quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os japas no Brasil

GUEIXAS - A 25° edição da São Paulo Fashion Week terá como tema o Japão e a abertura do evento no dia 16 de junho será feita com uma performance de uma gueixa oiran (dançarina) feita pelo brasileiro Akito Hibiki. Ele é um dos membros do grupo Hibiki Family (hibiki é sinônimo de "vibração", no sentido de energia). A apresentação contará com a participação dos outros dois atores da companhia: Kazuma, irmão de Akito, e a japonesa Yuka. Hibiki Family fará outras quatro apresentações em São Paulo, entre elas uma demonstração de transformismo na Semana Cultural Brasil-Japão, que acontece de 14 a 22 de junho no Palácio das Convenções do Anhembi. A apresentação mostrará o processo de transformação de um ator do sexo masculino em gueixa, recurso utilizado no tradicional teatro kabuki e que recebe o nome de onnagata (intérpretes masculinos representando papéis femininos). Esta demonstração de maquiagem, figurinos e gestos do onnagata acontece no dia 14 de junho, às 19h, e integra o ciclo de palestras de Artes do Corpo na Semana Cultural Brasil-Japão.
A FAMILIA HIBIKI - Formado pelos irmãos Akito e Kazuma, brasileiros descendentes da terceira geração de japoneses, e de Yuka, japonesa nascida na província de Shizuoka, região central do Japão, o grupo Hibiky Family existe desde 2005. Desde então, vem se destacando por seus espetáculos que mesclam teatro, música e dança. O que mais chama atenção no trabalho deles é a maneira singular de divulgar a ancestral cultura japonesa com um toque diferente, o "tempero" brasileiro. Ritmos brasileiros são misturados a canções enka (música popular japonesa) em apresentações que acontecem em matsuris (festivais), onsens (estações termais), teatros, eventos e até festas infantis.
OLHARES - A curadoria do módulo ‘Artes do Saber’, é da jornalista e artista Erika Kobayashi, com a proposta de analisar os processos de integração cultural, com imagens do Japão e do Brasil. O cruzamento de olhares de três brasileiros vivendo o dia-a-dia no Japão: a escritora carioca Adriana Lisboa, Celina e Haruki - os dois últimos são personagens de seu romance Rakushisha. O título do livro foi inspirado no Diário de Saga, um dos relatos menos conhecidos do poeta japonês Basho e escolhido pela escritora como um dos pontos de partida do romance Rakushisha, publicado pela Rocco. O livro é resultado de sua tese em literatura comparada pela UERJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. O desdobramento de anos de pesquisa e interesse despertado pela cultura japonesa resulta em Contos Populares Japoneses, que é lançado neste mês pela editora Rocco. Adriana vive atualmente em Denver, nos Estados Unidos. União das tradições orientais e ocidentais em níveis narrativos, estáticos e lúdicos. Em homenagem ao centenário da imigração japonesa, o quadrinista Bruno D'Angelo e o roteirista Ricardo Giassetti criam O Catador de Batatas e o Filho da Costureira, uma ficção baseada em fatos e cenários reais. A história de amizade entre Ikemoto, imigrante vindo a bordo do Kasato Maru, e o garoto Isidoro, descendente de escravos, é um símbolo da construção da identidade brasileira. A publicação é um verdadeiro dossiê que aborda vários aspectos e estudos sobre a imigração japonesa para o Brasil. Além de detalhado censo demográfico de 1920 a 2000, o livro tem artigos que destacam a história dos imigrantes, características da população de origem japonesa e até mesmo como esta herança influencia na educação de crianças. Alguns temas trazem o movimento inverso de migração, do Brasil para o Japão. A publicação é iniciativa do Centro de de Documentação e Disseminação de Informações - CDDI.
SUSHI - O 'Virtuose do Sushi', escrito pelo jornalista Thomaz Souto Corrêa, mostra a trajetória do sushiman mais conhecido de São Paulo e trata-se de uma das mais primorosas obras sobre gastronomia feitas no país. O livro conta com algumas receitas de Jun Sakamoto. A publicação da Editora Beï conta ainda com um ensaio em preto-e-branco do fotógrafo Cristiano Mascaro que retrata Jun em 55 imagens clicadas em São Paulo e no Japão, e o guia O Japão por Jun, um pequeno guia de restaurantes e atrações culinárias de Tóquio e outras cidades japonesas.
CERÂMICA - A ceramista Hideko Honma fala sobre seu aprendizado técnico e repetitivo tal qual o aprendizado dos ceramistas no Japão, além da incorporação do design seguido da observação do processo criativo e conceitual. Faz observações sobre a utilização prática da cerâmica como objeto utilitário, suas necessidades e também a poética que a envolve. Hideko Honma também fará a performance "A Cerâmica do Invisível", em que explora o gestual composto de movimentos redondos, circulares, aconchegantes e iluminados na dança das mãos de ceramistas. Haverá a apresentação de vídeo com depoimento da ceramista e imagens do Atelier.
http://www.centenario2008.org.br/

terça-feira, 3 de junho de 2008

"O islã" explica origens e preceitos do islamismo



O número de católicos e muçulmanos no mundo está quase em empate. Isso, de acordo com dados do Vaticano, que pesquisou os números em 2005. Na Europa, o Islã é uma das religiões do dia-a-dia de um grande número de imigrantes e convertidos, ao mesmo tempo a expansão da religião vem acompanhada de dúvidas e sofre com preconceitos e estigmas. Para compreender o mundo hoje, é necessário entender o islamismo. Leia a seguir a introdução do livro.

"O Islã", da série Folha Explica, esclarece de forma sintética as origens do islamismo, suas fontes sagradas, seus profetas e suas divisões ao longo da história. Escrito por Paulo Daniel Farah, o volume discute também os conflitos atuais e dedica um capítulo à presença muçulmana no Brasil. Farah é professor doutor para graduação e pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Escreveu também "Glossário de Termos Islâmicos" e "ABC do Mundo Árabe", entre outras obras. Viveu no Oriente Médio e na África durante vários anos e dirige o Centro de Estudos Árabes da USP e o Centro de Pesquisa América do Sul / Países Árabes, do qual participam acadêmicos de 34 países.

No dia 11 de setembro de 2001, três aviões norte-americanos mudaram o rumo da história. Os atentados contra o World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, nos arredores de Washington, provocaram a morte de aproximadamente 3.700 pessoas e reforçaram o cerco de preconceitos e mal-entendidos em torno da segunda maior religião do mundo: o Islã. Todos os países muçulmanos e seus principais líderes religiosos condenaram as ações terroristas. "Matar homens, mulheres e crianças inocentes é um ato horrível que nenhuma religião monoteísta aprova e que é rejeitado por todo espírito humano são", afirmou o xeque Muhammad Sayyd Tantawi, da Universidade de Al Azhar (fundada no século X, no Egito), a mais prestigiosa instituição teológica sunita.

Apesar disso, o saudita Osama Bin Laden, acusado de orquestrar os ataques, e defensores da confusa e frágil teoria do "choque de civilizações" anunciaram tratar-se de um embate entre o Islã e o Ocidente, como se fosse possível reduzir conceitos complexos - e por isso temas de divergências - a dois campos excludentes. As tentativas de polarizar o conflito logo renderam resultados. O discurso maniqueísta do presidente George W. Bush, que anunciou uma "luta do bem contra o mal", a aprovação em Washington de leis que permitem a detenção de estrangeiros com base em critérios puramente étnicos ou religiosos e as declarações do premiê da Itália, Silvio Berlusconi, sobre a "superioridade da civilização ocidental" serviram de pretexto para ações de xenofobia e intolerância religiosa.

Nos Estados Unidos, estrangeiros confundidos com muçulmanos foram assassinados porque tinham feições árabes ou usavam turbante - entre eles, um indiano sikh e um egípcio copta (cristão). A ignorância sobre o islamismo nesse caso foi fatal. Vinte e cinco dias após os atentados, o Conselho de Relações Americano-Islâmicas já registrava 1.500 atos de hostilidade contra muçulmanos. As vítimas islâmicas dos atentados à Costa Leste norte-americana - entre 600 e 1.400, segundo estimativas - praticamente não foram citadas. Rahma Salie, de 28 anos, grávida de sete meses, estava no vôo da American Airlines que ia de Los Angeles a Boston no dia 11. Salie morreu no atentado, e o FBI --a polícia federal dos EUA - incluiu seu nome, que soa islâmico, numa "lista de observação" de pessoas com possíveis conexões terroristas. Mais tarde, ela foi retirada da listagem, mas não antes que vários de seus parentes tivessem sido impedidos de tomar um avião quando tentavam viajar para Boston a fim de participar das cerimônias fúnebres.

Questionado por um jornalista norte-americano sobre como se sentia ao compartilhar da religião dos terroristas que atacaram o World Trade Center, o pugilista Muhammad Ali - nome adotado por Cassius Marcelus Clay após sua conversão - respondeu: "E você, como se sente professando a mesma fé que Hitler?" Generalizações indevidas caracterizam, na maior parte das vezes, a visão que o Ocidente tem do islamismo; e vice-versa. Supostos especialistas, que nunca estiveram nas sociedades que analisam nem jamais abriram o Alcorão, contribuem para uma interpretação quase sempre enviesada dos vários mundos muçulmanos. Quem foi a dois ou três países dessa órbita compreende que eles são bastante diversos.

O Islã não é um bloco monolítico, nem muito menos estanque. Religião predominante no Oriente Médio e em vastas porções da África e da Ásia reúne hoje cerca de 1,3 bilhões de pessoas, de diferentes origens étnicas, culturais e sociais. São árabes, iranianos, afegãos, paquistaneses, turcos, chineses, indonésios (89% dos 204 milhões de habitantes do maior país muçulmano), africanos, europeus e americanos. Participam da Organização da Conferência Islâmica, que pretende "assegurar o progresso e o bem-estar de todos os muçulmanos do mundo", 56 Estados. A presença dos muçulmanos se faz notar cada vez mais na Europa, onde são por volta de 15 milhões, sobretudo na França (cinco milhões). Nos Estados Unidos, com seus sete milhões de muçulmanos, o Pentágono permite aos soldados jejuar no mês sagrado do Ramadã, libera os praticantes para rezar as cinco orações diárias e põe à disposição alimentos em concordância com os preceitos islâmicos.

No Brasil, muçulmanos organizaram o principal levante urbano contra a escravidão na América - a Revolta dos Malês, em 1835. Atualmente, o país possui cerca de 1,5 milhões de adeptos, muitos sem ascendência árabe. A palavra "islamismo", ou "Islã", vem de Islam, que significa "submissão [a Deus]". A raiz (slm, em árabe) é a mesma que originou "muçulmano" (de muslim, "aquele que se submete a Deus") e salâm ("paz"). A doutrina islâmica se baseia no livro sagrado Alcorão e nos atos, ditos e ensinamentos de Muhammad, considerado o último mensageiro enviado por Deus. Os muçulmanos acreditam nos profetas anteriores a ele, inclusive Jesus Cristo. O islamismo não nega o judaísmo nem o cristianismo, mas se considera a religião que completa as mensagens anteriores e sela o período das profecias numa síntese final.

Os muçulmanos crêem num único Deus (Allah, termo usado também por árabes cristãos), onipotente, que criou a natureza por meio de um ato de misericórdia. Consciente da debilidade moral da humanidade, Deus enviou profetas à Terra. Adão foi o primeiro e recebeu o perdão divino - o islamismo não aceita a doutrina do pecado original. A visão que países como França, Reino Unido e mais recentemente Estados Unidos apresentam do Oriente Médio - berço do Islã - muitas vezes visa referendar práticas político-econômicas de cunho colonialista. Conceitos difundidos por orientalistas, como "mentalidade árabe" e "caráter tipicamente islâmico", por exemplo, são fruto de ignorância, ingenuidade ou má-fé deliberada, além de um complexo de superioridade que está no cerne de historiografias infelizes. Essa mistificação também serve de base, com freqüência, para intervenções militares que poderiam ser evitadas com uma análise mais profunda.

A absoluta maioria das escolas da Europa e da América - Brasil incluso - não dedica nem sequer uma aula ao Islã. Quando o presidente George W. Bush deu um rosto árabe e islâmico ao terrorismo, ao incluir exclusivamente muçulmanos em sua lista de "procurados", e anunciou uma nova "cruzada", reproduziu o que Hollywood mostrava bem antes do trágico 11 de setembro. Em filmes norte-americanos como Nova York Sitiada (The Siege, em que a comunidade árabe da cidade é aprisionada em campos de concentração para evitar atentados) e centenas de outros, os muçulmanos são retratados como seres irracionais que precisam ser domesticados e podem ser facilmente exterminados.

É fato que alguns países de maioria islâmica possuem grupos extremistas, em geral com uma motivação de fundo político, especialmente a ocupação israelense de territórios palestinos, que "inspira" movimentos no mundo inteiro. Basta, porém, espelhar-se no multiculturalismo que floresceu na península Ibérica durante os quase nove séculos de influência árabe e muçulmana (a partir de 711), entre outros exemplos, para compreender que tolerância e islamismo são compatíveis. O fundamentalismo, conceito surgido entre protestantes norte-americanos (em algumas cidades do sul dos EUA, o ensino do darwinismo ainda é proibido), e o extremismo não são exclusividade de muçulmanos. Envolvem também cristãos, judeus, hindus e budistas.

A Europa e os Estados Unidos podem optar por uma permanente paz armada, sob a égide da "justiça infinita" preconizada por Bush e da inevitável ressuscitação da Guerra Fria, ou por uma revisão completa das relações com os muçulmanos que priorize o co-desenvolvimento econômico, o respeito aos direitos humanos e a liberdade de expressão. Não se pode permitir que a globalização, a geopolítica ou o petróleo passem por cima desses pré-requisitos. Oxalá prevaleça o dito atribuído a Muhammad: "a tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir".Nesse sentido, esta obra se propõe a lançar luz sobre as origens do islamismo, suas fontes sagradas, profetas e divisões políticas. Os avanços científicos e culturais que acompanharam sua evolução histórica, os conflitos atuais, inclusive a questão palestina e a crise no Afeganistão, além da presença muçulmana no Brasil, explicam-se em capítulos específicos. A intenção é despertar o interesse do leitor, como o primeiro passo para compreender o Islã e evitar discriminações, não críticas.