sexta-feira, 17 de junho de 2011

Hermann Hesse - A alegria de viver...


Hermann Hesse – Pequenas Alegrias – Tradução e orelha de Lya Luft – Ed. Civilização Brasileira

Talvez em nenhum livro, como neste Pequenas Alegrias, se possa observar, acompanhar e compreender tão bem a evolução do espírito desse escritor, considerado nos meios literários alemães como o maior estilista do idioma depois de Goethe.

Começando com reflexões de juventude, aos 22 anos, argumentando sobre a arte de viver em tempos modernos, de apreciar os pequenos prazeres da vida, o livro termina com melancólicas considerações do homem idoso e solitário de 83 anos. Mas o ancião ainda não perdera o senso de beleza: mais do que uma posição estética, é uma profunda filosofia de vida.

Suas descrições entusiásticas das paisagens suíças, que tanto amou, revelam o seu fervor juvenil. Mais tarde, essas descrições se tornarão mais sóbrias, ainda belas, mas com o vigoroso peso da melancolia. A capacidade de descrever que Hesse coloca, tanto na paisagem imponente, como em tênue asa da borboleta, não se contenta, com a mera fruição das cores e formas: indica sempre para além, para as relações da alma com a Natureza e o Mundo – que para Hesse está simbolizada nas coisas objetos.

Um filósofo do belo e do vital, apologista da simplicidade franciscana, do franciscano respeito pela coisa viva, Hermann Hesse – inspirador de várias correntes do pensamento jovem – hoje procura um retorno ao natural, ao que é autêntico, ao singelo e puro, numa sociedade ameaçada pela tortura, pela máquina, pela tecnologia, às quais ele se opôs em seus escritos, na vida, com a força da alma, do coração e da mente.

Roteiro de leitura para seus leitores de jornal, reflexões sobre a cultura oriental e ocidental, as semelhanças e diferenças, comentários sobre autores como André Gide, Franz Kafka, argutas considerações sobre Romantismo e Classicismo, lembranças de infância e juventude... Nada disso, contudo, é gratuito, eventual, casual, tudo gira em torno do eixo fundamental de sua personalidade, filosofia e arte – a valorização da vida, enquanto somos espreitados pela morte. 

A mudança para Montagnola (ou talvez devido ao violento ataque da paisagem dos Alpes), despertou nele o pleno gozo da liberdade intelectual. Foi nesse momento que Hermann Hesse resolveu se dedicar ao que seria a segunda paixão: a pintura. Além do óleo sobre tela, ele optou por dedicar-se à aquarela, vez por outra ao desenho. Hoje o Museu Hermann Hesse possui uma bela e original coleção dessas obras da arte reflexiva. Esse choque de cunho emotivo, que ele sofreu do ambiente natural, trouxe também a paz interior, tão necessária ao seu trabalho e estendeu sua influência ao texto do escritor.

Nesta coleção de artigos, de crônicas e outros escritos diversos, muitas vezes o leitor se depara, entremeados ao tema principal, excertos descritivos do ambiente, pedaços recortados da paisagem, absorvidos exatamente nos locais aonde Hermann Hesse descortina o tema que vai inspirar os desenhos, as pinturas, as aquarelas. Como não poderia deixar de ser, ao chegar à sua casa e sentar na escrivaninha, ocorre o oposto: agora cabe ao observador descrever nas palavras, frases e letras todas as cores, todas as emoções que captou na natureza e exprimiu em cores e matizes. É nesse exato momento quando o que está gravado na tela interfere na escrita.  

Também é notável constatar como o escritor se rende ao pintor no embate que trava com as cores. A mesma batalha árdua que a palavra trava com o escritor, desta vez fere o artista, seja na tentativa – muitas vezes alcançada, poucas vezes frustrada – de criar na palheta a exata confirmação do que a natureza oferece a seu olhar. A luta se estende na busca do matiz exato, na pesquisa da tessitura, no contraste entre a natureza e a imitação. É natural que obstáculos surjam outras vezes ao artista, por exemplo, quando tenta reproduzir uma profundidade cromática da paisagem que à vista se expande, recriando a perspectiva exata do espaço que o cerca.

Às vezes o pintor Hesse se rende à impossibilidade, abatido ele recolhe os trastes, limpa a palheta, frustrado, dando voz e reconhecimento à limitação humana. Houve, sim, o combate entre o homem, a arte e a natureza. Ambos travaram um esforço no rumo do diálogo e do entendimento. Todos buscaram o eldorado da perfeita harmonia que a vida tanto exige. No espaço circundante as cores se mostraram belas, o olhar captou o que a mágica natureza lhe ofereceu, o que seria um convite, o desafio para o registro, para a fixação daquele tempo, que em breve se desmancharia no espaço, mudaria na percepção. Houve a preparação intelectual do artista, consciente de sua qualidade, eficiente em sua fé comprometida, mas havia um degrau no caminho.

Quando algo assim intransponível surge no ato da criação, sobrevém uma luta interior e solitária e devastadora. Muitos artistas perecem nessa travessia, por isso é necessário ser capaz de prostrar-se ante o inevitável e ter uma humildade religiosa para reconhecer as limitações do humano. Ao longo de toda a sua vida Hermann Hesse se viu diante desse obstáculo que é invisível ao olhar comum. Mais do que muitos de seus contemporâneos, talentosos, instigantes, raçudos, foi ele quem conseguiu, com dignidade, superar essas dificuldades, caminhando com altivez rumo ao bom senso. Uma grande quantidade de escritores desse século miraculoso para a arte se rendeu, ajoelhou-se, subjugado ante a inoperância do mundo em compreendê-lo e a sua capacidade de ser compreendido. Por outro lado, foi também Hermann Hess quem conseguiu arregimentar numa  só voz, o sentimento, a palavra, o pensamento – tudo o que pudesse dar suporte às suas idéias – em busca de soluções de harmonia e paz para todos nós.

“Pátria é algo que não existe. Mes­mo em casa, entre os seus, o senhor muitas vezes voltará a ter essa sensação de estar desenraizado, que conheceu aqui. A pá­tria dum homem é sempre onde ele trabalha e realiza coisas importantes, sem isso não se sente bem em nenhum lugar. É onde realiza algo de bom, o faz por amor mesmo se pensa que está trabalhando pela família ou pela nação, tudo isso são ilusões. O que fazemos, fazemos pelas pessoas, e nossa recom­pensa está no fato de que muitas vezes o trabalho nos dá pra­zer. Nós, nós homens que realizamos algo, somos todos cole­gas e irmãos, no mundo inteiro. Se, como espero, o senhor for um bom escritor, seus irmãos são todos aqueles que em algum lugar, em algum tempo, trabalharam no mesmo ofício, na espiritualização do homem, ou como quer que o chame. Enquanto o senhor participar dessa comunidade, terá uma pá­tria. Mas se sair dessa comunidade, será um exilado ainda que presida o parlamento do seu país.” (Memórias de uma viagem)

Após a morte de Hermann Hesse os responsáveis pelo seu espólio tiveram o cuidado de conservar todos os seus papéis com o mesmo carinho com que as crianças protegem as pequenas sementeiras que trazem da escola. Após uma catalogação cuidadosa, descobriram escritos inéditos junto daqueles que tinham sido publicados em jornais e revistas literárias. Essa colaboração esparsa é comum a todos os escritores, que sabem da sua curta existência, medida por uma leitura cotidiana que logo passa para o esquecimento. Trata-se de crônicas, artigos, pequenos ensaios, textos curtos, discursos e conferências.

Esse tipo de trabalho literário se distingue de quase tudo porque ao escrevê-lo o autor não tem a mesma preocupação estética, técnica e ética que trazem o romance, a novela, o conto. E nele se trata de tudo, inclusive do amor...

“Logo, feliz é aquele que sabe amar muito. Mas amar e desejar não são a mesma coisa. O amor é desejo tornado sábio; o amor não quer possuir; quer apenas amar. Por isso foi feliz o filósofo que embalou seu amor pelo mundo numa rede de pensamentos, e que constantemente envol­veu o mundo na rede do seu amor. Mas eu não era um filósofo. E nos caminhos da moral ou da virtude eu também não podia ser feliz. Sabia que só pode nos fazer felizes a virtude que sinto em mim mesmo, que eu próprio descubro e cultivo – como então poderia querer apossar-me de alguma virtude alheia? Mas reconheci que o mandamento do amor, não im­porta se foi dado por Jesus ou por Goethe, é inteiramente igno­rado pelo mundo. E nem ao menos foi um mandamento. Nem há mandamentos. Mandamentos são verdades que aquele que as reconheceu transmite ao que não as percebeu ainda. Man­damentos são verdades erroneamente concebidas. O fundo de toda a sabedoria é: a felicidade só vem pelo amor. Se eu digo "ama ao próximo!" Isso já é um ensinamento falseado. Talvez fosse muito melhor dizer: "Ama a ti mesmo como ao teu pró­ximo." Talvez o erro original tenha sido exatamente querermos começar com o próximo...

“De qualquer maneira: o mais íntimo de nós deseja a felici­dade, deseja uma união benfazeja com tudo o que está fora de nós. Essa harmonia é perturbada quando nosso relaciona-mento com qualquer coisa é algo diferente do amor. Não há um dever do amor, há apenas um dever de ser feliz. Só para isso é que estamos no mundo. E com todos os deveres e moral  e mandamentos, raramente nos fazemos felizes uns aos outros, porque não nos fazemos felizes a nós mesmos. Quando o ho­mem consegue ser "bom", só pode fazer isso porque é feliz, porque tem harmonia dentro de si. Logo, quando ama. E a desgraça no mundo, e a infelicidade em mim mesmo, provinha de que o amor estava perturbado. Desse ponto de vista de repente as frases do Novo Testamento se me tornaram verdadeiras, e profundas. "Se não vos tornardes como as crian­ças", ou "O reino dos céus está dentro de vós". Esse era o ensinamento, o único ensinamento no mundo. Isso disse Jesus, e disse Buda, e disse Hegel, cada um na sua teologia. Para cada um deles, o mais importante na vida é o seu próprio interior, a sua alma, a sua capacidade de amar. Se isso está em ordem, ele pode comer painço ou bolos, usar trapos ou jóias, mas se o mundo está em harmonia pura com a alma, tudo está bem, tudo está em ordem.” (Do diário de Martim)

Esse escrevinhar livre, sem as amarras conceituais, dá ao texto a exata leveza, que até mesmo as descrições trágicas se tornam amenas e pesam menos na consciência do leitor. Não é sem motivo, pois, que os editores escolheram para título do livro, um texto quase inaugural da obra de Hermann Hesse: a crônica “As pequenas alegrias”, que se encerra com as seguintes palavras:

“Cada dia experimentar tanto quanto possível de pequenas alegrias e distribuir os prazeres mais extenuantes, maiores, parcimoniosamente pelos dias de feriado e pelas horas livres, é o que eu gostaria de aconselhar a qualquer pessoa que sofre de falta de tempo e de algum desgosto. Para nos recuperarmos de qualquer coisa, especialmente para alívio diário, foram-nos dadas as pequenas alegrias e não as grandes”.

Para nós leitores, a publicação desse farto material de autoria de Hermann Hesse, cada página, cada descrição do tempo, cada frase, cada relato, cada  fato e as coisas aparentemente sem relevância, como os pequenos presentes, as muitas lembranças, a correspondência, sim, é uma ruma de pequenas alegrias, que nos faz suspirar ou tremer, quando atacados pela emoção.

“Por fim voltei-me com prazer a um an­tigo livro, Anos de Peregrinação pela Itália, de Gregorovius, que a editora Jess, em Dresden, reeditou em formato manuseá­vel, e no qual procurei de novo meus trechos prediletos. Não inteiramente livre dum certo espírito professoral, essa grande obra é ainda assim uma obra-prima de erudição e arte descri­tiva, no período florescente da ciência alemã.

“Entrementes, livros desempenham um papel pequeno na mi­nha vida agora. É mais importante saber se o sol brilha de manhã, se o estado das minhas pernas me permite um mais extenso passeio na floresta, se a bela e jovem senhora do pri­meiro andar aparece ou não para o jantar. Mais importante e o rumor das murchas folhas de plátanos na vereda do rio, e a sensação de respeito diante dessas imensas árvores, debaixo das quais já há muitos dias se varrem em montes enormes as folhas caídas, enquanto lá em cima as copas ainda estão densas e ver­des ao vento, lançando sombras redondas e compactas. Impor­tante é a triste visão dos canteiros de flor, mortos depois da primeira geada prematura, o brinquedo dos esquilos nos tron­cos das faias no mato, e o reencontro com alguns hóspedes an­tigos da estação de banhos, que já encontrei duas ou três vezes aqui em outras estadias. Alguns eu conheço e falo com eles, outros conheço apenas de vista, e também eles têm muito a me dizer, especialmente uma estranha, ainda jovem, que é trazida nas horas das refeições numa cadeira, geralmente deitada, doen­te e paralisada, mas às vezes ouço-a rir tão alegremente, com sua enfermeira, que sinto estar aprendendo coisas importantes. Importantes são também os sonhos que me visitam à noite, dos quais pouco resta pela manhã. Mas sempre fica em mim, res­soando deles, a lembrança dum sublime, escuro reino das nos­sas almas; onde se realizam, despercebidos e ignorados, mila­gres muito mais ousados e luminosos do que no terreno da nos­sa razão ou dos instintos.”

Hermann Hesse também pintava e desenhava e talvez por essa razão escolhesse o pequeno povoado de Montagnola, na Suíça, para passar o resto da sua vida. Tendo a pintura como segunda opção artística, é natural que nos textos o escritor se visse tomado de emoção ao caminhar por entre a paisagem alpina.

“Neste ano o alto-verão não parece ter um fim tão selvagem e dramático (embora seja possível). Parece dessa vez que­rer morrer lentamente, na suave morte da velhice. Nada é tão característico nesses dias, em nenhum outro sinal percebo essa espécie infinitamente bela de fim de verão, como ao voltar para casa depois dum passeio ou duma refeição da tarde no cam­po: pão, queijo e vinho numa clareira de mato cheia de sombras. O singular nesses fins de tarde é a diluição do calor, o silencioso e lento aumentar do frio, o sereno da noite e a quie­ta e infinitamente maleável dissolução do verão. Essa luta se faz sentir em milhares de ondas sutis, quando depois do pôr-do-sol se passeia por duas ou três horas ainda. Em todos os pon­tos mais densos da mata, em cada arbusto, em cada desfila­deiro, ainda está agachado o calor do dia, prende-se à vida por toda a noite, obstinado, procura os despenhadeiros e lugares protegidos do vento. No lado noturno das colinas a essa hora as matas estão cheias de concentrações de calor, roídas por todos os lados pelo frio noturno, e cada depressão do terreno, cada leito de regato, cada ponto mais denso de árvores, manifesta ao observador atento com absoluta nitidez essa gradação decres­cente do calor. Bem como o esquiador ao passar por uma pai­sagem de montanha percebe pelos sentidos nos joelhos flexí­veis toda a formação do terreno, depressões e montículos, toda a estrutura das montanhas, de modo que, treinado, pode ler a paisagem pela sensação nos joelhos, assim eu leio ali, na mais profunda escuridão da noite sem lua, os traços da paisagem por essas suaves ondas de calor. Entro numa floresta, depois de três passos sinto essa torrente de calor que aumenta depressa como um forno ardente, percebo que esse calor cresce e diminui; cada leito vazio de regato, que há muito não tem mais água, mas conservou na terra um resto de umidade, anuncia-se por uma irradiação de frescor. A cada estação do ano as temperaturas de diversos pontos dum terreno são diferentes, mas só nesses dias de transição do alto verão para o começo do outono a gen­te os percebe com tanta nitidez. Como no inverno o vermelho rosado das montanhas calvas, como na primavera a exu­berante umidade de ar e plantas se desenvolvendo, como no início do verão os bandos noturnos dos vagalumes, assim faz parte do fim cio verão essa mudança noturna e singular através das alternadas ondas de calor, como uma das experiências mais sensuais, com o mais intenso efeito sobre o espírito e o sentimento de vida.”

Com o tempo Hermann Hesse vai se tornando um natural de Montagnola, lugar que escolheu como residência definitiva. Seguia sem dúvida o jargão filosófico que botou na boca de um personagem (que está como citação no início deste texto). Tua pátria é o lugar que te acolhe. E a cada dia se torna mais íntimo da natureza do lugar. Na verdade é o escritor que quer se transformar em mato, em natureza e se incorporar à atmosfera que perpassa pelas montanhas. Ali é a sua estância onde acordará, onde adoecerá, onde encontrará a cura para todos os males.

“Lentos passam os dias quando se está doente e sozinho. Como sempre, no outono deixei minha casa no campo e ocupei meu pequeno apartamento de inverno na cidade, um silencioso quarto de solteirão no meio da cidade, mas tranqüilo, com a vista sobre velhas árvores, um canal de águas verdes e quie­tas, uma pontezinha e um jardim em cujos pequenos gramados as roseiras cobertas de ramos de pinheiro pareciam diminutos ciprestes. É uma paisagem singularmente bela para uma casa da cidade – a vida toda morei em lugares extraordinariamente belos –  mas essa visão não me bastava para as doze horas do dia. Um canal não é o mar, roseiras são mais bonitas quando têm folhas e da sua flexível ramagem estival brotam os botões firmes, e as rosas de delicado aroma pendem macias e soltas. Por vezes alguém me visita, mas não todos os dias. Às vezes esqueço o tempo cultivando alguma lembrança ou fazendo ver­sos, e durante algumas horas me entretenho no além, no atem­poral. Mas sempre acabo voltando para este lado, para o tem­po, a cidade, o quartinho, o inverno, a doença e a solidão. Contudo, há coisas que consolam. Além de alguns livros que tenho quase sempre na cama ou no peitoril da janela (Jean Paul, um volume de Goethe, um de Heródoto ou Plutarco, uma parte da Bíblia), há também alguns novos por ali, que contem­plo vez por outra, com os quais procuro estabelecer amizade. Às vezes consigo isso e o livro vai para a minha biblioteca, e também mais tarde será tomado nas mãos algumas vezes. Po­rém, mais freqüentemente não consigo, então o livro some de novo, eu o dou de presente, esqueço-o depressa. Milhares de livros foram assim lidos e esquecidos na minha vida. Se não fosse o esquecimento, a mais necessária das nossas capacidades, minha cabeça pareceria uma livraria; mas não é assim, pois estou treinado em esquecer.” (Entardecer tranqüilo)

Hermann Hesse era escritor e monge. Monge com os pés no chão e a mente colocada no mais alto lugar que pudesse alcançar. No entanto as guerras que enfrentou, sem que deixasse abalar a sua fé na humanidade, o tornou cético a muitas belezas escondidas, aparentes. Para ele, a beleza se encontra em seu estado natural, mas de vez em quando se encarna no rosto de uma bela mulher. O homem namora a realidade e a mentira, a verdade das cores, das luzes, dos céus e a mentira dos sons, das sensações, do discurso enganoso... Eis o mistério que ele conta transpor para sua pintura:

“E eu luto com as ervas, esboços sombras nos troncos, ale­gro-me com os grossos troncos retorcidos, e com o secreto portãozinho de lenda, que entre dois postes de pedra leva ao reino dos duendes no interior da montanha. Reproduzir a profun­da escuridão dessa garganta com meu lápis na folha branca era a minha maior diversão. E quando ergui os olhos dos meus rabiscos, assustei-me, pois subitamente o quadro todo mudara: o portão de sarrafos estava aberto, a luz duma vela brilhava quente e singular na trevosa profundidade da caverna, alguém soprou a luz, e da garganta de pedra saiu um homem grande e magro. Eu não sabia a quem pertencia aquele velho portão nas rochas, que já desenhara várias vezes. E agora fiquei sabendo: era o velho "tio Mário", de Montagnola, que vinha subindo das profunde­zas da terra – e ainda antes que ele fechasse o portãozinho atrás de si, viu e reconheceu-me, pôs o dedo no chapéu de feltro e me saudou com a cordialidade que ainda faz do rela­cionamento de vizinhos idosos no Tessin uma cerimônia amá­vel e estimulante. Seu rosto moreno e ossudo sorria cordial-mente, e me indagou cortesmente pelo meu trabalho, mas sem se aproximar ou espiar minha folha. Essa maneira discreta, natural numa geração atrás, em todos os países românicos, e hoje ainda encontradiça não raro entre franceses, sobrevive aqui entre os mais velhos, e faz parte daquelas coisas que tor­nam a vida no sul mais fácil e alegre. Se depois da nossa bre­ve saudação eu me tivesse novamente curvado sobre meu papel, continuando a desenhar, ele não teria dito mais nenhuma pala­vra, respeitando meu trabalho. Mas levantei-me, dirigi-me até ele dei-lhe a mão, perguntei pelas uvas, pelas cabras, e sabia muito bem que, tão perto da sua adega, me convidaria para um copo de vinho, o que realmente fez com a maior cordialidade. Agradeci e expliquei-lhe que não podia tomar vinho pela manhã ou durante o trabalho, mas que gostaria muito de dar uma olhada na sua adega. Descemos pelos degraus arredondados pelo muito uso, o portão e a garganta escura abriram-se diante de mim, o velho estendeu a mão nas trevas e num passe de mágica arranjou um fósforo, acendeu a vela e com orgulho me mostrou a adega abobadada, bem construída, com vários nichos laterais semelhantes a pequenas capelas. O corredor principal entrava uns trinta metros pela montanha adentro, suas paredes eram impecáveis, mais atrás cessava o trabalho do homem e o corredor perdia-se em areia e cascalho nas profundezas. Elogiei as paredes bem construídas, e o frescor do ambiente, e como não aceitasse seu repetido convite para tomar vinho, regressamos lentamente à luz da pequena vela e saímos do fundo da terra de volta à dourada e quente luz da manhã. E ficamos mais algum tempo ali parados conversando.” (Meu vizinho Mário)

Honra e glória, pois, ao escritor, ao pintor, ao humanista Hermann Hesse!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Fátima (Heroína) Barbosa, por William Costa


Observando as folhas secas desprendendo-se e caindo, uma após a outra, em espiral, das velhas castanholeiras que dão sombra e beleza ao “pátio” interno da sede deste jornal, vislumbro a verdejante sebe que renascerá dos galhos que, em breve, estarão nus, e imagino como seria interessante que, tal fenômeno, também se repetisse entre nós, humanos; seríamos as frondosas árvores germinadas no húmus espiritual dos nossos antepassados.

Como sempre gostei de metáforas e adjetivos, na contracorrente das lições gracilianas, penso também nesta vida exterior e mundana como uma jornada, claro que não do céu à terra, como fazem as folhas, mas horizontal e marítima, todos tripulantes de um mesmo barco, rebelando-se, uns, contra o inevitável destino, e, por isso mesmo, destilando ódios, e outros adotando as antigas virtudes, para tornar menos cruel e mais alegre a fatídica viagem.

Conscientes da condição de condenados em que vivemos neste oceano a que fomos misteriosamente atirados, não nos restaria, talvez, outra opção, para evitarmos o completo naufrágio, a não ser buscarmos, juntos, as rotas alternativas, perpendiculares e sagradas, e doarmos nosso amor e nossas energias em prol de toda a tripulação, o que se daria de diversos modos, desde segurar com mãos fortes o timão, até a limpeza do convés.

E é assim que agem algumas pessoas, procurando ajudar e não, atrapalhar, com seus estúpidos egoísmos, um cruzeiro forçado e, por vezes, obscuro, mas repleto de maravilhas, tanto no céu, como na terra e no mar – bastando, para vê-las, ter não apenas os olhos, mas as mentes e os corações despertos. Digo isso pensando em Fátima Barbosa, paraibana de Sapé, radicada no Rio de Janeiro, porto momentâneo do seu velejar.

Fátima nasceu menina pobre, em Sapé, filha de uma costureira e de um grão-vizir local, que a rejeitou e dela quis esquecer. Da mãe recebeu amor e poderosas lições de vida, transformando-os em sua bússola existencial. Do pai, postumamente, exigiu, apenas, o reconhecimento da paternidade, finalmente adquirida, por decisão judicial. Não a interessavam bens materiais, mas a dignidade, visando o resgate moral do nome da família.

Para o Rio, Fátima foi, viu e venceu. Estudou línguas e especializou-se em revisão de textos, galgando, pela força de vontade, as funções inerentes à profissão que, com ética e competência, abraçou, até conquistar, por mérito, um dos cargos mais importantes da casa editorial carioca: a Gerência de Revisão. Hoje, milhares de livros espalhados pelo Brasil e pelo exterior são, também, frutos do seu trabalho. E se as obras de arte são eternas, ela é imortal.

Em sua caminhada, Fátima fez muitos, muitos amigos, principalmente escritores. A muitos deles fui apresentado por ela, e deles também me tornei amigo, uma honra e um privilégio indescritíveis. Devemos a ela, eu e Analice Pereira, parte considerável do nosso sucesso como coordenadores de Literatura da Fundação Espaço Cultural da Paraíba. Cito, a título de exemplo, Marco Lucchesi, Antônio Torres e Domingos Meirelles.

Desculpem-me a falta de modéstia, mas ouvir de Antônio Torres a confissão de que veio à Paraíba só para me conhecer, não é um fato trivial. Ser citado por Domingos Meirelles como um dos colaboradores de sua obra, também me enche de orgulho. E o que dizer de Marco Lucchesi, admirador incondicional do meu ainda incipiente texto poético-jornalístico? São troféus que me foram ofertados por obra e graça de Fátima, e a ela sou imensamente agradecido.

Rezo por Fátima e peço ao Deus de nossa tradição judaico-cristã e aos deuses pagãos em quem confio que a livrem das dores físicas, que a mantenham entre nós, curada, por um tempo prolongado, iluminem o seu espírito, tornando leve a sua jornada, para que nós, amigos e tripulantes da nave em que todos nos encontramos, prossigamos - crentes, amorosos e fraternos - empenhados não na busca, mas na construção da tão sonhada ilha da paz.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Isabel Allende: conversas com Paula


Isabel Allende – A soma dos dias – Editora Bertrand Brasil – Rio de Janeiro 2009 – Trad. Ernani Ssó

Estava eu lendo o livro Fazes-me falta, da escritora portuguesa Inês Pedrosa, já em adiantado espírito de chateação e estresse (vide o blog anterior sobre o livro), quando minha irmã me emprestou este A soma dos dias, da chilena Isabel Allende. Fazes-me falta me levou, sim, à chateação máxima, porque o livro de Inês Pedrosa foi publicado no Brasil em português lusitano, não sei se por exigência da escritora, ou resultado de uma imitação burra da atitude burra de seu conterrâneo José Saramago. Enfim, sou muito capaz de ler um texto escrito em espanhol, mas não sabia que traz um estresse imensamente maior ler um livro em português lusitano. Por isso, não leio mais – e pronto!
        
Neste A soma dos dias, Isabel Allende retoma o diálogo imaginário que manteve com sua filha Paula e resultou no livro de igual título. Com a publicação de Paula, Isabel Allende provocou uma reação brutal e sem precedentes na história da literatura contemporânea. Uma avalanche de cartas, artigos, visitas e manifestações de diversos matizes, explodiram de repente. O volume de correspondência foi tão grande que acabou por resultar em outro volume, Cartas a Paula, uma coleção representativa dessa correspondência. Esse movimento nunca acaba e se mantém vivo até hoje representado por milhares de cartas que chegam pelo correio, pelo grande volume de e-mail enviado à escritora e pelas manifestações pessoais que recebe.
        
Essas memórias são, pois, ainda uma conseqüência daquela tragédia visceral que abalou a vida da escritora em 1996. Ao dirigir a conversação para a memória de Paula, Isabel Allende expõe a vida que se seguiu a partir daquela data. Só que desta vez, estando a alma já em repouso, o texto flui de modo menos agressivo, mais terno e mais pensado. Agora trata-se de falar de pessoas vivas, de exteriorizar fatos muito recentes, de tentar resolver incompreensões, de expor dramas familiares. Trata-se de mostrar os problemas (que atingem também a população familiar periférica) e chegar às soluções de um modo sereno, que não agrida a ninguém.
        
Sob a fórmula de memórias, Isabel Allende preferiu manter o método da conversação íntima, embora muitas vezes a narrativa exceda as fronteiras do simples diálogo. No entanto, tanto por se tratar de memória recente, quanto por fantasiar a conversa com Paula, Isabel Allende se desloca dos fatos em si para relatar o drama eterno que sempre acompanha o show da vida. É com esse deslocamento que ela transporta o leitor consigo e o leva a medir o peso da história contemporânea, a tragédia política, a guerra terrorista, os ataques contínuos – de ética e de moral – a que são submetidos os emigrantes latinos em terras do Tio Sam, para tornar legítima a sua aspiração. Sob esse aspecto a narrativa de Isabel Allende encontra o auge de expressividade, tornando-se, senão única, uma das primeiras na literatura contemporânea.

Isabel Allende começa a narrativa discutindo com a sua editora sobre a conveniência ou não de escrever memórias de pessoas vivas.

– Escreva algumas memórias, Isabel.
– Já escrevi, não lembra?
– Isso foi há treze anos.
– Minha família não gosta de se ver exposta, Carmem.
– Não se preocupe com nada. Se for preciso escolher entre contar uma história e ofender os parentes, qualquer escritor escolhe a primeira.

Isabel Allende sabe que – para o escritor e, por extensão, para o artista – a liberdade de criação é maior que todas as liberdades.

– Não falta drama em minha vida e me sobra material de circo para escrever.

A soma dos dias começa justo no espaço de tempo em que a vida física de Paula terminou: – Na segunda semana de dezembro de 1992, assim que parou a chuva, fomos em família espalhar tuas cinzas, Paula, cumprindo as instruções que você deixou numa carta escrita muito antes de cair doente.

É o tipo de narrativa que alguns escritores odeiam quando estão na iminência de ter a obrigação de realizar. E a regra é esta: nada de apascentar ovelhas. Muitos críticos e compêndios ensinam que o escritor deve, logo de início, pegar o leitor pelo gasganete e assim levá-lo até a última página.

Isabel Allende pouco liga para esses terroristas da literatura. Não só escreve com a paciência dos pastores, como aceita de maneira livre interferência extraordinária: – Minha amiga Celia Correas Zapata, professora de literatura, que havia trabalhado com meus romances durante mais de dez anos e estava escrevendo um livro sobre eles, Vida e espírito, ficou uma noite para dormir no quarto que você ocupava e acordou à meia-noite com um intenso cheiro de jasmim, apesar de ser inverno.

É a presença de Paula que atravessa os anos e permanece arquivada na memória, guardada nos armários do quarto da menina, espalhada pelas roupas, pelo ambiente em forma de aroma, de cheiro, de perfume.

– Também mencionou os ruídos, mas ninguém deu muita importância a isso tudo até que um jornalista alemão, que ficou para fazer uma longa entrevista comigo, jurou que vira a estante se afastar quase meio metro da parede, deslizando sem barulho e sem alterar a posição dos livros. Aceitamos a idéia de que você costumava nos visitar, embora essa possibilidade deixasse a faxineira muito nervosa.
        
Quando a escritora Isabel Allende muda de roupagem para personificar a avó – do mesmo modo quando vestia a fantasia de mãe – o principal elo de contato continua sendo a narrativa. A avó insistia numa promessa íntima feita pela escritora, de oferecer um romance inventado especialmente para os netos. Foi após publicar Retrato em sépia, que a escritora sentiu haver chegada a hora de cumprir a promessa.

Os aventureiros seriam os próprios netos revestidos de heróis, o cenário estava na cabeça da escritora desde o dia em que visitara a Amazônia, tendo por base a cidade de Manaus. Mas não foi bem assim, conforme ela explica: – Poucas semanas depois de ter começado o primeiro volume da trilogia, compreendi que era incapaz de fazer a imaginação voar com a audácia que o projeto requeria. Custava-me muito vestir a pele desses adolescentes que viveriam uma aventura prodigiosa, ajudados por seus ‘animais espirituais’, como na tradição de algumas tribos indígenas.
        
Isabel Allende agora se depara com o enigma da presunção: como elaborar uma narrativa para adolescentes na qual os espíritos teimam em participar ativamente como personagens? Mais do que aparenta, a tradição indígena é cheia de entes de força espiritual, que abrange não só o folclore da figura humana, mas também a poderosa magia do meio-ambiente, a floresta, os rios, a chuva, os animais, o sol e a lua.

– Lembro os terrores de minha própria infância, quando não tinha nenhum controle sobre minha vida ou o mundo que me rodeava. Temia coisas bem concretas, como que meu pai, desaparecido fazia muitos anos, a ponto de seu nome ter-se perdido, viesse me buscar, ou que minha mãe morresse e eu terminasse num sombrio orfanato, alimentada com sopa de couve, mas temia muito mais as criaturas que povoavam minha própria mente.
        
Agora se percebe como que os seres extraordinários sempre trataram de travar duros embates, ao povoar de obstáculos – muitos deles inexpugnáveis – a vida daquela que veio ser a escritora Isabel Allende. Trata-se de uma perseguição que não terá fim, senão com a regurgitação contínua, para o papel, das cidades e dos seres que nela habitam.

– Acreditava que o diabo aparecia de noite nos espelhos, que os mortos saíam do cemitério durante os tremores de terra, que no Chile são muito comuns; que havia vampiros no forro da casa, grandes sapos malévolos dentro dos armários e almas penadas entre as cortinas do salão; que nossa vizinha era uma bruxa e que a ferrugem nos canos era sangue de sacrifícios humanos. Estava certa de que o fantasma de minha avó me mandava mensagens cifradas nos farelos do pão ou nas formas das nuvens, mas isso não me dava medo, era uma de minhas poucas fantasias calmantes.
        
Mas agora a artista sente a necessidade do camaleão, a de se transfigurar vestindo a roupa de cada ambiente que freqüenta: – Para escrever meus romances juvenis não podia lançar mão de minhas macabras fantasias dessa época, já que não se tratava de evocá-las, mas de senti-las nos ossos, como se sentem na infância, com toda a carga emotiva. Precisava voltar a ser a menina que havia sido um dia, a menina silenciosa, torturada por sua própria imaginação, que perambulava como uma sombra pela casa do avô. Tinha de demolir minhas defesas racionais e abrir a mente e o coração.
        
Faz tempo que Isabel Allende não se questiona mais sobre o porquê sua infância – como todas as infâncias normais – não fora povoada de duendes, fadas, dragões bonzinhos, feiticeiras e príncipes encantados. As histórias que ouvia não eram fábulas, nem contos da carochinha, nem as aventuras de Alice ou Branca de Neve. Mesmo assim em sua existência existe um componente sublime e inexplicável, difícil de ser decifrado, mas que nem ela mesma se esforça em conhecê-lo.

Eis quando a vida se transforma em caminhada, uma jornada que não temos como escolher nem a serenidade do lago ou das noites do deserto, nem a violência da erupção vulcânica ou do terremoto. Esse misterioso deslumbramento vai seguindo paralelo à sua vida, como um sopro, uma nuvem, uma lembrança e dele não se livrará jamais:

– Desde a tua morte, Paula, costumo me perder em tua mata de sequóias, em calmas excursões em que você me acompanha e me convida a examinar a alma. Em todos esses anos sinto que foram se abrindo minhas cavernas lacradas e, com a tua ajuda, a luz entrou. Às vezes, mergulho na saudade e me invade uma tristeza surda, mas isso não dura muito, logo sinto você caminhando ao meu lado e me consola o rumor das sequóias e a fragrância do alecrim e do louro.
        
Só em alguns raros momentos tudo se torna plácido, pois são esses o exato momento em que devemos transformar a celeridade em calma, a correria em passos medidos para que não se percam:

– ...se você veio buscar Vovó Hilda, espero que não se esqueça de fazer o mesmo comigo. Esses passeios me fazem bem. Quando acabam me sinto invencível e agradecida pela tremenda abundância de minha vida: amor, família, trabalho, saúde, uma grande alegria.

Isabel Allende recebeu o dom medieval e divino para representar a forma mais antiga de intercomunicação. Porém, o mais importante nesse processo enigmático é a forma de agir de quem recebe esse dom, porque a passividade ou a negativa do agente receptor, de repente interrompe esse processo e a pessoa volta para a vida dita “normal”. Isabel Allende simplesmente se encaixou nesse processo, entregou sua vida orgânica, transformou-se em antena para receber e transmitir a sua vida, seu eterno relacionamento com Paula:  – Descrevi em meus romances o amor romântico, esse que dá tudo, sem escamotear nada, porque sempre soube que existia, embora talvez nunca estivesse ao meu alcance. O único vislumbre dessa entrega sem restrições eu a tive com você e com teu irmão, quando eram muito pequenos; somente com vocês senti que éramos um só espírito, apenas em corpos separados.        

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ora pois pois, Inês, por quem sois...

Inês Pedrosa – Fazes-me falta – Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2010

Depois de muita ruminação, começo a ler o livro de Inês Pedrosa, que faz tempo me olhava de soslaio (finalmente uso essa palavra que ninguém ousa incluir na fala oral; quando ousarei escrever perspicaz?) da beira da estante. Estava – o livro, claro – humilhado ao ver-me todas as manhãs pegar uma leitura em detrimento do seu direito de anterioridade: ele estava ali a acumular poeira por bem um mês.

Primeiro tenho que lamentar que esse romance já chegue aqui defasado em oito anos. É provável que no ano de 2002 Inês Pedrosa não valesse os euros que vale hoje, pois é assim que os livreiros vêem o escritor: cifrão e nada mais. Segundo, mais lamentação: depois que José Saramago, do alto do Prêmio Nobel, recusou a permitir que os seus livros fossem traduzidos para o brasileiro, parece que virou moda. Também este Fazes-me falta vem em português lusitano.

Assim é que durante toda a leitura tive de fazer pausas para repensar ou pesquisar em dicionário o que significa isso e aquilo. Parece que não faz diferença, mas faz sim. Em particular aqui neste livro de enredo muito maçante, que exige do leitor também muita paciência. É um livro pesado, lerdo, com a temática de construir o difícil e improvável diálogo entre uma falecida e seu último aluno-amante-professor-alter-ego vivo. Essa combinação de leitura e texto difícil transforma o livro num pesado fardo para o leitor comum – como eu.

Desde o título, num português incomum em nós, atravessam as páginas centenas de expressões, palavras, falas naquela língua estranha. Além do mais, um dos suportes do texto é a paixão da personagem por adágios e frases feitas: também os anexins entremeiam abundantes toda a narrativa. Embora muitos desses ditados tenham chegado até nós, sejam do nosso conhecimento, não há como evitar a consulta num e noutro caso.

Vejamos alguns exemplos:

“...o meu pequeno e velho Deus de algibeira, meu amigo.”

“– Um dia chego cá e encontro-te no meio dessa papelada, morto de cansaço, pronto a encaixotar. Olha, eu é que não te empacoto – ganhei medo a mortos.”

“Que sentido faz a morte de uma rapariga de 37 anos, catano, roída pela própria posteridade? Tinhas deixado de fumar para não morreres de cancro.”

“– És um pulha. Digas o que disseres, és um pulha. E o teu filho vai saber o pulha de pai que tem.”

“A primeira sensação que experimentei, depois de ter desmaiado de dor, foi um intenso perfume de bebé, um perfume quente e azedo de leite bolçado.”

“Deixaste a luz da casa de banho acesa, as portas do roupeiro abertas e umas calças de bombazina vermelho-escuras enrodilhadas ao lado da cama.”

“Pensavas tanto e tão bem que intercalavas sempre as citações nos sítios certos.”

“Através de ti eu existia antes de ter nascido, no vocabulário áspero e secreto de uma guerra que já não me pertenceu – moita carrasco, gatilhos olvidados, o tanas.”

“...trocávamos inibições e desaires como os miúdos trocam cromos.”

“Às vezes sacudia-te, só por aflição, imagina, uns desenrascanços de timidez que me punham as moléculas a ferver...”

“Cachopa. A falta que fazem ao mundo as tuas certezas absolutas sobre o Bem e o Mal. Certezas um bocado aldrabadas, está claro, com fendas por todos os lados.”

“Gamaste-me uns trabalhitos sobre o teu excelso mulherio – e eu gozei arabicamente a tua aflição impudica.”

“...garras coloridas e afiadas remetiam-me para costumes bárbaros, odores de bairro da lata, rituais primitivos.”

“Dei-te o braço, dirigimo-nos à dama, osculei-lhe a pata com olhos de encornador e depois recitei-lhe...”

“Desde que tu lerpaste, só consigo ver crocodilos.”

E assim segue o texto eivado dessas expressões em claro e nítido lusitanismo, nas centenas de páginas que compõem o livro. Mas não é só a palavra que na fala comum ou literária faz a diferença: também a colocação pronominal, os adjetivos substantivos e vice-versa, expressões européias contemporâneas, tudo, enfim, merece uma adaptação para o brasileiro, porque, queiram ou não, a língua portuguesa é distinta aqui, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, em Timor. Ademais estamos na América Latina, abaixo da linha do Equador e não há como fugir disso.

Há pouco tempo a chamada comunidade lusófona, depois de gastar muito dinheiro e papel, após inúmeras viagens de turismo literário e piqueniques intelectuais, aprovou uma reforma ortográfica que teve a unanimidade de deixar a todos descontentes. É claro, nessa baboseira cheia de vaidade gastou-se tanto dinheiro – não deles, mas dos contribuintes – que havia necessidade de justificar a extravagância, apresentando um resultado. Mas toda essa movimentação, que consumiu anos e o tempo precioso de alguns chefes de estado, resultou num pífio conjunto de decisões, arremedo de reforma, em desastrosa tentativa de unificar o que estava desunido pela própria natureza das coisas. Os meios literários e intelectuais de Portugal repudiaram o trambique.

A língua portuguesa é brasileira, angolana, moçambicana, timorense, cabo-verdiana – e será para sempre. A contribuição que cada país recebe da língua materna é diferente, divergente, cada caso é um caso. Mesmo a assimilação ocorrida em países africanos – Angola e Moçambique, por exemplo, onde a contaminação provocada pelos dialetos tribais é muito forte – é distinta entre si e tem vida própria. São as incorporações havidas de maneira natural, no uso popular, depois culto, aquelas que a língua nativa assimilada recebe e adota como filhas queridas.

Durante milênios, em algum lugar da Terra, a língua nasce, cresce e morre. Os idiomas e dialetos contemporâneos que ganharam a batalha da sobrevivência estão aí porque conseguiram se adaptar e permanecem em constante mutação. Um só elemento tem importância vital para sua sobrevivência – o povo – que a conserva na fala cotidiana, através das tradições, repassando no ensino comunitário.

Quanto ao livro em si, bem, superada a primeira dificuldade (a leitura em língua “estrangeira”), Fazes-me falta, ainda assim, é um livro pesado, morrinhento, que não se lê: se rumina. Como, aliás, não poderia deixar de ser, devido à temática. Além do mais teve o desplante de tentar incorporar nos meus escritos alguns vícios, gerúndios escabrosos, etc. e tal. Mas é leitura que tomo por obrigação, para manter em dia o conhecimento da literatura lusitana. No entanto, tenho notado que os livros portugueses, justo esses que não são adaptados ao brasileiro, em geral se tornam odiosos, tal e qual o velho Luís de Camões o era para os alunos do século passado.

Preocupa também o fato desse livro ter sido recomendado às professoras e professores municipais do Rio de Janeiro, como parte do programa Rio, uma cidade de leitores. O que se espera como resultado dessa indicação? O que esse livro acrescentará ao professor, que o comentará ao aluno de classe primária? Sinceramente nada vejo de positivo nisso. É apenas mais um subsídio ao editor, dos milhares que os governos dão como benesse a um fabricante de produtos caros e nem sempre confiáveis.

Os governos federal, estadual e municipal eximiram as editoras de todo e qualquer ônus na produção e comercialização de seu produto (aí entram o maquinário, a matéria-prima, tinta papel, etc.) – o livro – baseado nas contas de uma redução de preço, que até agora não ocorreu. Quando o valor do livro brasileiro será reduzido na mesma proporção da benesse governamental?

Pois acredite caro leitor, falando-se de escritores brasileiros publicados em Portugal, a recíproca não é verdadeira. Muitos escritores brasileiros foram publicados em Portugal, desde o romantismo. Mais recentemente, em pleno Século XX, obtiveram êxito em Portugal os livros de Érico Veríssimo, Jorge Amado e Rachel de Queirós, entre tantos outros escritores. Todos os livros foram vertidos para o lusitano! Não houve como contemporizar, não houve como atender algum pedido de escritor brasileiro – até mesmo porque eles não o faziam, em respeito à língua portuguesa – como fez aqui José Saramago, exigindo a manutenção do texto original, como condição sine qua non para que seus livros fossem publicados no Brasil.

E na mesma onda que veio Inês Pedrosa, virão outros mais. Os editores brasileiros adoraram a exigência, porque assim economizam o salário de mais um profissional, economizam também na produção, porque usam o mesmo material e os originais utilizados em Portugal. No entanto, trata-se de um erro mercadológico: muitos leitores brasileiros deixam de comprar o livro ao sabê-lo publicado em lusitano. Eu não compro! E todos nós estamos cheios de razão: ler um livro em lusitano é um pé no saco!

Voltando ao livro Fazes-me falta, conto, pois, que estava lá pela metade do romance quando minha irmã me emprestou A soma dos dias, mais um livro de memórias de Isabel Allende. Na primeira folheada gostei, pois se trata de outra escritura, fluente, calma como ovelhas apascentadas. Isabel Allende, aliás, é escritora que se descortinou de imediato ao impor em sua ficção a pseudo memória. Agora que esta memória se torna cada vez mais de cunho pessoal, é leitura cheia de promessas. Mas isso é tema para outra história...