quarta-feira, 30 de março de 2011

Chico Buarque: Atribulações de um romancista

 

Chico Buarque – Leite derramado – Editora Schwarcz Ltda. – São Paulo, 2009

 “Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. A saga familiar marcada pela decadência é um gênero consagrado no romance ocidental moderno. A primeira originalidade deste livro, com relação ao gênero, é sua brevidade. As sagas familiares são geralmente espraiadas em vários volumes; aqui, ela se concentra em duzentas páginas. Outra originalidade é sua estrutura narrativa. A ordem lógica e cronológica habitual do gênero é embaralhada, por se tratar de uma memória desfalecente, repetitiva mas contraditória, obsessiva mas esburacada. O texto é construído de maneira primorosa, no plano narrativo como no plano do estilo. A fala desarticulada do ancião, ao mesmo tempo que preenche uma função de verossimilhança, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com mão firme as associações livres, as falsidades e os não-ditos, de modo que o leitor vai reconstruindo os acontecimentos e pode ler nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar. Em suas leves variantes, as lembranças obsessivas revelam sutilezas ideológicas e psíquicas. Tudo, neste texto, é conciso e preciso. Nenhum elemento é supérfluo. Percorre todo o relato, como um baixo contínuo, a paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma mulher. Os traços e gestos de Matilde, ao mesmo tempo que determinam a paixão do marido, ocasionam a infelicidade de ambos. Embora vista de forma indireta e em breves flashes, Matilde se torna, também para o leitor, inesquecível. Outras figuras, fixadas a partir de mínimos traços, também se sustentam como personagens consistentes. É espantoso como tantas personagens conseguem vida própria em tão pouco espaço textual. Leite derramado é obra de um escritor em plena posse de seu talento e de sua linguagem.” (Leyla Perrone-Moisés)

Essa é a Orelha do livro de Chico Buarque citado acima. Quando a li da primeira vez, ao correr do texto, adveio-me o espanto. Melhor dizendo: o susto. Depois reli outras vez e mais outra e a cada vez o mesmo demônio respirava a meu lado, impedindo-me, inclusive, de iniciar a leitura do livro. Fiquei entre estarrecido e emparedado. Mas qual a razão de tanto assombro?

Já faz algum tempo que a formação estética do romance contemporâneo brasileiro mexe com meus nervos. Sinto que existe alguma coisa de enganadora, não no texto em si, mas, principalmente, na feitura gráfica, que é o que encerra e dá realmente o ponto final na obra do escritor. No caso dessa Orelha – que refaz a obra num resumo – há muitas coisas estranhas a considerar. Desfiemo-las, pois, na sua própria desordem...

Relembrando: “A primeira originalidade deste livro, com relação ao gênero, é sua brevidade. As sagas familiares são geralmente espraiadas em vários volumes; aqui, ela se concentra em duzentas páginas.”

Aliás, duzentas não. O livro conta 195 páginas, mas como a numeração de cada capítulo ocupa uma página inteira – são 23 capítulos – temos, enxutas, 172 páginas de texto, no qual se pretende contar “a história de [uma] linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual”. Garotão, aliás, cuja trajetória final pode ocupar as 172 páginas de outro romancezinho, quem sabe, lá pra frente.

Aqui também tudo me espanta, porque não sei a quantas se anda ensinando literatura nas universidades. Para mim, que só aprendi até o científico, a literatura ficcional em prosa era representada – principalmente – por três gêneros: conto, novela e romance.

Afinal, não era o conto a estória curta? A novela não é algo assim como um gênero intermediário entre o conto e o romance? E o romance não é um gênero em que a ação dramática forma uma saga?

É claro que todas as determinantes ficam submetidas à uma ordem estética, que é superior. Mas é claro que me enganei! Apesar de todas essas definições ainda constarem em currículos, apostilas e teses espalhadas pela internet, vejo que também a definição ultramoderna dos gêneros literários anda se modificando.

Vejamos o que diz o professor Manuel Pereira da Silva, catedrático pela Universidade de Coimbra e mestrado pela USP, ambos em Literatura Comparada:

“A primeira coisa que devemos tirar da cabeça é a história de que a diferença entre esses três gêneros é o tamanho: o conto é curto, a novela é média e o romance é longo. Nada disso é verdadeiro. Existem novelas maiores que romances e contos maiores que novelas.”

E existem romances menores do que contos?... Mas existe, sim, sem dúvida! Agora, pronto! Eis-me de novo em dia com a estética literária. E também me lembrei que realmente outro dia li um conto de 600 páginas. Sim senhor! Foi o livro “Os catadores de conchas” do escritor britânico Rosamunde Pilcher, história que caberia num conto. O resto das 500 páginas além do que seria um conto é recheio, moldura, enfeite, jardim, flores, plantas, paisagem, memória, dramazinhos localizados, tudo, enfim, que não cabe num conto. A história em si é pequetitinha, pequetitinha. Mas é romance...

Donde se deduz que também romance é, não só aquilo que chamamos de romance, mas aquilo que escrevemos como um romance. Brincadeiras à parte, continuemos, curiosos, degustando e apreciando as definições do ilustre professor a respeito dos gêneros literários.

O que é Conto?

“O Conto contém apenas um único drama, um só conflito chamado de "célula dramática". Uma célula dramática contém uma só ação, uma só história. Um conto é um relâmpago na vida dos personagens. O espaço da ação é restrito. A ação não muda de lugar. O objetivo do conto é proporcionar uma impressão única no leitor.”

O que é Novela?

“Uma novela nada mais é que uma sucessão de células dramáticas, como se fossem arrumadas em uma linha reta infinita. Diante dessa estrutura é possível acrescentar mais uma célula dramática, mesmo depois de terminada a novela.” (*)

(*) Não me perguntem COMO isso é possível, posto que a Novela está terminada.

O que é Romance?

“Com esse conceito, podemos compreender a diferença entre Novela e Romance. A diferença está na forma como as células são dispostas. No Romance elas estão concatenadas formando um círculo, uma estrutura fechada. Uma sucessão lógica com um encerramento definitivo. Seria impossível acrescentar mais uma célula dramática, depois de terminado um romance.” (*)

(*) Então, durante todo esse tempo, nós, os leitores, fomos enganados com as sucessivas “continuações” de romances célebres, como o famoso “E o vento levou”, de Margaret Mitchell, continuado por Donald McCraig, com "Rhett Butler's People" e por Alexandra Ripley, com “Scarlett”. Na parte nacional temos as várias intervenções feitas na obra de Machado de Assis por escritores brasileiros.

Baseado nessa informação moderníssima nós ficamos sem saber o que é o livro de Chico Buarque “Leite derramado”, simplesmente porque ele se enquadra nos três gêneros citados pelo emérito educador:

É conto, porque é uma obra de uma só “célula” dramática, contém apenas um único drama, um só conflito. O espaço da ação é restrito. A ação não muda de lugar...

É novela, porque, antes de terminá-lo, o autor achou por bem violar a regra e, nas entrelinhas, sem que ninguém percebesse (mas com clara advertência da autora da orelha), achou por bem introduzir uma sucessão de novas células.

É romance, não só porque na ficha técnica está escrito “Romance brasileiro”, mas também porque “as células estão (...) concatenadas, formando um círculo. Uma estrutura fechada. Uma sucessão lógica com um encerramento definitivo.” Bem, o encerramento não está assim tão definitivo porque já dei a dica pro Chico Buarque contar a saga do último membro da família, o garotão que vive em Copacabana cheirando cocaína adoidado.

Agora, dando um salto para frente, submeto a parte da verossimilhança, que parece parte da estética do romance, a um juízo de dúvidas. Primeiro porque a construção da saga de duzentos anos não se concretizou. Não foi contada uma história, “uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos.”

Apesar de todo talento do escritor, trata-se de uma impossibilidade prática e técnica narrar uma saga sem: 1) concatenação, 2) cronologia e 3) verossimilhança. Ademais há de se considerar aquilo que, na narrativa, parece inconcebível: que “um homem muito velho” – e por isso já com a “memória desfalecente” – possa desfiar num monólogo de cento e tantas páginas “a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual.”

Chico Buarque não foi o primeiro nem será o último autor a cair nessa esparrela. Temos romances de escritores famosos em que a narrativa memorial se perde em centenas de páginas, como se o dom do pensamento se expandisse em neurônios tantos e tais numa cronologia sem fim e a perder de vista. Outros já cometeram narrativas em forma de carta que entre o Prezado Senhor e o Atenciosamente se recheiam centenas de páginas com minudências tantas que só mesmo o leitor não se dá conta que se trata de uma missiva apenas no nome... Mas, afinal, o que seria do artista e da obra de arte se a sua criatividade e a sua alma ficassem restritas a conceitos tão belos quanto idiotas?,

Ora, dirão que falei, falei, falei, mas não dei minha opinião sobre o romance (vá lá!) de Chico Buarque. É verdade. Apesar de criticar o que leio, não sou propriamente um Crítico Literário. Além do mais, Chico Buarque não carece de crítica literária: como Paulo Coelho, ele tem uma plêiade de admiradores que compra e deglute qualquer coisa que ele expila pelos sete orifícios tântricos. Para vender o seu trabalho, musical ou literário, Chico Buarque não precisa de adjutório e charlatanice de críticos engrolados que sobrevivem puxando saco de editores e autores. Como não precisa, não dá, portanto, a mínima se gostei ou não gostei.

quinta-feira, 3 de março de 2011

As muitas estrelas de Manú Bandeira

Manuel Bandeira – Estrela da vida inteira – Poesias reunidas – Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro 1973 
Deixando de lado tudo que se possa dizer do poeta Manuel Bandeira – e com certeza tudo de bom já foi dito – posso afirmar que a leitura de sua poesia continua tão prazerosa como se estivéssemos contemporâneos de seu tempo. Então, usufruir de uma obra como o que realizou a Livraria José Olympio Editora ao enfeixar num só volume as poesias reunidas do poeta pernambucano é um privilégio de poucos.   
Livro de poesia é assim mesmo: nunca fica velho demais que não mereça uma releitura. A gente compra, lê, guarda e de vez em quando volta a ele para matar a saudade. Nesses reencontros tudo acontece: algum poema que na primeira leitura pareceu desinteressante logo se disfarça de outra maneira e vira magia, outros pequenitos, de circunstância, ganham brilho e crescem, outros mais vibram em sonoridade e ritmo, eis aí tudo a se modificar – é um novo livro que temos nas mãos.           

Com Manuel Bandeira, então, nem se fala! Como a releitura enriquece, mais que nenhuma, a sua poesia! Mas a  importância do volume que tenho em mãos não é somente o manancial da poesia que jorra. Começa, desde logo, pela leitura da orelha. Não é qualquer livro nem qualquer autor que possa se orgulhar de ser “orelhado” por nada menos que Otto Maria Carpeaux, escritor austríaco que abrasileirou, tão rápido, como a maioria daqueles que foram atirados até nós pelo desatino da guerra. 

Otto Maria Carpeaux chegou aqui em 1939 e foi mandado para o Paraná, como ...agricultor! Claro que foi coisa de momento, porque logo se desviou para São Paulo e tratou de sobreviver ao primeiro momento de dureza vendendo objetos pessoais, um pouco do patrimônio que trouxe da terra natal. Depois de breve correspondência com Álvaro Lins, Carpeaux foi convidado para escrever no Correio da Manhã (jornal publicado no Rio de Janeiro, na pré-história da imprensa, junto com o JB e O Globo – bem antes da família Marinho engolir vorazmente TODA a imprensa da antiga Capital Federal). Daí em diante o leitor pôde saborear, como se fosse um produto popular, toda a erudição desse notável brasileiro. Sim, no mesmo ano em que Stefan Zweig – em depressão plena – desistia do Brasil dividindo um copo de cicuta com sua mulher Lotte, no mesmo ano que este escriba era parido na Paraíba, o entusiasmado emigrante Otto Maria Carpeaux se tornava brasileiro da gema... 

Todo o conhecimento adquirido por Otto Maria Carpeaux não foi obra do acaso. Ainda estudante ele dominava vários idiomas (inglês, italiano, francês, alemão, espanhol, etc.), mas não o português – o que demonstra que sua chegada aqui não tinha sido planejada. Entretanto, o estudo de línguas facilitou para que se tornasse fluente na nossa língua com pouco mais de um ano de dedicado estudo. Sua formação acadêmica em várias matérias – que abrangia física, matemática, sociologia, filosofia, música e literatura – serviu de manancial para tudo que aqui produziu, destacando-se os oito volumes consagrados à História da Literatura Ocidental (1947), Uma Nova História da Música (1958) e os volumes de Ensaios Reunidos (2005).  

Agora pasmem: nenhum sinal dessa vastidão de conhecimento perpassa pelo texto que dedicou ao poeta Manuel Bandeira. É claro que aqui e ali Otto Maria Carpeaux destaca as qualidades poéticas de Manuel Bandeira, principalmente como autor de “versos felizes”, mas em quantidade e volume tão grandes que, para o ensaísta, isso era tão natural ao poeta quanto a proximidade da morte... 

Não, nesse pequeno texto apertado na orelha de Estrela da Vida Inteira, Otto Maria Carpeaux desvenda o olhar do leitor para a importância do lirismo na poesia de Manuel Bandeira, lirismo esse que deságua como cachoeira no ritmo, na sonoridade, na cadência verbal, transplantando os versos diretamente ao solo musical. Essa musicalidade, pressentida desde logo pelos contemporâneos do poeta, fez de Manuel Bandeira autor principal da canção brasileira, assim entendida como os lieder alemães. 
        
           Para não esticar mais a conversa, leia a seguir o texto de Otto Maria Carpeaux, depois saiba de algumas informações sobre a obra musicada de Manuel Bandeira. Na pescaria para compor este texto, para minha surpresa, topei com um velho disco (Maria Lúcia Godoy canta poemas de Manuel Bandeira) e de contrapeso um texto de Paulo Mendes Campos, feito especialmente para o lançamento do disco. É mole? Pois o dito cujo texto também vai a seguir...
******
POESIA INTEMPORAL
(Texto da orelha do livro Manuel Bandeira – Estrela da vida inteira – poesias reunidas - Livraria José Olympio Editora – 4ª edição – 1973, por Otto Maria Carpeaux)
“Eis aqui a Obra Poética total de Manuel Bandeira. É a edição definitiva, depois das muitas outras que a precederam e cujo número é sinal do sucesso extraordinário de um poeta cujos versos chegaram a gravar-se na memória da nação brasileira.
“São muitos versos inesquecíveis. Antigamente costumava-se falar em “versos felizes”; e felizes eles são em todos os sentidos: são felizes pela densidade da carga emocional de palavras coordenadas por uma lógica secreta e irrespondível; são felizes porque foram o resultado de sofrimentos graves, de meditação profunda, e chegaram a tornar mais feliz a vida do poeta; e a vida de todos nós. 
“Mas às vezes esses versos “felizes” são muito tristes, como aquele, talvez o mais famoso de todos, sobre “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Outra vez, o verso é pungente, denunciando a vida como “agitação feroz e sem finalidade”. Mas outra vez, respira a melancolia sem desespero de uma tarde triste primaveril: “... passei a vida à toa, à toa”. Só um compositor de lieder, um Schubert, um Hugo Wolf, seria capaz de interpretar bem a música de um verso desses. É mesmo forma musical o rondó dos “cavalinhos correndo”, em que o gerúndio é sabiamente aproveitado para simbolizar e musicar a ligeireza da vida que passa. 
“Ligeireza do verso, mas não do seu sentido. Os melhores versos de Manuel Bandeira parecem-se com nocturnes e nuages de Debussy, mas é inconfundível neles o fundo de tragicidade beethoveniana. Essa poesia cumpre a exigência do severo Matthew Arnold de ser uma crítica da condição humana. Esse poeta não tem “mensagem”, felizmente, porque as “mensagens” costumam tornar-se, depressa, obsoletas e inaproveitáveis. Não precisa de eloqüência para convencer-nos e consolar-nos. Umas poucas palavras bem escolhidas, colocadas numa ordem que as faz cantar, e tudo está dito, mesmo aquilo que em palavras ninguém poderia dizer. É este o privilégio da poesia lírica. 
“Ao contrário do que pensam os mil e mais mil poetastros do mundo inteiro, a inspiração da poesia lírica é a mais rara de todas e o número de poetas realmente grandes é pequeno em qualquer época e em qualquer literatura. Contudo, um ou outro verso feliz é capaz de ocorrer, até aos fazedores de “chaves de ouro”. Os compositores de valsas e sambas são milionários em melodias, mas só um Beethoven sabe enfrentar um tema simples e analisar-lhe todas as possibilidades e realizá-las conforme as regras rigorosas do desenvolvimento temático e criar uma sonata, um quarteto, uma sinfonia, enfim, uma estrutura. 
“Manuel Bandeira é poeta que sabe estruturar seus temas. Seus temas são simples: recordações da infância, um amor irrealizável, a sombra de uma doença grave, um enterro que passa, uma linda tarde de despedidas, uma velha casa que vai abaixo e na qual se sofreu e se amou muito. Mas eis o milagre realizado: cada um desses temas simples é a célula-máter de um processo de desenvolvimento temático, enriquecendo-se e revelando facetas novas, inesperadas, e enquadrando-se na forma para a qual estava predestinada e enfim está formado o cristal perfeito, o poema. 
“Nosso poeta foi o melhor amigo e o homem mais gentil do mundo. Mas em defesa da poesia, contra a falsa poesia, era capaz de tornar-se agressivo. Seu passado está cheio de polêmicas. Durante muitos anos foi considerado um dos protagonistas do modernismo brasileiro. Na história da literatura nacional já lhe pertence um capítulo substancioso. Sem Manuel Bandeira não haveria no Brasil poesia moderna, ou então, ela não seria o que ela é. Mas tudo isso são águas passadas. Manuel Bandeira, embora sempre aberto a tudo que é novo, não se filiou a nenhuma “escola” nem moda nem estilo. Sua poesia é só dele e adquiriu há muito tempo, a suprema qualidade: é intemporal. 
“Quem fez tanto, não passou a vida à toa, à toa. Depois de estruturar sua poesia chegou a estruturar sua própria vida. Sua existência decerto não foi um sorridente rondó de cavalinhos, mas tampouco uma agitação, feroz e inútil. Foi a vida inteira que poderia ter sido – e que aqui está, realizada: a Obra Poética de Manuel Bandeira. 
***********
APÊNDICE:
Disco do Museu da Imagem e do Som - MIS
Maria Lúcia Godoy Canta poemas de Manuel Bandeira
Ao piano: Murilo Santos
Museu da Imagem e do Som - MIS
Fundação Vieira Fazenda
Rio de Janeiro 1966
Texto de Paulo Mendes Campos

“Diletante dos lugares-comuns, costumo colher um exemplar e remirá-lo até desbastar-lhe o cansaço: então posso vê-lo na renovada surpresa de expressão original. "Trama do destino", por exemplo, forjada por uma verdadeira apreensão da existência, é um clichê fascinante, lâmina histológica a definir todo o tecido humano, peça microscópica da experiência histórica e dos enredos individuais. "A Trama do Destino" é o título cinematográfico da biografia de tudo e de todos. 
“Ainda mal tramados, como a relva recém plantada, um rapaz e um adolescente percorrem as ruas de Belo Horizonte - no tempo em que Hitler já se escondera no bunker da chancelaria. Encontram-se, por uma fatalidade de programas escassos, nas salas de concerto, nas exposições de pinturas, nos auditórios literários. Vivem, separados, o primeiro movimento, esse allegro das almas verdes, a buscar: na expressão artística, um espelho; no convívio dos amigos, a solidão comum dos poucos que reconhecem à primeira vista a perplexidade e a delicadeza de viver. 
“Ela, abrindo como luz fluorescente olhos líquidos de espanhola, atende pelo nome, um pouco desamparado, de Maria Lúcia. O moço tímido mas despenteado, é um Paulo a mais circulando neste mundo. Ela demite a doçura quando canta nas reuniões, e sua beleza juvenil se mascara de uma contensão sem idade. Desde menina, Maria Lúcia desaparece no canto, suprime a personalidade quando canta, transforma-se no canto, como a ave que descola do ramo e vira o vôo. 
“Nossa igrejinha, sofrendo de antipatia pelas cantoras que se exprimem, que cultivam os miosótis da personalidade, ainda buscava uma voz para as canções: embora nada existisse que lembrasse um contrato, decidimos, Maria Lúcia nos representaria através do canto. 
“Às vezes, Maria Lúcia e Paulo encontravam-se em um salão de baile. Timidamente. Desconfiados de que a festa é frívola e vai acabar. E de que a trama do destino prevalece sobre o momento. 
“É quase impossível que, entre duas músicas dançadas, a um canto do salão, os dois amigos não tenham falado, em voz baixa, sobre o poeta Manuel Bandeira. O lirismo bandeiriano era mais pressuroso, mais triste, mais verdadeiro e mais iluminado que o noturno festivo do Minas Tênis. Manuel ficava conosco. Só ele, o poeta, dava sentido à incoerência de estarmos ali no baile sem acreditar no baile, desajustados entre os pares, a não ser a própria mocidade. 
“Jamais os dois deploráveis dançarinos poderiam imaginar - e esse acanhamento da imaginação é outro lugar-comum do destino - que a trama aqui reuniria o poema, a voz e o despenteado. 
“De minha participação subalterna, Ricardo Cravo Albin é o culpado. Mas a culpa se redime pelo resto da iniciativa. Juntar Maria Lúcia Godoy, Manuel Bandeira,. Villa-Lobos, Mignone, Jaime Ovalle, Edino Krieger, Lorenzo Fernández, Guarnieri e Siqueira em um disco, que se pode guardar para sempre, é um ato simples e deslumbrante como um passe de mágica. Se não o fizeram antes é porque os mágicos são raros na civilização argentária. 
“Este é o disco mais completamente brasileiro que conheço: porque os temas, a linguagem, o ritmo e a emoção do poeta doem de tanta verdade brasileira; porque os compositores aqui reunidos são ainda os primeiros que romperam com a dependência estrangeira e exprimiram os timbres, as cadências, as sugestões instrumentais, as secretas combinações melódicas que nos falam e falam por nós; e porque a extraordinária Maria Lúcia Godoy, pela qualidade da voz, pela intuição interpretativa, é uma artista irreprimivelmente brasileira, graças a Deus. 
“Por isso mesmo, por sua brasilidade inconsútil, pode-se dizer, sem antinomia, pelo contrário, por um determinismo de criação artística: este disco pertence à música do mundo.
PAULO MENDES CAMPOS
========
NOTA QUE SEGUE ESTE TEXTO: “OS AGRADECIMENTOS DO MIS A MURILO MIRANDA, QUE, QUANDO SECRETÁRIO GERAL DO CONSELHO NACIONAL DE CULTURA DO MEC, TEVE A INICIATIVA DA GRAVAÇÃO DESTE DISCO PARA HOMENAGEAR OS 80 ANOS DO POETA MANUEL BANDEIRA. TAMBÉM SE ESTENDEM ESSES AGRADECIMENTOS A NILO SÉRGIO, DA MUSIDISC, QUE CEDEU O TAPE AO MIS. O LAY-OUT É DE JOSELITO. A GRAVAÇÃO FOI FEITA POR ARY PERDIGÃO NOS ESTÚDIOS DA MUSIDISC EM SETEMBRO DE 1966. A COORDENAÇÃO GERAL É DE RICARDO CRAVO ALBIN, DIRETOR DO MUSEU.”

Os poemas musicados:
01 - Dança do Martelo (Manuel Bandeira-Villa-Lobos)
02 - Modinha (Manuel Bandeira-Villa-Lobos)
03 - O Anjo da Guarda (Manuel Bandeira-Villa-Lobos)
04 - Azulão (Manuel Bandeira-Jayme Ovalle)
05 - Modinha (Manuel Bandeira-Jayme Ovalle)
06 - Dona Janaína (Manuel Bandeira-Francisco Mignone)
07 - Pousa a Mão na Minha Testa (Manuel Bandeira- Francisco Mignone)
08 - O Menino Dorme (Manuel Bandeira- Francisco Mignone)
09 - Impossível Carinho (Manuel Bandeira-Camargo Guarnieri)
10 - Canção do Mar (Manuel Bandeira - Lorenzo Fernandez)
11 - Madrigal (Manuel Bandeira-José Siqueira)
12 - Desafio (Manuel Bandeira-Edino Krieger)

Outros poemas de Manuel Bandeira musicados esparsamente:
4 poemas (Manuel Bandeira-Almeida Prado)
Balada dos reis (Manuel Bandeira-Dorival Caymmi)
Baladinha arcaica (Manuel Bandeira-Toninho Horta)
Belo Belo (Manuel Bandeira-Wagner Tiso)
Berimbau (Manuel Bandeira-Joyce)
Debussy (Manuel Bandeira-Villa-Lobos)
Desencanto (Manuel Bandeira-Francis Hime)
Irene no céu (Manuel Bandeira-Camargo Guarnieri)
Na rua do Sabão (Manuel Bandeira-José Siqueira)
O impossível carinho (Manuel Bandeira-Ivan Lins)
Portugal meu avozinho (Manuel Bandeira-Moraes Moreira)
Tema e voltas (Manuel Bandeira-Radamés Gnattali)
Testamento (Manuel Bandeira-Milton Nasimento)
Trem de ferro (Manuel Bandeira-Tom Jobim)
Trem de ferro (Manuel Bandeira-Vieira Brandão)
Versos escritos n’água (Manuel Bandeira-Dori Caymmi)
Vou-me embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira-Gilberto Gil)
Vou-me embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira-Paulo Diniz)