sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DEU N’A CONFRARIA



A Confraria era uma revista eletrônica ‘de livre pensar’. Fui atraído para ela pela artista e pensadora Xenia Antunes, porque de Xenia fui amigo de seu livro de estreia Exercícios de Amor e de Ódio, que virou meu livro de cabeceira (e travesseiro também). Junto com a Xenia vinha à toa uma turma da melhor qualidade. Agora, passado um tempo, reencontro fragmentos do que sobrou de A Confraria, para constatar o quão profética era essa turminha displicente. Internautas podem, ainda, gozar o prazer da leitura de bons brasileiros – é só pesquisar. Xenia Antunes conseguiu destronar meu livro de travesseiro Exercícios de Amor e de Ódio, por outro que ela ainda não terminou: Desconstruindo Lula! Xenia, esse é um livro histórico que você tem a obrigação de terminar e publicar, para o bem do Brasil. Posto isto, eis o que ainda está lá n'A Confraria:
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ME AGUARDE, CHICO - O presidente Lula disse na quinta-feira, 18 de março de 2004, em Recife, que vai "acabar com a história de que o Brasil é o país das obras inacabadas" e afirmou que pretende realizar a transposição do rio São Francisco e a duplicação da BR-101 até o fim do seu governo. "É como usar um doente para fazer a transfusão em outro doente" (Dom Geraldo Agnelo, presidente da CNBB, a respeito da transposição do Rio São Francisco).
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"A fome e a miséria sempre existiram no Brasil. Porém nunca foram tão visíveis como agora. Antigamente, a gente via pelas ruas a pobreza. Hoje, o que enxergamos é a miséria" (...) "O que estão fazendo com os brasileiros é uma violência contra o homem, é um desrespeito à dignidade. Eu acho que o governo não deveria colocar a parte econômica em primeiro lugar. O que deve estar em primeiro lugar são as necessidades do nosso povo, um povo que tem sofrido muito, um povo que necessita de trabalho para dar dignidade à família." (idem).
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CONSTA QUE não é a "herança maldita" que atrapalha o governo Lula, mas a "mardita da manguaça". A maldade dessa gente é uma arte.
COBRAS, LAGARTOS E OUTROS BICHOS - Segundo a Folha de São Paulo, a Procuradoria Geral de Justiça do Paraná encaminhou ao Ministério Público Estadual ofício no qual pede investigação das ações do filho do ministro José Dirceu. Zeca Dirceu,  mesmo não sendo parlamentar, conseguiu encontros com ministros, empenhar pelo menos R$ 1,4 milhão em recursos da Funasa e do Ministério da Assistência Social. Os empenhos foram para municípios da região noroeste do Estado, onde fica Cruzeiro do Oeste, cidade em que Zeca Dirceu é pré-candidato a prefeito, pelo PT. José Dirceu “está muito magoado” com a reportagem da Folha de São Paulo sobre a atuação de seu filho na negociação de R$ 607 milhões, para obras em cidades do Paraná. Na avaliação de Lula,  "Dirceu precisa tomar muito cuidado na posição em que está, sob pena de afetar a própria imagem e, por tabela, a do partido."
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AS FANTÁSTICAS TORTAS VOADORAS - Segundo o advogado de Verônica Maria Rodrigues de Souza, a vendedora que atirou uma torta na cara do atual Ministro do Trabalho, Ricardo Berzoíni jogar tortas em autoridades é prática costumeira  no mundo e representa apenas “um ato de indignação e desabafo”.
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DEU ZEBRA - O chefe da Casa Civil José Dirceu é amigo, padrinho e chefe de Waldomiro Diniz, seu braço direito no Planalto até o último dia 10 de fevereiro, quando foi demitido pelo Presidente Lula, após denúncias de que estaria envolvido em transações com  o dinheiro do jogo do bicho. 
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DESMEMORIADO - O ex-ministro da Educação do governo do PT, senador Cristovam Buarque, não se lembra quem indicou Waldomiro Diniz para ser seu assessor, durante o mandato como governador do DF.  Diz que nunca o tinha visto antes na vida. Ele "acha" que foram as lideranças do PT que indicaram o tal moço para o cargo. Mas aceitou, de boa fé. 
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DONA MARTA - Quem diria? Aquela, que trabalhava na rede Globo e dava conselhos às mulheres carentes e mal-amadas. Foi visitar uma enchente e aprontou o maior barraco com uma cidadã que reclamava não da sua vida sexual, mas apenas dos estragos, perdas e danos causados pela má administração da prefeitura em relação aos recorrentes problemas causados pelas previsíveis enchentes.
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ÚLTIMA NOTÍCIA - Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de 62 anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com 29 afilhadas e tendo delas 97 filhas e 37 filhos.  De cinco irmãs, teve 18 filhas; de nove comadres 38 filhos e 18 filhas; de sete amas teve 29 filhos e cinco filhas; de duas escravas teve 21 filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos. Total: 299, sendo 214 do sexo feminino e 85 do sexo masculino, tendo concebido em 53 mulheres. A pena não foi cumprida porque El rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos 17 dias do mês de Março de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo. (Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal - Sentença proferida em 1487, no processo contra o Prior de Trancoso). Notícia enviada por Frederico Fonseca da Silva, professor da Universidade Estadual de Maringá, da Universidade Estadual de Londrina e do CESUMAR (Maringá). E.mail: deguste@uol.com.br
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RELUZENTES - Consta que o presidente da Câmara Federal, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), quer todos os parlamentares, assessores e funcionários da casa de sapatos reluzentes. Acaba de abrir uma licitação para contratar serviços de engraxataria no prédio num total de R$ 3.135 milhões por 12 meses. Dá R$ 261 mil por mês ou ainda R$ 8,7 mil por dia. O valor diário equivale à alimentação de 174 famílias num mês, pelas normas do Fome Zero.
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A OUTRA FACE - Sobre as universidades públicas, assim falou José Dirceu: "Como esse é um tema muito polêmico, o pau vai comer, como aconteceu na reforma da Previdência. E vamos tomar partido, porque gostamos, somos bons de disputa política e social".
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A OUTRA FACE (2) - Aluísio Mercadante, durante a votação da Reforma no Senado, quando até os líderes da atual (o) posição José Agripino (PFL) e Arthur Virgílio (PSDB) receberam aplausos da plateia, dirigindo-se a este último: "Nosso discurso não é mais o mesmo. Mas, por quê? Pela responsabilidade de quem chega ao poder. Quem chega ao poder tem responsabilidades com o Estado e tem de abrir mão de suas convicções pessoais."
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BRIZOLA ADVERTE (e o Ministério da Saúde também): "Quando fui candidato à vice do Lula, ele bebia muito. Eu o alertava de que a bebida destilada é perigosa. Ele não me ouviu e, segundo dizem, continua bebendo. A bebida ataca os neurônios e talvez esse seja um dos motivos que tem levado Lula a perder a capacidade de percepção das coisas". (Revista Veja, 1/10/2003).
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ENVIADO ESPECIAL - Lula, em visita a Angola, declarou que o Brasil tem uma dívida histórica para com a África. Afirmou que é preciso resgatar as relações entre o Brasil, Angola e o resto da África: "Isso não é nenhum favor. É apenas fazer justiça a um povo que tanto tempo contribuiu para o que o Brasil é hoje. No que depender de nós, queremos fazer em três anos o que não foi feito em tanto tempo. Cheguei à Presidência da República para fazer as coisas que precisavam ser feitas neste país e que muitos presidentes antes de mim não tiveram coragem de fazer o que precisa ser feito".
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MINISTÉRIO BELEZA - Consta que o Ministro da Cultura Gilberto Gil escolherá Jorge Mautner para assessor, seguindo a linha da política dançarina, traduzida pelos próprios em política cultural "baseada na improvisação, no gingado, na leveza, num jeito brasileiro de viver." Todos sabem o que isso significa: samba, axé, maracatu e boi-bumbá, made in Brazil.
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DUDA PEDE DEMISSÃO - O marqueteiro Duda Mendonça pediu o boné(s): "Renuncio ao ministério para o qual nunca fui indicado". 
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GLOBO-MULHER - A prefeita de São Paulo Marta Suplicy enviou à câmara dos vereadores de São Paulo projeto de lei que muda o nome da Avenida Água Espraiada para Jornalista Roberto Marinho. A homenagem póstuma já é a segunda da prefeita, que deu o nome de Roberto Marinho à biblioteca do Centro Educacional Unificado do Butantã. Mais dois mandatos e adeus Avenida Paulista.
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FALA SÉRIO! - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita à Espanha  onde recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias, pediu participação maior dos líderes mundiais no combate à fome e à pobreza. Em discurso durante visita ao parlamento, Lula disse que os famintos são hoje um problema social, mas que a fome deve se transformar em uma questão política. “Apenas quando a fome se transforma em um problema político nós prestamos atenção", disse. "Descobri que a fome não leva nenhum povo à revolução, mas à submissão", afirmou.
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A PROPAGANDA AINDA É A ALMA DO "NEGÓCIO" - Durante palestra no Congresso Brasileiro de Magistrados, na Bahia, o publicitário Duda Mendonça propôs que o Poder Judiciário faça campanha para melhorar sua imagem, maculada por denúncias de corrupção e ineficiência.  Duda disse que os juízes precisam aprender a se comunicar com a população e que gostaria muito de ser o responsável por melhorar a imagem dos tribunais.
"A imagem da venda nos olhos que simboliza a Justiça é de fato muito forte. Mas o fato da Justiça ser cega não justifica ser também muda, afinal o povo não é surdo. Ao contrário, está cada dia mais ouvindo e prestando atenção em tudo. A Justiça só fala nos autos, mas acho que já está em tempo de começar a falar também na TV, rádios e jornais" - disse o marqueteiro-mor.
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PRESOS POLÍTICOS NO BRASIL - Frei Betto, Assessor Especial da Presidência da República, disse na quinta-feira, em Presidente Prudente (SP),  que José Rainha e sua mulher, Diolinda Alves de Souza, líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) são presos políticos.
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OS BOMBONS DA FOME - Consta que a Presidência da República estaria comprando, entre outros mimos, 600 quilos de bombons Sonho de Valsa, da empresa Lacta, controlada por multinacional, o que acentua cada vez mais o caráter Fernando Collor do governo Lula. Penso que a compra de tais bombons deve ser uma forma de ajudar os brasileiros que correm na Indy Racing. É que Roger Penske, dono de uma das maiores equipes, é um dos principais acionistas da controladora da Lacta e tem pilotos brasileiros em seus carros.
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VIDA DE ARTISTA (I) - José Dirceu avisa que o "o espetáculo do crescimento" só vai acontecer em 2005.

VIDA DE ARTISTA (II) - O IBGE avisa: o desemprego no país atingiu a maior taxa dos últimos dezenove meses.
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AVISO - Assim falou Lula (em Concórdia, Santa Catarina): "Nada acontecerá no Brasil porque alguém quer que aconteça. As coisas vão acontecer quando o governo conscientemente entender que devem acontecer."
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CRIMEPENSAR - Senadora Heloísa Helena: "Não podem querer que eu fosse contra coisas que defendi a vida toda. (...) Me afastar por causa de macaxeira? Isso é um absurdo".
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O FORRÓ-LULA E A PROFECIA - Em almoço com as bancadas do Nordeste na residência oficial do presidente da Câmara, animado por uma banda de forró, assim falou Lula sobre o desenvolvimento da região Nordeste: "Não vai ser outro presidente que vai resolver. Ou resolve agora ou não resolve mais". No almoço-forró foram servidos os pratos "capote" feito com galinha d'angola, ensopado de carneiro com macaxeira e frutas e cocadas de sobremesa, além de vinhos e refrigerantes.
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FRAGMENTOS DE UM DISCURSO - Lula, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC: "Todo mundo aqui já tomou Benzetacil (penicilina injetável). Dói, mas cura. O nego fica um dia mancando. Não pode sentar. Senta só com a metade."
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"Vocês voltaram ao trabalho insatisfeitos, bufando, como um filho que ouve um não do pai e sai batendo a porta do quarto. Vocês fizeram isso. Voltaram para dentro da fábrica putos comigo."
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"Muitas vezes um pai é melhor para um filho quando dá uma chinelada no bumbum dele".
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"A gente falava Partido dos Trabalhadô, que é mais charmoso, mais forte, mais gostoso." Aqui no Distrito federal as crianças vai pra escola do Roriz assistir as aula. 
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MEDO - O presidente Luís Ignácio Lula da Silva disse ainda, em sua visita ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que tem medo de não cumprir os compromissos assumidos durante sua trajetória política.
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LULA DARÁ AULA MAGISTRAL - Consta que no próximo dia 14 de julho o presidente Lula dará uma aula aberta e gratuita na London School of Economics and Political Science (LSE). No mesmo lugar onde, há alguns dias, FHC proferiu uma palestra sobre economia internacional.
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"Existem homens com H e mulheres com dois: Heloísa Helena". Frase escrita em um cartaz na manifestação do dia 11 de junho, em Brasília, contra a reforma da Previdência. E aí, algum Homem com H vai encarar?  
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Assim falou Lula: "Só Deus pode impedir que este país alcance o lugar de destaque que merece." E se Deus impedir é porque ele não é brasileiro, certo?
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AS MANCHETES DOS JORNAIS NADA TEM A VER COM O QUE EU FALEI - Consta que Lula, quando disse: "Podem ficar certos de que não tem chuva, não tem geada, não tem terremoto, não tem cara feia, não tem o Congresso Nacional, não tem o Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar", estava apenas se dirigindo a uma freira presente na plateia. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sandra Pien, Aqui no duele


Aquí no duele
50 poemas de Sandra Pien
Ed. Vinciguerra
Buenos Aires, 2010


Somente agora, dois anos depois que tive a alegria de receber o livro “Aquí no duele”, de Sandra Pien, consigo dar uma mirada mais atenta sobre os versos belos e singelos que compõem esse volume. É que, ademais das muitas cascas que nos envolve a vida, todavia estava ainda eu prisioneiro daquele vulcão que foi o “MiBorges.com”, cuja força foi tamanha que cometi a ousadia de traduzir para o português brasileiro. Creio que também a poetisa estava enredada nas fortes correntes que foi a influência devastadora que el poeta mayor de Buenos Aires teve sobre todos nós, pobres leitores latino-americanos. Em Aqui no duele, Sandra Pien redescobre o prazer e a força da poesia em toda a sua plenitude:

Cada uno busca en su camino
el aleteo del otro
la mirada murmurante
la impiadosa ilusión.
Sin parpadear encuentra
el otro lado de la lluvia
sólo susurro de pasos
el arqueo de su sombra
en vacío y exceso.  

Ocorre que a poesia também me abandonou, sentado numa cadeira, em pleno deserto, nu de toda vaidade, pois que tive a audácia de querer libertar-me daquelas garras que costumam escravizar o poeta para sempre: a palavra. Agora que o tempo tirou-me o peso dessa influência e deixou meu corpo bem mais leve, sinto-me capacitado a desfrutar essa bela poesia que Sandra Pien escreve, também ela liberta das amarras que inspiraram aquele longo poema.

Es la verdad del agua
el día que siempre ríe
de mis labradas manos cortas
y un eco distante en la piel
espeja sólo desiertas burbujas
en despellejados oídos. 

O consagrado “MiBorges.com” encontra-se já inscrito entre as maiores manifestações poéticas das letras portenhas, cuja estética está bem fincada no mais avançado e moderno veículo que as letras ganharam neste século 21, a internet. Agora, porém, desfrutamos a poesia por inteiro, em toda a sua plenitude, e convém aproveitar esse momento sem pressa, passo a passo, como a subir os 365 degraus da Igreja da Penha, em pagamento de alguma promessa. Tendo alcançado o cume de sua produção, Sandra Pien agora cumpre suas obrigações com a musa e desfila em 50 poemas a lírica mais perfeita e justa que o poeta pode exprimir.

Cronista siempre
para alumbrar historias escondidas
en palabras navegantes y náufragas

Digo aqui que valeu a pena ter cometido essa grave falta com a minha admirada Sandra Pien, falta que me deixou com o espírito livre para desfrutar em plena ascensão a lírica moderna dessa grande poeta argentina. Repasso a meus poucos e especiais leitores uma seleção de “Aqui no duele”, feita pela própria autora, no idioma original, posto que o espanhol argentino é muito mais delicioso e original lido assim. Desfrutemos, pois, a belíssima poesia de Sandra Pien.

I

Para aprender
del filo de la ausencia
pequeño surco de salobre esperanza.
Y entre el horizonte y el mar
la travesía. 

II

Improvisar realidades
reinventar apuntes
por un amanecer templado de besos
apostar y perder toda la llanura
desde la puerta entornada.

III

¿Hacerle caso al obsceno hastío del día a día?
El cielo y el infierno y en el medio el ser
y seguirle la huella al alarido de la luz
para atrapar el viento.

IV

Y sobre él
juego de círculos
la mismidad del claroscuro
disperso soplo de sal
dibujado en la arena.

V

Es la verdad del agua
el día que siempre ríe
de mis labradas manos cortas
y un eco distante en la piel
espeja sólo desiertas burbujas
en despellejados oídos. 

VI

Fosforece una árida voz
cansado perro de presa
casi vislumbre de la mañana.
Es repetir y golpear márgenes
y es siempre insistir
para poder volver
a las trampas sin memoria
al retrato en tornasol hecho trizas. 

VIII

Qué extraña condena es el alma
curioso el dolor allí
sutil punzante intangible
y no poder atreverse siquiera a desterrar
los llantos de un infinito día que se alimona.

IX

Sentidos y contrasentidos
cada cambio de marea se mece
siempre a solas
entre escapar e insistir
casi sin palabras.
En el aire aceitunado
el pudor perfuma
polvo de tierra seca entre los dedos
y entre los resquicios
y entre las urgencias
se diluye la tarde. 

X

Cada uno busca en su camino
el aleteo del otro
la mirada murmurante
la impiadosa ilusión.
Sin parpadear encuentra
el otro lado de la lluvia
sólo susurro de pasos
el arqueo de su sombra
en vacío y exceso.  

XI

Desenfado y frescura
y cierta osadía afinada
y ese asomo de tristeza azul
y ser adolescente asidua.
Tramposa ingenuidad
sonrisa llena de gracia y sol
eternidad de juegos seductores
severa soledad cantada.
La última vez que la vi instruía quimeras
arbitrario destino pura visión de azar.
Desde la terraza del caserón
talismán de inocencia libre
encandilada al filo de la porfía
daba tiempo al tiempo
echando raíces en la incertidumbre. 

XII

Me dicen encender los fuegos de la casa
simple temblor de felicidad
me dicen levantar la cabeza y mirar alrededor
y recibir al viajero de la arena fina
y dar refugio a flor de piel.
Y en el límite convocado
ofrecer los pezones del poema.

XIII

Pero me atraen los muelles
inútil resistencia humana
la de los besos tormentosos noctilucos
en el delirio del dolor del deseo.
Sólo yo y la noche
y él a kilómetros y en mí.
¿Yo soy yo? No lo sé.
Ni penumbra ni sombra
me anudo al silencio. 

XIV

Leo poesía en la calle
la luz del sol sobre el papel
franquea las puertas hacia lo vertical
en el eco de sus manos
feliz espacio fuera del afuera.

Le robo tiempo al tiempo
esperándolo.

XV

Hay días en que estoy tan cansada
en que el mayor descubrimiento es el silencio
en que se enmaraña la misteriosa entrega
en que el mundo ordenado se desvanece.

Y voces y murmullos que se abren camino
el ojo desnudo en el antiguo arte de recordar
naderías y soledades.

Y el diario dice que llueve. 

XVI

Desde siempre amo la noche
ese estar fuera del tiempo
muda oscilación
memoria de la certeza
de la luz de mañana
del olor a herbaje recién cortado
de que el destino es
una celada de la realidad. 

XIX

He venido desde tan lejos
y viajo y viajo
con sed de búsqueda
hasta que llego
hasta que viene a mí
y estoy siempre en puerto en sus manos. 

XX

En tránsito de ilusiones
perfume de piel de limón
y sacar de debajo de la tierra
cuánto de luz hay en la oscuridad
cuánto de oscuridad hay en la luz.  

XLVII

Cada tanto asoma
un día soplo de primavera
estela de palabras
en impresionista luz
y realismo sin vocación.
Cuando un fuego ancestral se enciende
la gente se acerca
a esa ventana de la vida.

XLVIII

Se trata de que no duela tanto
abismal quietud veloz
para que no duela tanto
esta noche en pleno día
este azar sin fronteras.
Convierte tu muro en un peldaño decía Rilke
la apariencia que asume la realidad.

XLIX

Sangra la desolación de las certezas
duelen las vacilaciones de fragmentos
abordan los manotazos de mejor aire
renuncia la respiración artificial
grisea el rastro humano en estéril olvido
cruje el alumbramiento de angustias.
Sin embargo se escapa
cincuenta veces cincuenta sigue siendo
se filigrana húmeda mi escritura bajo la piel.

L

Cronista siempre
para alumbrar historias escondidas
en palabras navegantes y náufragas
habitadas desde las raíces de los ojos
inicio de lo que no inicia ni concluye
por la sola certeza de esperar el color
y así amparar el dolor en el agua
enramar el silencio
dulcificar la soledad
develar la sombra
pasionar e iluminar las nuevas manos
y ver qué nos trae hoy la marea
para salir siempre al camino.