sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Emails pro Quim



Rio de Janeiro, outubro de 2012
Primo,
Sei que vou te dar trabalho, mas desde logo, se não puder, fale, porque entre nós não tem qualiragem. Acabei e te mando a novelinha 'Chiara'. Rapaz, foram 40 capítulos feitos separados e aleatórios, que pra arrumar foi um desastre. Como já estou 'saturado' com o tema, um olhar 'de fora' cai muito bem. É isso que te peço, mas se não puder, como te disse, não faz. Também não é pra já - quero finalizar esse bicho lá pra dezembro ou janeiro.
Abrs, bjs,
Saloca
Rio de Janeiro, novembro de 2012
Joaquim,
Não posso dizer que o pensamento de você não me preocupa. Preocupa sim. Fico pensando aqui nas tuas decisões, parar de editar, parar de escrever, tirar férias literárias, etc. É verdade que nos reencontramos tardiamente. Mas aos poucos fui tomando gosto por você, pelas atitudes que você elege, como controla os acontecimentos. Faz pouco me admirei a tenacidade com que enfrentaste a odisseia para descobrir o mal que afligia a minha prima E., futucando mundos e fundos, até finalmente desvendar o mistério. Bem vejo que apenas cumpres a promessa, feita a ti mesmo, de cuidar de E., desde o primeiro dia em que resolveram viver juntos. E tens feito tudo com a tua própria ética, em silêncio, sem alarde. Penso na situação de E. e como isso pode te afetar. Já que és um caladão por natureza e o esquecimento de E. pode trazer mais mutismo ainda. O meu temor é que a solidão te agarre, e daí a preocupação com o deixar a literatura de lado, e digo isso por conta de experiência própria. Mas te contei isso, porque o que me aguentou - e agora descubro que em todas as circunstâncias -, foi a literatura, o fazer poesia, escrever e ler de tudo, brincar de arte. Foi isso que me fez cismar com você, porque estou matutando nisso desde que você veio com essa história de se afastar. Num afasta não, meu primo. Você é um artista, está comprometido com o escrever desde a juventude. E quando tudo estiver aporrinhado, é a literatura que estará contigo e vai botar tudo nos trilhos. Pronto, já desabafei. Fica com Deus e com as almas benditas. Um bj na minha prima, sobrinhos e sobrinhos-netos.
Resposta
Saloca: Primo (como meio irmão) é para isso mesmo: a gente fica de crista baixa e lá vem ele botar milho no comedouro, água no bebedouro e alimpar o poleiro da desilusão. Essa história de escrever tem me parecido muito um descarado escapismo de frustrações próprias da condição humana. Quase uma covardia de avestruz: o cara desiludido deixa a realidade pra lá e enfia a cabeça no papel ou nos livros. Mas, porém (Vieira falava assim: Mas, porém!), toda desilusão é efêmera, jamais eterna ou definitiva. Senão mais de dois terços da humanidade já teriam se enforcado nas cordas de realidades atormentadoras, acabrunhantes e apavorantes. Então, é dar tempo ao tempo e esperar que novas chuvas encham os olhos d'água da alegria de viver, produzir e gozar de tudo o que o espírito possa realizar de bom e útil para os homens. Mesmo sem religião (todas elas nascidas de sementes da discórdia, exceção, talvez do budismo) viver com Deus, não deixar que o sentimento do Amor nos abandone. Assim é que tenho pensado ultimamente. E foi bom receber os grãos de tua sabedoria, o teu milho doce e nutritivo, beber da tua água de estímulo. Estou pensando em ir até o Rio no próximo mês, passa passear e ver mulher bonita na praia... tomar cachaça mineira e comer sardinhas! A E. está cada dia melhor e essa viagem decerto estimulará mais ainda o seu ânimo. Depois te digo. Beijos jamais tardios do primo Quim
Rio de Janeiro, novembro de 2012
Quim,
Depois do alívio em te mandar 'Chiara', carrego pedras. Encontrei um volume de contos meus, datilografado, dos anos 1980. Rapaz eu escrevia sobre coisas loucas... e levava ao extremo o dito de Mário de Andrade - 'conto é aquilo que chamamos conto'. Agora estou digitando e tento mexer quase nada.
Abrs Bjs
Saloca
PS: Notei pelo menos duas temáticas: suicídio / a morte entre nós - mas de nenhuma maneira lúgubres...
Rio de Janeiro, dezembro
Quim,
Tem uma parte no romancinho ‘Chiara’ que chamei 'o sofrimento'. As 3 amigas, Chiara debate a vida, Crônica sobre o destino, etc. É puro 'Livro de Jó' e comentários teológicos sobre. Por isso está em linguagem muito 'didática'. Quero mexer nisso - porque tenho medo* de ser plágio. *Olha aí o medo/censura, que comentei outro dia. Depois falamos a respeito.
Bjs Abrs
Saloca
Rio de Janeiro dezembro de 2012
Mano-primo,
Isso que te ocorreu, ficar imobilizado, sim é que é uma chatice. Nem uma bengala à inglesa resolve?... Mais chato é que não estou aí pra te dar uma força. Me diz se posso fazer algo.
Estimo melhora! Bjs abrs,
Saloca
OS: Acabei de mexer em contos que escrevi em 1985. Agora entendo que é uma alegria não reler o que se escreveu. Rapaz, quanta doidice... nem te conto...
Rio de Janeiro, dezembro de 2012
Quim,
quanto à re-visão do livro de crônicas:
1) não seja muito rigoroso consigo mesmo, lembre:
cada leitor terá sua própria visão;
"cada cabeça, uma sentença";
2) os teus pares dirão:
- "um bom tema que Joaquim não soube aproveitar";
- ou: "magnífico! O autor alcançou o cume!" etc.
(dependendo do tamanho da inveja).
3) e aqui também vale aquele artigo do Dombrowsky...
Rio de Janeiro,  janeiro de 2013
Primo,
Sabe que no Porto do Rio estão a modernizar tudo, à moda dos velhos cais que são remodelados e postos a cumprir funções novas. Aqui tá assim. E pra arrematar os trabalhos, estão também a arborizar a orla das calçadas. Pensei que iriam dar força ao Bois du Brèsil, pois já vi muitos espalhados em calçadas, mas nada. Sabe quem tá com a maior força? O velho e sombroso oitizeiro. Pois não é? Novas mudas estão sendo plantadas. A pus de esticar o assunto, andei a olhar as árvores que estão por aqui. Jaqueiras às margens do Rio Maracanã; mangueiras espalhadas pela Vila Militar; um tal de Abricó-de-macaco, que tinha na Pç. Da Bandeira, não comestível; oitizeiros em toda Copacabana, tu bem conheces; alguns cajueiros em Deodoro, mas não sei se dá frutos; ah, lembra? velhos Tamarindeiros na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas; na estrada Grajaú-Jacarepaguá, mais jaqueiras que, dizem, veio da África e é espécie dominadora; e muitas, muitas amendoeiras, de frutos amarelos e tintos quase roxo. Tudo sempre mesclado com o flamboyant... que até no Cachambi tem muitos! Do oiti me lembro bem, é da minha infância, pois comi muitos frutos daqueles pés magníficos que tinha na Pç. Deodoro, principalmente em frente ao colégio Rosa Castro. As árvores pareciam catedrais de tão altas (ou era eu um pirralho?). Aqui no Rio comi muitas amêndoas, isto é, chupava, porque o bom era o sumo. De cajueiros, confesso que nunca vi tantos em Mato Grosso! Fui levado erradamente (não sei por quê), à impressão de que o cajueiro era planta de litoral. Pois em MT é planta nativa, como o pequizeiro. Lembro que no velho colégio dos Irmãos Maristas tinha um pé de tamarindo que era uma belezura, e levei muitas admoestações por comer os frutos. Oras... E relembro que lá no fim da casa de Antonio Nicolau, na Jordoa, tinha uma nascente de água cristalina, vastamente sombreada por um ingazeiro secular, cujas bagas enormes, de polpa branca aveludada, arriavam rumo ao chão. Quantas vezes saí dali com uma sacola cheia para levar para casa e então ver com que delícia e gana dona Mizica e o velho João Rovedo se atiravam aos frutos doces... Bem, é isso...
Bjs Abrs
Saloca
PS: Gostou dos lusitanismos?
Rio de Janeiro, janeiro de 2013
Quim,
Já te disse que não costumo ler coisas antigas minhas. Falta-me autocrítica. Mas tive de digitalizar um livrinho que achei abandonado e vi este continho, que achei nada de obra-prima. (Arre! Quanto 'inho'!). O fato é que o conto tem dinamismo, temas que saltam rápidos, um final até certo ponto surpreendente. Quer dizer, algumas vidas são descobertas nas pequenas cenas que vão se passando. Dá pra distrair: a temática fortuita, várias vidas, o que foi, o que deixou de ser... Bom, quando tiveres tempo, lê. 
Abrs, bjs, 
Saloca
PS: Você já deve estar safado desse mal modo de ser meu. Quer dizer, tipo modéstia, diminutivos muitos (livrinho-continho), não ligar pra $$$. Não é fingimento não, deve ser defeito genético ser assim, irresponsável com a vida. Sabe que outro dia deixei de ganhar R$ 400 por causa de ser assim?... Fico chateado porque tem gente em volta que não devia receber reflexo desse mal comportamento... Não vou recorrer a meu vocabulário de frases latinas pra te explicar melhor: te vira!
Rio de Janeiro, janeiro de 2013
Quim,
Passando vista numa enciclopédia (que sempre consulto antes de te escrever, que não sou bobo...), achei este verbete:  “Meneses, Celso Antonio de, escultor brasileiro, Caxias (MA) 1896-Rio de Janeiro 1984). Estudou em Paris com Bourdelle; trabalhou em São Paulo e no Rio. Entre suas obras destaca-se "Moça reclinada", feita para o jardim suspenso do Palácio da Cultura.” Surpresa! Conheço a 'moça' porque era caminho para o Clube de Xadrez Guanabara, que frequentei quase todos os dias por muito tempo. Indo de ônibus, eu descia na Av. Rio Branco, seguia pela Rua Pedro Lessa, atravessava a Rua México e Av. Graça Aranha, desembocando bem no pátio do Palácio da Cultura, em cuja travessia era obrigatória a vista do jardim suspenso. Nesse itinerário um dia esbarrei com Carlos Drummond - ia falar com ele, mas desisti, porque o vi muito absorto – quem sabe estava matutando nos muitos anos que transitou por ali, a trabalho do Ministro Gustavo Capanema? Antes e depois revi Drummond em eventos, principalmente na Casa de Rui Barbosa. Sabe que tinha alguns cartões dele – daqueles que por gentileza mandava a tantos quantos o procurassem? Hoje não sei onde estão... Mas, que importa? Faz tempo que a obra de CDA ganhou naturalidade argentina, né? A escultura da ‘moça deitada’ fica ao lado de outra obra, um casal de estudantes, as duas peças em granito branco. Eu dava crédito a Brecheret, Bruno Giorgi, por aí... Tem outra moça deitada – uma mãe amamentando – nos jardins da Praia de Botafogo, perto da Fundação Getúlio Vargas, não sei se te lembras, também em granito branco, muito bonita. Será igualmente obra do Meneses? Antão, isso sim, falar do maranhense Celso Antônio de Meneses é motivo pra crônica...
Bjs Abrs
Saloca
Rio de Janeiro, janeiro de 2013
Quim,
Avisa a rapaziada! Saiu a programação dos blocos de carnaval do Rio de Janeiro: 
Sábado:  Espanta neném – Corte Cantagalo, Imprensa que eu gamo – Mercadinho São José de Laranjeiras; Domingo, dia 27: Calma, calma sua piranha – Rua Real Grandeza, Botafogo; Sábado, 2 de fevereiro: Xupa mas não baba – Laranjeiras, Pinto sarado – Morro do Pinto, Santo Cristo, Simpatia é quase amor – Gen. Osório, Deixa a língua no varal – Barão de Mesquita, Tijuca; Domingo, 3 de fevereiro: Suvaco de Cristo – Jardim Botânico, Escravos da Mauá – Largo da Prainha, Pç. Mauá, Quem num guenta bebe água – Laranjeiras, Se não quiser dar, empresta – Vinícius de Morais com Vieira Souto, Larga a onça, Alfredo – Laranjeiras; Quarta, 6 de fevereiro: Discípulos do Oswaldo – Fiocruz, em Manguinhos, Samba brilha – Bar escadinha, Cinelândia; Quinta, 7 de fevereiro: Bonde do Samba – Estação do bonde no Largo da Carioca, Loucura suburbana – Engenho de Dentro; Sexta, 8 de fevereiro: Bloco das Carmelitas – Pensão das Carmelitas, Santa Teresa, Boca que fala – Palácio da Cultura, Centro, Vem ni mim que sou facinha – Gosório, Ipanema, Eu sou eu, jacaré é bicho dágua – Quadrilátero do álcool, Vila Isabel, Rola preguiçosa – Maria Quitéria, Ipanema, Boêmios da Lapa – Largo da Lapa, Embaixadores da folia – Rua São Bento com Rio Branco; Sábado, 9 de fevereiro: Embaixadores da folia (Alvorada) – Rua São Bento com Rio Branco, Céu na terra – Largo do Curvelo, Sta. Teresa, Cordão do Bola Preta – Cinelândia, Dois prá lá dois prá cá – Botafogo, Bloco do camelo – Paquetá, Sassaricando – Praia do Russel, Glória, Empurra que pega – Delfim Moreira, Leblon, Barbas – Arnaldo Quintela, Botafogo, Carioca da gema – Lapa, Cordão do Bola Preta – Coreto da Pç. Harmonia, Azeitona sem caroço – Dias Ferreira, Leblon; Domingo, 10 de fevereiro: Cordão do boitatá – Pç. XV, Centro, Laranjada samba club – Gen. Glicério, Laranjeiras, Que merda é essa? – Garcia d’Ávila + Nascimento Silva, Comuna que pariu – Cinelândia, É de pirarucu – Mal. Hermes, Gargalhada – 28 de setembro, Vila Isabel, Cachorro cansado – Pç. José de Alencar, Catete, Simpatia é quase amor – Gosório, Ipanema, Maracangalha – Cobal do Humaitá; Segunda, 11 de fevereiro: Corre atrás – Dias Ferreira, Leblon, Volta, Alice – Rua Alice, Laranjeiras, Bloco de segunda – Cobal do Humaitá, Os infiéis – Pç. Tiradentes, Centro, Flor do sereno – Posto 6, Copa; Terça, 12 de fevereiro: É tudo ou nada! – Humaitá, Se me der eu como – Dr. Satamini, Tijuca. Empurra que pega – Delfim Moreira, Leblon, Largo do Machado, mas não largo do copo – Largo do Machado, Meu bem, volto já – Barata Ribeiro, Copa, Só pra ver o que vai dar – Arnaldo Quintela, Cachorro cansado – Pç. José de Alencar, Catete; Quarta, 13 de fevereiro: Me beija que sou cineasta – Gávea, Planta na mente – Lapa; Quinta, 14 de fevereiro: Voltar pra quê? – Cinelândia, Sábado, 16 de fevereiro, OBA = Os Bons Amigos – Pedra do sal, Pç. Mauá, Bafafá – Areia do posto 9, Ipanema, Berço do samba – Trav. Mosqueira, Lapa; Domingo, 17 de fevereiro: Condomínio Barangal – Posto 9, Ipanema, Concentra mas não sai – Vila Isabel, Piranhas do Cachambi – Cachambi, Monobloco, Pç. XV de novembro. Bis de vários blocos até o carnaval acabar...
Abrs Bjs
Saloca
Rio de Janeiro, janeiro de 2013
Quim
Demorei a te responder o email que trouxe junto a poesia de Manoel da Cruz Evangelista, porque tem estória pra contar. Já faz um tempo, bem uns sete ou oito anos, me veio à cabeça um tema e lá fui eu trabalhar nele. Começo a escrever... poesia! Fiz uma pausa e disse pra comigo: péra aí! Quer dizer que tudo que tenho de expressar agora é em forma de poesia? Necas de pitibiriba! Pronto! Me aporrinhei com essa “ditadura” e falei: não escrevo mais poesia. Poizé, agora já vai para dez anos sem a dita cuja. Para não dizer que não fiz nada, poetei alguns folhetos de cordel a pedido do Zé Andrade – em homenagem a Augusto dos Anjos. Por isso, antes um poucadinho de chegar teu email já eu estava pensando que era tempo de escrever um livro de poesia – e até botei título: Dez Baladas sem Música. Isso de botar logo o título é pra comprometer princípio, meio e fim. Mas só tem o título mesmo... e algumas ideias fervendo na mufa. Nem sei se o título é bom, mode que não tenho o talento pra nome de livro, que nem o Mário de Andrade tinha. Ele sim, passando pela vila amazônica de Remate de Males, escreveu pro Manuel Bandeira. “Não é um baita título pra um livro?” – E foi mesmo... Isso foi o que me trouxe à lembrança os versos de Manoel:
“Agora estou bem melhor,
mas sinto dor,
tento fazer poesia mas só sai porcaria
vou parar de escrever.
Vou colher flores,
...vou cantar louvores,
porque tenho amigos,
amigos como você!”
Depois me veio a ideia de também parar de escrever, mas trocar a escritura por pinceis e telas. Não sei... E andei pensando que você também está devendo um livro de poesia, porque não tenho notícia se saiu alguma coisa tua depois de “Do incerto ócio”...
Bjs Abrs, 
Saloca
Rio de Janeiro, fevereiro de 2013
Quim,
Estou te mandando a prova em anexo, pra você não dizer: lá vem Saloca com mais uma lorota. Está aí mesmo, Dona Cida, recém-chegada do Maranhão, espírita vidente que com sete anos de idade desvendou o passado, presente e futuro de todos os seus familiares, se tornou minha vizinha de bairro, veio pro Cachambi. Mas ainda não fui lá visitá-la. Isso porque não sei se a essa altura do campeonato vou querer ser orientado sobre meus problemas comerciais, particulares ou amorosos. Tampouco sei se quero fazer voltar alguém muito querido pra minha companhia... ou recuperar um grande amor perdido. Deixa os amores perdidos pra lá, né? E eu, que nunca fiz mal a uma mosca!, vou lá querer destruir malefícios, ciúmes, invejas que poderão ter de mim? E já setentão terei tesão para alcançar êxito nos negócios, ter um bom emprego, curar os meus vícios – que muito demorei a conseguir e tanto prezo? Por qual razão tenho obrigação de recuperar alguma casa comercial da falência? Ah, primo, se nossa conterrânea, Dona Cida, tivesse chegado aqui algum tempo atrás, decerto estaria na fila de consulentes esperando a minha vez. Mas agora deixo tudo assim mesmo – é bem melhor ficar tudo como está, né? Amores que não tive, livros que não li, sonhos que não sonhei – pra que mudar tudo isso? Poderia ter sido um viver mais melhor – mas ruim mesmo é que não foi...
Bjs Abrs,
Saloca
Rio de Janeiro, fevereiro de 2013
Quim
Poizé, primo. Coisa chata esse negócio de morrer, mas como será sempre esse o gran finale, que sejamos capazes de torná-lo menos aborrecido... Também ontem eu voltava pra casa, aporrinhado com a notícia, e passei num pé-sujo que tem perto. Era uma casa que ficava a meio caminho, por isso nunca tinha parado ali, desta vez fui pra lá. É um misto de boteco e restaurante, dono português, teu xará, aliás. Agora vê só o que o pé-sujo oferece, de entremeio às porcarias comuns aos estabelecimentos desse tipo: Bagaceira das marcas Neto Costa, Primavera, São Domingos e Aldeia Velha; Macieira em garrafa (não litro), Five Star, Royal Brandy, como se diz agora dos conhaques feitos fora da França – aqui temos o tal de ‘conhaque de gengibre’. Continuando: Vinho do Porto Réccua-Ruby, Licor Beirão, vários litros de Aniz ‘escorchado’ (foi assim que entendi – está certo?); Azeite em lata: Bom Dia e Mondegão; Tremoço, Grão de bico e Favas em vidros de conserva, da marca Du Olival. Pra fechar a lista, tem também Sardinha, Bacalhau e Polvo, enlatados em azeite, da marca Ramirez. Já que estava aporrinhado, como te disse, pra não perder a viagem bebi umas tantas cervejas Itaipava Premium – que também lá tinha (não resisto ao cacófato) –, muito bem acompanhadas de tremoço, sardinha e papo furado com Joaquim, que tem uns 50 anos de Rio de Janeiro e outras tantas idas e vindas à terrinha. Fi-lo porque quis e bem feito, não foi? (Esse ‘fi-lo’ ouvi de Jânio Quadros numa entrevista, correção feita ao famoso ‘fi-lo porque qui-lo’ – folclore que corria como sendo frase dele. “Jamais pronunciei tal coisa – disse – se o fizesse teria dito: Fi-lo porque quis”. Aqui não sei se teria dito ‘o quis’ ou ‘quis’...). E posto que morrer é também puro folclore, não percamos a pose – e abrace cá este seu primo...
Saloca