segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

EU - A ÚLTIMA QUIMERA


ANA MIRANDA – A ÚLTIMA QUIMERA – ROMANCE – COMPANHIA DAS LETRAS, SP – 1995

Um bom reforço neste ano de 2012, comemorativo do centenário de publicação do EU, de Augusto dos Anjos é este livro de Ana Miranda, A última quimera, que, por isso mesmo, merece uma reedição.

Isto porque, neste Século 21, são poucos os que conhecem os detalhes da aventura desumana que redundou em desastre e transformou em drama a vida do poeta augusto dos Anjos.

Para os leitores que um dia tiveram nas mãos esse estranho e incompreensível livro – EU – o seu teor será mais estranho e mais emblemático ainda. Neste caso, o romance de Ana Miranda irá pacificar a sua mente, além de obrigá-lo a reler, uma vez mais e sob novas perspectivas, um dos livros mais importantes e universais da poesia brasileira.

Partindo de um fato ocorrido após o falecimento de Augusto dos Anjos – o encontro casual entre dois amigos consternados e o poeta Olavo Bilac, recém chegado de Paris. A autora leva o leitor a uma retrospectiva labiríntica – mas com roteiro exato – percorrendo os fatos e dramas que antecederam e precederam a morte do poeta: o período trágico entre 1910 e 1914.

No romance A última quimera, os dois amigos da história original se fundem numa só pessoa, que é o próprio narrador: “Na madrugada da morte de Augusto dos Anjos caminho pela rua, pensativo, quando avisto Olavo Bilac saindo de uma confeitaria de fraque e calça xadrez, com bigodes encerados de pontas para cima e pincenê de ouro se equilibrando nas abas do nariz.

O fato é historicamente anedótico: o pragmatismo do poeta famoso ante as notícias sobre novos autores. Uma prevenção instintiva o alerta sobre o “perigo” e logo se transforma em autodefesa, que o protege, a seus pares e à corriola que o cerca. Informado do falecimento do poeta Augusto dos Anjos, Olavo Bilac, consagrado Príncipe dos Poetas, confessa ignorância sobre a pessoa e as obras do finado. E para conhecê-lo, pede informações e que lhe recitem algum poema dele.

Para ser um romance de cunho histórico e não apenas uma biografia, a autora recorre à ficção e acrescenta toda carga dramática necessária. É neste ponto que Ana Miranda reelabora o fato e parte para a ficção: substitui o poema que foi recitado – “Versos a um coveiro” –, pelo magnífico soneto “Versos íntimos” que, junto com “Monólogo de uma sombra”, é um dos mais queridos entre os fãs de Augusto dos Anjos.

Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que afaga,
Escarra nessa boca que beija!

A história original, narrada por Francisco de Assis Barbosa na introdução da 29ª edição do EU, (Editora São José, 1963), conta o fato da seguinte maneira:

A morte de Augusto dos Anjos, em 1914, teve pouca ou quase nenhuma repercussão na imprensa do Rio de Janeiro, a não ser pelo artigo de Antônio Tôrres, recordando o poeta com entusiasmo. (...) na Paraíba, como a reparar todo o mal que fizeram ao filho incompreendido, José Américo de Almeida escreveu o seu “Augusto dos Anjos no trigésimo dia do seu falecimento” (...) Por iniciativa de Orris Soares, seria publicada uma nova edição do EU, acrescida de poemas esparsos, em 1920. Até então, o poeta quedara esquecido, mesmo dos que o amavam, quando não completamente ignorado pelos donos da literatura. Dias depois da sua morte, ocorrida em Leopoldina, Orris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central [hoje Avenida Rio Branco] e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O Príncipe dos Poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabavam de receber a notícia.

– E quem é esse Augusto dos Anjos? – perguntou.

Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu:

– Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele?”

Heitor Lima, que conhecia a fundo a obra do amigo Augusto dos Anjos, recitou o soneto

Versos a um coveiro

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros,
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a somar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais,

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade:

– Era este o poeta? Ah, então fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa”.

Pode ser que a escolha do poema tenha sido infeliz – não era dos mais belos – que o tema, um tanto mórbido, causasse a reação intempestiva, um tanto sarcástica e fria de Olavo Bilac. Ou talvez o fato não tenha ocorrido e seja apenas de mais uma das muitas anedotas literárias que circulam por aí, atribuídas a muitos escritores, vivos e mortos.

O fato é que, com este gancho, Ana Miranda nos transporta – na voz de um narrador onipresente e onisciente – à brevíssima residência do poeta no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ao nos indicar o caminho que atravessa toda a existência de Augusto dos Anjos, ultrapassando a própria morte, sinaliza um futuro menos áspero e mais glorioso.

Deixa, porém, um mistério: quem será esse narrador que sabe “de cor todos os versos de Augusto dos Anjos?

Quem será esse companheiro “do tempo em que éramos crianças e passávamos férias juntos, no Pau d’Arco?

Quem é essa figura que encontra Bilac amiúde e ouviu dele o pedido de desculpas pelo que falou “a respeito do poeta que morreu?

Quem será o autor do relato que viu guardado entre as mãos de Olavo Bilac um exemplar do EU, “comprado no balcão de saldos da Livraria Garnier, a preço vil?

Quem será o narrador que na madrugada encontra uma jovem de vestido escuro, xale sobre os ombros, chapéu de feltro, expressão de alguém dotada de intensa e sofrida vida espiritual e sabe tudo sobre Augusto dos Anjos – que o parabeniza por ter sido “eleito o Príncipe dos Poetas?

Seja o quê for ou quem for Ana Miranda transformou-o em personagem que guarda um credo: a platônica paixão por Esther, esposa (e depois viúva) de Augusto dos Anjos, a quem não teve coragem de cortejar. Um professor de Leopoldina casou-se com a viúva antes do defunto esfriar, como se costuma dizer.

Ressabiado, ele relembra “o sujeito com quem Esther se casou  é o mesmo que espreitava sua casa e que a procurou para falar sobre a criação de um Grêmio Literário”; que “muitos condenaram o casamento”. 

Da amada Esther, guarda ternas lembranças: “De manhã saía com os filhos a passear na praça; às vezes entrava na igreja e chorava, ajoelhada diante do altar”. Lembra também do “pintor que passeava de tarde na linha do trem, Funchal Garcia, [que] fez um retrato a óleo de Esther, em roupas negras”.

Por fim, conclui amargurado: “Esther está grávida do quarto filho. Apenas lamento que não tenha se casado comigo”.

Um caso de amor de cunho passional, em que Esther guarda silenciosa aparência com Capitu, ou até mesmo com o affair de Ana, esposa de Euclides da Cunha, sem o desfecho trágico, claro...

A última quimera, de Ana Miranda, entre as comemorações dos 100 anos do EU, é um livro a ser lido.

Rio de Janeiro, Cachambi, 04/01/2012
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