segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Anatole France, Putois e Riquet

Anatole France – “A justiça dos homens” – Civilização Brasileira –Trad. João Guilherme Linke

É no livro de contos “A justiça dos homens” que Anatole France publica o seu famoso libelo contra um dos três poderes que, em nome da democracia, oprime e sufoca o cidadão comum: o aparelho judiciário ou, no popular, a Justiça. “Crainquebille” – esse é o nome da peça – na palavra de Mario da Silva Brito “é um libelo, um requisitório, comovido e comovente, sobre o comportamento do aparelho jurídico e judiciário em relação aos desvalidos, aos pobres diabos – o desvalido ou pobre diabo que qualquer um, dependendo das circunstâncias, poderá vir a ser diante da majestade das leis. Todos somos Crainquebilles em potencial.”

Só a orelha de Mario da Silva Brito é suficiente para incitar a todos à    leitura da obra, porém não é indicada a juristas, advogados, juízes e rábulas, porquanto seria malhar em ferro frio... Porém, “Crainquebille” não vinga sozinho no volume. Outros contos de igual repercussão acompanham-no na coletânea. Entre as histórias, todas recheadas de humanismo e humanidade, salta o conto “Putois”, que vem logo a seguir. A figura de Putois nasce de uma mentira – um motivo plausível – inventada pela família Bergeret, para justificar a ausência a uma indesejada (e, ao que parece, chata) reunião familiar.

“Lamento muitíssimo, cara tia, mas não nos será possível. Domingo estarei esperando o jardineiro.” O diálogo prossegue incluindo todas as minúcias necessárias a justificar a mentira. Quem é, quem não é, pois nas vilas se conhece tudo ou quase tudo o que se passa. E por fim vem a pergunta fatal:

“Como se chama o teu jardineiro?” 
“Putois”.

Pronto, a mentira foi batizada e portanto passou a existir. Mas como dar existência ao que não existe? Da mesma maneira que a criatura toma posse do criador. Uma vez lançada ao mundo, até uma ficção vira realidade. É lá pelas tantas, quando a tia enganada resolve também admitir o jardineiro a seu serviço, que Putois vê a sua invisibilidade ameaçada. A mentira cresce, torna-o esquivo, difícil de encontrar. Além de tudo Putois é um mau caráter, um mandrião. Mas, de repente, um dia...

“Acabo de ver Putois.”
“Não diga!”
“Sim, eu vi.”
“Tem certeza?”
“Absoluta! Estava andando depressa. Perdi-o de vista.”
“Era ele mesmo?”
“Sem a menor dúvida. Um homem duns cinquenta anos, magro, encurvado, parecendo um vagabundo, com uma camisa encardida.”
“De fato, a descrição pode aplicar-se a Putois.”

Agora a figura é palpável, criou corpo, identidade. Também o mau-caratismo cresceu. As coisas desaparecem? Foi Putois. Roubos ocorrem? Foi Putois. Até mesmo uma cozinheira, tida como beata, se viu seduzida e violentada. Por quem? Putois. A existência de Putois vira caso de polícia. Ele é procurado e perseguido por seus pequenos delitos. Seu destino final parece claro: a cadeia. Mas quis o destino que assim não fosse. Um corpo com a mesma descrição de Putois é encontrado. E assim dá-se fim a uma ficção que virou realidade e morreu. Morreu mesmo? Antes que o desaparecimento de Putois se fizesse por total, a pessoa que lhe deu vida, sua criadora pois, “certa feita chegou a sentir que o sangue lhe fugia, imaginando que ia ver a sua mentira materializar-se diante dela.” Foi no dia em que a nova criada veio anunciar que estava à porta um homem queria vê-la.

“Quem é?”
“Um homem de macacão.”
“Não disse o nome?”
“Disse, madame.”
“E então, como se chama?”
“Ele disse que se chama Putois.”

Quando a criada, enfim, foi buscá-lo, não tinha mais ninguém à espera. Só que a partir daquele momento, a criadora da farsa passou a crer que Putois tivesse existido mesmo e que, afinal, talvez ela não tivesse mentido...

Até aí morreu o Neves! Na sequência do livro o próximo conto é “Riquet”. E lá vou embarcado em viagem de destino desconhecido, como costumam ser as novelas. Mas quem é Riquet? Nada mais nada menos que o cão de Bergeret, figura do conto anterior, Putois! Personagem, aliás, cuja existência não tinha sido mencionada! 

Bom, em resumo é o seguinte. O senhor Bergeret tinha resolvido mudar-se com a família da velha casa, para morar num apartamento moderno. Nesse cenário, aos poucos invadido pelos homens da mudança e se torna devastado, vaga a figura de Riquet, o velho cão da casa. Sem entender o que está se passando, Riquet vê os móveis e objetos aos quais tanto se afeiçoou sendo brutalmente retirados. “Ele deplorava em silêncio o descalabro da casa e procurava em vão, de quarto em quarto, um pouco de sossego.” E no dia da partida, “vendo as coisas piorarem de hora em hora, ele se desesperou.” São muitas as provações pelas quais passa um cão em mudança. Só quando o próprio Bergeret veio em socorro e, apesar de tudo, o levou a um passeio, ele se acalmou. Do outro lado da rua, o homem e seu cão admiravam o lamentável espetáculo dos móveis, objetos domésticos, livros, estantes, tudo espalhado pela calçada à espera da mudança.

“Então, Riquet esfregou com as patas as pernas do dono e levantou para ele seus belos olhos aflitos”, que diziam: “– Será que tu, até bem pouco tempo, tão rico e poderoso, te tornaste pobre? Será que te tornaste fraco, ó meu senhor? Deixas que homens venham invadir a tua sala de visitas, o teu quarto de dormir, a tua sala de jantar, revirar os teus móveis e carregá-los para fora, arrastar pelas escadas a tua bela poltrona, a poltrona em que descansávamos os dois todas as noites e muitas vezes de manhã, um ao lado do outro? Eu a ouvi gemer nos braços daqueles homens mal vestidos, aquela poltrona que é um precioso Fetiche e um gênio benfazejo. Não te opuseste àqueles invasores. Se não tens mais nenhum dos espíritos que enchiam a tua morada, se perdeste até aquelas pequenas divindades que calçavas de manhã quando te levantavas da cama, aqueles chinelos que eu por brincadeira mordia, se és agora indigente e miserável, ó meu amo o que será de mim?”

Até aí – de novo – morreu o Neves! Meus amigos, olhem o que acontece na sequência, porque o próximo texto é – tcham, tcham, tcham, tcham! – “Pensamentos de Riquet.” Pois, pois eis, que um personagem que até então nem havia sido de leve citado, já corre o itinerário de três estórias: “Putois”, “Riquet” e agora “Pensamentos de Riquet”... E quais são esses pensamentos do cão? Seria uma paranormalidade? Ou então um cachorro filósofo? Pois o Zaratustra que se cuide! Leiamos os graves e filosóficos pensamentos de Riquet. E depois meditemos, lenta e demoradamente, sobre e existência da vida de cachorro. Reflitamos nas falsidades que nós, sábios humanos, levantamos de modo leviano e irresponsável contra o cão, aliás, o melhor amigo do homem... e das mulheres principalmente.

PENSAMENTOS DE RIQUET

I – Os homens, os bichos, as pedras aumentam de tamanho quando se aproximam e ficam enormes quando chegam junto a mim. Eu não. Continuo sempre do mesmo tamanho, onde quer que esteja.

II – Quando o meu dono me estende sob a mesa bocados do alimento que ele vai meter na boca, é para me tentar e castigar-me se eu sucumbir à tentação. Pois eu não posso acreditar que ele se prive por mim.

III – O cheiro dos cães é delicioso.

IV – Meu dono me mantém aquecido quando eu fico deitado atrás dele em sua poltrona. Isto é porque ele é um deus. Há também na frente da lareira uma laje quente. É uma laje divina.

V – Eu falo quando quero. Da boca do meu amo também saem sons que forma um sentido. Mas são sentidos bem menos distintos do que eu exprimo pelos sons da minha voz. Na minha boca, tudo tem um sentido. Na do amo há muitos ruídos vãos. É difícil, se bem que necessário, adivinhar os pensamentos do amo.

VI – Comer é bom. Ter comido é melhor. Pois o inimigo que nos espia para arrebatar-nos o alimento é lesto e sutil.

VII – Tudo passa e se sucede. Só eu permaneço.

VIII – Eu estou sempre no centro de tudo: os homens, os animais e as coisas, hostis ou favoráveis, dispõem-se ao meu redor.

IX – Quando se está dormindo, se vê homens, cães, casas, árvores, formas amenas e formas assustadoras. Quando se desperta, essas formas desaparecem.

X – Meditação: Eu amo o meu senhor Bergeret porque ele é poderoso e terrível.

XI – Uma ação pela qual se foi espancado é uma ação má. Uma ação pela qual se recebeu carícias e comida é uma boa ação.

XII – Quando a noite cai, potências malfazejas rondam em torno da casa. Eu, com meus latidos, advertimos o meu senhor, para que ele as expulse.

XIII – Prece: Ó meu senhor Bergeret, deus do massacre, eu te adoro. Terrível, sê louvado! Propício, sê louvado! Eu me arrojo a teus pés, lambo-te as mãos. Tu és muito grande e majestoso. Tu és grande e majestoso quando, com um movimento do dedo, transformas a noite em dia. Guarda-me em tua casa à exclusão de todos os outros cães. E tu cozinheira, divindade excelsa e bondosa, eu te adoro e venero para que me dês bastante de comer.

XIV – Os cães que não mostram devoção para com os homens e que desprezam os fetiches reunidos na casa do senhor levam uma vida errante e miserável.

XV – Um dia, um cântaro furado, cheio d’água, atravessando a sala de visitas, molhou o assoalho encerado. Acho que o porcalhão deve ter sido surrado.

XVI – Os homens têm o poder divino de abrir todas as portas. Eu só consigo abrir um pequeno número delas. As portas são grandes fetiches que não costumam obedecer aos cães.

XVII – A vida de um cão é cheia de perigos. Para evitar sofrimentos é preciso estar vigilante todo o tempo, durante as refeições e até durante o sono.

XVIII – Nunca se pode estar certo de ter procedido bem em relação aos homens. Cumpre adorá-los sem procurar compreendê-los. Seus desígnios são misteriosos.

XIX – Invocação: Ó Medo, Medo augusto e paternal, Medo santo e salutar, penetra-me, invade-me no perigo, para que eu evite o que possa me ferir e para que eu não venha, lançando-me sobre o inimigo, a sofrer por minha imprudência.

XX – O mundo é cheio de coisas hostis e assustadoras.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

JÁ É NATAL...

Hermann Hesse em Montagnola
Com o advento dos megamercados e praças de comércio formados pelos shopping centers, a feriadagem anda disseminada por todo o ano, de tal modo a formar uma corrente contínua, isto é, mal acaba um dia de promoção e logo se inicia outro. Nos entremeios do Natal, Reveillon, Carnaval, Páscoa, Dia das Mães, São João, Dia dos Namorados, Dia da Criança, Dia dos Pais, existe tanto dia disso e dia daquilo que a gente perde a conta. Assim é que desde o dia 1º de janeiro – Dia Mundial da Confraternização – até o dia 31 de dezembro, que é o Dia Mundial do Reveillon, passa um sem número de dias das mais diversas festividades, entre tais temos: Dia do Carteiro (25/01), Dia de Iemanjá (02/02), Dia do Sogro e do Telefone (10/03), Dia da Mentira (01/04), Dia da Fraternidade Brasileira (13/05), Dia da Raça (10/06), Dia da Pizza (10/07), Dia da Injustiça (23/08), Dia do Encanador (27/09), Dia do Contato (21/10), Dia do Trigo (10/11) e, finalmente, o Dia Nacional do Samba (02/12). Pois bastou passar o Dia de Finados (02/11) e os lojistas apressadinhos já iniciaram as promoções de Natal.

Portanto, já é Natal!

Estava perdido nesses pensamentos, meditando no imenso volume que se gasta de palavras no mês de dezembro para recauchutar a alma nossa e a dos outros, com mensagens animadoras, figuras de retórica, fantasias. Pensava também em escrever algo que comova o leitor, que faça a gente tentar uma reforma nos hábitos, que ajude a melhorar nosso dia-a-dia, enfim, como se diz no popular, passar uma mensagem melhor e maior do que todas as outras mensagens. Mas o que ainda não se escreveu nessa data? O que todos ainda vão escrever? Quantas mensagens de Natal virão encher a minha caixa de e-mail? E todas com mensagens belíssimas, repetitivas, a eterna busca da Paz e da Felicidade? Pois bem, estava assim, assim, ruminando o dilema, quando bati a vista no artigo “Natal” de Hermann Hesse escrito em 1917.

Essa leitura me comoveu do mesmo modo que me comovem as mensagens escritas em nosso século – e são muitas e sábias as mensagens de nossos poetas e escritores. Hermann Hesse foi escritor de uma geração que, por força do destino, teve a desventura de passar por duas guerras mundiais. Se pudéssemos classificar o que foi a literatura, a cultura e a arte, que permearam a Europa entre o final dos anos 1800 e a primeira metade dos anos 1900, sem dúvida só podíamos chamá-la de Época de Ouro.

Mas para enfear tudo o que de belo se escreveu, compôs e pintou naquela época, vieram as guerras e com elas o sacrifício de vidas inocentes, centenas de cidades destruídas e famílias desfeitas. Muitos artistas sofreram na carne essa catástrofe e sucumbiram diante do desastre inexorável que assistiram e se recusaram presenciar a repetição do mesmo. Para muitos o suicídio foi a saída e entre nós tivemos o exemplo da extensão do ato trágico na fatalidade de Stefan Zweig, que se negou a presenciar o sofrimento que o seu povo e a sua terra passavam, suicidando-se em 1942 na cidade de Petrópolis.

Sim meu amigo, você que acha trágico um conflito de vizinhos por causa de uma galinha morta, se chateia com alguém que te chamou de feio, briga porque a cerveja tá quente, você que acha que o bolinho de bacalhau tem muita batata, há de meditar o que significa o horror de passar por dois conflitos mundiais, nos quais milhões de seres humanos perderam a vida. E também há de imaginar o que se passou na cabeça desses escritores, pensadores de um mundo melhor, gente que se lembrou de pedir e lutar pela felicidade dos homens, porque o conflito da alma dói tanto quanto o sofrimento físico.

Droga! Acho que me perdi e esqueci de tomar o rumo do texto de Hermann Hesse. O artigo foi escrito, como disse, em 1917. A Europa sofria com o desastre da Primeira Grande Guerra, que duraria de 1914 a 1918. No entanto a palavra do escritor aparece serena, com apelos de paz, um chamamento aos homens de boa vontade. Não se dirigia, claro, aos políticos donos de todos nós, mas ao habitante comum, ao lavrador, ao pedreiro, ao comerciante, ao professor, ao artista, a todos, enfim, que fazem parte da massa informe, mas imprescindível para que a humanidade possa caminhar, apesar de tudo.

Então, sem mais delongas, leiam e inspirem-se nesse texto, escrito sob o troar das bombas que caem nas cabeças daqueles que nada têm a haver com a diarreia que cala o cérebro dos políticos e militares...

NATAL – Hermann Hesse

Mais uma vez chega o Menino Jesus, é sua quarta visita desde o início da guerra. E se há sinais de que essa guerra esteja chegando ao fim, hoje ainda não se pode prever o quanto esse dia vai demorar.

Todos os que de alguma forma se tornaram vítimas da guerra, sobretudo os muitos prisioneiros em países inimigos, possam celebrar este Natal como uma festa de melancolia, de recordações de amadas coisas perdidas, pátria e infância, paz e felicidade tranquila. E neles ressoará como profundo desejo o “Paz na Terra” apregoado pelo evangelho de Natal.

Entrementes, não esqueçamos que o Natal não é só a festa infantil e as vozes dos anjos que anunciaram o nascimento de Cristo não são apenas uma bela música para as crianças ou um dolorido consolo para os oprimidos.

O Natal não deve nos trazer apenas lendas natalinas, por mais belas que sejam, nem somente brilho de árvore de Natal ou cantos infantis. O pensamento cristão, que em tantos credos encontrou expressões tão diversas, tem para cada um de nós o valor de um novo e elevado estímulo, uma exortação importante.

Não importa que imagem se tenha duma salvação do mundo, o essencial é que cada um de nós tenha presente a ideia de uma salvação através do amor.

Procurar por ela é algo que não só o coro dos anjos de Natal nos recomenda, mas as vozes de todos os grandes pensadores, escritores, artistas, e o profundo valor dessas vozes todas está unicamente em que anunciam uma realidade, um caminho, uma possibilidade que vive no peito de cada ser humano.

Por isso, o Natal não nos deve ser, como qualquer festa, um mero olhar para trás, mas um novo impulso de toda a nossa boa vontade. Pois “aos homens de boa vontade” se dirige a promessa.

Não temos boa vontade quando apenas choramos coisas perdidas, ou lembramos o irrecuperável. Temos boa vontade quando tomamos consciência do que há de melhor, mais vivo em nós mesmos, e seguimos a voz dessa consciência.

Quem pensa nisso seriamente, quem se renova nesse juramento de fidelidade ao melhor de si, este se encontra no estado de espírito legítimo para celebrar tal festa.

E só então os sinos festivos, as luzes dos círios, as cantigas e os presentes terão adquirido seu verdadeiro brilho e valor.

(Hermann Hesse – Pequenas Alegrias – Ed. Record – Trad. Lya Luft)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Somerset Maugham e a Arte de Escrever

Somerset Maugham é um escritor daqueles cuja técnica de contar histórias lembra os alfarrabistas orientais: ora é o memorialista, ora o narrador onipresente, ora o fabulista. As histórias se espelham continuadas vezes, andam em zigue-zague, dão respiros inesperados e por vezes parecem devaneios. Nada daquela definição de um crítico que li no Caderno Literário do jornal O Globo, de que o conto deve ser como uma porrada! São histórias curtas que se desfibram e correm amenas como as águas do riacho.

Maugham começa o Prefácio com a seguinte advertência: “Rogo ao leitor que não se deixe iludir pelo fato de estas histórias serem contadas na primeira pessoa do singular, supondo que elas tenham acontecido a mim”. Assim, pensa ele livrar-se de vez do vínculo com que a primeira pessoa do singular agarra o narrador à narrativa. No entanto, como que para deixar o leitor desconfiado com essa absolvição, Maugham entremeia as narrativas com singulares enxertos, quando o narrador acaba por confessar a sua atividade de escritor. 

Esse estilo lembra em muito o diretor Alfred Hitchcock que promovia aparições rapidíssimas em seus filmes, a ponto de deixar os espectadores sempre em suspense também por esse detalhe. No mais puro estilo Onde está Willy? os seus admiradores ficavam apostando em qual sequência ele apareceria. Ali, numa fila de entrada do cinema, outra vez subindo os degraus do ônibus, sentado num banco de praça lendo o jornal, numa cadeira de engraxate lustrando os sapatos. Com essas súbitas aparições, nas quais a expressão era sempre tão misteriosa quanto o próprio filme, o narigão empinado para o alto, Hitchcock divertia os espectadores ao mesmo tempo em que se divertia. 

Também Somerset Maugham aparece de relance nas suas novelas. Outras vezes busca citar outros escritores, fazendo-os personagens da história. Então levanta-se a dúvida, o mistério: deve ou não o leitor acreditar que as histórias contadas na primeira pessoa do singular são autobiográficas? Porque ao mesmo tempo em ele pede “ao leitor que não se deixe iludir” pelas histórias “contadas na primeira pessoa do singular, supondo que tenham acontecido a mim”, o texto está constantemente contaminado com referências literárias, tanto diretas quanto indiretas. 

Na novela “Para inteirar a dúzia”, lá pelas tantas se lê o seguinte diálogo:
“– Mr. Saint Clair lhe envia os seus cumprimentos e pergunta se o senhor não podia fazer o favor de emprestar-lhe o Almanaque Whitaker.
– Fiquei assombrado.
– Por que julgará ele que eu tenho o Almanaque Whitaker?
– Bem, a gerente disse-lhe que o senhor é escritor.”

De entremeio aparecem Thackeray, Trollope, Dickens e William Black. Os diálogos se sucedem:
“– Desculpe, senhor, mas é verdade que estou falando com o conhecido novelista?
– Sou novelista – respondi – mas que foi que o velou a supor isso?
– Vi o seu retrato nos jornais ilustrados." 

Assim as citações vão se sucedendo, eis algumas delas: 

“Não era um humorismo de ideias, nem mesmo de palavras; era algo muito mais sutil ainda, um humorismo de pontuação: num momento inspirado ela havia descoberto as possibilidades cômicas do ponto-e-vírgula, de que fazia abundante e primoroso emprego. Sabia colocá-lo de tal forma que, em sendo o leitor uma pessoa de cultura dotada de um agudo senso de humor, não digo que desatasse às gargalhadas, mas soltava risinhos deleitados, e quanto mais cultura tinha maior era o seu deleite.  Diziam os seus amigos que essa forma de humor fazia com que todas as outras parecessem grosseiras e exageradas. Vários escritores tinham tentado imitá-la, mas em vão: qualquer que fosse a opinião que se fizesse de mrs. Albert Forrester, era forçoso confessar que ela sabia extrair do ponto-e-vírgula até a última gota de humor e ninguém lhe chegava aos pés nessa especialidade.” (O impulso criador)

“Minha mocidade lá se foi, tornei-me um homem maduro e não estava longe o dia em que me caberia o qualificativo de idoso; escrevi livros e peças, viajei, tive aventuras, amei, desamei.” (A semente exótica)

“Li os dois livros. Acho que é obrigação profissional do escritor manter-se ao corrente do que os seus contemporâneos escrevem. Estou sempre disposto a aprender e pensei encontrar neles alguma coisa útil para mim. Foi uma decepção. Gosto que as histórias tenham começo, meio e fim. Tenho um fraco pela intenção. Admiro a atmosfera, mas a atmosfera sem outra coisa é como uma moldura sem quadro: não tem grande significado. Entretanto, é possível que eu não pudesse apreciar os méritos de Humphrey Carruthers por causa dos meus próprios defeitos e, se descrevi sem entusiasmo os seus dois contos de maior sucesso, a causa talvez esteja na minha vaidade melindrada. Sim, porque eu sabia perfeitamente que Humphrey Carruthers me considerava um escritor sem importância. Estou convencido de que ele jamais leu uma palavra escrita por mim. Bastava a popularidade de que eu gozava para persuadi-lo de que eu não merecia a sua atenção.” (O elemento humano)

“–Bobagem! Por que não escreve uma história e respeito? 
– Eu?
– Sabe que essa é a grande vantagem que o escritor tem sobre as demais pessoas. Quando alguma coisa o faz sofrer horrivelmente, quando se sente torturado e infeliz, pode pôr tudo numa história e é surpreendente o conforto e o alívio que retira daí.
– Seria monstruoso. Betty era tudo no mundo para mim. Eu não poderia cometer ato tão vil.
Calou alguns instantes e o vi refletir. Percebi que, apesar do horror que a minha sugestão lhe causava, ele considerava por um minuto a situação do ponto de vista do escritor. Sacudiu a cabeça.
– Não por causa dela, mas por mim. Afinal eu tenho algum amor-próprio. E além disso, aí não há material para uma história.” (O elemento humano)

Por essas e por outras que esse é um prefácio que vale a pena conferir. Com a palavra Sir W. Somerset Maugham: 

Há, para o escritor, três maneiras de contar uma história. Pode fazê-lo do ponto de vista Divino, como quem sabe tudo que é possível saber a respeito de seus personagens. Vê todas as suas ações e deles conhece os pensamentos mais íntimos. Foi neste plano que se escreveram muitos romances entres os maiores da literatura mundial e foi também nele que se colocaram Maupassant (1) e Tchecov (2) para escrever muitos dos seus melhores contos. É um método simples e bom. Seu inconveniente está na impessoalidade, pois o autor falta ao compromisso, quando começa a comentar pessoalmente os personagens, os respectivos problemas ou atitudes, como o fizeram muito amiúde Trollope (3) e Thackeray (4). Nesse caso ele passa a fazer parte da história exatamente como se fosse um de seus atores. A objetividade dá muitas vezes uma leve sensação de aridez. A objetividade completa é coisa talvez inatingível. Com efeito, ela daria, em resultado, romances de tamanho excessivo e tornaria quase impossível a história curta. Todos os personagens são considerados do seu próprio ponto de vista, pois que cada um de nós se reveste de suprema importância para si mesmo e não há razão para que o autor dê mais atenção a este do que àquele. No momento em que escolhe uma pessoa entre várias para fazer uma descrição mais pormenorizada, deixa de ser rigidamente objetivo. Logo que a sua simpatia entra em jogo, ele se torna parcial. É, provavelmente, o interesse dirigido que torna legível uma obra de ficção. “A educação sentimental” de Flaubert (5) é, creio eu, um dos raríssimos exemplos em que o autor alcançou a objetividade completa. Mas o efeito geral é de tédio, porque ao invés de concentrar o nosso interesse ele o dispersou com toda a imparcialidade. Outra dificuldade do método está no sem-número de coisas que o autor deve saber ou fingir que sabe. Seria preciso ter na unha todos os conhecimentos armazenados na Enciclopédia Britânica e estar familiarizado com as profissões de todas as suas personagens. Como isso é impossível, nota-se nele a tendência de se limitar aos ambientes de que tem experiência própria e colocar as suas personagens nos quadros sociais que conhece pessoalmente. 

Outro método de contar uma história – método que por algum tempo gozou de considerável preferência – é fazê-lo do ponto de vista de uma das personagens. Pode ser esta uma das que representam papel essencial na história ou um simples observador – a este último chamarei o método Seu-Amigo-Carlos. Seu-Amigo-Carlos faz o papel do coro dos dramas gregos. Observa e comenta. Está ali para que lhe exponham circunstâncias de que o leitor deve ter conhecimento e de vez em quando toma parte discreta e secundária na ação. É um mensageiro útil. Pode servir para complicar uma situação ou deslindar um mistério. Para o autor, ele apresenta a vantagem de poder ser caracterizado. Existe, contudo, o perigo de que ele lhe dedique demasiada atenção, tornando-o tão interessante que obscureça as pessoas e incidentes sobre os quais está encarregado de lançar luz. Além disso, como ele deve estar envolvido em todas as questões e, no interesse da marcha da história, conservar os ouvidos abertos a tudo que se passa, corre muitas vezes o perigo de parecer um bisbilhoteiro e um intrometido chato. Henry James (6), que fez uso do método com grande perícia, dando-lhe assim a fama de que ele já gozou, nem sempre soube evitar esse escolho. Talvez seja preferível o outro plano, que consiste em narrar uma história através de uma das suas personagens principais ou mesmo do protagonista. É muito natural focalizar neste o interesse e, vendo pelos seus olhos tudo quanto se passa, atraímos para ele a simpatia do leitor. Isso limita o assunto de maneira muito conveniente, pois, quer contemos a história do ponto de vista do protagonista, quer de Seu-Amigo-Carlos, não precisamos dizer ao leitor senão aquilo que a personagem em apreço sabe. Encaramo-la pela face interior e às demais, pela exterior. Só nos interessam as suas impressões sobre elas. É um método cuja economia agrada e a unidade de efeito que dele resulta possui uma elegância formal. O único defeito real que percebo aí é a unilateralidade. Facilmente se tem a impressão de que as outras pessoas da história não são tratadas com espírito equitativo. Isso constitui uma desvantagem quando sentimos a necessidade de conhecer o pensamento das outras personagens. Ao chumbar os seus dados o autor provocou o nosso descontentamento. 

Em terceiro lugar, uma história, seja ela comprida ou curta, pode ser escrita na primeira pessoa, e, também neste caso, o narrador pode ser o protagonista ou apenas um observador. O primeiro desses métodos tem sido grande favorito dos autores, desde que se começou a escrever ficção e alguns grandes romances foram escritor dessa forma. Sempre gozou de grande estima na narração de aventuras. Tem muita vivacidade. Sua forma direta é sedutora. Com efeito, quem poderia conhecer melhor os fatos do que aquele que foi seu ator principal? Demais, o efeito de verossimilhança que daí resulta é incomparável. Sempre teve, porém, um pequeno inconveniente: parecia um tanto impróprio de um herói contar seus atos de bravura comprazendo-se nos pormenores e era-lhe difícil expor as conquistas de corações femininos que lhe valeram o seu encanto pessoal e a sua galanteria. Os escritores esfalfavam-se por mostrar, através da boca de um herói, que este era valente, belo, inteligente e generoso. Mas o maior defeito do processo estava em que o narrador tinha grande dificuldade para ganhar vida. Coisa singular: embora ele falasse, amasse, lutasse, estivesse constantemente agindo e contando o que fazia, seus contornos não se definiam. As pessoas a quem encontrava podiam ser criaturas vivas, fáceis de reconhecer, fortemente individualizadas, enquanto ele permanecia estranhamente vago. Tomemos um exemplo apenas: David Copperfield (7) é, sem dúvida, a figura menos notável da vasta galeria em que se diz a personagem principal. Talvez isso não tivesse grande importância em se tratando de livros de aventuras: sentimo-nos tão empolgados pelo que acontece a Gil Blas que não nos preocupamos com o fato de nunca chegarmos a descobrir que espécie de homem ele é na realidade. Quando, porém, o interesse de escritores e leitores começou a se voltar para o romance psicológico, esse defeito tornou-se sério. Quando nossa atenção se focaliza nos estados mentais de preferência aos fatos físicos, não ficar individualizando o protagonista é uma imperfeição fatal. É a isso que atribuo o ter caído em desfavor, nestes últimos tempos, o romance escrito na primeira pessoa hipoteticamente pela personagem principal. 

Só nos resta considerar, pois, o método em que o narrador não é parte essencial da história, mas apenas uma testemunha. É de acordo com ele que estão escritos os contos contidos neste livro. É verdade que, como o método Seu-Amigo-Carlos, expõe o narrador a assumir a aparência de um ocioso intrometido e se ele logra a verossimilhança visada, de forma que o leitor aceite como a mais santa verdade o que lhe dizem, afigura-se  muitas vezes aos ingênuos que ele está traindo indignamente segredos alheios. Esta é uma acusação que ele deve estar preparado para receber de bom grado. Por outro lado, como não conta nada a respeito de si mesmo, não há ofensa à modéstia e, visto que o leitor não precisa conhecer coisa alguma acerca do narrador, o fato de ele ser um simples manequim não tem importância. O método também tende a estabelecer intimidade entre leitor e escritor. Permite a este introduzir na história um pouco do encanto peculiar do ensaio. Será uma qualidade ou um defeito? Isso é questão de opinião. Quanto a mim, parece-me que quando o fazemos com felicidade, isso estabelece um clima de palestra, um certo “sans façon” capaz de aliviar a tensão de uma história construída em rígida obediência às regras. Também aqui o escritor não tem pretensões à onisciência: limita-se a contar o que sabe e, quando o móvel de uma ação lhe é obscuro ou desconhece um fato, confessa-o francamente. Pode, assim, dar à história um ar de plausibilidade que de outra forma talvez lhe faltasse. 

Descobriram os romancistas que é possível emprestar à revelação gradual do caráter de uma personagem toda a emoção de uma novela policial. É este um elemento relativamente novo na ficção e, para muitos, constitui o seu maior interesse. Se o romancista é onisciente, porém, está fazendo o leitor de bobo quando lhe oculta fatos importantes só para mantê-lo em suspense. Nada há mais exasperante do que ter de esperar trezentas páginas para descobrir uma coisa que o autor já conhecia desde o começo. Mas neste processo, como também no Seu-Amigo-Carlos, o escritor caminha de mãos dadas com o leitor. Nao lhe diz senão o que sabe e o leitor compartilha com ele a satisfação da descoberta gradual. 

Ele tem, no entanto, um grande defeito. Em toda história existem cenas a que nem o narrador nem Seu-Amigo-Carlos poderiam ter assistido e diálogos que não lhes seria possível ouvir. Embora se admita que os incidentes tenham sido relatados de forma que ele possa tornar a contá-los com bastante exatidão, é incrível que seja capaz de reproduzir, baseado no que ouviu de terceiros, as palavras textuais que uma pessoa disse a outra. Se for ao ponto de descrever o aspecto das personagens na ocasião em apreço e o que elas sentiam, o leitor estaca abruptamente, tomado de incredulidade. As conversações, ainda quando o narrador esteve presente e tomou parte nelas, são difíceis de aceitar. – Como é possível que ele se lembre de tudo isso? – perguntamos. Mas quando conta uma historia de forma indireta, isto é, quando transmite um caso que lhe foi narrado por outrem, não podemos crer que este narrador, um delegado de polícia, por exemplo, ou um capitão de navio, fosse capaz de se exprimir com tanta felicidade e tanta arte. Rudyard Kipling (8), pelo uso abundante da linguagem dialetal e de um modo de falar que tinha grandes visos de verossimilhança, tratava de encobrir ao leitor o admirável sentido da forma e o instinto quase milagroso do efeito dramático que possuíam os seus simples soldados. Ninguém, cultivou com mais meticuloso cuidado do que Henry James o método Seu-Amigo-Carlos. Alguns acharão, talvez, que não valia a pena dar-se tanto trabalho e que seria mais preferível fazer como Joseph Conrad (9), por exemplo, não tratando a convenção com mais respeito do que ela merece. O capitão Marlowe é inteiramente inverossímil e contudo o leitor razoável acredita nele. 

Toda convenção tem suas desvantagens. Estas devem ser disfarçadas na medida em que tal coisa for conveniente, mas quando não o podem ser, senão em detrimento de fatores mais importantes, torna-se forçoso aceitá-las. O autor pega então o leitor pelo gasganete e o obriga a engoli-las. Por sorte, encontra-o geralmente disposto a fazê de muito bom grado.

Notas:
(1) Guy de Maupassant (1850-1893) um dos maiores contistas de todos os tempos. Sua obra é conhecida pelas situações psicológicas e pela crítica social. Maupassant foi, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo. Rico e famoso, ele teve muitos casos amorosos, mas a sífilis o atormentou por mais de uma década, causando pesadelos, angústia e alucinações. Em 1892, Guy de Maupassant tentou o suicídio. Morreu em Paris no ano seguinte, aos 43 anos de idade, sendo enterrado no cemitério de Montparnasse.
(2) Anton Tchecov (1860-1904) Um dos mais famosos novelistas e dramaturgos russos, considerado um dos mestres do conto moderno. Em 1888 foi publicado o seu romance "A Estepe". No ano seguinte a tuberculose se agravou e ele perdeu o seu irmão Nikolai, vítima de tifo e tuberculose, tornando-se melancólico e pessimista. Em 1904 faleceu na Alemanha, vítima de tuberculose. Foi sepultado no cemitério Novodevichy, em Moscou.
(3) Anthony Trollope (1815-1882) foi um dos mais respeitados novelistas ingleses da época vitoriana. A obra mais apreciada de Trollope, conhecida como As novelas de Barchester, gira em torno do condado imaginário de Barsetshire, mas ele também escreveu novelas penetrantes sobre conflitos políticos, sociais e sexuais de sua época.
(4) William Makepeace Thackeray (1811-1863) considerado como o segundo melhor novelista da literatura vitoriana, depois de Charles Dickens. Sua obra mais lida é A feira das vaidades (Vanity Fair). Nesta novela, que continua sendo muito lida, foi capaz de satirizar a natureza humana de forma suave e carinhosa.
(5) Gustave Flaubert (1821-1880) um dos mais famosos escritores franceses, prosador importante, marcou a literatura de seu país com a profundidade da análise psicológica e o senso de realidade. Também com o seu estilo marcante, em grandes romances (“Madame Bovary”, “A educação sentimental” e “Salambô”), que Flaubert descreveu, com lucidez, o comportamento social da época.
(6) Henry James (1843-1916) sua literatura tem três etapas: a primeira, na década de 1870, relata o confronto entre o Novo Mundo e os valores do Velho Continente; a segunda, ele escreveu novelas de conteúdo político e social, sobre reformadores e revolucionários. Depois publicou peças de teatro, encenadas sem êxito e voltou à prosa com "A Morte do Leão" e "A volta do parafuso". Na última e mais importante etapa, explorou a consciência humana. A prosa torna-se densa, a sintaxe intrincada, características de grandes obras como "As Asas da Pomba", "Os Embaixadores" e "A Taça de Ouro".
(7) David Copperfield, famoso romance de Charles Dickens (1812-1870).  A história narra a vida de David Copperfield da infância à maturidade. David nasceu em 1820, órfão de pai. Sete anos após, sua mãe se casa com Edward Murdstone. David não simpatiza com o padrasto, que o espanca. Muitos elementos descritos no livro se parecem com a vida de Dickens, sendo considerada a mais autobiográfica de suas obras. No prefácio da edição de 1867, Charles Dickens escreveu "… like many fond parents, I have in my heart of hearts a favourite child. And his name is David Copperfield".
(8) Rudyard Kipling (1865-1936) foi o primeiro britânico a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Deve sua fama aos contos, fábulas e romances de aventura. Como jornalista na Índia, descreveu suas experiências em estilo impressionista e ganhou popularidade com os romances “O Livro da Selva” e “Kim”. Elogiava o imperialismo britânico e defendia a existência da Comunidade Britânica e a missão civilizadora de seus compatriotas. 
(9) Joseph Conrad (1857-1924) Józef Teodor Konrad Korzeniowski nasceu na Ucrânia, de família patriota, empenhada em libertar a Polônia do domínio russo. Em 1878 mudou-se para a Inglaterra, fez carreira na Marinha e ganhou cidadania inglesa, com o nome Joseph Conrad. Um dos maiores estilistas da prosa, Conrad nunca chegou a dominar a língua inglesa. Seus principais livros são: “Lord Jim”, “Nostromo”, “O Agente Secreto”, “Sob os Olhos Ocidentais” e “A Linha de Sombra”.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Gullar: Vamos errar de novo?


FAZ MUITOS ANOS já que não pertenço a nenhum partido político, muito embora me preocupe todo o tempo com os problemas do país e, na medida do possível, procure contribuir para o entendimento do que ocorre. Em função disso, formulo opiniões sobre os políticos e os partidos, buscando sempre examinar os fatos com objetividade.

Minha história com o PT é indicativa desse esforço por ver as coisas objetivamente. Na época em que se discutia o nascimento desse novo partido, alguns companheiros do Partido Comunista opunham-se drasticamente à sua criação, enquanto eu argumentava a favor, por considerar positivo um novo partido de trabalhadores. Alegava eu que, se nós, comunas, não havíamos conseguido ganhar a adesão da classe operária, devíamos apoiar o novo partido que pretendia fazê-lo e, quem sabe, o conseguiria.

Lembro-me do entusiasmo de Mário Pedrosa por Lula, em quem via o renascer da luta proletária, paixão de sua juventude. Durante a campanha pela Frente Ampla, numa reunião no Teatro Casa Grande, pela primeira vez pude ver e ouvir Lula discursar.

Não gostei muito do tom raivoso do seu discurso e, especialmente, por ter acusado "essa gente de Ipanema" de dar força à ditadura militar, quando os organizadores daquela manifestação -como grande parte da intelectualidade que lutava contra o regime militar- ou moravam em Ipanema ou frequentavam sua praia e seus bares. Pouco depois, o torneiro mecânico do ABC passou a namorar uma jovem senhora da alta burguesia carioca.

Não foi isso, porém, que me fez mudar de opinião sobre o PT, mas o que veio depois: negar-se a assinar a Constituição de 1988, opor-se ferozmente a todos os governos que se seguiram ao fim da ditadura -o de Sarney, o de Collor, o de Itamar, o de FHC. Os poucos petistas que votaram pela eleição de Tancredo foram punidos. Erundina, por ter aceito o convite de Itamar para integrar seu ministério, foi expulsa.

Durante o governo FHC, a coisa se tornou ainda pior: Lula denunciou o Plano Real como uma mera jogada eleitoreira e orientou seu partido para votar contra todas as propostas que introduziam importantes mudanças na vida do país. Os petistas votaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e, ao perderem no Congresso, entraram com uma ação no Supremo a fim de anulá-la. As privatizações foram satanizadas, inclusive a da Telefônica, graças à qual hoje todo cidadão brasileiro possui telefone. E tudo isso em nome de um esquerdismo vazio e ultrapassado, já que programa de governo o PT nunca teve.

Ao chegar à presidência da República, Lula adotou os programas contra os quais batalhara anos a fio. Não obstante, para espanto meu e de muita gente, conquistou enorme popularidade e, agora, ameaça eleger para governar o país uma senhora, até bem pouco desconhecida de todos, que nada realizou ao longo de sua obscura carreira política.

No polo oposto da disputa está José Serra, homem público, de todos conhecido por seu desempenho ao longo das décadas e por capacidade realizadora comprovada. Enquanto ele apresenta ao eleitor uma ampla lista de realizações indiscutivelmente importantes, no plano da educação, da saúde, da ampliação dos direitos do trabalhador e da cidadania, Dilma nada tem a mostrar, uma vez que sua candidatura é tão simplesmente uma invenção do presidente Lula, que a tirou da cartola, como ilusionista de circo que sabe muito bem enganar a plateia.

A possibilidade da eleição dela é bastante preocupante, porque seria a vitória da demagogia e da farsa sobre a competência e a dedicação à coisa pública. Foi Serra quem introduziu no Brasil o medicamento genérico; tornou amplo e efetivo o tratamento das pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, o que lhe valeu o reconhecimento internacional. Suas realizações, como prefeito e governador, são provas de indiscutível competência. E Dilma, o que a habilita a exercer a Presidência da República? Nada, a não ser a palavra de Lula, que, por razões óbvias, não merece crédito.

O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada -Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

ACORDA PALAVRA!

Salgado Maranhão
“ A cor da palavra” (poesia)
Imago/Fundação Biblioteca Nacional
Rio de Janeiro – 2009

Estou lendo o livro “A cor da palavra”, que reúne a poesia de Salgado Maranhão de 1978 a 2009. Não obstante a existência do parâmetro cronológico, o livro contém diretrizes do autor, como se nos desse uma dica para a leitura de sua poesia e deste livro. A primeira delas se refere à estética de princípios, adotada pelo poeta desde quando abraçou a poesia, como o ethos – o caminho para fazer a arte – ou seja, aquilo que seria a personalidade de autor. Essa diretriz aparece no Posfácio “O traço apolíneo de Salgado Maranhão”, de Luiz Fernando Valente, que abre com a seguinte citação do poeta:

“A visão da poesia e das artes em geral está muito relacionada a uma postura dionisíaca e desleixada da vida. Nunca me permiti ser assim. Sempre tive uma postura apolínea.”

            É, claro, uma tomada de posição muito pessoal, que trouxe alimento para o ensaio de Luiz Fernando Valente. Pois bem, isso daria também panos pra manga, que seria abrir uma discussão, de já muito cansada e esgotada desde Nietzsche, em “O Nascimento da Tragédia”, que trata da dualidade da tendência artística. Para o filósofo, a arte está profundamente ligada à duplicidade antagônica do apolíneo e do dionisíaco. E de imediato a esta oposição primeira, surgem outros contrários, que servirão de modelo ao que representam as figuras de Apolo e Dionísio. Toda dualidade é tendenciosa, porque se inicia primeiro entre arte plástica e música, depois entre sonho e embriaguez, mais a aparência e o êxtase, etc. Cada um se opõe ao outro, sem excluí-lo, para manter a relação de oposição, como se fosse complemento. As oposições se sustentam em confrontação e interdependência. Mas todas remetem ao mesmo nível de experiência da arte.

Os deuses representam a máxima expressão da cultura apolínea, qual seja: a superação do pessimismo. Segundo Nietzsche, para chegar ao grau de afirmação da vida deve-se, primeiro, levar o pessimismo ao limite extremo, alcançando, assim, o sentido metafísico de aprofundar e superar. Uma guerra de terra arrasada. Mas, se essa verdade for assimilada, levará ao aniquilamento da vida, ou seja, à última expressão do saber dionisíaco: o êxtase. Pois foi assim que Nietzsche fixou a distinção entre apolíneo e dionisíaco: Apolo é o deus da clareza, da harmonia, da ordem. Dionísio, o deus do êxtase, do caos, da música. Mas, a poesia não é uma arte exterior? Ou seja, ainda uma vez, não está acima e além de todas as demais artes? Para Nietzsche o apolíneo e o dionisíaco eram forças complementares, mas foram separadas pela civilização moderna. Onde a poesia caminha nesse labirinto? Resulta, portanto, que tudo acaba retornando ao impasse da existência da dualidade.

Pode-se alimentar ainda mais e fogueira que cuida da dualidade entre a vida e a arte, conforme Moira Müller observa em “Lo apolineo y lo dionisiaco de Nietzsche”:

“Sea de modo disfrazado o deformado algo expresó el joven Nietzsche en El nacimiento de la tragedia que nos sigue diciendo algo. La intuición de que el desarrollo del arte esté ligado a la duplicidad de lo apolíneo y lo dionisíaco, aunque no constituye una intelección científica, mantiene su significado filosófico y poético para nosotros. Toda la expresión artística, afirma Nietzsche, surge como un arma, una anestesia, contra el dolor sufrido por el hombre. Una vez echado un vistazo en la profundidad de la verdad de la vida, el hombre se ve desgarrado de su mayor anhelo, haciéndose una herida incurable. El arte se nos presenta como una alegre esperanza de que pueda romperse el sacrilegio de la individuación del Uno primordial, de los dioses eternamente perfectos, como presentimiento de una unidad restablecida. Ningún pueblo fue tan apto para el sufrimiento como los griegos y para poder vivir tuvieron que crear los dioses y el arte. Como estrategia de supervivencia “los griegos, que en sus dioses dicen y a la vez callan la doctrina secreta de su visión del mundo, erigieron dos divinidades, Apolo y Dioniso, como doble fuente de su arte. En la esfera del arte estos nombres representan antítesis estilísticas que caminan, una junto a la otra, casi siempre luchando entre sí, y que sólo una vez aparecen fundidas, en el instante del florecimiento de la voluntad helénica, formando la obra de arte de la tragedia ática”.
           
            Outra diretriz dada por Salgado Maranhão na feitura do livro “A cor da palavra” se refere a um procedimento – a revisão de textos poéticos já publicados – tema que também suscita muita discussão na literatura, tanto na teoria quanto na prática. O que ele fez? Explica melhor a declaração do poeta:

“Os leitores que, de algum modo, acompanham meu trabalho desde as primeiras publicações, encontrarão, aqui, poemas reciclados ou fora de ordem. Isto deve-se à minha obstinação pela palavra de múltiplas arestas, e ao intento de dar a esta obra, verdadeiramente, a feição de um novo livro.”
           
            Com efeito. Também se trata de uma opção. Trabalhar a palavra requer, de fato, suor e obstinação, como diz o poeta. Muitos autores mexeram e remexeram seus trabalhos antes de publicá-los. Li não sei aonde que James Joyce reescreveu “Ulisses” – aquele calhamaço, sim senhor – mais de 34 vezes! Caramba! Neste caso acredito que a literatura perdeu muito, pois o dublinense bem que poderia ter usado esse tempo para nos oferecer outras maravilhas... Ademais, a escritura é um labirinto. Quando se lê o que se escreveu lá atrás, a pergunta que primeiro vem é “Quem escreveu isso?”.
           
Por essas e outras razões, muitos escritores preferem jamais reler o que escreveram. Josué Montello, na velhice, pegou o primeiro romance – que já havia enterrado como obra de juventude – e reescreveu todinho. Nada sobrou do texto inicial, dizia ele muito orgulhoso. Outros, muitos outros mesmo, quando alcançam a fama depois de anos laboriosos, optam por enterrar no limbo do esquecimento as primeiras palavras. Ferreira Gullar hoje ri do seu primeiro livro "Um pouco acima do chão". Outros “tiram do catálogo” as obras condenadas pelo tempo inclemente. O livro existe, está na biblioteca, o nome de quem escreveu está lá, mas quando se encontram o autor finge que não viu, vira o rosto, desdenha, empina o nariz. Coitado do primeiro verso...

Enfim, mexer ou mexer é uma decisão e responsabilidade pessoal. Outro dia mesmo andei lendo – mas não anotei a fonte, droga! – dizendo que a poesia não se revisa, porque é difícil refazer o itinerário da palavra até o papel. A prosa sim, dá todas as opções para uma revisão concreta. Quiçá, a respeito do tema, li no livrinho de pensamentos “Reflexões sobre poesia e ética”, do poeta grego Konstantinos Kaváfis:

“As imagens e sensações estivais me infundem numerosas impressões. Todavia, não sei de as ter representado ou traduzido de pronto numa composição literária. Digo ‘de pronto’ porque as impressões artísticas demoram a ser usadas, a gerar outros pensamentos, a transformar-se sob a ação de novas influências e quando enfim se cristalizam em palavras escritas, é difícil lembrar a ocasião primeira onde nasceram e de onde se originam as palavras escritas.”  

Bom, chega de divagar... Ah, mais cabe mais algum comentário. O resultado obtido ao transformar essa reunião em novo livro, como quis obstinadamente Salgado Maranhão, restou, de algum modo, complicado. À vista do resultado que essa re-ordenação e re-visão trouxeram, imagino que foi muito trabalhoso ao poeta realizar, porque também os livros antigos tomaram nova feição, novos títulos. “A cor da palavra” ao final assumiu a seguinte forma gráfica, que vai aqui como roteiro:

PUNHOS DA SERPENTE – Com Ebulição da Escrivatura & avulsos (1978-1989)
– À flor da fala
PALÁVORA (1995)
– Dez Limites
– Coisas e Lugares
– Petit Finale
O BEIJO DA FERA (1996)
– Nudez Nutriz
– Palavras com Figuras
– Faces do Disfarce
– Coda
MURAL DE VENTOS (1998)
– Itinerário de Afetos
SOL SANGUÍNEO (2002)
– Tribos e Vitrines
– Tear dos Afetos
– Legenda Gris
– Adereços para um Eclipse
SOLO DE GAVETA (2005)
– Mapa de Origem
– Espécimes
– Diversos
A PELAGEM DA TIGRA (2009)
– Mar de Lavas
– Mar sem Ondas
– Mar Deriva
– Mar Aberto
– Tear de Prismas (Finis)

Pensando bem, acredito que Salgado Maranhão não se propôs apolíneo para exprimir suas idéias – sociais, históricas e políticas – sob a grandeza da poesia. Esta se expressa através do poeta na conformidade do tempo, de uma forma que nem a re-arrumação, nem a re-visão ou a re-ordenação não conseguem sufocar. O apolíneo em Salgado Maranhão está na ordem apropriada que a arte lhe consentiu, em nome da palavra, para frutificar na profissão de Poeta. Nesse caso, lucra o leitor: ao mesmo tempo que lê a poesia de Salgado Maranhão, se dá ao luxo de também re-ler aquilo que transtornou a visão de uma escrita já gravada no tempo.

Ora, direis, ao fim acabaste não falando sobre a poesia de Salgado Maranhão. Tendes razão – responderei – mas o que seria a opinião deste modesto escriba ante as inúmeras e bondosas críticas já professadas por maiores figuras? Ademais é mister que se procure escrever sobre um tema ou pessoa ou escritura de um modo que assunte sobre paisagens inéditas, detalhes ainda não assimilados, lugares não descobertos, entranhas virgens, portanto ainda não desbravadas.

Procuro, com esse viés, também provocar pontos-de-vista sobre essas áreas ainda não transitadas e assim permitir ao leitor deslumbrar novos horizontes. Pelo menos é essa a intenção. Por isso, passo a palavra a Ferreira Gullar, que bem se expressou sobre a poesia de Salgado Maranhão, na contracapa do livro que tenho em mãos:

“Salgado Maranhão é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito pessoal. ‘Sinergia’ é a palavra que define sua poesia. Uma poesia da palavra, muito embora não ignore o real, pois o traduz em fonemas e aliterações. Que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala.”

Ora bolas! Com esse sábio depoimento de Ferreira Gullar ia encerrar este artigo, mas eia! Já se abre um novo foco de incêndio. Sim, incêndio. A palavra é incêndio, é fogo. Aqui o leitor, somando os três fatos, fará uma associação de ideias:

1) Salgado Maranhão é um poeta autodenominado apolíneo, isto é, autor de vida e arte canônicas, acadêmicas, certinhas;

2) Em função dessa diretriz, Salgado Maranhão optou por reescrever seus livros e poemas anteriores e transformá-los em novos poemas e novos livros;

3) Salgado Maranhão é um poeta obstinado pelas palavras de múltiplas arestas, (...) que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala. 

4) Dedução: Salgado Maranhão é um poeta chato!

Felizmente não é assim. A poesia de Salgado Maranhão pode (ou não pode) ter todas as qualidades e defeitos apontados aí acima.  Mas, graças ao olhar apolíneo, que de imediato atrai o oposto foco dionisíaco, tudo se transforma. Por exemplo, tente descobrir os muitos sonetos – nada apolíneos, diga-se – que se escondem dentro de uma ou outra poesia mais hermética, mais intraduzível de imediato. Graças ao rigor com que o poeta lavoura os seus poemas, temos a garantia do verso honesto. São poemas belos em que a tranquilidade lacustre da palavra tensa, em breves momentos, é alterada de leve pelo rumor da brisa que encrespa a superfície da água.

Digo que é nos sonetos ingleses, ainda que compostos de forma mais quadrangular que esférica (ou seja, de informalidade estética), que Salgado Maranhão liberta o que há de dionisíaco em sua poesia, o filho bastardo que o poeta reluta em assumir. Ademais – olha o leitor aí, gente! – o modo de criar de Salgado Maranhão faz com que cada mirada traduza sua própria paisagem. Como você gosta de ler poesia? Eu não leio tudo de uma vez, ao contrário, vou ruminando as páginas e mesmo quando acaba o livro, volto a ele de vez em quando. E, acredite, cada leitura, cada releitura é uma nova descoberta, um novo prazer.

Um poeta assim, múltiplo, raro, é apropriado que se leia a todo momento. O livro? “A cor da palavra” é pra se ler e guardar e ler. Assim, o leitor também terá seu modo de ler e de traduzir a palavra. Nesse momento, então, não importa o que o poeta escreveu: o verso será um novo verso, as palavras se misturam interpretadas de modo diferente. Esse é o mistério da poesia, que coube aos poetas semear na terra...

Por fim, uma amostra grátis:

O deus e a máscara

Sim, trata-se de um deus que reina ao léu
seus caprichos, suas leis de luz e abismos
que ao tocar na leve tez do lirismo
traz as garras ao que há de céu em seu
reino. Réplica de um quase anarquismo
ou rito de máscara sob um véu
de quem é santo mesmo sendo ateu
de quem é uno mesmo em dualismo.
Ninguém deterá tal mapa ou endereço:
trata-se de um folião sem adereço
a vestir a própria alma no disfarce.
(O encanto, o afeto, a paixão e seu preço
escrito a ferro e flor e desenlace.)
E assim, quanto mais morre mais renasce.