segunda-feira, 25 de maio de 2009

Caro Stefan Welkovic

Rio de Janeiro, 25 de maio de 2009.

Caro Stefan Welkovic

Vamos tratar dos assuntos...
Carta – Realmente Stefan, a correspondência via e-mail acabou com a troca de cartas. Acredito que foi um grande prejuízo para os correios e deixou a gente um pouco mais preguiçosa. Além do mais, o e-mail não tem vida própria, como a carta, com endereço do remetente e selos grudados, né? Nunca fui um correspondente contumaz, como o Mário de Andrade, mas já tive meus dias de cartas. Ainda hoje tenho a minha maquininha de escrever com fita e tudo, cujos tipos a gente tinha de manter sempre limpos com álcool ou solvente. Ainda a esse respeito, mantenho correspondência via e-mail com o Luiz de Almeida – que tem um blog sobre o modernismo e o Mário de Andrade, www.literalmeida.blogspot.com, que escreve e-mail como se fosse carta e justifica: “Escrevo assim porque primeiro faço o texto no Word e depois colo no e-mail.” São os tempos modernos...

Bruckner – Rapaz, você tem toda razão! Já tinha lido a respeito, inclusive acho que Bruckner era de Salzburg, terra do Mozart. Não vou dizer que austríaco e alemão é a mesma coisa, de jeito nenhum. Acho até que eles lá têm suas pinimbas e orgulhos tais que não se querem misturar. Mas conto uma história: faz pouco tempo andei querendo realizar um projeto sobre Stefan Zweig, que batizei de “O código Zweig”. Durante esse tempo mantive uma troca de e-mail com Alberto Dines, autor de “Morte no paraíso” e, pensando agradá-lo, quis mandar um livro alemão sobre autores judaicos do início do século 20, que achei num sebo. Na ocasião estranhei que o nome de Stefan Zweig não estivesse relacionado, mas sim o de Arnold Zweig, este sim alemão. Ele me respondeu com a mesmíssima frase que você usou: “Deve ser porque ele era austríaco!” Mas aqui bem que poderia afirmar que é tudo a mesma coisa, pelo menos quanto aos dois sobrenomes “Zweig”. Então, não brigo com você e ficamos combinados assim: Bach, Beethoven e Brahms.
Não sei o que ocorreu com o outro CD que te mandei. É uma Sinfonia de Bruckner regida por Claudio Abbado. Devo ter errado quando da duplicação. Mas o que impressiona é a orquestra enorme que Bruckner exige, cerca de 200 músicos! Às vezes dá a impressão que o regente não vai dar conta do recado porque tem de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Também Mahler era assim, não é? Que coisa!

Celibidache – É verdade quando você diz que ele se enamorou do coral. Mas não deixou de dar algumas broncas. Atacou também, porém mais de leve, o quarteto de solistas, o Baixo e a Soprano gordinha, mas que tem uma voz!!! Sempre exigindo que não se atropelasse “a semântica”, no caso tratava-se do “Qui Venit”. Outra coisa que notei é que os músicos, sabendo que estavam gravando, usavam códigos ou linguagem cifrada entre si. No caso do flautista foi engraçado: “Mas cadê a flauta? Ademais, eu disse pianíssimo!” a orquestra simplesmente “engoliu” o solo. Também chama a atenção o fato de Celibidache ensaiar o coral sozinho (ao piano) e também a orquestra, sem o coral. Para depois de tudo, juntos, encontrar a harmonia perfeita. Dá pra ver que foram usadas quase duas orquestras, porque houve troca do Spalla e do Baixo numa das apresentações. Tudo isso adaptado à acústica da igreja, mesmo com alguma resistência dos músicos. Fantástico! 
Quanto às missas de Bruckner que você tem, me mande o que quiser, gosto de tudo. Como você viu, estou na fase “coral” – que em Bruckner é quase sempre “soturno”. 
e-Livros – Bom, se você já leu alguma coisa, tudo bem. Mas agora eu simplesmente te entulhei com meus pobres livros. Ademais tem alguns digitalizados recentemente, como sobre Literatura de Cordel, o Suite Picasso, um Cancioneiro de Upsala, que ousei melhorar a tradução e o Macunaíma em cordel. 
Devo essa atualização de escritos antigos a um programinha que “lê” o texto datilografado e depois salva em Word. Simplifica muito, mas sempre precisa de alguma correção. Mas a coisa mais fabulosa que vi na TV foi uma máquina que está sendo utilizada para digitalizar as bibliotecas. Rapaz, ela simplesmente lê o texto, passa página a página e depois transforma em livro digital, tudo isso com uma rapidez enorme! Agora sim, as bibliotecas vão estar à nossa disposição em pouco tempo.
Vai um abraço agradecido,

Salomão Rovedo