segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Feliz Natal!
















Frohes Fest / Christmas !
Fröhliche Weihnachten und einen guten Rutsch ins neue Jahr !!!
Merry Christmas and a Happy New Year !!!
ajmil at-tihānī bimunāsabah al-mīlād wa ḥilūl as-sanah al-jadīdah !!!
Chag Molad Sameach v'Shanah Tovah !!!
Feliz Natal e Feliz ano Novo !!!
Feliz Navidad y próspero año nuevo !!!
Buon Natale e felice anno nuovo !!!

Alles bestens...
All the best...


sábado, 10 de outubro de 2009

A Ilha de São Luis do Maranhão


INTRÓITO ESFARRAPADO
"Honni soit qui mal y pense."
Para se livrar da pecha de mentiroso o autor me pediu para escrever este prefácio, querendo me fazer avalista das estórias que ele pespegou na alvura do papel virgem. Primeiro tentou difamar meus relatos maldizendo: “Informante é uma praga, um desalmado. Isso mesmo: desalmado, sem alma: diz, conta e fala, mas não garante. Pois fique sabendo que vou publicar tudo aquilo que me contou – e assinar embaixo. Só espero que seja a pura expressão da verdade.” Não tem problema. Meu Vô João resmunga com toda razão: A verdade é a verdade, nada mais que a verdade e o que não é verdade não é verdade." E mais: “Se uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Esta estória está, pois, defecando verdades e vomitando mentiras. Quem acreditar que creia! Então, tudo que eu disse está dito e toda a nação de coisas que disse é facilíssima de entender, porque o que é verdade à luz da lamparina, também é verdade à luz do Sol. Faço minha a advertência que copiei do filósofo Platão: "Depois das mentiras, o maior vício de uma obra histórica é estar repleta de minuciosidade". Nada posso jurar de pés juntos porque sei que a mentira é como bola de neve, quanto mais rola mais aumenta. Estória é como boato: corre vadia de boca em boca sem rumo. Ainda sigo o Vô João: “a verdade é muito importante para ser dita pela metade." Sei que o caminho da verdade é tortuoso, mas mentira, mentira mesmo, dessas cabeludas, cabeludas, não contei nenhuma, nenhumazinha mesmo. Bem, talvez uma ou outra, pequeninha, que ninguém é perfeito... nem de ferro! Temos que fingir acreditar na memória, porque dela não podemos ser expurgados como Adão foi do Paraíso. Ninguém mente pela metade: quem mente, mente tudo, mente toda a mentira. Como não existe a meia verdade, não existe a meia mentira. A mentira tem pernas curtas. Impossível, lógico, assumir sozinho toda a responsa. Se a verdade é filha de Deus, a mentira é filha do Diabo e sendo católico praticante acredito nas capetices do Malino. A própria Bíblia, o livro dos livros, ensina: "Todo homem é mentiroso." (Salmos, 115-11). Como o autor é o pai do livro que escreve, o mentiroso é o pai da mentira que conta. Não pode ser diferente. Quem pariu Mateus que o embale... Faço minhas as palavras do sábio: “o historiador é um pateta que olha para trás...” e me calo. Como disse Terêncio, Hei de fazer com que te lembres sempre deste lugar, deste dia e de mim.” A história (ou estória?) destas notas começou quando voltei a São Luís, após ausência de quase 30 anos. A morte de meu pai, o velho João (nem era tão velho assim), não nos deixou escolha. A maioria dos familiares da matriarca dona Mizika morava no Rio de Janeiro – e lá fomos nós, de mala e cuia. Por isso, preparei a cabeça para a migração sem planos de voltar. Meti na idéia que nos fixaríamos no Rio de Janeiro para tocar a vida: estudar, trabalhar, sobreviver. E assim foi: casei, tive filhos – um garotão e duas meninas gêmeas, plantei meu pé de milho, escrevi um livro. Saí com 20 anos, voltei quarentão. Retornar foi como levar uma porrada. Pra consertar o baque tive que tomar vários porres, fazer notas, juntar idéias, vomitar este pequeno volume. Alguns podem dizer que em vinte e tantos anos o lugar muda muito. Pra mim São Luís não mudou: só vi o que quis ver. Meu prazer foi andar à toa, tomar cachacinha e tiquira, comer porcaria nos becos e mercados, buscar o menino que eu fui. Foi divertido porque realmente esbarrei com aquele moleque a todo instante. Escrever, distrair essa fase chata da vida, ter alegria, tristeza, emoção. História ou estória? Verdade ou mentira? Essa sinuca deixo pra quem ler. Contei minha lenda, agora passo a bola pra vocês. Para ler todo o livro: http://www.dominiopublico.gov.br - Autor: Salomão Rovedo

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

AUTO-RETRATO DE AUGUSTO DOS ANJOS


Poetas falam de per si, mas com grande desassossego. Na maior das vezes cuida de tratar bem os sintomas da humanidade, ainda que presente apenas no universo próximo, ao seu redor. Quando Augusto dos Anjos chegou ao Rio de Janeiro trazendo o seu EU debaixo do braço, cheio de muitas esperanças, ficou surpreso com a recepção pífia com que seus pares o receberam, não obstante o calor da crítica de alguns poucos. Mário Pederneiras escreveu uma nota simpática, Osório Duque Estrada preferiu discutir as idéias filosóficas do poeta: 
*** 
“Um grande talento transviado; promessa de extraordinário poeta, abortada na alma de um filósofo; extravagante volume de versos em que pérolas se misturam com o cascalho dos exotismos estapafúrdios”. Sem negar que se trata de “um espírito de elite e uma inteligência capaz de grandes cometimentos”. 
*** Outros foram menos bondosos e criticaram abertamente o excessivo e egocêntrico poeta, que se gabava com alarde das qualidades próprias. Para manter a coerência e assegurar ao poeta um lugar no país de Olavo Bilac, Hermes Fontes deu a maior força: 
***
“Augusto dos Anjos é um poeta que não se confunde com os outros. É diferente  dos demais pelo credo, pela fortuna e pela grande independência de pensar e dizer. Com os outros, isto é, com três ou quatro dos nossos grandes jovens poetas, ele se identifica, apenas, pela força da cultura, pela segurança, pelo brilho, pela excepcionalidade de seu estro”. 
***
O cientificismo, o amor pelas coisas inauditas, a absorção de temas universais, a liberdade de  tratamento dado ao Ser e à Terra, consubstanciando-os numa só comunidade – tudo isso fez com que Augusto dos Anjos se mantivesse à margem, transformando-o em Poeta Maldito. 
Escondido num Soneto, porém, achamos outro retrato de Augusto dos Anjos, mais simpático, alegre até, desprendido das coisas materiais. No mesmo rumo de um Bocage, perpassando por  seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros, Augusto dos Anjos apresenta um humor até então  desconhecido e ignorado. Vejamos as similaridades. Bocage foi um dos que poetisaram o auto- retrato: 

***
SONETO 
Magro, de olhos azuis, carão moreno, 

Bem servido de pés, meão na altura, 
Triste de facha, o mesmo de figura, 
Nariz alto no meio, e não pequeno; 


Incapaz de assistir num só terreno, 
Mais propenso ao furor que à ternura; 
Bebendo em níveas mãos, por taça escura, 
De zelos infernais letal veneno; 


Devoto incensador de mil deidades 
(Digo, de moças mil) num só momento, 
E somente no altar amando os frades, 


Eis Bocage em quem luz algum talento; 
Saíram dele mesmo estas verdades, 
Num dia em que se achou mais pachorrento. 



Esse é o Bocage! E Leandro Gomes de Barros era leitor de Bocage? Parece que sim, porque ele  publicou na contracapa do folheto “Peleja de Manoel Riachão com o Diabo” um auto-retrato muito próximo ao Soneto do poeta português... 
*** 
Os Traços de Leandro Gomes de Barros: 



A cabeça um tanto grande e bem redonda, 
O nariz afilado, um pouco grosso, 
As orelhas não são muito pequenas, 
Beiço fino e não tem quase pescoço. 


Tem a fala um pouco fina, voz sem som, 
Cor branca e altura regular, 
Pouca barba, bigode fino e louro, 
Cambaleia um tanto quanto no andar. 


Olhos grandes bem azuis, têm cor do mar: 
Corpo mole, mas não é tipo esquisito, 
Tem pessoas que o acham muito feio, 
Mas a mamãe, quando o viu, achou bonito! 


Eis aqui o que consideramos o auto-retrato de Augusto dos Anjos, seguindo os mesmos parâmetros de Bocage e Leandro:



SONETO 



O oxigênio eficaz do ar atmosférico, 
O calor e o carbono o simples éter são 
Valem três vezes mais que este Américo 
Augusto dos Anzóis Souza Falcão... 


Engraçado, magríssimo, pilhérico, 
Quando recita os versos de Tristão 
Fica exaltado como um doente histérico 
Sofrendo ataques de alucinação. 


Possui claudicações de peru manco, 
Assina no Croquis Rapaz de Branco 
E lembra alto brandão de espermacete... 


Anda escrevendo agora mesmo um poema 
E há em seu corpo igual a um corpo de ema 
A configuração magra de um 7. 


(De Castro e Silva: Augusto dos Anjos – poeta da morte e da melancolia)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Caro Stefan Welkovic

Rio de Janeiro, 25 de maio de 2009.

Caro Stefan Welkovic

Vamos tratar dos assuntos...
Carta – Realmente Stefan, a correspondência via e-mail acabou com a troca de cartas. Acredito que foi um grande prejuízo para os correios e deixou a gente um pouco mais preguiçosa. Além do mais, o e-mail não tem vida própria, como a carta, com endereço do remetente e selos grudados, né? Nunca fui um correspondente contumaz, como o Mário de Andrade, mas já tive meus dias de cartas. Ainda hoje tenho a minha maquininha de escrever com fita e tudo, cujos tipos a gente tinha de manter sempre limpos com álcool ou solvente. Ainda a esse respeito, mantenho correspondência via e-mail com o Luiz de Almeida – que tem um blog sobre o modernismo e o Mário de Andrade, www.literalmeida.blogspot.com, que escreve e-mail como se fosse carta e justifica: “Escrevo assim porque primeiro faço o texto no Word e depois colo no e-mail.” São os tempos modernos...

Bruckner – Rapaz, você tem toda razão! Já tinha lido a respeito, inclusive acho que Bruckner era de Salzburg, terra do Mozart. Não vou dizer que austríaco e alemão é a mesma coisa, de jeito nenhum. Acho até que eles lá têm suas pinimbas e orgulhos tais que não se querem misturar. Mas conto uma história: faz pouco tempo andei querendo realizar um projeto sobre Stefan Zweig, que batizei de “O código Zweig”. Durante esse tempo mantive uma troca de e-mail com Alberto Dines, autor de “Morte no paraíso” e, pensando agradá-lo, quis mandar um livro alemão sobre autores judaicos do início do século 20, que achei num sebo. Na ocasião estranhei que o nome de Stefan Zweig não estivesse relacionado, mas sim o de Arnold Zweig, este sim alemão. Ele me respondeu com a mesmíssima frase que você usou: “Deve ser porque ele era austríaco!” Mas aqui bem que poderia afirmar que é tudo a mesma coisa, pelo menos quanto aos dois sobrenomes “Zweig”. Então, não brigo com você e ficamos combinados assim: Bach, Beethoven e Brahms.
Não sei o que ocorreu com o outro CD que te mandei. É uma Sinfonia de Bruckner regida por Claudio Abbado. Devo ter errado quando da duplicação. Mas o que impressiona é a orquestra enorme que Bruckner exige, cerca de 200 músicos! Às vezes dá a impressão que o regente não vai dar conta do recado porque tem de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Também Mahler era assim, não é? Que coisa!

Celibidache – É verdade quando você diz que ele se enamorou do coral. Mas não deixou de dar algumas broncas. Atacou também, porém mais de leve, o quarteto de solistas, o Baixo e a Soprano gordinha, mas que tem uma voz!!! Sempre exigindo que não se atropelasse “a semântica”, no caso tratava-se do “Qui Venit”. Outra coisa que notei é que os músicos, sabendo que estavam gravando, usavam códigos ou linguagem cifrada entre si. No caso do flautista foi engraçado: “Mas cadê a flauta? Ademais, eu disse pianíssimo!” a orquestra simplesmente “engoliu” o solo. Também chama a atenção o fato de Celibidache ensaiar o coral sozinho (ao piano) e também a orquestra, sem o coral. Para depois de tudo, juntos, encontrar a harmonia perfeita. Dá pra ver que foram usadas quase duas orquestras, porque houve troca do Spalla e do Baixo numa das apresentações. Tudo isso adaptado à acústica da igreja, mesmo com alguma resistência dos músicos. Fantástico! 
Quanto às missas de Bruckner que você tem, me mande o que quiser, gosto de tudo. Como você viu, estou na fase “coral” – que em Bruckner é quase sempre “soturno”. 
e-Livros – Bom, se você já leu alguma coisa, tudo bem. Mas agora eu simplesmente te entulhei com meus pobres livros. Ademais tem alguns digitalizados recentemente, como sobre Literatura de Cordel, o Suite Picasso, um Cancioneiro de Upsala, que ousei melhorar a tradução e o Macunaíma em cordel. 
Devo essa atualização de escritos antigos a um programinha que “lê” o texto datilografado e depois salva em Word. Simplifica muito, mas sempre precisa de alguma correção. Mas a coisa mais fabulosa que vi na TV foi uma máquina que está sendo utilizada para digitalizar as bibliotecas. Rapaz, ela simplesmente lê o texto, passa página a página e depois transforma em livro digital, tudo isso com uma rapidez enorme! Agora sim, as bibliotecas vão estar à nossa disposição em pouco tempo.
Vai um abraço agradecido,

Salomão Rovedo

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O baile dos pronomes, por Mário de Andrade

Vai acesa em São Paulo a preocupação da “língua brasileira” e de um clássico como o Sr. Mota Coqueiro, como de um novíssimo como o Sr. Mario Neme, tem sido muitos este ano, nos jornais e revistas do Estado, os depoimentos e as contribuições a respeito deste nosso gosto e dificílimo escrever. Esta inquietação nova creio que em grande parte se deve ao discurso em que o Sr. Cassiano Ricardo lançou a “língua brasileira” na Academia. Idem, no qual, aliás, com a generosidade costumeira, ele me tratou com tanta elegância intelectual. Achei prudente, portanto, retribuir a atenção que o distinto acadêmico me dispensou com estes comentários sobre o pronome átono iniciando frase.

Há pouco menos de vinte anos atrás, quando também as minhas impaciências de mocinho me levavam a falar em “língua nacional” como hoje falo, foi esse um dos problemas que mais me preocuparam. Tempo vivo aquele, em que os meus próprios amigos mais sábios, caíam em cima de mim por causa dos meus abrasileiramentos de linguagem... Eram discussões verdadeiramente angustiosas, sobretudo por causa da incompreensão e da leviandade de julgamento que levavam os meus próprios amigos, às vezes, a imaginar que eu estava querendo “criar” a língua nacional e cousas assim. Foi uma incompreensão inicial destas que me levou a quase romper relações com um dos meus amigos mais queridos. Renato de Almeida, o autor da “História da Música Brasileira”.

Com outro, o douto calmante filosófico do nosso grupo, Couto de Barros, resolvemos ambos discutir na máquina de escrever, evitando de ver o numeroso “Não falei isso!” das discussões bocóricas. Couto de Barros me apareceu à noite, sentou à minha “remington” e gravou o primeiro argumento. Lhe respondi do mesmo jeito. E assim se travou uma das discussões mais acaloradas que já tive, sem que uma só palavrinha machucasse o ar dormido do bairro.

Mas um dos que mais me atenazaram foi Manuel Bandeira. Concordando em princípio comigo, me conhecendo suficientemente para não me atribuir mais que a modéstia de contribuição e experiências pessoais, me deixava tonto com duvidinhas e restriçõezinhas que pingavam a cada carta semanal que então recebia dele, bons tempos... Uma dessas dúvidas foi justamente a de que hoje vou produzir neste artigo as provas que ajuntei. Ele achava que eu não tinha direito de generalizar para toda a série dos pronomes, o caso do “Me parece”, que só frequentava a primeira pessoa do singular. Mas me saí brilhantemente e o grande poeta pernambucano teve a franqueza de reconhecer que eu estava bem escudado, embora discutisse algumas das provas apresentadas por mim.

Porque, a meu ver, muito embora o caso frequente também a língua escrita de Portugal, o problema do pronome oblíquo iniciando frase, não é apenas uma questão de maiúscula. Muitas vezes no próprio decorrer da frase a tendência se revela. Pois não se trata apenas de iniciar realmente a frase, com a sua maiúscula erguendo orgulhosamente o pronome átono, o fenômeno é muito principalmente de ritmo, não só de ritmo no tempo, como também de ritmo psicológico. Assim, num dos mais bonitos sambas nacionais, o “Vejo Lágrimas”, publicado em disco Columbia n. 22165-B, o cantor argumenta:

Si choras por alguém que te enganou
“Te” conforma, pois Jesus Também se conformou

Num caso destes, si não estivesse presente ao poeta e ao cantor a constância rítmico-verbal brasileira, tudo o levaria a dizer “conforma-te”, não só o movimento musical que para em som mais longo ao fim de “enganou”, como a própria pontuação intelectual da frase. Com efeito, terminada uma proposição dubitativa, o sentido do texto não conclui sobre ela, mas inicia outra proposição que é um conselho, e que o sentido inteiro do texto anterior, mesmo sem a proposição dubitativa, era suficiente para justificar. Mas na publicação impressa do texto, o poeta, a quem decerto puxaram as orelhas, substituiu o “Te conforma” por um paciente “Tem paciência”...

Já desde os tempos de Gregório de Matos, essa tendência se manifestava. Num dos sonetos ao governador Antonio Luiz, ele escreve: Com olhos sempre postos na ordinária, “Vos” dou os parabéns... Sintaxe, que, embora gramaticalmente aceitável, juro que muito gramaticoide evitaria, tal a ênfase com que o pronome “enclítico” , iniciando o verso, e refugando a posposição, nos fere portuguesmente o ouvido e o olhar. Da mesma forma, em propostas de caráter enumerativo, cada uma delas é bem uma frase isolada e não é a vírgula que pode nos dar satisfação sintáxica. Como nestes passos de Darci Azambuja em “No Galpão”: “mas o gambá pediu muito, “se” ajoelhou, fez muita lábia “... E eis mais um bom e insistente caso popular, com o Se o Lhe, publicado no folheto paraibano “Conselhos de Padre Cícero a Lampeão”: Disse-lhe (sic) o padre:- Meu filho, Não persista no pecado, Deixa a carreira dos crimes, “Se” torne regenerado, Si me promete deixar, “Lhe” prometo trabalhar pra (sic) você ser perdoado. Primor de estilo pachorrentamente padresco, como se vê... E ainda a tendência pode ser entrevista no caso do pronome intercalado entre o verbo auxiliar e o no infinito. Se observe este exemplo deliciosamente ofensivo, que colho no folheto da literatura de cordel nordestina, “Bento, O Milagroso de Beberibe”:

“Fiz Romano atropelar-se (sic)
E fiz Germano correr,
Abocanhei Ugolina
Porém não pude “o” morder.

Mas vamos aos casos insofismáveis. A obliquação do pronome da primeira pessoa do singular, quasi nem merece exemplos, por todos reconhecida como normal em nossa língua. Não citarei dela nenhum exemplo popular. Mario Marroquim já os recenseou com riqueza em “A Língua do Nordeste”. Lembro apenas três exemplos eruditos. Nas “Minas de Prata”, José de Alencar, santo patrono da língua brasileira, faz Estácio dizer ao amigo velho: - “Me” guiareis com a vossa experiência (Garnier, I v., p. 67). Aluizio de Azevedo também aceita que um dos seus personagens do “Cortiço”, diga ao vendeiro: - “Me” avie, seu Domingos! (Garnier, p. 57). E vemos Fagundes Varela encampar a sintaxe no “Evangelho nas Selvas”:

- Naida! – Padre, “vos” espero, vamos.
- O que fazias, filha? – “Me” lembrava...

E ainda no Canto VI, bem psicologicamente, são usados os dois ritmos numa só frase:

“Me” interrogaste em nome do Senhor... “cala-te e escuta”.

A segunda pessoa também dará exemplos numerosissimos. “Te vejo, te procuro” inicia Gonçalves Dias uma das estrofes dos “Harpejos”, insofismavelmente. E ainda nas pródigas “Minas de Prata” (III, 168), Raquel ameaça o pai judeu: “Te denunciarei sim”! “Nos Matizes” (1887) F. A. Nogueira da Gama inicia a fala da cidade do Rio se dirigindo a São Paulo: “Te saúdo caipirinha”... E outro paulista da gema, Brasilio Machado nas suas “Madresilvas” de 1876, nos oferece uma poesia instituída “Te Esqueceste”, que é a da maior força... Aliás, creio que foi João Ribeiro quem analisou primeiramente diferenciação psicológica entre o mansinho “Se sente” nosso e o mais imperativo “Sente-se” desses portugueses, durante vários séculos acostumados a mandar nas suas colônias. Eu reconheço o valor da psicologia organizando as sintaxes nacionais, mas tenho um pouco de medo disso.

Levaria a generalizações monótonas e sem sabor estilístico. Creio que o fenômeno das diferenciações sintáxicas é muito mais um problema fonético de ritmo verbal. Silva Ramos (Revista de Cultura, I, p.22) fornece argumentação justamente contrária ao valor imperativo do enclítico: “A mim, por exemplo, diz ele, ser-me-ia impossível ou escrevendo, iniciar uma proposição por pronome átono, e, entretanto, tendo uma vez, posto em dúvida a um colega que um projeto de lei nos interessava tivesse parecer favorável, ele me atirou com um “te garanto que ele será aprovado”, com tal intimativa ferindo com ênfase o pronome, que confesso me senti mais garantido “... E para acabar com o Te, colho na “Revista da Academia (fevereiro, 1933), um evento folclórico de Goiás: “Te” compreendo, morena,Já sei que queres dizer,Como canguçu ou tigre,Felizes temos de ser.Com a terceira pessoa do singular, sito primeiro um exemplo erudito, o Dr. Severino de Sá Brito no seu “Trabalho e Costumes dos Gaúchos”, que na p.30 assim abre parágrafo: “Se cultivava muito milho, também feijões, abóboras, melancias”... Semieruditamente, um anuncio de cabaré paulistano avisa os concorrentes dum campeonato de tango:

“Se recebem (sic) as inscrições nas gerências”.

E Mario Marroquim nos fornece um exemplo popular: “Se” vendo o compadre pobre Naquela vida apertada... No plural, a primeira pessoa é reconhecida por Lucio Cardoso na boca de um homem do alto São Francisco, em “Maleita”: “Nos salve agora”. Conheço outro exemplo impresso, num folheto recifense “História do Menino da Floresta” do célebre cantador Martins de Ataíde, em frase brasileira até debaixo dágua: “Nos” faças esta caridade, Deus há-de lhe (sic) agradecer. Da segunda pessoa, além das “Minas de Prata” (III, 400) em que vem a pergunta: “Vos serve este meio?”, conheço uma quadra paulista da dança de São Gonçalo (Rev. do Arquivo, XXXIII, 108) que canta:

“Vos” peço, meu São Gonçalo,
Com muito gosto e alegria,
Aceitai esta promessa
E também nossa romaria.

Com Lhe e Lhes, não me ocorre exemplo, é mais provável eu ter perdido alguma nota. Mas assim como nos Açores, nas festas do Espírito Santo o povo, se referindo à cora, diz ao Imperador:

“A” coloque no altar
O padre disse: “O” projeto!

protegendo com a mesma energia a sintaxe nacional. Com tudo isso, como esquecer o epigrama de Alberto Ramos... Me dá! – Dá-me! – Me dá! digo eu. – Erra, imbecil!- Bruto! erro em Portugal, acerto no Brasil!

Andrade, Mario de. O Baile dos Pronomes.
Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17º, de 12/03/1942
Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo
in: http://www.literalmeida.blogspot.com/

segunda-feira, 30 de março de 2009

FERREIRA GULLAR PORTEÑO

Foto: C. Ahimsa

Depois de quase 35 anos da sua invenção, em 1975, o Poema Sujo de Ferreira Gullar volta a Buenos Aires, onde foi escrito. Como diriam nossos amigos rioplatenses: ¡enhorabuena!
A iniciativa partiu da editora Corregidor, que acrescentou o volume “Poema sucio/En el vértigo del día” na coleção Vereda Brasil, que já conta com treze títulos de autores brasileiros. Ferreira Gullar agora – muito merecido – figura ao lado de Gregório de Matos, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Clarice Lispector e Graciliano Ramos, entre outros.
A edição é bilíngüe e devo à poeta argentina Sandra Pien (autora de Mi Borges.com, outro enigmático poema), o prazer de desfrutar tal preciosidade.

Completa o volume um prólogo de Davi Arrigucci Jr. – o texto Todo es exilio, publicado no livro Outros achados e perdidos – Cia. Das Letras 1999 – assim como o famoso artigo de Vinícius de Moraes, Poema sujo de vida, publicado na revista Manchete em 1976, que causou frisson na intelectualidade brasileira e suores frios nos governantes militares.

Apesar de tudo e de todos, se pode dizer que este texto – ao lado da também famosa fita cassete (também trazida por Vinícius de Moraes), com a leitura do Poema Sujo pela voz do próprio autor, que se reproduziu como coelhos e foi ouvida em todo o país – foi o responsável direto pelo retorno seguro do poeta ao Brasil e em muito contribuiu para a distensão democrática que já se anunciava. A publicação da primeira edição no Brasil, em 1976, coube a Ênio Silveira que, ao dar o formato de caderno escolar ao volume, transformou o Poema Sujo num estrondoso sucesso popular.

A tradução e apresentação desta nova edição do Poema sujo ficou a cargo de Alfredo Fressia, enquanto que a dupla Mario Cámara e Paloma Vidal se encarregou de traduzir e apresentar Na vertigem do dia. Durante esse labor, em que houve intensa troca de correspondência entre os tradutores e o autor, ocorreu uma entrevista feita a Ferreira Gullar, que também foi incluída no volume. Mas tradução é tradução! E dizer tradução, implica, desde sempre, ocultar uma atroz armadilha que, impiedosa, arrasta para o mesmo poço o autor, o tradutor e os leitores...

Neste caso não foi diferente. Do Poema sujo, segundo Gullar, pode-se dizer que é a terceira tradução para o espanhol, contando-se a edição saída na Colômbia nas mãos de Elkin Oregón Sanin e outra publicada na Espanha, sob a responsabilidade de Pablo Del Barco. Uma outra tradução extraordinária – que foi oferecida para consulta a Alfredo Fressia pelo próprio Gullar – sabe-se que existiu e que foi feita, por um time de tradutores, ao mesmo tempo que o poema era finalizado por Ferreira Gullar. Seus amigos porteños, mais uma vez instigados por esse espírito rebelde chamado Vinícius de Moraes, preparavam uma tradução simultânea, feita a múltiplas mãos, de nomes tais como o próprio Vinícius, mais Augusto Boal, Eduardo Galeano e Santiago Kovadlof!

Não me perguntem por que essa tradução não foi aproveitada. Simples. É muito provável que ela tenha caído sob a crueldade do tempo implacável e tenha se tornado obsoleta. No entanto, Ferreira Gullar a colocou nas mãos dos tradutores atuais, que puderam consultá-la e usá-la como lhe aprouvessem. Na sua Presentación de Poema sucio, Alfredo Fressia confessa:
“El lector sabe que la tentación es más humana que la prudência, de modo que acepté conocer esa primera traducción”. Bem, bom e daí? Bom, daí ocorre uma dúvida: se a tradução é para incluir o poeta Ferreira Gullar no mundo literário argentino – exclusivamente nele – pode aceitar os parâmetros que nortearam essa tradução. Porém – para isso existe o porém – trata-se de uma edição bilíngüe, o que faz tudo mudar de feição.

Abro um parêntese para registrar uma interrogação que me acompanha desde muito: por que somente os textos poéticos são apresentados em tradução bilíngüe? Por que não se editam romances ou contos ou ensaios ou artigos em edição bilíngüe? Não sei, ninguém sabe, alguém saberá? O fato é que, ao apresentar um texto poético em edição bilíngüe, o tradutor oferta também sua cabeça à guilhotina, sem direito a reclamar da dor que a lâmina causará...

Alfredo Fressia sabia do risco que corria e não se desmaia em corrê-lo, ao contrário, enfrenta os percalços com infinita bravura: “Mi trabajo resultó en la presente traducción, ciertamente diferente de aquel pré-texto multicéfalo, hecha además en sintonía de criterios con la de Paloma Vidal e Mario Cámara para En el vértigo del dia”.

Mas a armadilha da tradução não demora a mostrar suas garras e acaba por transformar a ótica pela qual os tradutores decidiram pôr em prática na tradução dos poemas de Ferreira Gullar num trágico equívoco. Vejamos como Alfredo Fressia estabelece o objetivo de seu trabalho, cujo critério se mostrará falso e infiel:

“Del portugués entrañable, nordestino, lleno de la fauna, la flora, la vida de São Luís do Maranhão, ese idioma que crea muchas veces cierto extrañamiento en el lector brasileño de los grandes centros urbanos, quedó un castellano rioplatense, también de entraña popular, y que debería por veces reproducir ese extrañamiento original”.

Nada mais equivocado! De boas intenções o inferno está cheio, diz o ditado popular. Por algum motivo ninguém pôde alertar a Alfredo Fressia de que o linguajar maranhense não é aquele mesmo portugués entrañable, nordestino, lleno de la fauna, la flora, la vida, que ele desejava e gostaria de inculcar como se fosse a própria alma de sua tradução (mais correto seria dizer: da sua versão para a linguagem rioplatense?).

Sim meus amigos, o nordeste brasileiro é uma áfrica de dialetos, todos baseados num português bem aproximado do galiciano. Ouso muito? Ora, senão vejamos: o português que se fala no Maranhão não é de modo algum o nordestino, assim explicitado por Alfredo Fressia. Esse pretenso nordestino, sim, não deixa de ser lleno de la fauna, la flora, la vida, porém é falado do Ceará a Alagoas, com muitas variantes. E com outras tantas variantes do Ceará-Rio Grande do Norte num grupo e na Paraíba-Pernambuco, noutra combinação. Alagoas sofre a influência massificada do baianês, que surge como um dialeto moderno e independente.

No entanto, pra que torcer contra? Afinal o que está em jogo é a divulgação da nossa poesia e isso merece de nossa parte todos os fogos de artifício. Tomara, pois, que a intenção dos tradutores do Poema sujo e de Na vertigem do dia tenham alcançado seus objetivos, pelo menos no que se refere à inclusão de Ferreira Gullar em grande porção de leitores argentinos.

Como disse, se a publicação das traduções de poesia não seguisse esse ritual esquisito do bilingüismo, ninguém iria reprovar as liberalidades que os tradutores tomam ao verter o trabalho dos outros para o idioma de seus bairros. Gullar pelo menos, que é o dono do objeto, não se importou. Acho, aliás, que os autores – ao contrário do que se pensa – mais se divertem do que se aborrecem com esses malabarismos. A tradução também é uma interpretação e é ótimo se conhecer o quê e o quanto o trabalho individual de cada um mexe e remexe com outras culturas, outras formas de arte e outros povos.

Mas, deste caso em particular, destaquei a tradução de um poema de Ferreira Gullar para o qual os critérios de tradução não se mostraram realistas. Trata-se de:

CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca, como neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ora, é um poema fácil de traduzir, não é? Primeiro, trata-se de uma cantiga. E uma cantiga pressupõe ritmo, sonoridade, cadência – fórmulas às quais o poeta se ateve com notório talento. Para destacar o ritmo o poema é apresentado em quadras, trovas – porém não obrigatórias. Para a sonoridade o poeta usou, em quantidade muito econômica, as rimas suaves, redondas: eve, ão, ento. E a cadência ele obteve com uma métrica de sete sílabas, quebrada apenas no terceiro verso.

Acontece que os tradutores simplesmente ignoraram esse detalhe importante – importantíssimo, diria – nessa canção. Vejam como ficou a tradução:

CANCIÓN PARA NO MORIR

Cuando te vayas,
muchacha blanca, como la nieve,
llevame.

Si acaso no podés
cagarme de la mano,
niña blanca de nieve,
llevame en el corazón.

Si en el corazón no podés
acaso llevarme,
muchacha de sueño y de nieve,
llevame en tu recuerdo.

Y si allí tampoco podés
por tanta cosa que lleves
conmovida en tu pensamiento
niña blanca de nieve,
llevame en el olvido.

Mas, é o caso de se perguntar: ¿Que pasó? Por que uma canção se transformou numa coisa sem sal, sem tempero, sem aquele frescor pretendido, lleno de la fauna, la flora, la vida? Por que “moça” (duas sílabas) se traduziu para “muchacha” (três sílabas) e não para “chica” (duas sílabas)? Sinceramente não dá para entender, já que talento não falta aos tradutores, nem exemplos também não, porque a fauna das letras de tango e da poesia popular rioplatense é cheia de exemplos tais, sonoros, cadenciados, ritmados.

Tem jeito? Eu bem que poderia tirar o corpo fora. Não é problema meu. Mas, criticar sem sugerir é falta grave. Portanto, apesar de não ser tradutor, mas sendo poeta, não fujo da tentação nem da responsabilidade e ouso fazer uma tentativa. Ficou assim:

CANCIÓN PARA NO MORIR

Así, cuando usted te vayas,
chica blanca, como nieve,
lléveme.

Si acaso usted no podéis
cagarme por la mano,
niña blanca de nieve,
lléveme en el corazón.

Si en el corazón no podéis
acaso a mí llevar,
chica de sueño y de nieve,
lléveme en tu recordar.

Y si ahí tampoco podéis
por tanta cosa que lleves
ya viva en tu pensar
niña blanca de nieve,
lléveme en tu olvidar.

Bom, ninguém é perfeito e nem esta tentativa pode ser achada como solução... Mas é assim mesmo: tudo se critica! Tradutor, traidor, diz o provérbio italiano, já universalizado. O tradutor sofre com isso. No entanto, como poderíamos ler as obras universais se não fosse ele? Convém, pois, não perder a esperança. Tanto que Alfredo Fressia não se incomoda em dar a mão à palmatória, sem perder o humor:

“Es lo que espero, lo que los traductores siempre esperamos: ser buenos intérpretes entre dos culturas, intermediarlas recreando una aventura estética, lidiar elegantemente con la pérdida y, ya que sabidamente somos traidores, por lo menos traicionar siempre por lealtad al lector”.

Portanto, viva o tradutor, que faz chegar até nós as belas produções de um país em que tem Babel como Capital!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Um réquiem a oito mãos
















O Réquiem que Mozart deixou inacabado teve mais um capítulo acrescido à sua história rocambolesca. Mozart morreu deixando para sua mulher Constanza a incumbência de entregar ao milionário Conde Franz von Walsegg o Réquiem por ele encomendado e antecipadamente pago.

O Réquiem serviria para acompanhar uma cerimônia litúrgica, qual seja, em memória e aniversário de dis anos da morte da Condessa von Walsegg. Para cumprir a obrigação Constanza recorreu aos compositores Franz Süssmayer e Joseph Eybler – então alunos de Mozart – que se incumbiram de finalizar o Réquiem.

Segundo o musicólogo francês Henri de Curzon, Mozart havia deixado completados os manuscritos do Réquiem Aeternam e do Kyrie, que são peças inteiramente do compositor:

“O desenho melódico, órgão e entrada de instrumentos, estão apenas traçados por Süssmayer sob seu ditado, o qual, aliás, recebeu até o fim, como ficou provado, instruções minuciosas”. Mozart deixou também, representados em esboço, os manuscritos do Dies Irae e do Hostias (sic), com todas as indicações de como deveriam ser finalizados.

“E depois de ter revisto e orquestrado todos os trechos, [Süssmayer] acabou ele sem auxílio à partitura. Em suma – conclui Henri de Curzon – só existe caráter certo de Mozart até os primeiros compassos da Lacrymosa”.

O musicólogo fala com a autoridade de quem teve os manuscritos nas mãos e leu a famosa carta de Süssmayer de 1800, que elucida todas as dúvidas a respeito da composição do Réquiem de Mozart, no que se refere à sua finalização.

Portanto, até o ano de 1819, o Réquiem K. 626 de Mozart foi publicado e executado com base na parte inicial do próprio compositor, com as intrusões de Süssmayer e Eybler, finalizando sob os acordes do último movimento, Lux Aeterna, ou seja, nos moldes da composição de uma missa pro defunctis, mais conhecida entre nós como missa de corpo presente. Mas, como se viu, não era essa a intenção do Conde Franz Von Walsegg, cuja esposa havia falecido já há dois anos.

Então, em 1819... Bom, para começar esse capítulo temos de retroceder ao ano de 1808, quando a família imperial portuguesa, fugindo da invasão francesa, embarcou de mala e cuia para o Brasil.

Entre os muitos artistas, cientistas, escritores e homens de arte que acompanharam a comitiva de Dom João VI, estava Sigismund Ritter Von Neukomm (1778-1858), que, como Wolfgang Amadeus, também era natural de Salzburg e cuja família morava na mesma rua dos Mozart.

Igualmente a Mozart, Sigismund Neukomm foi um músico precoce e já aos quatro anos era aluno do organista maestro da Catedral de Salzburg, Xaver Weissauer. Posteriormente o jovem Neukomm foi estudar com Michael Haydn que, em 1797, enviou o aluno à Viena com uma recomendação expressa a seu irmão mais velho Joseph Haydn. Logo o aluno é aproveitado para trabalhar nas orquestrações e nas transcrições para piano em muitas obras de Haydn.

No Brasil, Neukomm conheceu e se tornou amigo do padre e compositor José Maurício Nunes Garcia, ao qual Dom João VI de imediato havia confirmado para continuar a ser Mestre de Capela da corte – cargo que ocupava desde 1798 – apesar da presença na comitiva do nome, famoso e talentoso, do compositor Marcos Portugal. Nunes Garcia fazia os preparativos para realizar a primeira apresentação em terras latino-americanas do Réquiem de Mozart e a chegada ao Brasil de Sigismund Neukomm – que trazia na bagagem um conhecimento atualizado das obras de Mozart e dos irmãos Haydn – foi simplesmente um milagre!

Mas vinha também na bagagem do jovem músico austríaco a certeza de que a obra de Mozart continuava incompleta, com um final que deixava em suspenso toda a magia do Réquiem, trazendo-lhe a firme sensação de que a mesma deveria ser finalizada. Pois esse era o momento. Havia surgido a ocasião propícia e foi assim que Sigismund Neukomm tratou de pôr mãos à obra e compor o Libera me, para se tornar o último movimento do Réquiem K. 626 de Mozart.

Com esse movimento, necessário aos réquiens in memoriam, estaria assim finalizada uma obra que, como se viu, foi encomendada para homenagear a memória da Condessa von Walsegg e não para compor uma missa de corpo presente, como era executada até então.

Libera, Domine, de morte aeterna
In die illa tremenda
Quando caeli movendi sunt et terra
Dum veneris judicare saeculum per ignem
Tremens factus sum ego et timeo.

Então, em 1819... Foi assim que no dia 19 de dezembro desse ano, durante as Festas de Santa Cecília, em homenagem aos músicos mortos no ano anterior, o Rio de Janeiro entrou para a história do Réquiem Inacabado de Mozart.

A Confraria de Santa Cecília, fundada por Nunes Garcia e um grupo de amigos, servia como uma academia de músicos, para apresentar as obras dos compositores brasileiros da época e também para homenagear a memória daqueles que haviam desaparecido. Mas, com a execução do Libera me de Sigismund Neukomm, entrou em definitivo para a biografia de Mozart.