segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Deu no Facebook – Salomão Rovedo


A minha vida está negra. Meu dia está nublado. Por quê? Oras, oras, são as nuvens cor de chumbo, que vêm descendo sobre o morro como lagartixas, escorregadias, soturnas – igual àqueles filmes ingleses, de terror, sabe? Idêntico às cenas de pânico do Hitchcock. Enfim, nuvens quase negras, vento frio, garoa, uivos que as frestas das janelas emitem, arre! Lembra o meu avô que em dias assim sentava-se ao bancorete na varanda, prostrado de tanta desolação, acendia um cigarro atrás do outro, jogando a fumaça para o alto, a bagana para outro, até virar nuvem também. Bem diferente do tempo ensolarado, céu azul, nuvens brancas que governavam o dia do velho. Nessa hora, para evitar que a fumaça do cigarro sujasse o céu, ele trocava o fumo por um copo de cachaça. Como sabia viver o meu avô! (06/09/2013) 
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A ditadura está de volta! A atitude do Estado ante as manifestações (que vieram para mudar) indica: a ditadura está de volta. A nossa pseudo-democracia apoia a reação violenta das polícias. As medidas do Governo, deputados e vereadores indicam – a ditadura está de volta! Tudo tem o amém das instituições, da Autoridade Federal, Estadual e Municipal. A imagem da violência de hoje de repente se mistura com documentários em preto e branco dos anos 1960! Vejam! São perfeitamente iguais, são exatamente as mesmas, são impecavelmente ditatoriais. A ditadura está de volta! Antes era Gás Lacrimogêneo, porrada de cassetete de madeira, bordoada de espadas enferrujadas. Hoje é Spray de Pimenta, Bala de Borracha, Pistola de Choque Elétrico. Os dias de ditadura estão voltando com novos sabores. Preciso me preparar, atualizar o cardápio. Vou já-já ao camelódromo comprar a minha máscara. (07/07/2013) 
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Anarquista não é baderneiro. O anarquismo é uma forma de direito político, desconhece a direita e a esquerda, opta pela rebelião para expressar sua meta: o fim da sociedade hierárquica. Por isso toda insurgência contra o sistema, contra a opressão tem nome de anarquia. Aqui, as manifestações contra o Estado – corrupto, opressor, controlador, nazifascista – há de provocar sempre o ódio e a convulsão. Dentro da desordem está o quebra-pau, a arruaça, o vandalismo. Em tempos de corrupção deslavada a corja reconhece o corruptor na instituição que depreda. O ataque é ao lucro insaciável, à banca federal de jogos, ao abandono deliberado e institucional da saúde, da educação, da cidade e do cidadão – tudo que era marginal e criminoso hoje é institucional, governamental. Indivíduo, sociedade e liberdade – eis o fundamento do anarquismo. (08/09/2013) 
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A bailarina italiana Marietta Baderna chegou ao Rio de Janeiro, tinha 21 anos e prestígio. Logo Marietta trocou o pas de deux pela umbigada dançada pelas negras, atitude mal vista pela soçaite da época, que passou a discriminá-la. Maria se declarou antimonarquista e liderou greves contra empresários que não pagavam os empregados. Perdeu o apoio da imprensa (que em 1849 a recebeu com flores), dos teatros, dos próprios colegas. Para sobreviver virou dançarina de teatro de revista e quando ela saía de cena, o populacho exigia sua volta batendo pés, fazendo arruaça, quebra-quebra, gritando: Baderna! Baderna! Boa herança deixaram os rapazes do século XIX! (09/09/2013) 
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Clubes e Associações de Baderneiros vieram pra ficar. Não sou baderneiro e me falta tempo pra fazer o vestibular. No tempo da ditadura fiz treinamento no Calabouço, na Faculdade de Filosofia, no Largo do CACO, na Central do Brasil, no Largo de São Francisco, na Cinelândia – que não era só lugar de viado (ainda não existia gay). Mas fiz a minha inscrição e sou a favor de manifestantes mascarados. Por que ninguém fala da POLÍCIA MASCARADA? Andam com TOUCAS NINJAS pra lá e pra cá e nada. Passou na TV: na reconstituição do caso Amarildo tinha policial mascarado. Ora bolas! E dos DEPUTADOS MASCARADOS, ninguém fala? Protegidos pelo VOTO SECRETO evitam o repúdio e a rejeição do povo, né mesmo? (10/09/2013) 
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Crescem as críticas sobre o uso de Armas Químicas na guerra. O EUA usou esse argumento para atacar o Iraque e intervir na Argélia, Tunísia, Líbia, Iêmen – sempre e sempre o mundo árabe – em que Obama (Democrata) repete Bush (Republicano). Reportagens constataram o uso de Armas Químicas pelos rebeldes (armados por EUA/Israel), na Síria. O arauto das críticas (EUA) usou Gás Mostarda na Europa, jogou a Bomba Atômica no Japão e encheu o Vietnã de Napalm? Tudo isso é Arma Química. ATENÇÃO! Também é Arma Química: a Bomba de Efeito Moral, o Gás Lacrimogêneo, o Spray de Pimenta e outros temperos que nossa polícia usa contra os manifestantes. Fora as armas químicas! – aqui no Brasil também... (11/09/2013) 
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Velhice. Lá vai Wilson na calçada coberta de folhas vermelhas de amendoeira, enferrujadas como seus joelhos. Vendo-o caminhar, ombros pesados, cabelos brancos, pele enrugada, vi que estava velho, a amendoeira está velha, eu estou velho. Por que a gente custa admitir isso? É que a cabeça não envelhece. Mas os jovens começam a te chamar de Tio, no ônibus te oferecem lugar, te chamam de “coroa”. Quando alguém começa a gritar: Vovô! Vovô! A gente está velho quando os amigos passam carregando o mundo nos ombros, joelhos dobrados, olhar distraído para tudo, sem vontade de dar um abraço. Ou quando se tem dúvida entre o Viagra, Cialis ou nenhum deles. Êita mundo doido! (13/09/2013) 
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Zé Andrade Arte postou: “Creio que devemos ler só os livros que mordem e espicaçam. Se o livro que lemos não nos desperta com uma porrada na cabeça, de que adianta lê-lo?” (Franz Kafka: carta a Oskar Pollak, 1904). Mas, ora bolas, aqui cabe bem o proverbial “Poema Enjoadinho” de Vinícius de Moraes: “Filhos...  Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo?” – Então, livros, se não os ler, como sabê-los bons ou não, né? Ademais, levar porrada de livro na cabeça... não sei não... se for o Ulisses de James Joyce, mais que despertar, vai doer. Se for o Atlas Klencke então, vai matar! (14/09/2013) Agora, olha só que beleza o poema do Vinícius de Moraes completo:

Poema enjoadinho

Filhos...  Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão. 
Filhos?  Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
In: Antologia Poética, Editora do Autor - RJ, 1960, via: http://www.releituras.com/ 

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Transmiti-las ao vivo deu alto Ibope às sessões do STF no julgamento do mensalão. Audiência puxada pela presença do Ministro Joaquim Barbosa, gigante no pleno, mas fisicamente abatido por infernal dor na coluna. O padecimento se agravou após o Ministro pronunciar as sentenças, pois, é certo, o nome dele foi parar na boca do sapo, nas encruzilhadas, nos Ebós, nos rogos e padês aos Exus. Quem imaginaria, porém, que todo aquele esforço iria esbarrar no voto agradecido dos Ministros nomeados por políticos? Não dá mais para assistir a TV Justiça sem sentir ignomínia, desonra, opróbrio – porque hoje o Brasil todo sabe que nem mesmo a Suprema Corte escapou aos tentáculos da corrupção que assola o país. (15/09/2013)
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Deixar pra amanhã não é uma boa ideia na idade em que a gente tá virando criança de novo. Foi assim que perdi o mano mais velho, Antonio, de Mato Grosso do Sul. Ele mandou mensagem: “Quando você vem ver o teu irmão? Amanhã?” Foi mal, foi chato. Tivesse ido, ele não faria a inevitável viagem assim, sem combinar. Ninguém morre na minha presença: não permito! Hoje recebi a visita do outro irmão, Roberto (vide fotos), de Cuiabá. Faz dois anos que vinha deixando pra nos visitar amanhã... Trouxe pequi, mel de abelha, um abraço de irmão – que foi o mais gostoso. Queria que ficasse uma semana, mas passou só alguns minutos! Como castigo não deixei cantar as músicas que compõe – e porque desafina pra caralho! Boa viagem, mano! (15/09/2013)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O genial Liniers

UM ABRAÇO É UM ABRAÇO, É UM ABRAÇO, É UM ABRAÇO...

Nelson Motta vs Zé Dirceu




O meu amigo Carlos Benites me enviou, direto de sua base da tranquilidade em Maricá, o artigo de Nelson Motta (O Estado de São Paulo).
“Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia.  Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heroico:  "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu". Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão.  E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica.  Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefe da Casa Civil, ou presidente da Petrobrás. Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada:  "Dirceu guerreiro/do povo brasileiro".  Ufa! A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão".  Ele sabia que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era irrelevante.  O importante era o dinheirão.  Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos. O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo?  Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto, juntos, criariam uma marca mais forte e eficiente. Mas, antes de qualquer motivação política, a explosão do maior escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu.  Como Nina e Carminha da política, é a história de uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania.  Feitos um para o outro. O "chefe" sempre foi José Dirceu.  Combativo, inteligente, universitário - não sei se completou o curso - fala vários idiomas, treinado em Cuba e na Antiga União Soviética, entre outras coisas.  E com uma fé cega em implantar a Ditadura do Proletariado a "La Cuba". Para isso usou e abusou de várias pessoas e, a mais importante - pelos resultados alcançados - era Lula.  Ignorante, iletrado, desonesto, sem ideais, mas um grande manipulador de pessoas, era o joguete ideal para o inspirado José Dirceu. Lula não tinha caráter nem ética, e até contava, entre risos, que sua família só comia carne quando seu irmão "roubava" mortadela no mercado onde trabalhava.  Ou seja, o padrão ético era frágil.  E ele, o Dirceu, que fizera tudo direitinho, estava na hora de colher os frutos e implantar seu sonho no país. Aí surgiu Roberto Jefferson...  e deu no que deu.” 
Ao fim, Benites comenta: "A análise de Nelson Motta está perfeita". Não está não, amigo Benites. Primeiro, Nelson Motta já escreveu melhor, o texto está horrível, digno do Enem. Segundo, o seu (dele) pensamento congelou no tempo – Ditadura do Proletariado a "La Cuba"? Faz-me rir... O que temos implantada no Brasil é a ditadura política, ditadura de controle pelo Estado, o moderno Nazifacismo, que entrou goela abaixo com o nome de Globalização. Basta ver a repressão violenta contra as manifestações. Estimulada por TODOS os governadores. Essa repressão é supra-partidária, nesse contexto Dilma Russef, Barack Obama, Bachar al Assad e Vladimir Putin são iguais. Nelson Motta sabe de tudo isso, mas finge que não sabe. Hoje, setembro de 2013, o julgamento dos réus do mensalão corre sério risco de virar uma pizza gigantesca. Nelson Motta finge não perceber, porque é um burguês inserido no contexto. Não sei se levou algum $ da Comissão da Verdade, como todos do Pasquim. Se recebeu, não vai cuspir no prato que comeu. Amigo Benites, se você analisar bem tudo que está escrito nesse artigo, vai ver que é um amontoado de besteira, sem utilidade alguma para a história contemporânea. E Roberto Jefferson não merece nada: ele só denunciou a pilantragem porque foi traído, não recebeu o cala-a-boca a que tinha direito, segundo a sua (dele) ética.