segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

AUGUSTO DOS ANJOS - 100 ANOS DO "EU" (1912-2012)


EU

AUGUSTO DOS ANJOS-EU-29ª EDIÇÃO-COMEMORATIVA DO CINQÜENTENÁRIO DO SEU APARECIMENTO 1912-1962-LIVRARIA SÃO JOSÉ-RIO DE JANEIRO, 1963-INTRODUÇÃO DE FRANCISCO DE ASSIS BARBOSA

Eram fundadas as esperanças do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), ao se dispor a jogar todas as fichas no sucesso do seu livro de poesias EU. Era tamanha fé com que carregava o seu projeto, que teve e topete de sacrificar a sua vida profissional na Paraíba e partir para o Rio, na mais completa pindaíba. Mas com laivos de irresponsabilidade, posto que arrastasse consigo a sua família na temerária aventura.

O sacrifício compulsório que teve de assumir foi impulsionado pela circunstância de ver o pedido de licença para viajar ser negado pelo Governador do Estado, que seria seu “amigo”. Assim, o que poderia ser um porto seguro em caso de fracasso, transformou-se num adeus: de modo perempto, ele abandona o cargo de professor e resolve viajar para o Rio de Janeiro, levando na bagagem a mulher grávida e os originais de seu livro de poesias EU. Corria o ano de 1910...
       
“Fora fulminante o choque. Retornando a casa depois da entrevista que lhe marcaria o destino, o poeta transfigurado comunicara à esposa a dramática resolução: – Vamos para o Rio. Nunca mais porei o pé na Paraíba! – Dias depois, o primeiro navio do Lóide que passou pelo Recife levaria para o Rio de Janeiro o casal Augusto dos Anjos”.
       
A viagem foi dramática, não só pelo arrebatamento impulsivo do poeta, mas também porque a sua esposa estava grávida de três meses. Desconhecido no Rio de Janeiro, ele contava apenas com o apoio do irmão Odilon dos Anjos, e foi justamente com este que o poeta conseguiu recursos para publicar o seu livro, após frustradas tentativas junto a editores cariocas.

Debaixo de tanta responsabilidade, Augusto dos Anjos, morando numa pensão da Praça Mauá, no começo da Avenida Rio Branco, teve de encarar a nada fácil vida da Capital da República. O colega alagoano José Oiticica, também recém imigrado, dividia com Augusto dos Anjos sua parcela de infortúnios.

Muito embora Augusto dos Anjos tivesse conseguido emprego de professor na Escola Normal, nem por isso se viu livre da situação de penúria que passava com a família. Aceitou a colocação, mas a considerava um posto temporário, não só porque remunerava mal, mas também porque o seu sonho era fazer parte do corpo docente do Colégio Pedro II, por onde passavam todas as sumidades da época.

Toda essa situação se agrava devido a seu gênio introspectivo, onde até mesmo a ajuda espontânea e valiosa do irmão parecia a ele um favor e por isso mesmo inaceitável.  Como se não bastasse, em consequência do acúmulo de desastres materiais, adveio uma profunda depressão, agravada pela recepção silenciosa, pela reação pífia dos críticos e pelo silêncio da intelectualidade sobre o seu livro. Se lembrarmos do primeiro passo dado em João Pessoa, a profunda decepção tinha sua razão de ser: Augusto dos Anjos sacrificou a vida e depositou todas as suas esperanças no sucesso do EU.

A Capital Federal vivia a época em que predominava a literatura voltada para a sociedade feliz, até certo ponto parisiense. Parnasianos e Simbolistas dividiam a atenção dos amantes da literatura e da poesia. O aparecimento de um livro como EU em 1912, nesse ambiente artificial, na segunda década dos anos de 1900, constituía uma coisa insólita e desafiadora. O cronista de O País, Oscar Lopes, representante legítimo dessa mentalidade, se mostrou escandalizado ao ler o livro de Augusto dos Anjos, "tocando no volume com a ponta dos dedos, para não sujar as mãos de sangue no vermelho do título que ocupava quase toda a capa".

Lá mais adiante, esse fato inusitado – em que a própria capa, elaborada de modo excêntrico, por si própria provoca um rebuliço –  Manuel Bandeira bem que notou: “Nesse ambiente de requintado modernismo estourou como um grito bárbaro a voz de um estranho poeta, cujo livro se intitula EU e já nesse prenome impresso em grandes letras que tomavam toda a capa, clamava o seu irredutível egotismo”.

Porém, alguns poucos simbolistas – vertente literária futurista e rebelde da época – ao lado de outros não vinculados às correntes literárias, apoiaram o recém-chegado. Mário Pederneiras, Osório Duque Estrada, José Oiticica e Eduardo Guimarães (de pensamento independente), saudaram  a  poesia nova e diferente de Augusto dos Anjos.

Assim, como seu livro de estreia EU – que viria  ser o único – Augusto dos Anjos morreu, desconhecido e silencioso, em 1914, na cidade de Leopoldina (MG). A não ser pela agitação promovida pelos ardorosos admiradores Orris Soares, Heitor Lima e Antonio Torres, nada se comentou na imprensa. Antes mesmo de completar quatro anos de vida na Capital Federal, antes de realizar o sonho de ver seu livro ser aceito pelos leitores e pela crítica, Augusto dos Anjos desapareceu.

Dos literatos de seu tempo se contam duas anedotas. A primeira foi atribuída a Olavo Bilac, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, e ocorreu logo após o falecimento de Augusto dos Anjos:

Poucos dias depois de sua morte, os amigos Orris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, quando encontraram a Olavo Bilac, recém-eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros. Ao cumprimentá-lo, ele indagou o porquê da visível tristeza dos dois amigos. Logo Olavo Bilac foi informado da morte do ‘grande’ poeta Augusto dos Anjos, mas sua reação foi frustrante: mostrou completo desconhecimento do nome do ‘grande’ poeta, não conhecia nenhuma poesia dele e ignorava as circunstâncias do fato.

E quis saber: “Quem é esse Augusto dos Anjos?”. Os dois amigos, espantados diante da falta de informação do poeta, ficaram mudos. Ante o silêncio de seus interlocutores, Olavo Bilac insistiu: “Quem foi esse poeta? Não conheço, nunca ouvi falar, sabem alguma poesia dele?” Heitor Lima tomou a iniciativa e recitou o soneto “Versos a um coveiro”, que foi ouvido séria e pacientemente. Mas talvez tenha sido a escolha de repertório infeliz, que fez Olavo Bilac sentenciar:  “É esse o poeta? Então fez bem morrer, porque não se perdeu grande coisa”.

A segunda anedota, quando muitos críticos já tinham publicado outras opiniões, era bem diferente:

Gilberto Freyre, então licenciado da Columbia University (USA), em visita à Paraíba a convite de José Lins do Rego, foi levado a conhecer uma estátua, recém inaugurada, em homenagem ao escritor Álvaro Machado. Diante da imponente vassalagem ele perguntou a José Lins: “E para Augusto dos Anjos, o que vocês fizeram?
       
Foi desse modo, tardio e anedótico, que Augusto dos Anjos passou a pertencer ao Clube Exclusivo de Artistas Incompreendidos em Vida. Em literatura não são poucos os membros desse clube, desde o exemplo maior Miguel de Cervantes, com Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança, que não teve reconhecimento dos contemporâneos de sua terra: “Post tenebras, spero lucen” é a divisa que acompanha o seu Ex Libris...

No nosso país, Augusto dos Anjos tem como principal parceiro o poeta e também nordestino Joaquim de Sousândrade (1832-1902), que teve o seu longo poema O Guesa (13 Cantos, total de 3342 estrofes, escritos entre 1858 e 1888), impresso na Inglaterra e  ignorado pela crítica. Joaquim de Sousândrade constatou, com tristeza, que o seu livro só seria compreendido no espaço de cinqüenta anos após sua morte. Voltando a Augusto dos Anjos, o mea culpa veio primeiro de José Américo de Almeida, que se viu na obrigação de escrever sobre o poeta logo quando após sua morte completar um mês. Daí em diante o reconhecimento ao valor do EU e da qualidade do poeta, não só cresceu, mas ganhou novas e contundentes avaliações.

Toda essa polêmica, que para alguns demora até os dias atuais, transformou o EU num livro enigmático e desafiador, fazendo parelha com outras obras que sobreviveram graças ao extraordinário poder, à qualidade de conteúdo, ao mistério que as suas criações guardaram. Aleatório e de memória, relembro alguns títulos que participam do mesmo destino: Folhas da relva (Walt Whitman), Primeiros cantos (Gonçalves Dias), Flores do mal (Charles Baudelaire), Navio negreiro (Castro Alves) e o já citado O Guesa, de Sousândrade. Para referir somente à poesia, se pode afirmar que Augusto dos Anjos está em ótima companhia.

Já faz mais de cem anos que Augusto dos Anjos aportou no Rio de Janeiro trazendo debaixo do sovaco os originais do EU, livro que tanto amava e no qual depositou todas as suas esperanças. Em 2012 faz cem anos também que saiu a primeira edição, guardada por um silêncio de vários anos, pois só em 1920 foi publicada a segunda edição, por iniciativa de amigos. Além de deixar como herança os volumes encalhados, ao autor coube guardar a dívida com seu irmão que nunca foi paga.

E, no entanto, os poemas do EU – acrescidos de outros escritos publicados esparsamente – continuarão sua indevassável e sempre renovada jornada através da mente do leitor. Alguns poemas parecem fácil tradução emotiva de uma vivência pessoal; a grande maioria, porém, traduz a comoção que acompanha o homem e seu destino cabalístico, científico, teológico – que está sujeito sempre à derivação que a mente estipula para cada intérprete e seu tempo.

Rio de Janeiro, Cachambi, 01/01/2012

Obs.: O texto e as citações deste artigo foram baseados no volume acima citado.

EU - A ÚLTIMA QUIMERA


ANA MIRANDA – A ÚLTIMA QUIMERA – ROMANCE – COMPANHIA DAS LETRAS, SP – 1995

Um bom reforço neste ano de 2012, comemorativo do centenário de publicação do EU, de Augusto dos Anjos é este livro de Ana Miranda, A última quimera, que, por isso mesmo, merece uma reedição.

Isto porque, neste Século 21, são poucos os que conhecem os detalhes da aventura desumana que redundou em desastre e transformou em drama a vida do poeta augusto dos Anjos.

Para os leitores que um dia tiveram nas mãos esse estranho e incompreensível livro – EU – o seu teor será mais estranho e mais emblemático ainda. Neste caso, o romance de Ana Miranda irá pacificar a sua mente, além de obrigá-lo a reler, uma vez mais e sob novas perspectivas, um dos livros mais importantes e universais da poesia brasileira.

Partindo de um fato ocorrido após o falecimento de Augusto dos Anjos – o encontro casual entre dois amigos consternados e o poeta Olavo Bilac, recém chegado de Paris. A autora leva o leitor a uma retrospectiva labiríntica – mas com roteiro exato – percorrendo os fatos e dramas que antecederam e precederam a morte do poeta: o período trágico entre 1910 e 1914.

No romance A última quimera, os dois amigos da história original se fundem numa só pessoa, que é o próprio narrador: “Na madrugada da morte de Augusto dos Anjos caminho pela rua, pensativo, quando avisto Olavo Bilac saindo de uma confeitaria de fraque e calça xadrez, com bigodes encerados de pontas para cima e pincenê de ouro se equilibrando nas abas do nariz.

O fato é historicamente anedótico: o pragmatismo do poeta famoso ante as notícias sobre novos autores. Uma prevenção instintiva o alerta sobre o “perigo” e logo se transforma em autodefesa, que o protege, a seus pares e à corriola que o cerca. Informado do falecimento do poeta Augusto dos Anjos, Olavo Bilac, consagrado Príncipe dos Poetas, confessa ignorância sobre a pessoa e as obras do finado. E para conhecê-lo, pede informações e que lhe recitem algum poema dele.

Para ser um romance de cunho histórico e não apenas uma biografia, a autora recorre à ficção e acrescenta toda carga dramática necessária. É neste ponto que Ana Miranda reelabora o fato e parte para a ficção: substitui o poema que foi recitado – “Versos a um coveiro” –, pelo magnífico soneto “Versos íntimos” que, junto com “Monólogo de uma sombra”, é um dos mais queridos entre os fãs de Augusto dos Anjos.

Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que afaga,
Escarra nessa boca que beija!

A história original, narrada por Francisco de Assis Barbosa na introdução da 29ª edição do EU, (Editora São José, 1963), conta o fato da seguinte maneira:

A morte de Augusto dos Anjos, em 1914, teve pouca ou quase nenhuma repercussão na imprensa do Rio de Janeiro, a não ser pelo artigo de Antônio Tôrres, recordando o poeta com entusiasmo. (...) na Paraíba, como a reparar todo o mal que fizeram ao filho incompreendido, José Américo de Almeida escreveu o seu “Augusto dos Anjos no trigésimo dia do seu falecimento” (...) Por iniciativa de Orris Soares, seria publicada uma nova edição do EU, acrescida de poemas esparsos, em 1920. Até então, o poeta quedara esquecido, mesmo dos que o amavam, quando não completamente ignorado pelos donos da literatura. Dias depois da sua morte, ocorrida em Leopoldina, Orris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central [hoje Avenida Rio Branco] e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O Príncipe dos Poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabavam de receber a notícia.

– E quem é esse Augusto dos Anjos? – perguntou.

Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu:

– Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele?”

Heitor Lima, que conhecia a fundo a obra do amigo Augusto dos Anjos, recitou o soneto

Versos a um coveiro

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros,
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a somar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais,

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade:

– Era este o poeta? Ah, então fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa”.

Pode ser que a escolha do poema tenha sido infeliz – não era dos mais belos – que o tema, um tanto mórbido, causasse a reação intempestiva, um tanto sarcástica e fria de Olavo Bilac. Ou talvez o fato não tenha ocorrido e seja apenas de mais uma das muitas anedotas literárias que circulam por aí, atribuídas a muitos escritores, vivos e mortos.

O fato é que, com este gancho, Ana Miranda nos transporta – na voz de um narrador onipresente e onisciente – à brevíssima residência do poeta no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ao nos indicar o caminho que atravessa toda a existência de Augusto dos Anjos, ultrapassando a própria morte, sinaliza um futuro menos áspero e mais glorioso.

Deixa, porém, um mistério: quem será esse narrador que sabe “de cor todos os versos de Augusto dos Anjos?

Quem será esse companheiro “do tempo em que éramos crianças e passávamos férias juntos, no Pau d’Arco?

Quem é essa figura que encontra Bilac amiúde e ouviu dele o pedido de desculpas pelo que falou “a respeito do poeta que morreu?

Quem será o autor do relato que viu guardado entre as mãos de Olavo Bilac um exemplar do EU, “comprado no balcão de saldos da Livraria Garnier, a preço vil?

Quem será o narrador que na madrugada encontra uma jovem de vestido escuro, xale sobre os ombros, chapéu de feltro, expressão de alguém dotada de intensa e sofrida vida espiritual e sabe tudo sobre Augusto dos Anjos – que o parabeniza por ter sido “eleito o Príncipe dos Poetas?

Seja o quê for ou quem for Ana Miranda transformou-o em personagem que guarda um credo: a platônica paixão por Esther, esposa (e depois viúva) de Augusto dos Anjos, a quem não teve coragem de cortejar. Um professor de Leopoldina casou-se com a viúva antes do defunto esfriar, como se costuma dizer.

Ressabiado, ele relembra “o sujeito com quem Esther se casou  é o mesmo que espreitava sua casa e que a procurou para falar sobre a criação de um Grêmio Literário”; que “muitos condenaram o casamento”. 

Da amada Esther, guarda ternas lembranças: “De manhã saía com os filhos a passear na praça; às vezes entrava na igreja e chorava, ajoelhada diante do altar”. Lembra também do “pintor que passeava de tarde na linha do trem, Funchal Garcia, [que] fez um retrato a óleo de Esther, em roupas negras”.

Por fim, conclui amargurado: “Esther está grávida do quarto filho. Apenas lamento que não tenha se casado comigo”.

Um caso de amor de cunho passional, em que Esther guarda silenciosa aparência com Capitu, ou até mesmo com o affair de Ana, esposa de Euclides da Cunha, sem o desfecho trágico, claro...

A última quimera, de Ana Miranda, entre as comemorações dos 100 anos do EU, é um livro a ser lido.

Rio de Janeiro, Cachambi, 04/01/2012