terça-feira, 12 de novembro de 2013

Stefan Zweig dormiu lá em casa











 

"O escritor, porém, pairava acima da confusão – como sempre pretendeu – e sorria encantado. A mulher, reflexo fiel, encantava-se com o encantamento do marido”. Alberto Dines - Morte no Paraíso (A tragédia de Stefan Zweig)
           No dia 3 de setembro de 1940, Albertinho chegou em casa muito mais agitado do que habitualmente ocorria. Mas logo que entrou, suado, com a camisa amarrotada, cabelos despenteados, os livros e cadernos escorregando braço abaixo, não foi direto para o banho. Violando o costume estabelecido pelos pais, passou direto. Primeiro tinha que contar as novidades. Todas as novidades...           
– Mamãe! Mamãe! Hoje na escola recebemos a visita de um famoso escritor alemão. Quer dizer, austríaco... O senhor Stefan Zweig e também a sua esposa, dona Lotte.           
Os sapatos estavam sujos de areia, com os cadarços soltos, a camisa estava fora da calça pela metade, o cinto saltando da fivela e da calça, as meias de algodão branco arriavam frouxamente perna abaixo. Havia um quê anormal naquele dia, denunciando as fortes emoções por qual Albertinho tinha passado. Contudo, nem por isso que dona Ester se deixou impressionar. E foi logo tentando pôr as coisas nos seus lugares: – Tudo bem! Tudo bem, mas, primeiro pode ir direto ao banho. Depois você me conta...       
Mesmo que nada. Albertinho não cansava de se esgoelar, mesmo à distância, para contar tudo com todos os detalhes. Até mesmo para Salustiana, que cuidava do menino com amores de mãe, não conseguia controlar o alvoroço. E quem não acompanhasse as palavras ditas de modo rápido, ouvia frases desconexas e notícias misturadas...           
– O professor Moisés suspendeu todas as aulas para preparar a recepção ao ilustre escritor. Também fez questão de repetir o nome dele bem alto para que todos aprendessem. Assim, estefan szvaig, assim mesmo, szvaig. Está certo mamãe? As professoras escreveram em todas as lousas: “Hoje teremos um dia especial: o escritor austríaco Stefan Zweig está visitando a nossa escola”.           
Mas dona Ester não se entrega facilmente ao rebuliço. Prefere o silêncio para que o menino se acalme. Volta e meia acontece uma novidade, mas dessa visita ela e o seu marido já sabiam com antecedência. Na verdade o escritor já havia telefonado várias vezes ao seu amigo Samuel. Sempre que podiam se encontravam.      
– Ele está em visita no nosso país e veio conhecer o presidente Getúlio Vargas, os escritores brasileiros e os políticos. Vai escrever um livro sobre o Brasil. Gostou tanto que pode até morar aqui!           
Era a terceira visita de Stefan Zweig ao Brasil, na sua peregrinação em busca de algum lugar que pudesse esquecer os horrores das guerras. Quando jovem atravessou a guerra de 1914-1918. Agora, com a Europa em convulsão, estava decidido a vir morar aqui, na esperança que esta terra misteriosa o ajudasse a tirar da cabeça as angústias da violência.           
“Albertinho, vem logo tomar banho, esse menino!” Era Salustiana quem insistia tentando voltar à normalidade. Mas, para o pequeno Albertinho e para os mais de cem alunos da Escola Israelita-Brasileira, foi um dia para não esquecer. Por isso sua narrativa saía tão desorganizada, fractal. Se é que para um garoto de apenas oito anos pode-se avaliar níveis de agitação.           
– Se tem uma coisa que ele gostou mesmo foi doce de goiaba. Repetiu uma vez e depois o diretor o fez provar a goiabada com queijo minas. Ele provou e sorriu, fazendo um gesto assim com a boca. E Albertinho imitava, lambendo os beiços, estalando os lábios: – Oh! Saboroso! Oh! Delicioso!           
Na escola foi realmente um dia de loucura total, atribulações daquelas, iguais às que trazem as visitas importantes. O Diretor cancelou todas as obrigações para recepcionar o casal Zweig. Professores, professoras, empregados, todos esmerados em explicar o significado da visita aos alunos para evitar gafes. As serventes se movimentando num corre-corre para não faltar nada. Todos se sentiam um pouco responsáveis em deixar uma boa impressão para que Zweig finalmente se decidisse morar no Brasil.           
– Na palestra que ele fez disse que a nossa escola era muito parecida com a que ele fez os primeiros estudos. – Dá vontade de começar tudo de novo! Foi o que ele disse. Todos nós nos rimos muito e o convidamos para nossa escola. Tomara que venha ser nosso professor!
Agora o imponderável ocorreu, o imprevisto da situação modificou o caráter e sem pressentir Albertinho sofreu a primeira grande emoção da sua vida. Ao conhecer Stefan Zweig criou o seu primeiro herói, aquele que seria doravante admirado. Tudo isso o levou a anotar mentalmente os detalhes, as particularidades, os gestos e as pequenas manias do escritor. Algo o empurrava para perto do casal, reparar os gestos, atender as necessidades, xeretar uma ou outra palavra da conversa que mantinham com os professores. 
– Mamãe, imagine que só de cafezinho tomou mais de seis! Era tomar um cafezinho e fumar um cigarro. Gostou do almoço, elogiou muito o nosso café e o nosso charuto. Ele gosta mesmo daqui... Enquanto Albertinho gritava para a mãe ouvir lá na sala as novidades, Salustiana lutava para fazer seu serviço: “Vamos menino, vem pra cá, deixa ao menos te enxugar direito!”
Agora, já recomposto pela dedicação de Salustiana, Albertinho parecia-se consigo mesmo: apesar da pouca idade era um aluno aplicado, inteligente, dono de boas notas, recomendações e elogios recebidos de todos os professores, portanto incapaz de se deixar levar por casos fortuitos que causassem distrações e perda de prestígio. Mas dona Ester não dava muita trégua. Juntava-se à Salustiana para conter o ímpeto juvenil que extravasa como um jorro. Entre um sorriso e outro chamava o pequeno à razão.           
– Albertinho, chega de lengalenga. Está na hora de jantar. O seu pai vai chegar e quer ver todos arrumados! Guarde os livros! Olha esses lápis e cadernos largados por aí.           
– Já estou indo Salustiana, já estou pronto, mamãe. Sabe que a esposa do senhor Zweig, dona Lotte, não desgrudava dele? Todas as coisas que podia, ela anotava num bloco. Escreveu muita coisa. Todas as perguntas que fazia, ela estava sempre pronta para informar. Quando queriam lhe oferecer algo, antes perguntavam para ela para saber se era possível.           
No mesmo momento em que dava todas as notícias, na hora de sempre, o seu pai, Samuel, entra na sala. Mostra também certa excitação, mas não tão grande quanto à de Albertinho. Salustiana está pronta para recebê-lo. Vai até a biblioteca, deixa a pasta sobre a escrivaninha, escova o chapéu e põe o paletó no guarda-roupa. Seu Samuel vai ao banheiro e lava as mãos. Quando o pai chega à sala encontra a mesa posta por Salustiana. Ele beija a esposa Ester e cobra do filho também um beijo.           
– Então, que novidade é essa que traz tanta agitação? A gritaria se ouve desde a rua, nas calçadas, na vizinhança. Acho que todo mundo já sabe de uma coisa, uma notícia que só eu não sei – disse com a expressão risonha.           
Num minuto depois, também acompanhando o teatro, dona Ester dá ciência ao marido das novidades. Não sem todas as interrupções que permitiu ao pequeno Albertinho: – Hoje tivemos a visita do escritor Stefan Zweig à escola de Albertinho. O próprio Albertinho, mesmo desordenado, não perdeu tempo e acrescentou muitas informações inéditas.           
– Sabe pai, o senhor Zweig fez questão de visitar todas as salas de aula, sempre acompanhado pelo Diretor. E em todas fez questão de dizer algumas palavras e conversar com os professores, as professoras, os serventes, os bedéis. Falava com todos, um por um pessoalmente, sempre puxando uma conversa aqui outra ali.           
O Diretor, professor Moisés, fez questão de contratar um dos melhores fotógrafos do Rio de Janeiro, para registrar essa visita especial. Mais afeito ao trato com modelos profissionais, o velho Wolf Lang quase arranca os últimos cabelos para deixar todas as crianças em ordem e assim ganhar um enquadramento que registrasse toda a pujança da visita. Mas no final tudo deu certo. Todos se reuniram no pátio, debaixo da mangueira, quando o flash espocou.           
Seu Samuel mostrava aquele olhar impressionado, ora rindo, ora espantando-se com o efeito que a visita se Stefan Zweig tinha provocado no menino. Tentou acalmar a situação, fazer com que tudo ficasse normal: – Tudo bem, Albertinho, tudo bem. Agora fique calmo e vamos jantar que a comida está esfriando. Depois vou escutar todas as novidades e vou mostrar uma coisa na biblioteca que você ainda não conhece. Ou então já esqueceu.           
Mas quem disse que algumas garfadas seriam capazes de calar o Albertinho. Nem mesmo comer e beber água faz com que ele sossegasse um minuto. Mesmo arriscando-se a receber um carão, não deixou de dar as novidades. Enquanto a mãe sorria com o encantamento do filho, seu pai ficava imaginando que efeito psicológico, quais influências, teria produzido no menino o fato de ter conhecido, em tão tenra idade, um escritor mundialmente famoso. Ainda mais se fosse alguém como Albertinho, que não desgrudava dos livros de sua biblioteca e volta e meia trazia textos para o pai ler, corrigir, comentar.           
– Pai, sabe que ele já fala português? Os alunos se reuniram no pátio e nosso orador deu-lhes boas vindas. Ele agradeceu, disse que estava feliz por nos conhecer, tudo em português! Quer dizer, mais ou menos. Algumas palavras que demorava em falar, a gente emendava logo. Ele gostou da brincadeira e sempre agradecia com um sorriso. Também ajudamos um pouco... Isto é, na hora em que a palavra não saía certinha. 
– Ah, quer dizer que vocês ensinaram o Stefan Zweig a falar português! Mas espere um pouco e logo, logo ele aprenderá a falar nossa fala corretamente. Desde jovem se interessou muito por línguas e para isso morou na França, Inglaterra, Bélgica. Visitou a Espanha, a Argentina, o Brasil. Por isso conhece e escreve em muitos idiomas. Alguns deles ele fala corriqueiramente. E já esteve visitando Portugal, por isso aprendeu muita coisa da nossa fala.           
– Na hora do lanche eles foram com a gente até o refeitório. Dona Lotte comeu alguns doces e o senhor Zweig tomou muito café. Sabe que ele já pensa em morar no Brasil? Gostou muito do doce de goiaba, deu para a esposa provar e repetiu mais de uma vez.           
Seu Samuel ouvia tudo escondendo o ar de felicidade, ocultando o riso que provocavam todas aquelas novidades. Mas não pretendia deixar de exigir de seu filho coisas das quais se orgulhava. – Espero que você tenha se portado bem, sendo exemplo de educação que a escola dá a seus alunos. Albertinho se controla o quanto pode para esconder o segredo que pensava guardar. Mas a vontade de contar é mais forte e ele não consegue prender a língua nem a ansiedade.           
– Sabe pai. Uma vez consegui chegar bem perto, puxei a manga do paletó.  Quando o senhor Zweig me olhou, peguei na mão dele e disse baixinho: “Baruch abá, senhor Zweig.” Dona Lotte também ouviu e agradeceu: “A groisn dank.” Stefan Zweig disse apenas “Dank”. Em seguida todos os dois fizeram questão de me dar um abraço apertado. Depois, ainda sorrindo para mim e passando a mão na minha cabeça, repetiram: “A Groisn dank, a groisn dank”.           
Dessa vez o casal não conseguiu reter o riso. – Nossa! Então você andou conversando em idisch com Stefan Zweig! Isso é realmente impressionante! Tudo bem, tudo bem. Agora já chega. Amanhã conversaremos mais. Agora está na hora de dormir.           
– Uma das coisas que ele sempre repetia é que viajava pelo mundo todo tentando conseguir a paz. Contou que, quando era rapaz, assistiu a uma guerra. E desejou que jamais tivesse uma guerra aqui no Brasil. “Esta terra é um paraíso. Seria inimaginável uma guerra aqui”. Antes de se despedir fez questão de tirar uma fotografia com todos os membros da escola. Na próxima semana o fotógrafo vai levar as fotografias. Todos nós vamos ganhar uma!           
– Durante a fotografia ele disse para todos nós que estava tão alegre e feliz aqui, no meio da gente, na escola, no Brasil, que gostaria de voltar a estudar de novo! Já imaginou Stefan Zweig estudando com a gente, pai? Ainda hoje, na sala principal velha escola Israelita-Brasileira, ainda está pendurada a fotografia que eternizou a visita do escritor Stefan Zweig. No retrato, amarelado pelo tempo, quase no canto direito, se pode vê um agitado e curioso menino. É Albertinho.           
– Albertinho, venha cá, disse-lhe o pai. Quero lhe mostrar uma coisa antes de você ir dormir. E levando-o à sua biblioteca, mostrou bem sobre sua escrivaninha um grande retrato emoldurado. – Vê se você se lembra deste velho retrato. Era Stefan Zweig, o mesmo meio-sorriso, o bigode aparado, os olhos vivos. Esteve sempre ali desde a primeira visita de Zweig em 1936, mas Albertinho era pequeno demais para notar. 
– Pai! Eu não sabia que o senhor era amigo do escritor Stefan Zweig! – Diante dessa constatação, a expressão de orgulho de Albertinho não tinha limites. O gesto radiante ao relembrar a novidade logo se fez anunciar: – Amanhã todos na escola vão saber! O que ele escreveu no retrato? Lê para mim, pai.           
– Não precisa fazer propaganda na escola. O professor Moisés é meu amigo e companheiro da Sociedade Israelita Brasileira. Ele sabe que tenho muitos amigos e conhecidos no mundo todo. Escritores, jornalistas, compositores, muitos me escrevem e mandam retratos para o nosso clube. Neste caso, Stefan Zweig fez apenas uma dedicatória simples. Nada de extraordinário.
Na hora de tirar a foto no colégio, Albertinho não teve como obedecer à ordem de ficar parado. Alguma coisa incontrolável impeliu seu olhar para a figura simpática e dominante que sorria sempre, demonstrando uma felicidade indescritível. Era de fato uma grande personalidade, portanto merecia também essa homenagem especial. Diante das inúmeras reclamações do fotógrafo, foi impossível não fixar a expressão de felicidade do casal Zweig, ali no meio de tanta gente. Quase estraga a pose cuidadosamente arrumada!       
– Puxa! Já ia esquecendo. Até o fim da semana temos de levar um trabalho sobre a visita do senhor Stefan Zweig à escola. Pai, você vai me ajudar a fazer o trabalho, não vai? – Antes que essa nova história começasse a ser contada, seus pais forçarem a barra para ele ir dormir. Caso contrário o pequeno ainda estaria conversando, inventando coisas, mesmo assim sonolento. Salustiana ajudou dona Ester a levar o dorminhoco para a cama. Albertinho conseguiu vestir o pijama, deitou na cama e se despediu com o beijo de sempre: “Boa noite mamãe, boa noite Salustiana”. 
Salustiana, sempre a última a sair do quarto, verificou as janelas, as cortinas arriadas, arrumou a coberta e o lençol para que o frio da madrugada não surpreendesse o menino. Deu ainda uma olhada geral em todo o quarto e por fim foi até a cama, rezar uma muda oração pelo bom sono de Albertinho. Achou graça ao ver o riso estampado no rosto do menino, riu do jeito como ele acarinhava a colcha da cama, como se fosse um bichinho de estimação. Daí a pouco estaria dormindo, pensou ela.           
Mas ainda não: os olhos de Albertinho começavam a piscar desordenados, como acontece quando o sono ameaça chegar de vez. Ainda não estava dormindo e não estava mais acordado. Virou-se para o outro lado e mesmo desorientado pela lenta perda dos sentidos notou que havia outra pessoa, ou melhor, a sombra de uma pessoa deitada a seu lado. Aquele fato extraordinário, porém, não o espantou nem trouxe medo, nem mesmo conseguiu despertá-lo da sonolência. 
Porque era Stefan Zweig que estava ali. O escritor se deitou na cama, o corpo comprido estirado, bem à vontade. Estava vestido com a mesma roupa que usou na visita à escola. Olhava-o com os mesmos olhos castanhos que não sossegavam, captando todos os detalhes do que presenciava. As pupilas brilhavam retratando mil esperanças. Na ilusão do lusco-fusco o menino imaginava diálogos.  Só faltou o cigarro que nunca largava – dessa maneira o retrato estaria completo na sua cabeça ou naquele meio sonho, meio pesadelo. Uma ilusão irmã da realidade. 
Nesse momento ninguém sabe o que se passa: se é sonho, criação fantasmagórica, fantasia da imaginação ou apenas uma visão da mente desfalecida. Sabe que viu Stefan Zweig se deitar, ainda com os sapatos, coisa que os pais certamente reprovariam. Mas não com uma pessoa tão importante. Por isso Albertinho não se aborreceu, mesmo porque seu novo amigo tinha estampado no rosto aquele riso que o tornava simpático, acolhedor, incapaz de provocar qualquer repreensão. 
Antes de apagar de vez, esmagado pelo sono, Albertinho ainda pensou que seria bem tomar café de manhã com o hóspede inesperado. Vê-lo estalar a língua de prazer, quando provasse as compotas que dona Ester e Salustiana faziam. Vê-lo sorrir ainda mais quando experimentasse o café forte que seu Samuel trazia da Serra de Petrópolis, de cafezais plantados no Vale de Itaipava. Sim, com certeza seria ótimo tomar café de manhã com o seu amigo Stefan Zweig. Assim pensando, ele se virou para o lado e os dois novos amigos, olhos nos olhos, juntaram as mãos num demorado e carinhoso aperto, desejaram-se boa noite – e só então pôde dormir.
Rio de Janeiro, Junho/Julho de 2006. - Dedicado a Alberto Dines, menino.