terça-feira, 5 de abril de 2011

ABGAR RENAULT - O ANJO CAÍDO


Quantas vezes já lemos os decretos que regem o fazer poesia e o quê o poeta pode ou não pode poetar. Quantas vezes o adjetivo foi execrado, os possessivos foram defenestrados, os plurais detonados, a própria pontuação, quantas excessivas exclamações foram para o cadafalso sem direito a defesa.

Sim, nós lemos e escrevemos porque herdamos de nascença uma língua das antigas, um vastíssimo dicionário, uma gramática e tentamos o trabalhar honrado dentro desse espectro.

Laboramos, claro, suamos um pouco, sorrimos ao dormir com nossa penúltima obra prima, nos envaidecemos com a lisonja, a palavra amiga de quem interpretou, embora de maneira diversa, nossa modesta confabulação com as musas.

Decerto isso tudo não é pouca coisa não. Mas aí vem a mais clássica das perguntas, que, extraída das cavernas lúgubres da inteligência, aflora à luz numa entrevista qualquer:

– O que é poesia?

O poeta treme. O poeta vacila. O poeta engole seco. E pensa em quantas e quantas centenas de milhares de definições estão por aí vagando pelo inter espaço! Na última vez que fiz essa pergunta ao Google veio o absurdo: Aproximadamente 6.480.000 resultados (0,12 segundos) e lá embaixo apareceu um Goooooooooogle de intermináveis ós... E depois os próprios poetas se acorrentam nas proposições ditas clássicas:

O poeta não deve se inspirar no próprio sofrimento.
O poeta deve refletir o sentimento do mundo.  
O poeta tem uma atitude específica diante do mundo que não é a do filósofo, nem a do cientista.
O poeta vive de descobertas e de espantos a cada momento.
O poeta não tem por objetivo explicar o mundo.
O poeta revela para as pessoas o seu espanto, o mistério e a beleza da vida.
O poeta mostra o que a vida tem de incompreensível, de transcendente, de inexplicável.
O poeta deve ter aquele grau de loucura bíblico, mas não necessariamente estar num grau de loucura.
A poesia não se entrega a quem sabe defini-la. 
O verdadeiro poeta não lê outros poetas: lê os pequenos anúncios dos jornais. 
O poeta não tem o ofício de narrar o que aconteceu e sim o que poderia acontecer.
O poeta traduz o que é possível, segundo a verossimilhança e a necessidade.
O poeta é mais fabulador que versificador, porque é poeta por imitação – imita ações.

Quando, porém, o poder do imponderável visita sua vida, o poeta se vê despido do manto de superioridade e se torna o homem comum que é. A vida é composta de pequenas tragédias, ninguém a elas está imune. Não existe uma vacina contra a tragédia nem contra o inexplicável que permeia sua existência.  Quando a tragédia ocorre naturalmente a vida desaba, o mundo desaba, a fé desaba, instala-se o caos cósmico – o poeta é um anjo caído.

Então, se ele pretende desvelar o trágico por suas próprias palavras, todas as teorias literárias e regras poéticas caem por terra. O poeta é agora um ser humano primitivo que canta as mazelas ao som de rude viola. É uma lavadeira que à beira do rio enfeita seu labor com versos que sua avó ensinou e que sua neta, agora, devora com ouvidos atentos. É um cantador cego que acompanha apenas com o martelar rítmico do pandeiro o canto rimado que vem da alma e só a ele alcança.

Assim ocorreu com o Mário de Andrade. A foice desta vez estava representada pela angústia, as mazelas, o próprio viver que a idade trava. Pois foi do fundo dessas questões freudianas que nasceu o Mário de Andrade sentimental da Lira Paulistana, mas, sobretudo, o poeta ser humano de A Meditação sobre o Tietê:

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na Rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.

O nariz guardem nos rosais
A língua no Alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão o que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
(Lira Paulistana)

**********

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
 – Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...

Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turrona paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
Para o peito dos sofrimentos dos homens.
...e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.
(Meditação sobre o Tietê)

Assim foi também com o poeta Ferreira Gullar, quando a febre do exílio atacou-lhe as vísceras, quando a perseguição implacável tirou-lhe o sossego, quando o cerco irrefreável da violência trouxe-lhe o medo. Quase o mesmo sentimento que décadas atrás havia ferido de morte o escritor Stefan Zweig: o exílio, a falta da pátria, a ausência de uma ilha – uma ilha que fosse! – atirou o sentir do poeta nas páginas de Na vertigem do dia e, principalmente, do Poema Sujo:

Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração dos outros homens.
(Na vertigem do dia)

**********

Na Rua do Sol me cego,
na Rua da Paz me revolto
na do Comércio me nego
mas na das Hortas floresço:
na dos Prazeres soluço
na da Palma me conheço
(...)
Acordo na zona. O dia ladra, navega
         enfunado e azul (...)
(Poema Sujo)

Não dizem que toda regra tem exceção? Pois a exceção para este noturno chama-se Carlos Drummond de Andrade. Se houve um ataque à percepção onírica do ser poeta, isso ocorreu com a frialdade corpórea e sentimental que sempre acompanhou o poeta de Itabira. O poeta preparou-se para a morte com a frieza de um papa-defuntos. Drummond viveu uma existência literária premeditada e desde cedo tirou o corpo fora das ranhuras da comoção. Mas o fato ocorreu e foi na própria carne, na própria existência, que Carlos Drummond de Andrade escreveu o seu último poema. Mas o que escreveu o poeta ante a trágica desaparição de sua filha queridíssima Maria Julieta? Nada, nenhum poema! Simplesmente morreu! É provável que haja repetido o monólogo que teve consigo mesmo por noventa e tantos anos de vida...

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
(Mãos dadas)

Com Abgar Renault a tragédia o visitou em forma de notícia. Veio de longe, mas atacou o lado mais íntimo do poeta. Como uma enxurrada incontrolável arrasou a imaginada fortaleza, mas só imaginada porque se estraçalhou rápida e fulminante. Se a covardia diante do fato abateu o ser humano tribal, o mesmo não aconteceu ao poeta. O homem ruiu, a vida se transformou em cacos de vidro, mas o poeta não refugou a verdade nem se escondeu da violência, da fatalidade. Nem censurou a voz da alma, quando ela derramou lágrimas em forma de poesia: verso de poeta gente, lavra de poeta homem, oração de poeta pai.

Isso se deu no livro A outra face da lua, quando, escondidos nas últimas páginas, aglomerou cinco poemas aos quais deu o título A lápide sob a lua, onde se desvenda o poeta o mais humano possível.

NO ALTO DA MONTANHA

Já não sinto saudade de mais nada,
a não ser do começo da escalada,
quando o azul era azul de azul sem fim
e Deus criava de novo o mundo em mim.
(A outra face da lua)

A LÁPIDE SOB A LUA

TOMBO, SENHOR, SUBMISSO, MAS INCONFORMADO NA DESESPERANÇA
E NÃO TE RECONHEÇO NA CRUEL DESNECESSIDADE DA TUA LANÇA.

FILHO MORTO

Vejo o corpo morto da tua mocidade
dormindo sem sono a sua construção de ossos e músculos.
Estás ferido, e dóis, deves doer, e nem te queixas e não choras,
e nunca dirás o que sentiste
quando sobre a tua frágil cabeça de menino e deus
a vida desabou.

Estás imóvel, frio e sozinho, com os teus olhos sem olhar,
a tua palavra muda, os teus dentes sem rico;
mas nós conversamos, comemos, dormimos,
o nosso corpo exige abrigo contra o frio,
e usamos pesadas lãs.

Olho o azul infenso, o ouro falso do sol,
ouço perto os pássaros da vida a encher o claro céu de cores,
e penso na roxidão das tuas unhas
e na tristeza das tuas roupas derradeiras.
Estou aqui o mesmo entre imagens, luzes, relógios, cravos, pessoas,
mas não és mais tu; és apenas o teu corpo indiferente,
a tua boca que não ri, os teus pés que não caminham,
as tuas mãos que não oferecem,
e insone para sempre dormirás.
Fulgura o dia sem nuvens. Há risos na amplidão,
mas continuas imóvel, sozinho e cheio de frio.

O que eu choro na tua ausência
não é a rosa do teu corpo jovem, abatido na haste,
nem a tua alegria, que não mais verei:
doem-me os teus frutos, que, ao caíres, esmagaste sob ti;
amarga-me o quinhão de tempo e flor
arrebatado às tuas mãos de vida.

Ai! o colete que pela primeira, única vez usaste!
Ai! o teu terno novo e triste!
Como ficaram amargos os meus dedos entre os teus cabelos ainda vivos
 – pálido consolo...

Lembro a verruga da tua nuca,
as unhas rentes nas mãos generosas,
o largo riso dos teus dentes brancos,
os coloridos papagaios de papel que inventei para o sem-limite do teu céu;
lembro-me outrora e esqueço-te morto,
mas abro a janela do meu quarto,
entra por ela a vida, e em seu clarão me firo;
tão inútil e desnecessário o teu destroço!
e vejo o teu dia breve e tempestuoso,
teu excessivo, teu imperfeito sol,
a rua fulgurante e breve em que esvaíste
tão antes da tarde o teu ardente girassol,
e contemplo – já sem ti a minha vida –
este coração – esta rua chovida e sem pássaros.

Vou calar-me e fingir que eu sou eu,
mas, se virem um homem chorando sem pejo,
será ele, o pai do moço, do menino, do meninozinho,
que o fortuito matou na reta da estrada, à toa...

Triste vento soletra a solidão,
e triste vento lê teu surdo nome,
e dentro da noite de tristes árvores insones
finjo que não ouço e adormeço,
ó triste viajante horizontal,
como se não soubesse o triste número
da tua triste casa e quanto ele dói
na brancura silenciosa da última cidade.

ESTRAMBOTE DO MORTO VIVO

Ah! de todas as vezes que morri
sempre restou a máscara e uma pétala,
e fingi o meu som de vida viva,
e pude arder sobre raízes frias.

Agora, morro derradeiramente:
não ficou dos pretextos de ficar
nem vago fio ou sombra ou voz ou letra,
e escuto sobre o túnel, sob a treva,

cair o solo e o seu silêncio turvo:
não tenho olhar, nem fronte, nem perfil,
e aço de espelho algum me refletira.

Quem destruiu a luz e no seu vácuo,
fora do céu, deixou, por só lembrança,
minuto mutilado antes do voo,

viúvo gesto de gelo em mãos de goivo?

ELEGIA

Cada momento do meu coração
bebe a memória do teu morto nome,
e este meu resto, em fuga, se consome
entre musgos de cinza e escuridão;

nem a memória só do morto nome,
mas o calado rosto, a inútil Mao,
a voz, o peito, a prematura fome
de vida no menino (e homem) de então.

Meu lembrar-te, buscando sem onde,
caminha, a amargamente sobe a rua
e o seu silêncio pálido de cal.

Sobe, e deixa, na pedra que te esconde,
entre apagada flor e antiga lua,
póstumo olhar sem tempo, de água e sal.

CHÃO MORTO

Se essa orfandade, essa privação de tudo, esse escuro exercício do nada
ao menos rebentassem num verso nu, esguio, sujo de terra,
– raiz arrancada em convulso estremecimento,
Não da gelada lucidez do pensamento,
Mas da viva carne da aflição, –
ainda houvera similitude de consolação,
e a cegueira fora-me outro modo de enxergar.

Mas não. A falta de luz na alma e no olhar,
a perda de tudo (de um tudo que não é meu), menos o
[náufrago vivo sempre e para sempre frio,
E tudo apenas isto, este acontecimento que estala os ossos.
Ou estas palavras: sal, areia, surda pedra, geladas lavas
em que não nasce fonte, avaro fruto, espinho amargo.

O escuro, o ralo sol, o sufocamento no vácuo triste,
a forma bem morta, a forma disforme no livro, na carta, no peito largo,
no assoalho, na rua, na lâmpada, na mesa.
Forma que não é forma, nem feiúra nem beleza,
água que não matará nenhuma sede, chão que nada enterra,
estacado pensamento, gesto cortado no braço que o fazia,
obrigatório sono dentro do leito perpétuo e frio.

SAUDADE

Por tua casa pálida e noturna
hoje passei, terrestre, sem parar;
na límpida corola da manhã
aberto sol, que ria ao mar e ao céu,
cegou-me o peito, e a minha dor cansada
doeu-me como doeu e hora primeira
da tua ausência eterna – e nunca ausente.
Mais do que a sombra do teu vulto, vi
o claro outrora do teu riso largo
e a infância-às-vezes dos teus olhos bons,
e no silêncio da atmosfera lúcida
o longe ouvi da tua voz perdida;
outras manhãs desabrocharam no ar,
e os meus amargos olhos também o viram
a tua mão sem cor, num gesto imóvel,
que as fez murchar, sem sol e sem azul,
num jardim cujas flores eram sinos
lançando ao vento músicas de cinza;
e vi no triste mármore de fontes
o cristalino cântico das águas
petrificar-se num escuro gelo;
contemplei-te menino, homem e criança,
e de novo te vi, amargamente,
na manhã morta, de arroxeados sóis,
nem homem, nem menino, nem criança
dormindo, sem dormir, um sono morto
e rodeado de luzes e de vésperas;
teu íntimo calvário, a cruz precoce,
tão mais de ferro que teus ombros e ossos,
teu arco-íris de cravos e de goivos,
teu céu infante entre os teus dedos de homem,
tua fulguração profunda e rápida,
o ardente leque de culminações
imensamente aberto antes do tempo,
chama partida e vã, fogoso fruto
colhido quando ainda sonho verde...

Terrestre, sem parar, hoje passei
por tua casa silenciosa e pálida.
(A lápide sob a lua)

Postar um comentário