sábado, 10 de outubro de 2009

A Ilha de São Luis do Maranhão


INTRÓITO ESFARRAPADO
"Honni soit qui mal y pense."
Para se livrar da pecha de mentiroso o autor me pediu para escrever este prefácio, querendo me fazer avalista das estórias que ele pespegou na alvura do papel virgem. Primeiro tentou difamar meus relatos maldizendo: “Informante é uma praga, um desalmado. Isso mesmo: desalmado, sem alma: diz, conta e fala, mas não garante. Pois fique sabendo que vou publicar tudo aquilo que me contou – e assinar embaixo. Só espero que seja a pura expressão da verdade.” Não tem problema. Meu Vô João resmunga com toda razão: A verdade é a verdade, nada mais que a verdade e o que não é verdade não é verdade." E mais: “Se uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Esta estória está, pois, defecando verdades e vomitando mentiras. Quem acreditar que creia! Então, tudo que eu disse está dito e toda a nação de coisas que disse é facilíssima de entender, porque o que é verdade à luz da lamparina, também é verdade à luz do Sol. Faço minha a advertência que copiei do filósofo Platão: "Depois das mentiras, o maior vício de uma obra histórica é estar repleta de minuciosidade". Nada posso jurar de pés juntos porque sei que a mentira é como bola de neve, quanto mais rola mais aumenta. Estória é como boato: corre vadia de boca em boca sem rumo. Ainda sigo o Vô João: “a verdade é muito importante para ser dita pela metade." Sei que o caminho da verdade é tortuoso, mas mentira, mentira mesmo, dessas cabeludas, cabeludas, não contei nenhuma, nenhumazinha mesmo. Bem, talvez uma ou outra, pequeninha, que ninguém é perfeito... nem de ferro! Temos que fingir acreditar na memória, porque dela não podemos ser expurgados como Adão foi do Paraíso. Ninguém mente pela metade: quem mente, mente tudo, mente toda a mentira. Como não existe a meia verdade, não existe a meia mentira. A mentira tem pernas curtas. Impossível, lógico, assumir sozinho toda a responsa. Se a verdade é filha de Deus, a mentira é filha do Diabo e sendo católico praticante acredito nas capetices do Malino. A própria Bíblia, o livro dos livros, ensina: "Todo homem é mentiroso." (Salmos, 115-11). Como o autor é o pai do livro que escreve, o mentiroso é o pai da mentira que conta. Não pode ser diferente. Quem pariu Mateus que o embale... Faço minhas as palavras do sábio: “o historiador é um pateta que olha para trás...” e me calo. Como disse Terêncio, Hei de fazer com que te lembres sempre deste lugar, deste dia e de mim.” A história (ou estória?) destas notas começou quando voltei a São Luís, após ausência de quase 30 anos. A morte de meu pai, o velho João (nem era tão velho assim), não nos deixou escolha. A maioria dos familiares da matriarca dona Mizika morava no Rio de Janeiro – e lá fomos nós, de mala e cuia. Por isso, preparei a cabeça para a migração sem planos de voltar. Meti na idéia que nos fixaríamos no Rio de Janeiro para tocar a vida: estudar, trabalhar, sobreviver. E assim foi: casei, tive filhos – um garotão e duas meninas gêmeas, plantei meu pé de milho, escrevi um livro. Saí com 20 anos, voltei quarentão. Retornar foi como levar uma porrada. Pra consertar o baque tive que tomar vários porres, fazer notas, juntar idéias, vomitar este pequeno volume. Alguns podem dizer que em vinte e tantos anos o lugar muda muito. Pra mim São Luís não mudou: só vi o que quis ver. Meu prazer foi andar à toa, tomar cachacinha e tiquira, comer porcaria nos becos e mercados, buscar o menino que eu fui. Foi divertido porque realmente esbarrei com aquele moleque a todo instante. Escrever, distrair essa fase chata da vida, ter alegria, tristeza, emoção. História ou estória? Verdade ou mentira? Essa sinuca deixo pra quem ler. Contei minha lenda, agora passo a bola pra vocês. Para ler todo o livro: http://www.dominiopublico.gov.br - Autor: Salomão Rovedo

quinta-feira, 8 de outubro de 2009