terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ARIEVALDO, LEANDRO E CORDEL




            Os folhetos de Arievaldo Viana, dependurados nos barbantes das bancas que vendem folhetos no Centro de Fortaleza, dançam ao sabor dos ventos favoráveis. São muitos títulos de um trancoso bem humorado, inteligente e instigante, e o selo é quase sempre da bem sucedida Tupinanquim.
Ele também se envolveu com a utilização do cordel na sala de aula, um tema por demais polêmico. Os mais apegados à norma culta e ao cânon consagrado torcem o nariz para essa iniciativa. O barulho foi grande quando a Universidade Federal do Ceará indicou “Cordéis e outros poemas”, de Patativa do Assaré, para o vestibular de 2006.
Mais recentemente, ele me pediu um prefácio para um livro que vem escrevendo sobre Leandro Gomes de Barros. Disse que sim, mas juro que me surpreendi com a competência e a determinação que ele mostrou nesta empreitada.
Leandro é daquelas unanimidades a favor. Inegável que foi o grande nome do folheto e um dos sistematizadores da edição de cordéis no Brasil, com rima, métrica e folheto múltiplo de quatro páginas, com capa gráfica, no início, e com xilogravura, tempos depois.
Curiosa essa passagem do violeiro para o poeta de bancada. Importante compreender como a maquinaria obsoleta para os grandes centros se interiorizava e dava lugar a jornais políticos – e depois a uma atividade que movimentou a economia, que revolveu nossas camadas de memória e se fixou no imaginário social.
Leandro pode ser colocado, sem exagero, nas bases disso tudo. Não vale atribuir a ele um pioneirismo dissociado do contexto em que vivia e atuava. Ele existiu porque existiram os cantadores da Serra do Teixeira, na Paraíba, os folcloristas como Sílvio Romero, Rodrigues de Carvalho e Gustavo Barroso, os revendedores e agentes das casas editoras e os leitores ávidos pelos clássicos e pelas novidades trazidas por esta Indústria Cultural de bases assentadas na tradição popular.
Leandro não tem tido o reconhecimento que lhe é devido. Temos algumas biografias tímidas, coletâneas de folhetos da Casa de Rui Barbosa, uma “Bibliografia Prévia”, de Sebastião Nunes Batista. Ultimamente, foram defendidas algumas teses nos programas de pós-graduação em Literatura e Linguística, mas tudo muito esparso, e fica cada vez mais difícil reunir tanta informação.
Arievaldo não se propõe a juntar o que foi feito. Isso seria fácil nestes tempos de processadores de textos, programas de edição e de imagens e sítios virtuais. Ele foi além e buscou muitas coisas que ninguém buscara antes. Exercitou um faro de pesquisador/ detetive e foi fundo. Mostrou-se envolvido demais pelo tema. Não diria obcecado, porque é patológico e não faz jus à qualidade do que produziu.
Arievaldo nos mostra nuances de um Leandro que antes tinha a frieza dos heróis e o distanciamento que convém a uma personagem. Nestas páginas, ele ganha a dimensão humana, e o seu trabalho de sistematização e criação de mais de mil folhetos se evidencia como um esforço para dar conta de uma empreitada que parecia impossível.
Leandro não apenas se debruça sobre a tradição oral, sobre os clássicos contados nas feiras europeias e trazidos como folhetos (sem rima e sem métrica, em forma de prosa) para o Brasil a partir de 1808, quando a imprensa torna-se possível. Ele também interfere na forma de crônica na vida do Recife ou de um Nordeste que sofria por conta das secas e tinha em Padre Cícero (cantado por ele em 1910) um mito em ascensão.
Era necessário que Arievaldo pusesse um ponto final em sua pesquisa. Ela corria o risco de se confundir com sua própria vida e ser uma daquelas tarefas exaustivas, inconclusas, para as quais uma existência é pouco.
Seu Leandro ganha outros matizes, perde o peso do ícone e ganha a leveza da voz. Deixa para todos nós um legado precioso. Que segue para a Paraíba e faz pouso na Popular Editora, visitada por Mário de Andrade, em 1927. Que segue nas mãos de João Martins de Athayde. Que chega a Juazeiro do Norte por meio do alagoano José Bernardo da Silva. Que é “pirateado” tantas vezes que nem dá para dizer por quem.
Leandro chega aqui. Arievaldo vem nos apresentar ao poeta de Pombal. A voz revive nestes tempos de tecnologia de ponta. A letra ganha o espaço dos monitores e pode ser lida on-line. Mais de 90 anos depois de sua morte, ele está mais vivo do que nunca. Os clássicos estão aí para mostrar esta permanência. Os folhetos de acontecidos são documentos de uma época.
Arievaldo regeu isso tudo com competência, paixão e disciplina (nem sempre) e nos dá um livro que vale a pena ser lido. O que eu tenho de fazer agora é agradecer pelo esforço e pelo presente que ganhamos nós, seus leitores.
Gilmar de Carvalho, Fevereiro de 2010