quarta-feira, 7 de maio de 2008

Clamor Insano: contra as indenizações

Não sei o que significa o clamor nacional que se levantou contra Ziraldo e Jaguar sobre a aceitação destes quanto ao recebimento das múltiplas e milionárias indenizações para reparar ‘danos’ sofridos no período do regime militar.

Para condenar tais indenizações seria preciso, primeiro, que elas não existissem, mas os Amigos Dos Amigos (ADA) – facção muito conhecida nos Três Poderes (com ramificação em todas as casinhas legislativas) – tiveram a luminosa idéia de produzir a inseminação, o parto e a criação dessa fera. Pois agora está de fato escrito na forma da Lei.

Como coisas desses tipos são figuras alienígenas, isto é, sabe-se que existem, mas ninguém conhece-lhes a forma, a canoa vaga de acordo com a interpretação de cada, atrelada ao interesse de um. Algo assim como aquela anistia ‘ampla, geral, irrestrita’ – que todos abonamos por julgá-la democrática em tese – mas que agora abominamos, porque a irrestrição serve igual aos torturadores e assassinos.

Fica evidente que se houvesse o julgamento que a História exige, muitos desses maus elementos não estariam agora acobertados sob o manto do mandato parlamentar, que não só os protege da espada da Lei, como também decreta o perdão e escancara a porta do Paraíso, onde todos passarão incólumes.

Não sem tempo – ou em todos os tempos – a História deu e dá exemplos: desde Nuremberg aos comandados de Hitler, até o Tribunal Internacional aos aloprados daquele general sérvio porralouca Radovan Karadzic – como também dos casos regionais exemplares ocorridos no Chile e na Argentina. Se algumas omissões ocorreram, tais como a falta de condenação aos comandados de Franco, Salazar e Il Ducce, mais justiça que injustiça se fez.

Este caso ocorrido aqui em nossa taba consiste em que TODOS sofreram de algum modo com a Ditadura Militar. Alguns de nós sofremos mais ou menos, outros quase nada, além dos que foram prejudicados. Se o houvesse um ‘medidor de sofrimento’ capaz de dimensionar o nível de cada qual, a escala maior caberia ao torturado. Mas quem seria capaz de pensar que também o torturador teve seu nível de sofrimento, se fizermos uma triagem dos que torturaram com prazer, daqueles que o fizeram para ‘cumprir ordens’?

Jaguar e Ziraldo são, lugar comum, a ponta do iceberg. Outras decisões alopradas desse Conselho Papai Noel, que distribui milhões a torto e a direito, foram tomadas e executadas em absoluto silêncio. Sim, uma e outra aparecem no noticiário, mas logo se afundam no silêncio do pântano que habitamos: Artur da Távola, Carlos Heitor Cony e mais algumas léguas de etcéteras.

Tenho certeza que todos os indenizados aceitam os milhões oferecidos pela viúva apenas por uma questão de justiça, já que, pelo menos os aqui citados nomine (inclusive os fundadores do Pasquim), vieram de berço de ouro, são ricos de nascença e certamente vão doar grande parte do que receberam aos mais necessitados.

Por outro lado, precisamos saber também quanto ganharam – ou NÃO ganharam, ou NÃO aceitaram – muitos dos brasileiros notórios, para que, pelo menos, eles sejam julgados como heróis pela sociedade que os admiram, ou danados ao fogo dos infernos pela corja de pobres que também sofreu sob os tacões da Redentora e recebeu só pontapés e porradas como indenização...

Só para encerrar, convém lembrar que também os órgãos e entidades de direito público, as defensorias, as procuradorias, os tribunais superiores, também eles têm obrigação de inquirir qual a razão desse desperdício do dinheiro que muita falta faz para debelar a dengue, a febre amarela, a tuberculose. Então, por que o silêncio?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Juiz de Espumoso escreve a Ziraldo e Jaguar

Prezados Ziraldo e Jaguar:
Eu fui fã nº 1 de O Pasquim. Em seguida saberão por quê. Por isto me sinto traído pela atitude de vocês (Ziraldo e Jaguar). Vocês, recebendo essa indenização milionária,fizeram exatamente aquilo que criticavam na época: o enriquecimento fácil e sem causa emergente da e na estrutura ditatorial.
Na verdade,vocês se projetaram com a Ditadura.Vocês se sustiveram da Ditadura.
Vocês se divertiram com a Ditadura. Está bem, vocês sofreram com a Ditadura, mas, exceto aquela semanada na cadeia - que parece não foi tão sofrida assim-, nada que uma entrevista regada a uísque e gargalhadas na semana seguinte não pudesse reparar.
A cada investida da Ditadura vocês se fortaleciam e a tiragem seguinte do jornal aumentava consideravelmente.
Receber um milhão de reais e picos por causa daquela semana, convenhamos, é um exagero, principalmente quando se considera que o salário mínimo no Brasil é de R$ 480,00. Por mês...
Vocês não podem argumentar que a Ditadura acabou com o jornal. Seria a mais pura mentira, se é que a mentira pode ser pura. O O Pasquim acabou porque vocês se perderam. O Pasquim acabou nos estertores da Ditadura porque vocês ficaram sem o motor principal de seu sucesso, a própria Ditadura.
Vocês se encantaram com a nova ordem e com a possibilidade de a Esquerda dominar este país que não souberam mais fazer humor. Tanto que mais tarde voltaram de Bundas - há não muitos anos - e de bunda caíram porque foram pernósticos e pedantes.
Vocês só sabiam fazer uma coisa: criticar a Ditadura e não seriam o que são sem ela. Eu vi o nº 1 de O Pasquim num tempo em que não tinha dinheiro para adquiri-lo. Mais tarde, estudante em Florianópolis, passei a comprá-lo toda semana na rua Felipe Schmidt, próximo à rua 7 de Setembro, numa banca em que um rapaz chamado, se não me engano Vilmar, reservava um exemplar para mim.
Eu pagava no fim do mês.
Formado em Direito, em 1976 fui para Taió. Lá assinei o jornal que não chegava na papelaria do meu amigo Horst. Em 1981 vim para o Rio Grande do Sul e morando,inicialmente, em Iraí, continuei assinante. Em fins de 1982 fui promovido para Espumoso e sempre assinante. Eu tenho o nº 500 de O Pasquim, aquele que foi apreendido nas bancas e que os assinantes receberam...
Nessa época, não sei se lembram, o jornal reduziu drasticamente seu número de folhas. Era a crise. Era um arremedo do que fora, mas ainda assim conservava alguma verve. A Ditadura estava saindo pelas portas dos fundos e vocês pelas portas da frente, famosos e aplaudidos.
Vocês lançaram uma campanha de assinaturas. Eu fui a campo e consegui cinco ou seis.Em Espumoso! Imaginei que se cada assinante conseguisse cinco assinaturas, ajudaria muito.
Eu era Juiz de Direito. Convenhamos: não fica bem a um Juiz sair vendendo assinatura de jornal. Mas fiz isto com o único interesse de ajudar o Pasquim a se manter. Na verdade, as assinaturas foram vendidas a amigos advogados aos quais explanei a origem, natureza e linha editorial do jornal. Uns cinco ou seis adquiriram assinaturas anuais. No máximo dois meses depois todos paramos de receber o jornal, que saiu de circulação.
O O Pasquim deu o calote... Eu fiquei com cara de tacho e, como se diz por aqui, mais vexado que guri cagado. Sofri constrangimento por causa de vocês.
Devo pedir indenização por isto? Não.Esqueçam! Mas agora que vocês estão milionários, procurem nos seus registros e devolvam o dinheiro dos assinantes de Espumoso que pagaram e não receberam a assinatura integral. Naquele tempo vocês não tinham como fazê-lo.
Agora têm. Paguem proporcionalmente, mas com juros e correção monetária, como manda a lei.
Caso contrário, além de traidores, serei obrigado a considerá-los também caloteiros.'
Ilton Dellandrea Juiz de Direito

sábado, 3 de maio de 2008

Sandra Pien premiada

Sandra Pien, poeta, escritora e jornalista, acaba de receber o Prêmio Puma de Plata da Fundación Argentina para la Poesía.

Sandra Pien, uma comovida admiradora do Mago de Palermo Viejo, recebeu a láurea pela criação e manutenção de um site dedicado exclusivamente ao poema miBorges.com.

Nas entrelinas pode-se imaginar e descobrir que o site e o poema abrigam a história de uma relação estranha e com ares de ficção e paranormalidade entre o Sandra Pien e Jorge Luis Borges - dois poetas, duas linguagens, mas com a mesma admiração pela terra argentina...

Em http://www.miBorges.com/, no qual divulga o poema-saga, Sandra Pien presta justíssima homenagem ao poeta e escritor Jorge Luis Borges.

Quando descobri esse poema numa pesquisa sobre o escritor argentino, não tive dúvida que o mesmo merecia divulgação no Brasil.

Devido à essa paixão, hoje meuBorges.com - mesmo em tradução modesta - circula em vários sites brasileiros, portugueses e galegos.

Merecido prêmio a uma literata incansável e múltipla, que cresce com o tempo e adota as formas de comunicação contemporâneas para criar e divulgar sua arte.

Mais detalhes em Fundación Argentina para la Poesía http://www.letrasargentinas.com.ar/

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Últimas pistas

Poesia de Floriano Martins

¡Oh mis fantasmas! Oh mis queridos espectros
La noche ha dejado noche en mis cabellos. -
Vicente Huidobro

Náufrago desperto em números
Detido no jogo do vento
Em suas artérias de presságios
Ossos de um mesmo e exposto cadáver
Longe canta a eternidade sua desprezada justiça
Canções de trevas
Relâmpagos ridentes

Náufrago iluminado pelo contágio
Contando lágrimas sob a língua
Longe longe a pretensa história de seus mortos
Quem por terra cai ali se esvai
Em súbito monumento de chamas
Ardiam os dias sepulcros à deriva
Horror delicado das súplicas
Paisagem com seus planos de histeria
Um lampejo de traumas
Arrastam-se os lábios por toda a fala
Tenebrosa estrela
És o equívoco silencioso

Náufrago à borda de teu miserável destino
Tempo contemplado em despojos
Por onde o fogo a desfolhar-se começa?
Como o abismo reconhecer gotejando suas aves?
Pondo as coisas para andar
Para cantar a selva sua paciente tragédia
Fantasmas a cada passo
Absoluto absurdo
Para cantar as formas que são a vertigem do tempo
A intimidade disforme de tudo quanto sonhas

Náufrago desfeito em um sistema de perdas
Quantas refletem tua queda?
Qual a irreparável vocação?
Será tua a vez de assumir o desastre
Das formas perderem a fala
Do espaço evadir-se de si
Quem és?
Oh náufrago com o homem às costas
Como eletrificastes as circunstâncias?
Visionários guias
Rumores cristalizados
Destinos em série
De que se ri a imóvel paisagem?
Foram-se os outros todos náufragos
Um precioso talho de árvores em fuga
Caos contra o infortúnio
nima contestada
Formas resumidas a um breve bosque de catástrofes
Que vida prolonga o poema?
Que célebre demência ancora na esfera fulminada?

Para mudar tua vida o canto
Nominar o silêncio o verbo o esquecimento
Riscar os fósforos de todos os domicílios da beleza
Uma última onda até morrer o sentido
Linguagem arenosa
Monastério da dúvida

Comporta-se o náufrago como um farol caído
A tudo vê passar sem utilidade alguma
Escombros da própria agonia
Interminável a conta das lágrimas seus estudos de silêncio
Terra insolente sobre os prodígios de sua queda
Fronteira onde não floresce uma ave uma luz vulgar uma voz
Náufrago o náufrago de si mesmo
Soberbo ataúde
Nenhuma treva lhe cai tão bem
Recordará um dia sua fortuna recusando-se ao enterro

Caminhos os temos em silêncio aos berros
Vozes recuperam-se de crimes da cortina de delitos do alimento de lamentos da convulsão de sons
São como ases
Um poema repleto de vozes
Um templo contra a morte
Ávida beleza infernal de aves corroendo o céu com seus véus
Naufrague a pedra o homem a árvore
Ali onde sabemos a eternidade magnético equívoco
Místico pavor quando tudo pode esperar
Não há um triunfo da forma
As honras são todas da dor

Náufrago o náufrago caído em números
Perfeito o veneno sobre seu dorso abandonado
Quem o toque em naufrágio iguala-se
Lúbricas as transfigurações do ser
O monumento do náufrago a si mesmo
Uma história de angústias em rostos desfigurados
Ali soam suas vértebras a seiva a solidez
Sombras que se urdem acumuladas em gozo
Ressurgem o mito as vozes migratórias a árvore que canta
Dá-se que tudo é naufrágio
- trema um sentido decaia uma dor retire-se um abismo
O corpo detido em destino
Despedaçado em sombras
Náufrago de que lei?
Febre de areias sobre seu dorso
Imagens circulares refazendo-se sob o sol
Sobre a morte interroga-se
É sua língua desmedida
Deserto é afeto desfeito o ermo do medo da solidão

Aproxima-se de si o náufrago
Sem mais temer sua fábula
Dá-se a cicatrizar a memória
O rio do náufrago o sal sem pressa o sonho o barco desvirado a imagem sangrenta delirante agulha o infinito a montanha o mar a pesca de anseios o engulho de algas a dor do céu a rosa molhada os lábios comidos de areia o milagre do esquecimento

Não há tempo a perder no náufrago
Gramática é a sua do rumor desperto em êxtase
Loucura a linguagem recriar-se soberba ambígua
Incalculável farol nos lábios do náufrago
Dorso de sal
Inclemência do verbo
Alegoria do ser
Parábola do verso sobre a agonia humana
Areia areia areia
Diante do próprio naufrágio o náufrago mal consegue respirar suas aves

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Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e editor. Autor de livros como Alma em chamas (1998), O começo da busca (2000) e Estudos de pele (2004). Edita, com o poeta Claudio Willer, a revista eletrônica Agulha, http://www.revista.agulha.nom.br/ E-mail: floriano.agulha@gmail.com