quinta-feira, 9 de junho de 2011

Fátima (Heroína) Barbosa, por William Costa


Observando as folhas secas desprendendo-se e caindo, uma após a outra, em espiral, das velhas castanholeiras que dão sombra e beleza ao “pátio” interno da sede deste jornal, vislumbro a verdejante sebe que renascerá dos galhos que, em breve, estarão nus, e imagino como seria interessante que, tal fenômeno, também se repetisse entre nós, humanos; seríamos as frondosas árvores germinadas no húmus espiritual dos nossos antepassados.

Como sempre gostei de metáforas e adjetivos, na contracorrente das lições gracilianas, penso também nesta vida exterior e mundana como uma jornada, claro que não do céu à terra, como fazem as folhas, mas horizontal e marítima, todos tripulantes de um mesmo barco, rebelando-se, uns, contra o inevitável destino, e, por isso mesmo, destilando ódios, e outros adotando as antigas virtudes, para tornar menos cruel e mais alegre a fatídica viagem.

Conscientes da condição de condenados em que vivemos neste oceano a que fomos misteriosamente atirados, não nos restaria, talvez, outra opção, para evitarmos o completo naufrágio, a não ser buscarmos, juntos, as rotas alternativas, perpendiculares e sagradas, e doarmos nosso amor e nossas energias em prol de toda a tripulação, o que se daria de diversos modos, desde segurar com mãos fortes o timão, até a limpeza do convés.

E é assim que agem algumas pessoas, procurando ajudar e não, atrapalhar, com seus estúpidos egoísmos, um cruzeiro forçado e, por vezes, obscuro, mas repleto de maravilhas, tanto no céu, como na terra e no mar – bastando, para vê-las, ter não apenas os olhos, mas as mentes e os corações despertos. Digo isso pensando em Fátima Barbosa, paraibana de Sapé, radicada no Rio de Janeiro, porto momentâneo do seu velejar.

Fátima nasceu menina pobre, em Sapé, filha de uma costureira e de um grão-vizir local, que a rejeitou e dela quis esquecer. Da mãe recebeu amor e poderosas lições de vida, transformando-os em sua bússola existencial. Do pai, postumamente, exigiu, apenas, o reconhecimento da paternidade, finalmente adquirida, por decisão judicial. Não a interessavam bens materiais, mas a dignidade, visando o resgate moral do nome da família.

Para o Rio, Fátima foi, viu e venceu. Estudou línguas e especializou-se em revisão de textos, galgando, pela força de vontade, as funções inerentes à profissão que, com ética e competência, abraçou, até conquistar, por mérito, um dos cargos mais importantes da casa editorial carioca: a Gerência de Revisão. Hoje, milhares de livros espalhados pelo Brasil e pelo exterior são, também, frutos do seu trabalho. E se as obras de arte são eternas, ela é imortal.

Em sua caminhada, Fátima fez muitos, muitos amigos, principalmente escritores. A muitos deles fui apresentado por ela, e deles também me tornei amigo, uma honra e um privilégio indescritíveis. Devemos a ela, eu e Analice Pereira, parte considerável do nosso sucesso como coordenadores de Literatura da Fundação Espaço Cultural da Paraíba. Cito, a título de exemplo, Marco Lucchesi, Antônio Torres e Domingos Meirelles.

Desculpem-me a falta de modéstia, mas ouvir de Antônio Torres a confissão de que veio à Paraíba só para me conhecer, não é um fato trivial. Ser citado por Domingos Meirelles como um dos colaboradores de sua obra, também me enche de orgulho. E o que dizer de Marco Lucchesi, admirador incondicional do meu ainda incipiente texto poético-jornalístico? São troféus que me foram ofertados por obra e graça de Fátima, e a ela sou imensamente agradecido.

Rezo por Fátima e peço ao Deus de nossa tradição judaico-cristã e aos deuses pagãos em quem confio que a livrem das dores físicas, que a mantenham entre nós, curada, por um tempo prolongado, iluminem o seu espírito, tornando leve a sua jornada, para que nós, amigos e tripulantes da nave em que todos nos encontramos, prossigamos - crentes, amorosos e fraternos - empenhados não na busca, mas na construção da tão sonhada ilha da paz.


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