domingo, 20 de abril de 2008

CARUARU e a História de Topada ou Os Heróis Desconhecidos

Por Stefan Welkovic
"As vilas vão passando
com seus santos padroeiros.
Primeiro é Poço Fundo,
onde Santo Antônio tem capela.
Depois é Santa Cruz
onde o Senhor Bom Jesus se reza.
Toritama, antes Tôrres,
fez para a Conceição sua igreja.
A vila de Capado
chama-se pela sua nova capela.
Em Topada, a igreja
com um cemitério se completa.
No lugar Couro d'Anta,
a Conceição também se celebra.
(João Cabral de Melo Neto: O Rio)
O antigo arruado de Valdemar Lima (PE), mais conhecido como Topada ou Riacho de Topada, hoje pertence ao município de Frei Miguelinho. Frei Miguelinho fica localizado em terras de antigas sesmarias concedidas no século XVII. Olho d’Água da Onça (antiga denominação de Frei Miguelinho) teve seu início de povoamento nas proximidades do Riacho Topada, afluente do Rio Capivaras, hoje Capibaribe. Distrito do município de Vertentes recebeu sua atual denominação em homenagem ao herói-mártir da Revolução Republicana, de 1817, Miguel Joaquim de Almeida Castro, através da Lei Estadual nº 1.931 de 11/09/1928. Sua emancipação ocorreu em 20/12/1963, através da Lei Estadual nº 4.977, desmembrando-o de Vertentes. Os outros povoados de Frei Miguelinho são: Algodão do Manso, Capivara, Chã do Carmo, Chã Grande (não confundir com a cidade de Chã Grande), Lagoa João Carlos e Placas. Minha mãe nasceu quando Topada ainda pertencia a Vertentes. Topada recebeu o atual nome em homenagem a Valdemar Lima, o qual foi um tenente simpatizante da Coluna Prestes emboscado e morto às margens do Rio Capibaribe (que corta o arruado), quando tentava cruzá-lo, rumo à Paraíba. Este artigo (que transcrevo parte dele) foi publicado no Jornal Vida Rural de novembro de 2000 e é de autoria de Severino de Moura:
“Na mesma época que a Coluna Prestes se encontrava no Nordeste foi transferido do Rio de Janeiro para o Recife o tenente Cleto da Costa Campelo Filho, que havia prometido ao comando da Coluna Prestes que iria levantar parte do Exército em Pernambuco e juntar-se à mesma na região do Pajeú. No Recife estavam alguns oficiais revoltosos, participando da tropa secretamente outros na clandestinidade, que programavam fazer um levante. Era época de Carnaval e o articulador do movimento foi o jovem tenente Cleto Campelo. O plano foi descoberto, alguns conspiradores presos e o levante fracassou. Cleto Campelo conseguiu fugir para Jaboatão, onde junto com 25 companheiros tomou a cadeia pública e as oficinas da Great-Western, libertou os prisioneiros prendeu os policiais e cortou a linha telefônica para o Recife. Apossaram-se da munição que existia na estação ferroviária, tomaram o trem de passageiros descarrilando os vagões que não precisavam utilizar. Integraram ao movimento alguns operários da Great-Western, saquearam parte do comércio e viajaram pela ferrovia Central com paradas sucessivas em Tapera, Vitória de Santo Antão e Pombos. Em Vitória de santo Antão os rebeldes passavam de 80 homens, almoçaram no Hotel Fortunato e seguiram em frente. Em Gravatá os legalistas haviam organizado a resistência. os revolucionários desceram do trem e foram surpreendidos com muitos tiros. O tenente Cleto Campelo caiu morto. era 18 de fevereiro de 1926. A derrota trouxe grande desgosto para os revoltosos e começou a desistência de vários componentes da tropa, porém o comandante substituto, tenente Valdemar Lima, dominou a situação. Valdemar Lima, pernambucano de Recife, conhecido como "Tenente Limão", ordenou o maquinista a seguir em frente com destino Bezerros-Caruaru. No entanto, devido a uma sabotagem, o trem descarrilou alguns quilômetros antes da cidade de Caruaru, num povoado denominado Gonçalves Ferreira. No momento outros rebeldes fugiram, ficando com o tenente apenas 30 companheiros. O tenente Valdemar Lima, depois da queda do trem, sem condução e muito preocupado, desistiu do plano, que era chegar às margens do Rio São Francisco, onde se encontrava uma parte da Coluna Prestes comandada pelo tenente João Alberto Lins de Barros, esperando o tenente Cleto Campelo, até receber a notícia do fracasso dos companheiros do Recife. A Coluna atravessou o Rio São Francisco com destino ao Sul. O tenente Valdemar Lima, do povoado de Gonçalves Ferreira, comandando 30 homens, rumou para o norte com a idéia de atravessar o município de Vertentes e entrar no estado da Paraíba, onde dispersaria a tropa. Sabia da dificuldade que enfrentaria para alcançar estes objetivos, pois estava cercado pela polícia com ordem para matar. O governo designou o sargento José Joaquim e seus homens para margear o Rio Capibaribe, segundo a informação de que os revolucionários iriam atravessar o rio na fazenda Pitombeira, bem perto do povoado de Topada, pertencente na época ao município de Vertentes e atualmente ao município de Frei Miguelinho. O sargento José Joaquim e seus comandados estrategicamente fizeram uma emboscada por trás de umas pedras, ficando muito bem protegidos, com as armas em pontaria à espera da tropa composta com 30 pessoas. O tenente Valdemar Lima vinha montado a cavalo, guiado pelo senhor Amaro Jerônimo, proprietário da região, que apreensivo hospedara os revoltosos na noite anterior. Na hora em que iam atravessando o rio Capibaribe os revolucionários receberam muitos tiros vindos dos esconderijos dos policiais. O tenente Valdemar Lima foi o primeiro que caiu do cavalo, morrendo imediatamente, sem ver seus inimigos. Dois soldados também caíram sem vida, outro soldado recebeu ferimentos leves e o senhor Amaro Jerônimo foi atingido, ficando esses dois últimos sem condições de correr. O resto da tropa, ou seja, 26 homens, sem comando, desertou mato adentro com alguns feridos de leve, sendo socorridos pelos moradores dos sítios às escondidas. Trocaram as fardas, coturnos, armas e munição do exército por roupas de camponeses e alpercatas. Nunca mais foram vistos. O soldado ferido foi fuzilado. O senhor Amaro Jerônimo, depois de provada a sua inocência, foi levado para Vertentes e ficou bom. Os quatro cadáveres foram expostos na calçada da capela de Topada e em seguida levados com desprezo para serem sepultados no cemitério de Vertentes, sendo os três soldados numa só cova e o tenente em outro lugar, no pé da parede do cemitério. Após algumas horas da triste ocorrência, chegou a Topada o tenente Zumba da polícia, no comando de 32 soldados, encontrando o sargento José Joaquim e seus 16 subalternos senhores da situação, conversando na casa do senhor Manoel Alves. O tenente Zumba se apresentou como herói e o sargento José Joaquim não gostou. A discussão aumentou ainda mais quando o tenente Zumba exigiu do subordinado uma bolsa que diziam conter muito dinheiro e que estava em posse do revolucionário Valdemar Lima. O sargento José Joaquim entregou a referida bolsa com 32 contos de réis. Zumba duvidou da honestidade do sargento e por pouco não houve um desfecho trágico. Para maior irritação do sargento José Joaquim, o tenente tomou o revólver de Valdemar Lima que o sargento desejava guardar como troféu. Na troca de ofensas o sargento chamou o tenente de medroso, citando que o mesmo, comandando 32 soldados acampados em Vertentes, bem perto e sabendo da aproximação dos revoltosos, permitiu que o sargento chegasse primeiro. A pedido do Sr. Manoel Alves os militares pararam de discutir. Até 1930 os mortos eram considerados traidores e o sargento José Joaquim herói, porém depois da revolução, os heróis passaram a ser os que foram mortos no leito do rio Capibaribe. Vitoriosa a revolução de 30, vieram buscar os restos mortais do tenente Valdemar Lima e dos três soldados no cemitério de Vertentes. Foram feitas honrarias militares e homenagearam o tenente mudando o nome do povoado de Topada para Capitão Valdemar Lima. Valdemar Lima era Sargento ao morrer. A patente de Capitão foi, provavelmente, póstuma.”
O senhor Manoel Alves foi meu bisavô. Era carinhosamente conhecido por todos do lugar como "Pai-Né", não sei se por conta do Manoel (Mané), ou por conta da patente de Coronel, que comprara naqueles anos (prática comum). Mas foi Pai-Né quem apaziguou os ânimos dos militares exaltados em Topada. Na figura abaixo, Pai-Né é o que está de gravata no centro, minha mãe está com a mão sobre o rosto, todos diante do furgão Fargo 1951 do meu pai, que por sua vez está diante da casa onde aconteceu o encontro dos militares. A casa fica diante da capela de Topada, onde os corpos dos revolucionários ficaram expostos. O pé de figo (ficcus) existe até hoje. Cleto Campelo e Valdemar Lima foram homenageados com nomes de ruas e praças em Recife e outras cidades. Esta, pois, é uma história que poucos sabem.
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