quarta-feira, 29 de abril de 2009

O baile dos pronomes, por Mário de Andrade

Vai acesa em São Paulo a preocupação da “língua brasileira” e de um clássico como o Sr. Mota Coqueiro, como de um novíssimo como o Sr. Mario Neme, tem sido muitos este ano, nos jornais e revistas do Estado, os depoimentos e as contribuições a respeito deste nosso gosto e dificílimo escrever. Esta inquietação nova creio que em grande parte se deve ao discurso em que o Sr. Cassiano Ricardo lançou a “língua brasileira” na Academia. Idem, no qual, aliás, com a generosidade costumeira, ele me tratou com tanta elegância intelectual. Achei prudente, portanto, retribuir a atenção que o distinto acadêmico me dispensou com estes comentários sobre o pronome átono iniciando frase.

Há pouco menos de vinte anos atrás, quando também as minhas impaciências de mocinho me levavam a falar em “língua nacional” como hoje falo, foi esse um dos problemas que mais me preocuparam. Tempo vivo aquele, em que os meus próprios amigos mais sábios, caíam em cima de mim por causa dos meus abrasileiramentos de linguagem... Eram discussões verdadeiramente angustiosas, sobretudo por causa da incompreensão e da leviandade de julgamento que levavam os meus próprios amigos, às vezes, a imaginar que eu estava querendo “criar” a língua nacional e cousas assim. Foi uma incompreensão inicial destas que me levou a quase romper relações com um dos meus amigos mais queridos. Renato de Almeida, o autor da “História da Música Brasileira”.

Com outro, o douto calmante filosófico do nosso grupo, Couto de Barros, resolvemos ambos discutir na máquina de escrever, evitando de ver o numeroso “Não falei isso!” das discussões bocóricas. Couto de Barros me apareceu à noite, sentou à minha “remington” e gravou o primeiro argumento. Lhe respondi do mesmo jeito. E assim se travou uma das discussões mais acaloradas que já tive, sem que uma só palavrinha machucasse o ar dormido do bairro.

Mas um dos que mais me atenazaram foi Manuel Bandeira. Concordando em princípio comigo, me conhecendo suficientemente para não me atribuir mais que a modéstia de contribuição e experiências pessoais, me deixava tonto com duvidinhas e restriçõezinhas que pingavam a cada carta semanal que então recebia dele, bons tempos... Uma dessas dúvidas foi justamente a de que hoje vou produzir neste artigo as provas que ajuntei. Ele achava que eu não tinha direito de generalizar para toda a série dos pronomes, o caso do “Me parece”, que só frequentava a primeira pessoa do singular. Mas me saí brilhantemente e o grande poeta pernambucano teve a franqueza de reconhecer que eu estava bem escudado, embora discutisse algumas das provas apresentadas por mim.

Porque, a meu ver, muito embora o caso frequente também a língua escrita de Portugal, o problema do pronome oblíquo iniciando frase, não é apenas uma questão de maiúscula. Muitas vezes no próprio decorrer da frase a tendência se revela. Pois não se trata apenas de iniciar realmente a frase, com a sua maiúscula erguendo orgulhosamente o pronome átono, o fenômeno é muito principalmente de ritmo, não só de ritmo no tempo, como também de ritmo psicológico. Assim, num dos mais bonitos sambas nacionais, o “Vejo Lágrimas”, publicado em disco Columbia n. 22165-B, o cantor argumenta:

Si choras por alguém que te enganou
“Te” conforma, pois Jesus Também se conformou

Num caso destes, si não estivesse presente ao poeta e ao cantor a constância rítmico-verbal brasileira, tudo o levaria a dizer “conforma-te”, não só o movimento musical que para em som mais longo ao fim de “enganou”, como a própria pontuação intelectual da frase. Com efeito, terminada uma proposição dubitativa, o sentido do texto não conclui sobre ela, mas inicia outra proposição que é um conselho, e que o sentido inteiro do texto anterior, mesmo sem a proposição dubitativa, era suficiente para justificar. Mas na publicação impressa do texto, o poeta, a quem decerto puxaram as orelhas, substituiu o “Te conforma” por um paciente “Tem paciência”...

Já desde os tempos de Gregório de Matos, essa tendência se manifestava. Num dos sonetos ao governador Antonio Luiz, ele escreve: Com olhos sempre postos na ordinária, “Vos” dou os parabéns... Sintaxe, que, embora gramaticalmente aceitável, juro que muito gramaticoide evitaria, tal a ênfase com que o pronome “enclítico” , iniciando o verso, e refugando a posposição, nos fere portuguesmente o ouvido e o olhar. Da mesma forma, em propostas de caráter enumerativo, cada uma delas é bem uma frase isolada e não é a vírgula que pode nos dar satisfação sintáxica. Como nestes passos de Darci Azambuja em “No Galpão”: “mas o gambá pediu muito, “se” ajoelhou, fez muita lábia “... E eis mais um bom e insistente caso popular, com o Se o Lhe, publicado no folheto paraibano “Conselhos de Padre Cícero a Lampeão”: Disse-lhe (sic) o padre:- Meu filho, Não persista no pecado, Deixa a carreira dos crimes, “Se” torne regenerado, Si me promete deixar, “Lhe” prometo trabalhar pra (sic) você ser perdoado. Primor de estilo pachorrentamente padresco, como se vê... E ainda a tendência pode ser entrevista no caso do pronome intercalado entre o verbo auxiliar e o no infinito. Se observe este exemplo deliciosamente ofensivo, que colho no folheto da literatura de cordel nordestina, “Bento, O Milagroso de Beberibe”:

“Fiz Romano atropelar-se (sic)
E fiz Germano correr,
Abocanhei Ugolina
Porém não pude “o” morder.

Mas vamos aos casos insofismáveis. A obliquação do pronome da primeira pessoa do singular, quasi nem merece exemplos, por todos reconhecida como normal em nossa língua. Não citarei dela nenhum exemplo popular. Mario Marroquim já os recenseou com riqueza em “A Língua do Nordeste”. Lembro apenas três exemplos eruditos. Nas “Minas de Prata”, José de Alencar, santo patrono da língua brasileira, faz Estácio dizer ao amigo velho: - “Me” guiareis com a vossa experiência (Garnier, I v., p. 67). Aluizio de Azevedo também aceita que um dos seus personagens do “Cortiço”, diga ao vendeiro: - “Me” avie, seu Domingos! (Garnier, p. 57). E vemos Fagundes Varela encampar a sintaxe no “Evangelho nas Selvas”:

- Naida! – Padre, “vos” espero, vamos.
- O que fazias, filha? – “Me” lembrava...

E ainda no Canto VI, bem psicologicamente, são usados os dois ritmos numa só frase:

“Me” interrogaste em nome do Senhor... “cala-te e escuta”.

A segunda pessoa também dará exemplos numerosissimos. “Te vejo, te procuro” inicia Gonçalves Dias uma das estrofes dos “Harpejos”, insofismavelmente. E ainda nas pródigas “Minas de Prata” (III, 168), Raquel ameaça o pai judeu: “Te denunciarei sim”! “Nos Matizes” (1887) F. A. Nogueira da Gama inicia a fala da cidade do Rio se dirigindo a São Paulo: “Te saúdo caipirinha”... E outro paulista da gema, Brasilio Machado nas suas “Madresilvas” de 1876, nos oferece uma poesia instituída “Te Esqueceste”, que é a da maior força... Aliás, creio que foi João Ribeiro quem analisou primeiramente diferenciação psicológica entre o mansinho “Se sente” nosso e o mais imperativo “Sente-se” desses portugueses, durante vários séculos acostumados a mandar nas suas colônias. Eu reconheço o valor da psicologia organizando as sintaxes nacionais, mas tenho um pouco de medo disso.

Levaria a generalizações monótonas e sem sabor estilístico. Creio que o fenômeno das diferenciações sintáxicas é muito mais um problema fonético de ritmo verbal. Silva Ramos (Revista de Cultura, I, p.22) fornece argumentação justamente contrária ao valor imperativo do enclítico: “A mim, por exemplo, diz ele, ser-me-ia impossível ou escrevendo, iniciar uma proposição por pronome átono, e, entretanto, tendo uma vez, posto em dúvida a um colega que um projeto de lei nos interessava tivesse parecer favorável, ele me atirou com um “te garanto que ele será aprovado”, com tal intimativa ferindo com ênfase o pronome, que confesso me senti mais garantido “... E para acabar com o Te, colho na “Revista da Academia (fevereiro, 1933), um evento folclórico de Goiás: “Te” compreendo, morena,Já sei que queres dizer,Como canguçu ou tigre,Felizes temos de ser.Com a terceira pessoa do singular, sito primeiro um exemplo erudito, o Dr. Severino de Sá Brito no seu “Trabalho e Costumes dos Gaúchos”, que na p.30 assim abre parágrafo: “Se cultivava muito milho, também feijões, abóboras, melancias”... Semieruditamente, um anuncio de cabaré paulistano avisa os concorrentes dum campeonato de tango:

“Se recebem (sic) as inscrições nas gerências”.

E Mario Marroquim nos fornece um exemplo popular: “Se” vendo o compadre pobre Naquela vida apertada... No plural, a primeira pessoa é reconhecida por Lucio Cardoso na boca de um homem do alto São Francisco, em “Maleita”: “Nos salve agora”. Conheço outro exemplo impresso, num folheto recifense “História do Menino da Floresta” do célebre cantador Martins de Ataíde, em frase brasileira até debaixo dágua: “Nos” faças esta caridade, Deus há-de lhe (sic) agradecer. Da segunda pessoa, além das “Minas de Prata” (III, 400) em que vem a pergunta: “Vos serve este meio?”, conheço uma quadra paulista da dança de São Gonçalo (Rev. do Arquivo, XXXIII, 108) que canta:

“Vos” peço, meu São Gonçalo,
Com muito gosto e alegria,
Aceitai esta promessa
E também nossa romaria.

Com Lhe e Lhes, não me ocorre exemplo, é mais provável eu ter perdido alguma nota. Mas assim como nos Açores, nas festas do Espírito Santo o povo, se referindo à cora, diz ao Imperador:

“A” coloque no altar
O padre disse: “O” projeto!

protegendo com a mesma energia a sintaxe nacional. Com tudo isso, como esquecer o epigrama de Alberto Ramos... Me dá! – Dá-me! – Me dá! digo eu. – Erra, imbecil!- Bruto! erro em Portugal, acerto no Brasil!

Andrade, Mario de. O Baile dos Pronomes.
Revista da Academia Paulista de Letras, Ano V, Vol. 17º, de 12/03/1942
Livraria Teixeira, São Paulo – Tipografia Cupolo, São Paulo
in: http://www.literalmeida.blogspot.com/