inteiro – foi anotando, sob o roteiro fixo de cinco temas, quais sejam: Artigo Indefinido, O Gol é Necessário, Poeta do Dia, Bar do Ponto, Pipiripau, Grafite, Suplemento Infantil e Coriscos, os textos, elaborados em aparência informal, que contemplam o universo do dia-a-dia de todos nós. São temas que tratam da importância da vida, da existência pela qual passa o cidadão comum e o burocrata, o padeiro e o médico de plantão, a florista e o jornaleiro, o padre e o mais devotado, fervoroso e carola fiel.

E aqui não cabe mais lero-lero, nem farofa, nem quero-quero, senão encerrar ainda com as palavras finais de Ênio Silveira na orelha: “Humor, ironia, mordacidade, beleza poética, esporte, frases soltas (que, por vezes, fazem mais sentido do que parágrafos inteiros...), emoção de viver e de sentir, tudo isso está aqui, tudo isso é Paulo Mendes Campos, a soma sendo maior do que o total das partes. Um belo livro. Um documento. Um testemunho”.

Tê-lo é preciso, mas aonde? Catar nos sebos, claro.

Paulo Mendes Campos
Diário da Tarde
Civilização Brasileira/Massao Ohno Editores
Rio de Janeiro -1981 - 1ª edição


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Reflexões sobre Konstantinos Kaváfis

Numa dessas livrarias especializadas em vender encalhes de editoras, atraiu-me o livrote Reflexões sobre poesia e ética (Editora Ática, 1998), de menos de cem páginas, atribuído ao poeta egípcio de língua grega Konstantinos Kaváfis (não compre). Em tradução e introdução de José Paulo Paes, cuja apresentação toma logo a metade do volume, sabe-se que as notas “interessam, antes do mais, pela singularidade de serem praticamente os únicos textos em prosa” do poeta (não compre). São cerca de trinta e poucas notas que Kaváfis escreveu, muitas das quais poderiam ser receitas de bolo ou de um quitute da culinária egípcia – se não o fossem não faria diferença alguma. José Paulo Paes se esforça em executar bem o seu trabalho, porque sua introdução é legível e traz dados interessantes sobre o poeta (não compre). No entanto, em todo o texto de Kaváfis a mais importante nota é a de número 1: “Nunca vivi no campo. Tampouco lá passei, como outras pessoas, breves temporadas. Entretanto escrevi um poema no qual celebro o campo e digo que a ele se devem os meus versos. Esse poema de pouco valor não é a coisa mais insincera que já se escreveu: é pura mentira”. Depois dessa afirmação o texto é só interrogação: “Não mente sempre a arte?” E se completa algumas notas depois: “Existem mesmo a Verdade e a Mentira? Ou existem apenas o Novo e o Velho – sendo a mentira simplesmente a velhice da verdade?” (não compre). As notas de Kaváfis vão seguindo nesse diapasão, são mais um mea culpa para serem lidas e relidas intimamente, mais um mea culpa por ter nascido de família abastada, do que notas para serem publicadas – e nesse caso publicá-las foi como uma traição. Algumas vezes isso fica bem claro como na nota número 10: “Um jovem poeta veio visitar-me. Era muito pobre, vivia do seu trabalho literário e me parecia pesaroso de ver a boa casa em que eu morava, o meu criado que lhe trazia um chá bem servido, os meus trajes cortados por um bom alfaiate. Disse: Que coisa terrível é ter de lutar para ganhar a vida, andar à cata de assinantes para a tua revista, de compradores para o teu livro Kaváfis completa este pensamento de modo tão óbvio, ou seja, tenta mostrar (a si mesmo) que a vida abastada e a função de funcionário público bem remunerado eram um empecilho – e não uma vantagem para a sua literatura! Como se sabe, ser rico é uma chatice (não compre)... Konstantinos Kaváfis sofreu não só com a ambigüidade dessa relação com a arte, mas penou também com a ambigüidade que era ser grego, nascido no Egito, vivido quase a vida toda em Alexandria (uma cidade pequena, segundo ele), sonhando com a vida que “homens como eu – tão diferentes – precisam antes de uma grande cidade. Londres, por exemplo”. Tendo como língua mãe provável o inglês do Egito, a língua pátria o grego dos pais, a língua de adoção o árabe egípcio, lastimava não ter sido educado na França e por não escrever em francês, coisa que naquela época Freud já explicava. Não, não compre, ou melhor, se quiser comprar que compre, não tenho nada com isso, mas acho eu que botei R$ 10 fora, isso acho sim...

Foto: Konstantinos Kaváfis, 1933 Jorge Martinez http://www.craigscottgallery.com


sábado, 5 de abril de 2008

Magriça, a Notívaga








Oi Salomão Rovedo
O Fidel renunciou - ditador renuncia? Novidade, o cara tá no fim da linha, pulou fora. Bom, eu não renunciei ainda - embora isso vá ser moda em breve. Andei viajando muito, fiquei ultimamente na África, em Angola. Quase não acessei o site, porque Internet por lá é muito ruim. Lá falta coisa mais básica, todo dia: luz, água. Internet é um luxo. Aparece, quando aparece, depois que tem luz. Como a água, que falta também. Resumindo: você volta para o Brasil e acha que está no paraíso. A gente não sabe o que é viver num país totalmente destruído pelas guerras, contra os colonizadores e depois contra os próprios irmãos, divididos em coisas escrotas chamadas de partidos. Partidos partem: não somam, não multiplicam. Dividem. Coisas, bens e poder. Aqui o pessoal detona os cartões corporativos. Lá detonaram milhares de bombas e plantaram mais milhões, que vão levar 120 anos para serem descobertas onde estão, no ritmo atual de desminagem. Aqui morre um motoqueiro por dia, nas ruas de Sampa. Lá, diariamente, ao menos um morre ou fica mutilado - e se junta aos 80 mil mutilados vivos. Um angolano por dia, pelo menos. A maior população planetária de mutilados. Quem quer saber disso? Os russos ou americanos que forneceram as bombas? Não, nem nossos deputados que bombam os cartões com nossa grana, tiranicamente recolhida na forma de impostos. Impostos são roubos legalmente impostos. Bom, só escrevi pra dizer que estou de volta ao Brasil. Feliz porque aqui não é Angola. Infeliz, porque nossos políticos são tão ou mais trogloditas que os militares angolanos, que destruíram o país e, depois que não sobrou quase nada, decidiram-se pela paz. Dividiram as terras e as províncias entre si. Dividiram o que não sobrou. Só vendo e vivendo, ao vivo. O que emociona, em parte, é que lá estão agora reconstruindo tudo e qualquer um de nós poderá fazer parte nisso (eles amam os brasileiros, precisarão de nós na reconstrução do seu país). O que entristece, aqui, é que aqui continuam nos roubando (os bancos - que cobram as taxas que querem sem podermos dizer não e duplicam seus lucros a cada ano - e os políticos, que gastam o nosso dinheiro como querem - sem podermos dizer basta). Eles não amam a nós brasileiros, mas nos estupram, quotidianamente. Estranha relação. Bom, chega de paralelos. Escrevi só pra dizer que o site ainda está no ar e que estamos próximos dos 100 mil textos. É o equivalente a 1.000 livros. Se imaginarmos a concorrência de outros sites e a mais recente concorrência recente dos blogs, é um feito. Parabéns prá você. Continue escrevendo e divulgando-se. Beijos magricelas e muita paz.
Magriça, a Notívaga
19/fevereiro/2008
http://www.notivaga.com.br/
http://www.notivaga.com.br/mpa.asp?autor=Salomão+Rovedo

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Stabat Mater e o primo distante

Poderia ser apenas uma má apresentação da Orquestra e Coro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro porque contava o nervosismo do início da temporada de 2008. Tudo bem que o risco era previsto já que o Stabat Mater de Antonin Dvorak não é um primor de facilidade e exige uma carga dramática que ultrapassa o sofrimento de Maria aos pés da cruz. O próprio maestro Roberto Minzuk advertia no Programa:

A Semana da Paixão é uma data mais do que propícia para celebrarmos o começo de uma nova temporada. Grandes obras musicais foram escritas para esta celebração. Uma das principais é o belíssimo e pungente Stabat Mater de Dvorak, que explora pura e profundamente as ricas sonoridades do coro, orquestra e solistas”.

Talvez a excessiva busca do preciosismo tenha deixado todos muitos nervosos, principalmente os solistas. A soprano Elizabeth Whitehouse assustou-se durante a apresentação, mercê de um breve respirar fora de hora, a companheira mezzo soprano Adriana Clis apenas fez o dever de casa, sem sobressaltos nem maiores prejuízos. Loas para o tenor Reginaldo Pinheiro que, sim, entrou no espírito dramático do Stabat Mater e também não fez feio o barítono Hernán Iturralde, mas não foi capaz de levantar a platéia.

O coral e a orquestra não perderam a viagem, ao contrário, salvaram-na com bom desempenho. Bravo! Mas, princípio de temporada é assim mesmo, cheio de zebras. Porém, um branco maior ocorreu com este que vos fala: por uma falha lamentável não comprei o ingresso para o primo distante que intitula o texto. E o primo distante, do qual não renego o nome, Joaquim Itapary – mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa – não foi ouvir Dvorak comigo. Fiquei deveras chateado com a minha incompetência...

Não obstante as palavras de Minzuk, Dvorak não compôs o Stabat Mater para uma determinada semana-santa. A verdade é que Dvorak começou a compor a peça seis meses depois de perder sua primeira filha Josefa, que tinha apenas dois dias de nascida. No sete de maio de 1876 o compositor larga o Stabat Mater de lado e só retomou-o quando “um terrível golpe do destino” abateu-se sobre sua família: sua segunda filha Ruzena se envenenou de modo acidental com onze meses de idade. Para completar a tragédia seu filho Ottakar de quatro anos contraiu varíola e não resistiu. Depois de levar tanta porretada é natural que o compositor, católico por devoção, derrame sobre a partitura interrompida toda a dor provocada por tantos revezes.

O milenar poema sacro, ora atribuído ao Papa Inocente III (+1216), ora a Jacopone da Todi (+ 1306), encontrou, assim, mais um intérprete devotado do doloroso retrato de Maria sofrendo aos pés da cruz onde seu filho Jesus ferido agoniza. Mais de 400 compositores já eternizaram suas impressões musicais sobre esse texto, fazendo por merecer citação no Livro dos Recordes.

Não obstante minha mancada com o primo distante, procurei remediar levando-o para beber um chope gelado na Casa Paladino, que realmente tem uma coleção de frios e queijos bastante para acompanhar qualquer álcool. A variedade de omeletes então nem se fala. Mas a casa velhusca – que o primo distante batizou de Milagre de Santa Rita, por ainda se manter de pé hospedando tantos cupins – deixa muito a desejar nos quesitos higiene e atendimento: há muita mosca para espantar, os garçons são mal vestidos, servem suados, com trejeitos e defeitos de atendentes dos piores pés-sujos suburbanos – mal comparando. Basta dizer que o azeite, complemento indispensável para muitos dos acepipes ali oferecidos, é servido pelo garçom em gotas paupérrimas e miseráveis, pois, absurdo dos absurdos!, é absolutamente proibido deixar a latinha na mesa!

No entanto, foi-se o Stabat Mater, foi-se o Bar Paladino para o quinto dos infernos e foi-se o primo distante! O que ficou foi um poucadinho de saudade da presença dele e das muitas risadas felizes que, graças ao bom Deus!, sobraram de tantas agruras.

COSMOPOÉTICA 2008

Cosmopoética celebra en 2008 su quinta edición consolidándose como el encuentro de poesía más prestigioso de Europa. Este encuentro de poetas del mundo en Córdoba, actividad buque insignia de la Candidatura de Córdoba a ser Capital Cultural de Europa en 2016, amplía su marco temporal extendiendo sus actividades a lo largo de tres semanas de abril, que culmina con la Feria del Libro y se convierte así en el Mes de las Letras, con la poesía como referente.Cosmopoética volverá un año más, y ya van cinco, a sacar a la calle la poesía en un intento por acercar la cultura a toda la ciudadanía. La combinación de la poesía con otras disciplinas artísticas volverá a ser seña de identidad de este festival, por el que ya han pasado más de 300creadores del mundo, principalmente poetas.En esta ocasión la cita contará con 130 actividades programadas y con la participación de más de 150 artistas –la mitad de ellos, poetas– procedentes de 20 países.
http://www.cosmopoetica.es/