sábado, 29 de junho de 2013

Guerra e paz: do filósofo ao cantador

O filósofo
Thomas Hobbes
O ponto de partida da filosofia de Thomas Hobbes se baseia no fato de que nada pode ser pior do que a guerra. Com efeito, para ele a guerra impede o trabalho, o cultivo da terra, o comércio, o desenvolvimento técnico, o conhecimento e as manifestações artísticas. A guerra destrói os laços de sociabilidade, torna os homens desconfiados, cada um temendo todos os outros, sempre na expectativa de que alguém vá roubar os seus bens, saquear a sua propriedade, tirar a sua vida. Em tais circunstâncias todo homem é inimigo de todo homem.

A partir dessa contestação, Hobbes deduz que a guerra jamais poderá ser benéfica para os homens. A sua filosofia tem a intenção de mostrar de que modo os homens devem se organizar politicamente a fim de estabelecer a paz. Antes de tudo é necessário investigar as razões que levam os homens ao conflito, afirma Hobbes.

Como conhecer o que causa uma guerra? O que faz os homens se comportarem de modo cruelmente belicosos uns em relação aos outros? Primeiro essa pergunta deve ser respondida para que se possa construir a paz. Para Hobbes, a guerra é o resultado da soma de dois fatores: a natureza humana e a fraqueza do Estado. Por tendência natural nós buscamos realizar o próprio bem e agimos motivados pelos nossos próprios interesses. Toda ação voluntária é feita visando à obtenção de algum beneficio para quem age.

Em uma situação em que não há um poder comum capaz de estabelecer limites para a ação e garantir a preservação da vida e dos bens de cada um, a solução dos conflitos tende a se dar, não de modo pacífico, mas belicoso, já que todos os homens naturalmente fazem tudo o que está ao seu alcance para preservar e satisfazer os seus desejos, mesmo que isso custe o benefício, a vida ou os desejos dos outros.

Por aqui se vê que, para Hobbes, a única maneira de evitar a guerra será estabelecer um poder bastante forte para impor limites às ações e evitar que as desavenças sejam resolvidas pela violência. Muitos contemporâneos e sucessores de Hobbes o criticaram duramente por dizer que os homens agem em nome do seu próprio benefício e tendem naturalmente à guerra e não à associação.

O cantador
Patativa do Assaré
Muitas centenas de anos depois, em algum lugar do sertão cearense, Antonio Gonçalves da Silva, poeta popular, nascido na Serra do Santana, interpretou as desgraças da guerra de outro modo, mas com a mesma consistência social. Como o filósofo Hobbes, o poeta Antonio Gonçalves sabe que a guerra rouba o bem estar coletivo, transforma os sonhos em pó, os projetos de vida, atingindo sem distinção os jovens e os idosos.

Só desgraças traz a guerra
Defendemos, pois, a paz.

Deve a paz sempre reinar
Em todo e qualquer sentido
Pois a guerra nos tem sido
A causadora do azar;
Rouba nosso bem estar
E o nosso sonho desfaz
Chora o ancião e o rapaz
Na hora que o canhão berra
Só desgraças traz a guerra
Defendemos, pois, a paz.

As mesmas desgraças que Hobbes registra ao impedir o cultivo da terra, prejudicar e paralisar o comércio, afetar seriamente – apesar dos “progressos" que, dizem, a guerra traz - afetar o desenvolvimento técnico, por fim, alterar as manifestações artísticas, uma vez que a temática se volta inexorável para o tema.

A paz é um bem comum
Que nos enche de prazer
Deve sempre florescer
No peito de cada um
Da guerra o triste zum-zum
É obra de Satanás
O vil inimigo audaz
Tudo destrói tudo aterra
Só desgraças traz a guerra
Defendemos, pois, a paz.

Por ser poeta, por ter uma previsão do mundo diferente dos demais, Antonio Gonçalves também há de lutar com moinhos de vento para ressaltar os malefícios que a guerra traz a uma simples amizade entre vizinhos, visto que a guerra destrói os laços de sociabilidade, torna os homens desconfiados, cada um temendo todos os outros, sempre na expectativa de que alguém vá roubar os seus bens, saquear a sua propriedade, tirar a sua vida.

A paz é a salvação
A vida e a felicidade
A guerra é a barbaridade
O luto a dor a aflição
A miséria e a traição
Como seu instinto mordaz;
Portanto a todos apraz
Implantar a paz na terra
Só desgraças traz a guerra
Defendemos, pois, a paz.

Em tais circunstâncias todo homem é inimigo de todo home – diz Hobbes. Hermann Hesse também, Anatole France, Thomas Mann também e inúmeros outros escritores e pensadores. Mas como convencer os políticos, militares e empresários que a guerra só traz desgraças? Voltemos ao sertão, à ilha deserta, aos oásis do Saara ou ao Sítio do Jenipapo, porque só nesses lugares teremos paz...

Fui certa noite cantar
No Sítio do Jenipapo
E ouvi lá um bate papo
Que me fez admirar;
Dizia à luz do luar
O velho Juca Tomaz:
Desde o vale até a serra
Só desgraças traz a guerra
Defendemos, pois, a paz.
(1973)

Baseado e adaptado com textos dos livros:
Yara Frateschi - Hobbes: a instituição do Estado - In: Filósofos na sala de aula - Org. Vinicius de Figueiredo - Berlendis editores ltda. (2007)
Patativa do Assaré - Cante lá que eu canto cá - Editora Vozes (2012)


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vândalos são eles

Quarta-feira, 19/6/2013



Julio Daio Borges, (pirateado do "Digestivo Cultural")

Se dependesse das autoridades, protesto seria sempre ordeiro. Uma turminha bem comportada, carregando cartazes bem-feitinhos, dando voltas sem fim em algum lugar que não atrapalhe o trânsito ― num Sambódromo, ou quem sabe em um autódromo. Para participar, seria preciso se inscrever, apresentar RG, CPF, serviço militar quitado, Imposto de Renda, atestado de bom comportamento, e não ter antecedentes criminais. Vamos ser bem claros: protesto pacífico não serve pra muita coisa. A polícia não bate. A imprensa não dá espaço. Os governantes não dão bola. Protesto não é pra ser pacífico. Protesto é pra incomodar. Protesto é para questionar a ordem. Nada questiona tão bem quanto um soco, um incêndio, uma pedrada na vidraça.

Em protestos como vêm acontecendo no Brasil, uma minoria bem ínfima é que está quebrando, e agora saqueando. É essa minoria que ocupa muito espaço na cobertura televisiva. Por uma ótima razão: rende boa TV. Televisão é imagem, e imagem de gente brigando, correndo, botando fogo e enfrentando a polícia é mais emocionante que imagem de gente caminhando calmamente (por isso é que tem tanto seriado policial, e nenhum sobre gente que gosta de caminhar). E essa minoria aumenta muito o poder de fogo do conjunto dos manifestantes ― queiram os pacifistas do movimento ou não.

Vamos separar, por um minuto, as depredações dos saques. Vimos grupos, e não tão ínfimos assim, que se dedicaram a apedrejar, pichar, quebrar as frentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o Palácio dos Bandeirantes e a prefeitura em São Paulo, e outros prédios públicos. São alvos absolutamente legítimos. A massa dos manifestantes, e praticamente todo mundo que acompanha o movimento, identifica governadores, prefeitos e a classe política como parte do problema, não da solução. São, nesse sentido, o inimigo. Estão sempre protegidos pela polícia, porque sabem que são alvos, e que merecem ser alvos. No limite, o governo sai matando de um lado, e os revoltosos saem matando do outro ― vide Síria.

Vamos seguir o mesmo raciocínio. Vimos outros alvos ontem, não-públicos. Quebraram agências de bancos. Os bancos são amigos ou inimigos da população? Quebraram McDonald's. De que lado você colocaria a rede de fast-food? Não deixaram Caco Barcellos trabalhar, botaram fogo em uma carro da reportagem da TV Record. De que lado você põe a mídia, a seu lado ou contra você? A decisão é de cada um, e de cada um que está nos protestos. Uns são muito radicais, outros muito moderados. Quem decidir ir pro pau, vai sabendo que pode levar porrada e talvez, ir para a cadeia.

Nos últimos dias, ficou mais complicado decidir a quem você se opõe. Agora toda a imprensa está simpática (se bem que cobrindo muitíssimo mal, em geral), a PM está bem contida, os políticos aplaudem, tá todo mundo vendo "beleza" nos protestos, como disse o governador do Rio. Da boca pra fora, claro ― ninguém se mexeu um milímetro para atender as reivindicações dos manifestantes, pelo menos nas grandes cidades. Mas o bloco do "a favor" está crescendo, inchando até. Virou obrigação aplaudir. Todos os famosos apóiam, e se os famosos apóiam deve ser boa coisa, né?

Mas todo esse a favor para quando começa o pau. Todos aplaudem os protestos, e todos são unânimes em satanizar os baderneiros, os infiltrados, os vândalos. E mais ainda os que roubam. Saquear lojas atravessa uma fronteira muito importante. Na linha acima, é fácil entender porque alguns manifestantes muito radicalizados veem esses grandes magazines como templos do consumo, símbolos do capitalismo, e portanto alvos válidos. Mas na hora que você sai correndo com uma TV, um celular ou um microondas, que vai levar pra sua casa e usufruir, passa a ser visto como um ladrão comum.

Em um contexto de desobediência civil, é estratégia sólida dar um chega-pra-lá nas regras cotidianas do consumo, e dar uma banana para a lei. Na época da ditadura militar, guerrilheiros roubavam bancos e ricaços e, com o dinheiro, financiavam ações contra o regime. Não era roubo, era "expropriação", diziam. A presidente da república, Dilma Rousseff, colaborou em ações do gênero. Vi um senador na televisão dizendo que manifestações violentas são incompatíveis com o regime democrático. Os militares também garantiam que vivíamos em uma democracia nos anos 70. Democracia não é o que senador diz, é o que o povo sente.

O Brasil não vive um cenário de transformação radical. Mas nosso País é muito violento, o tempo todo, e particularmente com os mais pobres. Violência do crime, e violência do Estado, que nos leva o dinheiro e nos dá tão pouco em troca. Não se trata de defender quem depreda e saqueia. Se trata de ter consciência de que nossa paz é diariamente quebrada, que muitas empresas depredam o País cotidianamente, e que o poder público não nos protege. Donde que é ser muito ingênuo achar que todo protesto vai ser sempre pacífico e polido. É fácil pra classe média alta boazinha, que vive em condomínio, paga seguro saúde e escola, põe insulfilm no carro e depende muito menos do Estado, cobrar que todo mundo se comporte...

É preciso, também, descobrir outras maneiras de protestar. Não podemos ficar entre o quebra-quebra e esses passeios sem fim pela cidade, gritando palavras de ordem e "violência não". Desobediência civil ― e criativa ― é um dos melhores caminhos. Ainda mais se beneficiar diretamente a população que hoje não está nas ruas.

Olha, eu sou o cara mais pacífico do mundo. Mas vamos botar a mão na consciência. O País atravessa uma turbulência que não tem precedentes na campanha pelo impeachment de Collor, ou pelas Diretas. É outro Brasil, outro mundo, são outros descontentamentos e anseios, são outros governantes e manifestantes. Quem protesta não enxerga hoje na tal sociedade civil quem o represente. Nem partidos, nem instituições. Os políticos que marcharam pelas diretas, e contra Collor, hoje estão no poder, e são amiguinhos dos herdeiros da ditadura, e do próprio Collor. É de se estranhar que tenha gente que quer quebrar tudo?