terça-feira, 30 de dezembro de 2014

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Pequena história da Feira de São Cristóvão




"É a feira nordestina
Que é tradicional
Desde quarenta e cinco
Do nosso século atual
Que funciona essa feira
Ali naquele local”.

Apolônio Alves dos Santos no folheto “A feira dos nordestinos no Campo de São Cristóvão-RJ”, aparece como o primeiro poeta de cordel a historiar as origens daquele famoso reduto de poetas e cantadores no Leste do país, mesmo quando confrontada com os pontos de encontro de nordestinos e nortistas na Praça da República em São Paulo. Muitos outros poetas de cordel e folheteiros escreverem sobre o tema, nenhum com tanta fidelidade e felicidade como Apolônio, que residiu e viveu toda a passagem pelo Rio de Janeiro na Barreira do Vasco, sub bairro de São Cristóvão, ao lado do Estádio de São Januário, do Vasco da Gama.

Na década de 1940 o Campo de são Cristóvão (ou Praia de São Cristóvão, como o local era mais conhecido), abrigava a quase totalidade das agências de transporte de carga e passageiros entre o Nordeste e o Rio de Janeiro. Mesmo os veículos – caminhões e ônibus – em trânsito para São Paulo faziam ali uma parada intermediária, pois sempre havia algum passageiro ou alguma carga em trânsito. Era, portanto, muito grande o vai-e-vem de emigrantes, recém-chegados, em trânsito, de carga e de bagagem, que descarregavam a todo instante, as encomendas ansiosamente esperadas, as remessas monetárias, feitas em confiança, que seguiam como pequeno adjutório aos que ficaram lá na terra distante. Muitos passageiros também se arrumavam nos caminhões de carga, que acabavam por se transformar em transporte misto.

Felizardos entre a grande maioria eram os que chegavam de férias, viajantes de momento, que estavam apenas a cumprir visita, depois de longos anos, ou participar da despedida final de parentes recém-falecidos ou recém-nascidos, realizar os sonhos amorosos até para dirimir alguma querela familiar, para o quê sua presença era indispensável. O trocador de ônibus e bom poeta nas horas vagas, Cícero Vieira da Silva (Mocó) tem um folheto em que narra com felicidade a odisseia do nordestino. A chegada no sudeste é quase sempre assim:

“No Campo de São Cristóvão
O pobre desce do carro
E segue de rua a fora
Sem ter no bolso um cigarro
Com a maleta na Mao
E a roupa da cor do barro.

“E segue desconfiado
Como um pássaro que não voa
E sai olhando pra ver
Se avista uma pessoa
Que lhe conhece do norte
Não encontra, fica à toa.

Cícero Vieira da Silva (Mocó) - “Os martírios do nortista viajando para o sul”

A movimentação no Campo de São Cristóvão era mais pronunciada justamente aos domingos, dia de chegada de vários ônibus e caminhões vindos das mais distantes regiões, empoeirados, pneus sujos de barro, trazendo como carga uma população até então estranha aos olhos do carioca. Esse deslocamento para o Campo de São Cristóvão oficial dos veículos vindos do Nordeste era o registro de uma das primeiras manifestações de discriminação ao paraíba e ao pau-de-arara, que se tornou proverbial não só naqueles dias remotos, mas atravessou os tempos e sobrevive ainda hoje. Eles eram os indesejáveis, expulsos do sertão pela “indústria da seca”, tocado para fora de suas terras, vencidos pela dificuldade de sobrevivência diante dos muitos percalços inventados pelos senhores feudais. Essa perseguição que vem desde os tempos das sesmarias, causou o êxodo dessa população itinerante, que chegava para criar e povoar as favelas do sudeste. Recorro mais uma vez ao poeta Apolônio Alves dos Santos, que registra em seu folheto, já citado:

“Porque todos nordestinos
Todos domingos seguiam
Pro Campo de São Cristóvão
E ali se reuniam
Mesmo sem haver a feira
Era aonde apareciam”.

Centenas de pessoas de origem nordestina para ali se dirigiam em busca de conhecidos, parentes distantes, de alguma pessoa recomendada, para saber notícias da terra ou encomendar coisas e pessoas de alguém que lhe fora confiado. Todos sabemos que, para quem chega em busca de trabalho e estudo, a aventura dos primeiros dias são os mais difíceis, mas o conterrâneo que o recebe não o deixa na mão, chega com o apoio, o ânimo, divide o pouco que tem irmãmente. Aquele fluxo intermitente de pessoas acabava por se constituir num agradável encontro de gente que tinham algo em comum, mas que a vida agitada da metrópole torna difícil o convívio diário e os mantém afastados entre si.

Mas esse encontro semanal trazia também a conveniência de provocar novas amizades, nascidas de uma conversa informal, isso porque em algum momento se descobriria que algo em comum viria a unir duas ou mais pessoas. Permanecendo essa população em trânsito ali, durante horas a fio, na expectativa da chegada de um ônibus ou caminhão, cujo atraso era histórico, também resultava que provocasse o nascimento de um comércio ambulante. Logo apareceram vendedores de comidas e lanches com sabores típicos do nordeste, o folheteiro com sua velha mala aberta no chão, o violeiro, o cantador, o repentista... Essa reunião semanal aguçou a veia, meio satírica, meio discriminatória, do carioca, que apelidou depreciativamente o Campo de São Cristóvão de “Aeroporto dos Nordestinos”. Na verdade as autoridades desviaram a chegada dos nordestinos para São Cristóvão para não macular a formosa Rodoviária Estadual – Terminal Rodoviário Mariano Procópio – inaugurado em 1950 na Praça Mauá.

O poeta Apolônio Alves dos Santos bem sabia que a frustração seria bem menor se o emigrante encontrasse por ali algum conterrâneo que, mesmo sendo de cidades vizinhas, poderia transmitir as notícias do torrão natal. Qualquer novidade sempre é bem-vinda, mesmo as coisas consideradas banais tinham sua dose de importância: falar sobre as chuvas, os açudes cheios, mencionar a seca que castiga tal e qual região durante meses, anos a fio, notícias de casamentos feitos e desfeitos, contar sobre a mulher amada, a quantas anda o time de futebol preferido ou sobre as rixas e desafetos da família tal contra a família qual – geralmente resolvidos à peixeira e à bala. A distância da terra natal, a solidão na terra de adoção, transformava aquele breve contato dominical em São Cristóvão num fio de resistência capaz de suportar a longa estiagem sentimental alimentada na cidade grande, muitas vezes hostil e agressiva por demais. E convém não esquecer aqueles tempos, difíceis, tanto pela precariedade dos correios, quanto pela dificuldade em escrever cartas e mandar encomendas: qualquer quantia gasta em excesso produzia um rombo no apertado orçamento.

Assim foi nascendo a feira, com o aumento da aglomeração, dos comerciantes de ocasião, crescimento da população nordestina. E com o nascimento da feira veio o poeta. Pode haver feira sem poeta, mas poeta sem feira não é ninguém, apesar de que muitos deles faziam ponto na Central do Brasil, na Praça Mauá – onde se localizava a principal Rodoviária da cidade, na Praça XV de Novembro – Estação das Barcas para Niterói e Paquetá, na Cinelândia – local de aglomeração da população que frequentava o cinema, o teatro, o Amarelinho e os bares boêmios das redondezas e, por fim, a Lapa – lugar de boemia mais pesada e perigosa, onde eram mais frequentes e presença de prostitutas, jogadores de sinuca, malandros, traficantes e travestis. A feira é o território natural do poeta, onde o povo faz roda para ouvi-lo cantar com voz entoada os folhetos de aventuras amorosas e de valentia, cantoria sempre entremeada de um comentário jocoso que provocava o riso imediato, ouvir a prova da veracidade, ficção que o poeta inventa para cada história, rir dos repentes que ao acaso o poeta improvisa ante a presença de algum tipo folclórico.

Pois foi ali no Campo de São Cristóvão que a semente germinou. Começaram a surgir algumas barracas, as bancas improvisadas sobre caixotes, coisa que pudesse ser removida rapidamente – pois a perseguição da prefeitura ocorria sempre e a presença do rapa era temida, tanto pela virulência do ataque e porque sempre se traduzia na perda total a mercadoria adquirida com muito esforço. Não ruas adjacentes que circundavam o campo, um comércio de artigos e produtos do nordeste já florescia anteriormente à feira. Quitandas e mercearias – à moda dos armazéns – vendiam cachaça importada diretamente dos produtores – Pitu, Caranguejo e Siri eram as mais famosas de Pernambuco; Fazenda Serra Grande, Maribondo e Três Fazendas traziam a fama da cachaça paraibana – e assim por diante.

O paladar se aguçava diante das bancas que expunham a carne-de-sol, as avoantes, o peixe seco, o requeijão que babava manteiga ao ser cortado, o queixo de coalho, a manteiga de garrafa, as latas de castanha de caju, a farinha seca e do Pará (d’água), o feijão de corda, a rapadura – todas essas iguarias que traziam o sabor da terra distante aos milhares de emigrantes aqui chegados. Quem queria reacender o paladar das coisas que havia deixado para trás, ali encontra meios de se abastecer com garantia. Com o tempo é claro que a notícia da feira foi se espalhando e a presença no local não mais se limitou a quem ia às agências de transporte. Levados pela saudade da terra, seja pelo prazer da comida, pela ânsia de rever pessoas e receber notícias, por estar num lugar se sentindo como se estivesse na própria casa, com gente da sua igualha, até mesmo para ouvir e dançar um forró de pé no chão, levantando poeira – passear na Feira de São Cristóvão passou a ser um programa autônomo, alegre e divertido.

Aportada pela pequenez dessas ruas, que não cabiam barracos e não mais atendiam aos reclamos de espaço, que não podiam acolher as emoções exacerbadas (provocadas geralmente por excesso de bebida) e também não podiam ceder um espaço para tanta gente que queria sentar, descansar, beber um trago ou uma cerveja gelada. E nasceu e cresceu a feira propriamente dita, circundando todo o pavilhão se espalhavam milhares de barracas, milhares de pessoas se apertando nos becos estreitos, movimento esse que começava de madrugada com a chegada dos feirantes e das mercadorias, de fregueses que iam comprar produtos frescos para fazer a comida na própria casa. E olha aí como Apolônio Alves dos Santos contou a história:

“Assim criou-se a feirinha
E foi se estabelecendo
Feirantes e camelôs
Foram ali aparecendo
De formas que a feira foi
De dia-a-dia crescendo”.

De fato, a feirinha cresceu e um novo espaço cultural surgiu para suprir a falta deixada pelas grandes feiras do nordeste. E o poeta de cordel sentiu a potencialidade daquele espaço, valorizando-o com presença maciça, trazendo consigo o resto da trupe constituída de violeiros, repentistas, forrozeiros, recuperando o tempo de outrora que havia deixado ao emigrar, porque:

“Antigamente o nortista
Ia à feira no sentido
De comprar um folhetinho
E saber do “ocorrido”
Ficava a par de tudo
E qualquer acontecido”.

Marcelo Soares: “O prenúncio do fim?”

Outras feiras surgiram principalmente nas regiões conhecidas como Grande Rio. Em Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e Campo Grande, onde residem grandes aglomerações de emigrantes nordestinos e seus descendentes, mantêm pontos de venda tanto de artigos do nordeste quanto de folhetos. Raimundo Santa Helena, Azulão e Elias de Carvalho são alguns dos poetas que nos tempos áureos frequentaram essas feiras. A base imutável era sempre a Feira de São Cristóvão, que hoje se iguala a algumas das mais tradicionais feiras do nordeste como a Feira Grande, de Alagoas, a Feira de Santana, na mesma cidade baiana, a Feira de Caruaru em Pernambuco, a Feira de Juazeiro (Juazeiro do Norte, Ceará). 

No entanto, nem tudo eram flores. A feira só por si só não era capaz de sustentar o poeta com a venda de folhetos. Também o poeta passou por tempos difíceis e nessa ocasião vale retornar à segunda profissão: quem era pedreiro volta à colher de massa e ao tijolo, o quitandeiro vai trabalhar no balcão, quem não tem profissão definida vai ser porteiro de edifício, cabineiro de elevador ou guardador de carros – vale tudo pela sobrevivência! Uma estagiária norte-americana, que veio ao Brasil em bolsa de estudo para finalizar a universidade, Candace Slater, concluiu suas pesquisas com a publicação do livro “A vida no barbante – A literatura de cordel no Brasil” (Civilização Brasileira, RJ, 1984), anotou:

“A importância decrescente da feira semanal afetou o poeta popular exatamente com os crescentes custos de produção e a competição dos veículos de comunicação de massa”. E em seguida anota a superioridade da Feira de São Cristóvão na área de produção e divulgação de folhetos, ao observar que “a maior plateia [do poeta] não é encontrada no tradicional território do folheto, mas no Rio de Janeiro”. 

A relação poeta-feira pode ser medida pela trajetória do poeta cordelista Franklin Maxado. Natural de Feira de Santana (BA), cidade onde se realiza uma das maiores e mais famosas feiras do Nordeste, ao lado de Caruaru (PE), Franklin Maxado presenciou a decadência dela como reduto cultural, ficando apenas como um entreposto comercial de compra e venda de gado. Lutando contra o declínio da poesia, lutando pela sobrevivência da feira, Franklin Maxado publicou o folheto “A Feira de Feira quer voltar pra Praça”. Entre outras coisas, denunciava a grave situação física e estética do local, que,

“Sem ter infraestrutura
Campo de concentração
Como parece de feitura
Até cercas de arame
Não lhe dão embocadura”.

Em razão dessa estrutura precária, o poeta denuncia as graves consequências de uma tragédia anunciada. Se houvesse qualquer arruaça ou briga, ou mesmo algum protesto social (como é comum ocorrer em locais de grande aglomeração), os resultados seriam catastróficos, causando mortes e ferimentos em centenas de pessoas. Depois, tendo fixado residência em São Paulo, a atividade de poeta e xilogravador ficou ressentida pela ausência de uma feira nordestina, tentativa levada a cabo na Praça da República, sem os resultados esperados. A feira de artesanato ali existente permanece imutável.

No Brás, outro bairro de grande concentração de emigrantes nordestinos, prolifera o comércio de produtos da região, sem constituir-se uma feira propriamente dita. Novamente outro folheto traduziu a insatisfação e as aspirações do poeta feirense. No cordel “A Praça é da Poesia e Arte na República”, Franklin Maxado assegura que o cordel já chegou lá / como ao Brás também já foi. Fora isso o local recebe a contínua visita de músicos e artistas que “xaxam, tocam e cantam”, ficando limitada a esses heróis a representatividade nordestina na Praça da República.

Tanto desacerto trouxe em consequência uma maior aproximação do poeta com o Rio de Janeiro, onde Franklin Maxado passou a frequentar aos domingos não só a Feira de São Cristóvão, como também, nos dias de semana, a Praça XV de novembro e a Cinelândia, além de promover reuniões em universidades e colégios que aceitavam como tema a Literatura de Cordel. Franklin Maxado viu seu círculo de atividade ampliado, ensejando a publicação de três livros pela Editora Codecri. Devido a esses acertos, muitas vezes o poeta confessou o desejo de se transferir em definitivo para o Rio de Janeiro. Mas não quis o destino assim e hoje ele é encontrado em sua terra natal, limitando sua passagem pelo Rio de Janeiro e São Paulo a rápidas viagens com objetivo de participar dos eventos em que é convidado. A passagem pelo Rio de Janeiro – vale dizer, pela Feira de São Cristóvão – ficou registrada no folheto “Feira Nordestina: Resiste no Rio dando exemplo pra São Paulo”. Para o poeta definitivamente:

“Nada representa mais
Seus estados nordestinos
Do que uma feira livre”.

Mas também o poeta Maxado Nordestino, no citado folheto, faz questão de registrar a agressão de que foi vítima pessoal na Cinelândia, justamente pelo fato de que consideravam os poetas que vendiam folhetos como camelôs – portanto careciam de licença da Prefeitura para trabalhar nas ruas e praças.

“Eu não sei por quais pragas
Perseguem os nordestinos”.
...

“Os fiscais agiam brutos
Prendiam fazendo o rapa
Dando empurrões e tapa,
Fazendo então seus insultos”.

Para evitar a estagnação dos dias da semana em que a feira está fechada – convém lembrar que a Feira de São Cristóvão funcionava a partir de sexta-feira à noite, estando obrigada a liberar totalmente o espaço às três horas da tarde de domingo – alguns poetas lançam-se isoladamente em outros locais de grande circulação de pessoas tais como a Quinta da Boavista, a Praça XV de novembro, o Largo do Machado, a Cinelândia e a Central do Brasil, apesar da perseguição que volta e meia lhes movia a fiscalização, porque fora do seu reduto natural eram taxados de camelô. A Praça XV de Novembro – nome simplificado para Praça XV – fica no Centro do Rio de Janeiro, ao lado da estação das barcas que seguem para Niterói, para as ilhas de Paquetá e do Governador e para outros bairros e cidades na baía de Guanabara. Na época colonial foi o primeiro porto do Rio de Janeiro, aonde desembarcou Dom João VI e toda a sua numerosa comitiva em 1808.

Pois bem, a Praça XV foi um espaço duramente conquistado pelos poetas populares que, quando fora do espaço que era tolerada a sua presença, eram perseguidos como camelôs – e, portanto, marginais fora da lei. A Feira da Praça XV, em seus primeiros tempos era destinada à exposição e venda de arte e artesanato (produtos de couro, redes, tapetes de sisal, rendas e seus subprodutos: toalhas, toalhinhas e lenços), logo foi vista aos olhos do poeta de cordel como uma boa possibilidade de divulgar e vender seus folhetos. Essa percepção, como nos poetas populares, ajudou a tirar a Literatura de Cordel da marginalidade, aceitando-a como cultura popular, essa espécie de “artesanato” das letras brasileiras. Em parêntese, convém observar que se a literatura popular tinha essa ênfase marginal, que era dada pelas autoridades fiscais e policiais, era graças ao tratamento dado pelo conjunto de entidades que dirigiam, ensinavam e divulgavam a arte e a literatura brasileira na época: a culpa cai direto sobre os ombros da imprensa, da universidade, das academias de letras, dos nossos escritores.

Se a Literatura de Cordel, vinda do nordeste, era assim violentada, também as letras e canções caipiras, do interior do centro-oeste e do sul, sofreram muito a mesma perseguição e foi discriminada pelos meios de divulgação – o rádio e os jornais. Essa discriminação só veio a ser denunciada e combatida quando o modernismo se fixou em 1922.  Na literatura e cultura caipira o nome a ser destacado é o de Monteiro Lobato (1882-1948) que, juntado aos esforços de Cornélio Pires (1884-1958), conseguiu elevar ao nível de literatura e de arte popular não só alguns mitos brasileiros, como o Saci Pererê, como – no caso de Cornélio Pires – todo o trabalho poético-musical produzido pelos artistas do interior bandeirante, aí considerados os estados de São Paulo, Goiás e Mato Grosso.

Continuando... A feira de artesanato da Praça XV foi frequentada durante muito tempo por José Gentil Girão (que se também se assinava “Seu Ventura” e “O poeta vaqueiro”), Sebastião Nunes Batista (que posteriormente veio a ser o organizador e responsável pelo importante Setor de Literatura de Cordel da Casa de Rui Barbosa), Raimundo Santa Helena (quando se lançou oficialmente na poesia de cordel em 1980), Gonçalo Ferreira da Silva (o amanuense que virou poeta e conseguiu realizar o sonho de fundar – e manter viva – a Academia Brasileira de Literatura de Cordel), José João dos Santos, o “Azulão” (até hoje o poeta popular mais requisitado pelas universidades para depor sobre a Literatura de Cordel, pois além de poeta é excelente violeiro e cantador).

Apolônio Alves dos Santos, Elias de Carvalho, Franklin Maxado e Marcelo Soares, eram frequentadores ocasionais que apareciam na Praça XV dependendo da sazonalidade, quando o tempo e as atividades pessoais assim permitissem. Lá pelos anos 1980, somente Apolônio Alves dos Santos e Marcelo Soares apareciam esporadicamente com seus folhetos e xilogravuras, nos dois dias da semana em que a feira se realizava. Todos os demais, andarilhos por natureza, se dispersavam em busca de novos espaços, o que é uma pena, porque a Praça XV continua sendo passagem obrigatória de uma imensa população em trânsito.

Com efeito, desde aqueles que vão acessar o Terminal das Barcas ou os pontos e terminais de ônibus para o subúrbio e para Niterói, até os que frequentam os bares, restaurantes, centros culturais e casas noturnas que costumam apresentar exposições e números musicais durante a noite, no Arco do Teles, Travessa do Mercado e adjacências, tem na Praça XV um ponto de encontro saudável e alegre. Esse abandono, a que os poetas se viram obrigados, é mais sentido ainda quando se relembra o sacrifício de gente como José João dos Santos, o “Azulão” e Apolônio Alves dos Santos, que sofreram todo tipo de perseguição por parte dos fiscais da feira e da polícia. Os poetas eram muitas vezes acusados de vadiagem e de malandragem – expressões usadas para caracterizar àqueles que não têm profissão de carreira assinada – advindo daí a consequente corrupção, apreensão de seus bens e até prisão, como era comum naqueles tempos. Mas a conquista do direito de frequentar a Praça XV cabe sem dúvida a Sebastião Nunes Batista, o pioneiro da Literatura de Cordel a frequentar aquele espaço. E se essa vitória o deixava alegre quando a viu consolidada, muita tristeza trouxe depois que ele próprio foi vítima de perseguição – por incrível que possa parecer! – de alguns cordelistas, que deveriam estar ao seu lado.

O alegado movimento contra a presença de Sebastião Nunes Batista foi capitaneado por Raimundo Santa Helena e contaminou outros poetas e violeiros. O principal argumento para a defecção era o fato de que Sebastião Nunes Batista havia sido contratado pela Casa de Rui Barbosa e, portanto, era um privilegiado que não precisava vender seus folhetos e livros em praça pública para sobreviver. O que era na verdade uma fofoca, um melindre de baixa qualidade, se transformou numa acusação grave que feriu fundamente o amor que Sebastião Nunes Batista tinha pela Literatura de Cordel. Debaixo da acusação de que a sua presença na Praça XV “tirava o pão da boca de outros companheiros mais necessitados”, só restou a Sebastião Nunes Batista, desolado e amargurado, abandonar a vida de poeta das ruas. Por ironia do destino, no entanto, o fato de Sebastião Nunes Batista pertencer aos quadros da Casa de Rui Barbosa foi de vital importância para “legalizar” a presença dos cordelistas na Praça XV – e por extensão em todo o espaço urbano – tirando-os da posição marginalizada a que estavam sujeito, equiparados aos camelôs.

Sebastião Nunes Batista era oriundo de toda uma geração de violeiros, cantadores, jornalistas e poetas muito famosos no nordeste. Tinha ele também suas universidades: possuía uma cultura de nível superior, sua figura exalava a majestade do poeta, tinha a fala mansa, cordata e jamais recusava um depoimento ou um convite para visitar faculdades e universidades. Foi, aliás, um pioneiro nesse sentido, um dos primeiros a ir e levar a Literatura de Cordel, violeiros, poetas e cantadores aos cursos superiores. Toda essa grandeza natural, o orgulho de ser poeta de uma família de poetas, estava agora solapada pelos próprios colegas poetas e o deixou triste, muito triste, devido às circunstâncias em que tudo ocorreu. Depois dessa conversa ficamos ainda a conversar fiado até que o dia se fosse. Ao ouvir as batidas dos sinos da antiga catedral que anunciavam seis horas da tarde, ele desarmou a pequena banca e juntos caminhamos em direção ao ônibus. Nunca mais vi Sebastião Nunes Batista frequentar qualquer feira para expor e vender seus folhetos e livros de cordel. 

Esse depoimento, em tom de amargo desabafo, eu ouvi do próprio Sebastião Nunes Batista, com quem tinha feito recente amizade. Nós nos tornamos amigos de maneira simples e natural, um vínculo que nasceu do amor pela Literatura de Cordel e pela cultura popular, das quais ele foi um grande defensor. Também porque acho que ele gostava de estar horas e horas conversando sobre a história da poesia popular, de contar a vida de poetas falecidos, dos fatos por ele presenciados. Sebastião Nunes Batista era um mestre que gostava de passar adiante o seu conhecimento, pois era a memória viva da Literatura de Cordel. Com o crescimento da Feira de São Cristóvão e sua consequente consolidação, o local se tornou um foco de atração turística. Os poetas sentem na veia a transformação, estão atentos ao progresso do movimento por eles iniciado há décadas. Voltemos a Apolônio Alves dos Santos, que em folheto mostra o quê a feira tem, quais os seus atrativos, os motivos que atraem tanta gente de toda parte do Rio de Janeiro e outros locais:

“Nossa feira nordestina
Já é uma tradição
É um ponto pitoresco
Servindo de atração
Para turistas de fora
Que veem de outra Nação.

“É um ponto Cultural
Para os pesquisadores
E todos os estudiosos
Jornalistas e escritores
Repórteres e Cineastas
Inclusive redatores”.

O poeta relata os atrativos um a um, as novidades para ver, as cantorias para ouvir, artesanato típico, quadros e obras de arte, como a xilogravura, a pintura, esculturas em madeira, finalizando o passeio comendo um prato típico, tomando um refresco de frutas nordestinas, tudo, enfim, o que o turista tem para ver, comprar e saborear.

“Tem poetas, violeiros
Cada qual bom menestrel
E vários revendedores
De folhetos de cordel
E boas comidas típicas
Buchada e sarapatel.

“Também tem fumo de rolo,
Inhame, manteiga e queijo
O tocador de sanfona
Fazendo aquele festejo
Recordando os bons forrós
Lá do torrão sertanejo.

“Tem peixe curimatã
Traíra e avoador
Mocó e arribaçã
Mel de abelha e licor
E manteiga de garrafa
Que tem um outro sabor.

“Tem o queijo de manteiga
E o queijo da coalhada
Chapéu de palha e abano
Miúdo pra feijoada
Costela e carne de sol
Para se comer assada”.

É uma que tem de tudo para todos. Tudo aquilo que pode ser transplantado do norte e nordeste para o sudeste está presente na feira. Alguma coisa teve de ser adaptada aqui na região mesmo: o requeijão, o queijo manteiga, já é feito no norte de Minas Gerais, pela região de Montes Claros. Como os queijeiros de Minas são bons, o produto também é de boa qualidade. A carne de sol igualmente é deixada para curtir no Rio de Janeiro, na baixada fluminense ou no Grande Rio, mas se o consumo exagerado não deixa o gosto apurar o tempo necessário, existe muita semelhança e sabor com as carnes oriundas do nordeste. A farinha d’água geralmente vem do Pará ou do Maranhão, mas existe uma produção artesanal lá pelas bandas de Queimados, feita com aipim e, pasmem, é tão torradinha e dourada quanto às melhores produzidas em Carema, no Maranhão. O artesanato exposto e comercializado na feira tem sua origem tanto no nordeste quanto no interior fluminense e paulista. A caninha – cachaça – essa tem de ser importada mesmo, porque o sabor da purinha da Paraíba e Pernambuco tem sabores inigualáveis. As aguardentes fluminenses só entram na feira se for da mais alta qualidade: nesse ponto os consumidores fazem questão e exigem a original.

“Tem tapetes de sisal
Esteiras de Piripiri
E aguardente Ipioca
Serra Preta e Parati
Do estado de Sergipe
Tem cachaça Murici.

“Tem rendas do Ceará
Malas e chapéu de couro
E vários artesanatos
Feitos com fino decoro
Feirantes inteligentes
Ali se enchem de ouro”.

Para animar toda a festa que é a Feira de são Cristóvão, não poderia faltar a música, em todos os seus aspectos. O cantador de coco ou de viola hoje encontra espaço para mostrar sua arte e uma barraca para vender sua produção. Existem muitas barracas de discos de música popular. Em tais barracas se toca de tudo e no século do rock ele também está presente. O forró, porém, tem seu lugar de destaque assegurado. Mas guerra é guerra e o cantador persevera, encara toda a parafernália dos sons estereofônicos com a tonalidade pura da viola acústica e do gogó de ouro.

“Tem cantadores de coco
E famosos violeiros
Palmeirinha e Curió
Miguel e Manoel Medeiros
Azulão e Apolônio
Dois poetas folheteiros”.

Os turistas brasileiros e estrangeiros tem na Feira de São Cristóvão um manancial enriquecedor onde pode adquirir a preços compensadores obras de arte, xilogravuras, artesanato, entalhes, bonecos. Tudo diretamente da fonte, do próprio autor. E depois ainda pode saborear e levar para casa uma variedade enorme de comida típica feita por cozinheiras que chegam ao local na véspera ou de madrugada, para adiantar a feitura dos pratos: buchada, sarapatel, carne de sol, mocotó, feijão de corda com legumes, fissura e baião de dois.

Para encerrar a peregrinação sem passar mal pelos excessos cometidos, cai muito bem um aperitivo, que pode ser uma caninha imaculada, como Caranguejo, Pitu, Serra Grande, Aliança ou Olho D’água – mas todas devem ser bebidas com moderação. Para os que pegam leve, cai bem o Vinho de Caju, a Jurubeba, o Pau Pereira, o Vinho de Catuaba, o Para Tudo ou doses de batidas das mais diversas frutas. Para tira-gosto da bebida, enquanto o prato principal não sai, vale tentar alguns salgadinhos em unidades, talhos de requeijão, queijo coalho na brasa, avoantes no espetinho, pata de caranguejo, casquinha de siri. A variedade de castanhas torradas e salgadas também é grande: amendoim torradinho, castanha de caju, castanha do Pará, amêndoas, amendoim cosido na casca...

Os estudantes e pesquisadores encontram no local uma riqueza incalculável para seus trabalhos e dissertações. O folclore, a cultura popular, tudo vem entranhado na vida das populações trazidas pelas correntes migratórias, tem merecido a atenção de bolsistas universitários tanto do Brasil quanto do exterior. Quem vê a Feira de São Cristóvão hoje em dia, única, especial, capaz de superar em fama suas antecessoras, fica emocionado. A feira se tornou importante demais para o povo que imigrou, muitas vezes se lançando numa aventura inimaginável, em busca de sucesso e reconhecimento de seu talento. De vez em quando alguém aparece se declarando “um dos fundadores” da feira, mas não é verdade. A expressão pioneiro seria mais adequada. Já li declarações de Raimundo Santa Helena e de José João dos Santos “Azulão” se declarando fundadores da feira. Azulão realmente esteve ali desde os anos 1950, segundo conta em entrevista a Igor Chaves, saída no jornal eletrônico “A nova democracia”, que resumi:

“A Feira de São Cristóvão tomou um rumo que a descaracterizou. Eu sou um dos fundadores. Eu conheci a feira quando não tinha esse nome, propriamente. Os únicos cantadores que existiam aqui eram Palmeirinha, Curió das Alagoas e Manuel Ferreira. Esses cantadores faziam apresentações para os conterrâneos. Os nordestinos pediam mercadorias do Nordeste como feijão de corda, queijo e rapadura. Estendiam lonas no chão para a venda das mercadorias e os que vinham compravam. Quem ergueu a feira foi o nordestino Alexandre Alves, que criou uma “sociedade” para ampliação do local. No ano de 1952(*) comecei a vender os meus folhetos. O primeiro foi quando Getúlio Vargas morreu (*)1954?). E em 1961, eu estava cansado de ver os fiscais do governo fazendo o "rapa", apreendendo meus livretos por não pagar licença. Então fiz uma carta ao governador Lacerda em versos de cordel. Fui convidado para ir ao Palácio da Guanabara e ganhei uma carteirinha com autorização para colocar minha mesa onde quisesse. Aí, quando a polícia chegava, ficava espantada com a carteirada que eu dava neles".

Azulão e outros pares são, na verdade, pioneiros, porque a Feira de São Cristóvão – ele mesmo conta – jamais foi realmente fundada. Nasceu de uma necessidade e cresceu naturalmente. Como diz a história, tudo começou partindo de um aglomerado de gente ansiosa, andando nervosa pra lá e pra cá, entre barracas, nas ruas estreitas, viajantes, transportadores, cercando folheteiros e cantadores, comprando rapadura, camarão seco, sentindo o cheiro e o sabor das coisas que havia deixado para trás, enterradas na memória das caatingas e do sertão tórrido.

Se algum tipo de pedra fundamental tivesse sido lançada, porém, teria sido assentada por João Gordo, o primeiro a esticar uma lona no chão e logo ali na esquina da Rua Senador Alencar começar a vender seus produtos. Depois outros comerciantes de peso abriram quitandas e mercearias na mesma rua. O ponto cresceu, as bancas se multiplicaram a invadiram o espaço do Campo de São Cristóvão. A feira nasceu assim: de parto natural. Por isso vingou, cresceu, amadureceu e sobrevive até hoje, apesar de todos os percalços... Mas João Gordo não era poeta. Os poetas que ali faziam ponto aos domingos – segundo José João dos Santos “Azulão” – eram Manoel José da Silva (Passarinho), Palmeirinha, Curió das Alagoas e Apolônio Alves dos Santos. Todos tinham a profissão de poeta como secundária, porque a maioria, como fonte de sustento, trabalhava na construção civil.  

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Oliveiros Litrento - Tempo de Cachoeira

Romance - Prêmio da ABL 1982
Editora Numeriano - Maceió, AL - 2004

Conheci Oliveiros Litrento no Clube de Xadrez Guanabara, onde, é claro, a conversa raramente ultrapassava os limites dos tabuleiros e partidas. Muitos parceiros eram assim: maestros, militares, matemáticos, engenheiros, músicos, gente de toda classe frequentava o CXG – jogadores de xadrez também! Litrento foi o melhor dos companheiros: fala macia, sempre sorrindo, apaixonado por xadrez. Mas quando a conversa pulava a cerca além do jogo, a prosa fluía mansa e firme, cheia de conhecimento. Desviamos uma conversa ao acaso para literatura, pois no dia seguinte ele me presenteou com Tempo de Cachoeira, romance de tua terra natal.

“Don’Ana, educada, falando com aquela deferência desembaraçada em movimentos, a arrastar o vestido comprido de punhos bordados, cabelos negros e longos, cuidadosamente enrodilhados em cocó, a filha mais velha do Coronel Chiquinho era tão bela como um passarinho de sua infância. Flores derramadas no caminho. Brancas. Vermelhas. Roxas. Uma senhora de engenho, casada, cujas belas feições guardara, parecia ter quase o mesmo rosto da namorada. O roçar do vestido, aproximando-se, fazia com que baixasse a vista, como se estivesse face a face com o andor de Nossa Senhora da Conceição. De olhos fechados, voltava aos passeios alegres da meninice”.

Interessado em conhecê-lo melhor fui descobrindo uma obra gigante nas letras nacionais. Então aquele Oliveiros Litrento, jogador de xadrez a quem comove as belas jogadas, simples em gesto, fala e aparência, trazia a reboque importante carga de conhecimento, que, alegre e feliz, dividia com alunos, leitores e amigos, pois era professor de Direito Político e Internacional na UFRJ, Gama Filho e UERJ, de Direito Constitucional Penal Militar Internacional na AMAN, Perito e Doutor em Direito Internacional pela ONU. Tempo de Cachoeira é um romance que fala desse outro Oliveiros Litrento, de inspiração cuja utopia vira sonho e o sonho vira utopia:

“Era Don’Ana o sol esquentando o rio, a chuva que gerava o canavial do engenho, a alegria da safra, o gosto de açúcar mascavo, a moça das toadas nostálgicas, com formosura de princesa, que os cegos cantavam nos abecês de feira e os almocreves repetiam, tangendo bestas, em longas e carregadas viagens, cansativas e solitárias. Cantigas de gajeiro. Cavalhada. Canavial gemendo. Fragmentos da Nau Catarineta. Os samburás com aguardente batendo. Argueiro no olho da poeira dos caminhos. A toalha leve, que se alongava na mesa, toda serpenteada de riscos azuis, lembrava o mar, que não conhecia, trazendo ruas daquele rio de janeiro, belo, misterioso e distante. E a moça quase não sorria. Mas o que dissesse era agradável de ser ouvido”.

Na literatura, área de meu interesse, meu parceiro de xadrez foi laureado com os Prêmios Sílvio Romero, Olavo Bilac, Jorge de Lima, Paula Brito, Orlando Dantas e Silvio Romero, Oliveiros Litrento integrou o Conselho Superior do IAB, a Academia de Letras do Rio de Janeiro,  de Alagoas e a Federação das Academias de Letras do Brasil. Oliveiros Litrento (São Luis de Quitunde, AL-1923 - Rio de Janeiro - 2006), no romance Tempo de Cachoeira fala de sua terra, de suas memórias, mas relata em especial aspectos de todo o Nordeste:

“Maria Rita, agora, era apenas uma sombra. Não voltaria mais. Tinha as pálpebras fechadas de sono. A longa cabeleira negra vinha do mar e o corpo era denso de noite. Resgatado às origens. Os olhos da adolescente subiram aos céus e piscam agora como estrelas distantes, guardando com ternura as águas que caem fragorosamente dos despenhadeiros selvagens de Cachoeira. Era como se magicamente tivesse regressado à infância para viver de novo na plumagem dos pássaros coloridos, no ruído leve das folhas acordadas pela madrugada, nas jangadas da manhã nascente, deixando de leve a praia de Pajuçara”.

Que grande amigo eu tive! Amigo no tabuleiro, quando dividíamos comentários sobre os lances de uma partida de xadrez,  escritor e poeta inspirado, Litrento escreveu em poesia: O soneto e a fábula; O leopardo azul; O astronauta marinho; 100 sonetos de amor; Orfeu e a Ninfa; Inquietação de Narciso. Em prosa: Pajuçara (novela); O cego e o mar (contos); Tempo de Cachoeira (romance); O dorso da pantera (romance). Deixou escritos de crítica literária, ensaios, literatura brasileira, história, além de estudos didáticos na área de direito internacional. O talento do meu parceiro de xadrez ficou claro quando li e reli esse romance maravilhoso:

“Constatado o vazio da clareira, as árvores da mata, aturdidas e silenciosas, pareciam gigantes pesarosos, recusando a humilhação da ausência. Sugerindo que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto, pesada, mas efêmera. Tendo a imaginação tocada pelo delírio, Teodorico apeou-se, amarrando o cavalo solitário e foi encostar a cabeça no tronco daquela mesma árvore que havia abrigado o primeiro amor de sua juventude. E olhando para o chão de folhas, que já não era o mesmo, sentiu-se irrequieto com o espírito vagamente confuso”.

A mesma mesa do Clube de Xadrez Guanabara em que disputávamos com ardor partidas rápidas amistosas, servia de palco para a conversa informal, mais intimista, direito que os amigos chegados possuem. Numa dessas conversas, Oliveiros Litrento comentou que já tinha concorrido a imortal na Academia Brasileira de Letras por várias vezes. Apesar de ter conseguido mais dez votos ele jamais foi eleito, mas continuava disposto a tentar alcançar esse sonho impossível. Mesmo tendo vários amigos na ABL e sendo rico em saber, Oliveiros Litrento não era milionário, senão da palavra. Para a ABL vale mais a riqueza do ouro, do que o ouro da palavra:

Era como se, no escuro, tivesse apagado o último fósforo, como se estivesse descendo as escadas de um subterrâneo com a atemorizante impressão de que pisava um chão de catacumbas. E naquelas formas impuras e incontroladas da existência, exalando vapores asfixiantes de cavernas, retornou vertiginosamente à vida através das águas claras de um mar de esmeraldas”.

Litrento, dono de diplomas de várias entidades e academias, não realizou o sonho de entrar na ABL e eu não tive coragem para acordá-lo do que me parecia uma insensatez. Não tem como libertar o sonhador do sonho, só a morte pode fazê-lo. Quem seria eu, pobre mortal, para escurecer seus olhos verdes? Seria amigo se tentasse acordar os sentidos para uma realidade que matou já outros devaneadores? Ainda bem que em distante refúgio Oliveiros Litrento encontraria encanto e alento para tamanha frustração – tanto nas partidas de xadrez que jogava, quanto nas maravilhosas páginas que escrevia, extravasava inspiração, estro e entusiasmo criador:

“Aquele instante, de expectativa e silêncio, era simultaneamente deslumbrante e sombrio. Havia um frescor de madrugada como se vovô Medeiros, Don’Ana e Maria Rita, todos estivessem apenas dormindo. Mergulhados em dias transparentes, que lembravam as conchas róseas e amigas de Pajuçara. Como voltando daqueles dias verdes. Assim, o homem grisalho intuiu que a morte era tão somente uma passagem, uma ponte para o outro lado do tempo”.

Jogar xadrez é um delírio, tanto quanto o sonho, a utopia – debruçar-se entretido entre peças, perpetrando jogadas, realizando combinações, é o mesmo que sonhar com um Brasil melhor, com amar Maria Rita, dona do romance na imaginação do escritor.  Tenho certeza que Oliveiros Litrento – o próprio – caminhou dentro das entrelinhas de Tempo de Cachoeira, romance que parece degraus de sua primeira existência, cheia de experiência e sabedoria, mas encharcado de sonhos e devaneios, alimento das aspirações ilusórias, das quimeras que se transformam em delírio:

“Na manhã encantada, Cachoeira parecia um vilarejo mágico. Longe do crepúsculo e da morte, todos estavam vivos. A verdade era mentira. E tanto era mentira que Maria Rita chegou de leve, sem as algemas da noite, como subitamente despertada de profundo sono”.

Rio de Janeiro, Cachambi, 2 de dezembro de 2014

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Balão – Entre o folclore e o crime

Balão Felipinho
http://felipewasser.blogspot.com.br
“Na noite escura, profundamente estrelada – a surpreendente beleza desse céu do sertão brasileiro! – balões sobem, aos boléus no vento, de formas impagáveis chameiam estrelinhas, esfuziam as rodinhas, lampejam os pistolões, as fogueiras ardem, piramidais, alumbradamente”. Assim Gastão de Bettencourt – escritor português apaixonado pelo folclore brasileiro – no livro “Os três santos de Junho no folclore brasílico” (Agir, Rio de Janeiro, 1947), inicia o capítulo dedicado aos balões coloridos, que um dia já iluminaram, sem o pecado da culpa, nossas Festas Juninas.

Essa descrição “de um céu de beleza ímpar, iluminado pelos balões juninos”, hoje não se aceita mais – fabricar, portar ou soltar balões é crime! (Lei 9.605 de 12/02/1998 - Art. 42Fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano: - Pena - detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente). 

Os noticiários da TV gritam o decreto com tanta ênfase, com o tom de voz mais acusatório e ameaçador possível, fazendo o corpo do telespectador tremer, o sofá tremer, a sala toda tremer – pois o pavor de ser tachado de criminoso nele cai como uma carapuça, na medida. Porém, a tradição das Festas Juninas – aqui incluído o sagrado tríduo de Junho: São João, Santo Antônio, São Pedro – não deixa esquecer esse acessório que torna a noite de Junho mais lúdica e bonita, consagrado através dos tempos pela música, pelas de advinhas, cirandas e outros folguedos típicos da época.  Que o diga o cancioneiro popular...

“Cai, cai balão
Você não deve subir
Quem sobe muito
Cai depressa sem sentir
A ventania
Da tua queda vai zombar
Cai, cai balão
Não deixa o vento te levar”
(Assis Valente)

“Olha pro céu meu amor
Vê como ele está lindo
Olha aquele balão multicolor
Meu amor vê como no céu vai sumindo”
(José Fernandes)

“Meu balão azul
Foi subindo devagar
O vento soprou
Meu sonho carregou
Nem vais mais voltar”
(Carlos Braga Alberto Ribeiro)

É assim a cada ano, quando ressurgem as tradições do mês de Junho, assentado como o Mês do Folclore Brasileiro. Em toda a parte ardem fogueiras, sobem balões, dançam-se quadrilhas, girândolas e fogos rebentam no ar. Fogueiras e balões, fogos de artifício, sortes, adivinhas, canjica, pamonha, milho assado na brasa da fogueira, música ao som da viola e da sanfona, roupa colorida, lenço no pescoço, chapéu de palha, para dançar, ouvir cantoria, cirandar nas rodas. Na preparação tem o banho de cheiro, exposição de pássaros, dança de boi no terreiro, eis completado o emaranhado cultural que ocorre nos meses de Junho e Julho. O país é tomado de uma febril excitação, tanto o Norte/Nordeste quanto o Sudeste e tantas as terras que acoitaram emigrantes nordestinos. Paira no ar estagnado a mistura de aromas, o povo se confraterniza, a sanfona, a viola e o balão fazem o furor, nos terreiros a alegria se estampa.

A Prefeitura Municipal de Nísia Floresta todos os anos divulga a programação para a Festa do Balão, em 2014 entrando na 9ª Edição! O evento acontece nos dias 28, 29 e 30 de agosto, com palco montado ao lado da igreja matriz de Nossa Senhora do Ó, situada no centro da cidade. Quem olhar para o céu nas noites dos festejos pode ver mais que estrelas e faíscas das fogueiras. É Dia de São João e os balões de festa junina – ou balões de São João – continuam colorindo o céu em todo o Brasil, apesar da proibição. Apesar de serem acusados de provocar incêndios e prejudicar a aviação. A tradição trazida de Portugal se mantém nos meses de inverno principalmente no Nordeste, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Sensível à questão, o Congresso analisa dois projetos de lei: um que aumenta a punição para quem solta balão e outro que regulamenta a soltura de balões. Os dois projetos foram apresentadas pelo mesmo parlamentar, deputado Hugo Leal (RJ). “Primeiro apresentei o projeto que aumenta as penas. Logo comecei a receber mensagens de várias pessoas, entidades, associações, todos os setores, até bombeiros. Estudei o assunto e apresentei o segundo projeto sem retirar o primeiro porque temos que diferenciar o balão criminoso, que muitas vezes carrega fogos de artifício, daquele balão de festejo, chamado japonês, o balão junino da cultura popular”.

A Sociedade Amigos do Balão, do Rio de Janeiro, através do seu presidente Marcos Real, garante que os parâmetros propostos resultam em balões incapazes de causar incêndios. Ele estima que mais de 100 mil balões voam soltos nos céus do Brasil e não há um só registro de acidente aéreo causado por balão. “Em nenhum país do mundo existe proibição total como a que existe no Brasil. Agora em julho é realizado no México o Festival de Balões, com participantes de todo o mundo – o Brasil estará representado. Em Mianmar [antiga Birmânia], a soltura de balões faz parte do circuito turístico oficial”.

O senador Humberto Costa (PT-PE) discorda dessa estimativa. Representante de um estado onde é forte a tradição das Festas Juninas (Pernambuco), ele garante que não vê ninguém soltando balões nessas ocasiões. “O projeto tenta se justificar apenas pela preservação da cultura popular, sem dados científicos sobre riscos”. Humberto Costa demonstra que sua herança está alinhada com a oligarquia e com os governos autoritários do passado. Não basta ostentar a estrela do PT para se considerar desvinculado do terror. Hoje em dia cada vez mais isso se apresenta como improvável. Ademais é pouco plausível que o deputado passe as Festas Juninas em Pernambuco – aposto mais na Avenue des Champs-Élysées.

Já existem outras opções para manter essa tradição nas Festas Juninas: são os chamados “balões sem fogo”, já admitidos por leis municipais nas cidades de Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e São João de Meriti (Rio de Janeiro) e Cerro Azul (Paraná). Em São Paulo, a ideia está sendo discutida. Não existe uma estatística que prove que a maioria de incêndios florestais tem como causa os balões. Quem incendeia floresta impunemente são madeireiros, plantadores de soja, criadores de gado, grileiros e invasores de terra. Também nunca li notícia que avião tenha caído, nem que uma refinaria de petróleo tenha se incendiado por causa de balões. A não ser na Síria, onde as refinarias de petróleo são bombardeadas pela França – em nome da Máfia Internacional dos Crimes Contra a Humanidade – a Coalizão.  


Pesquisa e parte dos textos são de: 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Francis Scott Fitzgerald - O grande Gatsby (Romance)

(Biblioteca O Globo, 2007
Trad. Brenno Silveira) 

Estou relendo “O grande Gatsby” de Scott Fitzgerald. A edição é da Biblioteca O Globo, com tradução assinada por Brenno Silveira (quanto a isto, preciso do aval de Denise Bottman, minha consultora especial para assuntos de tradução honesta). Gosto de rever romances antigos, porque aguça a curiosidade a cada nova leitura. Tipo essa:

“Numa banca de jornais, [Tom] comprou um exemplar do “Town Tattle” e uma revista de cinema e, numa drogaria da estação, um pote de Cold Cream e um pequeno frasco de perfume”.

O que é Town Tattle? Agora sei que, como o nome diz, é uma revista de fofocas da década de 1920, igual à Broadway Tattler. Em nossa terra também tivemos um boom de revistas desse tipo – Revista do Rádio, TV Hora, Pop, Tititi, Paparazzi, Caras, Gente – que mudaram o denegrido “fofocas” por “celebridades”. Tais revistas – apoiadas pelos famosos fotógrafos paparazzi – volta e meia enfrentam processos judiciais por calúnia, difamação, exposição não autorizada, etc. E não só se expandiram do papel para programas de Rádio, faixas sensacionalistas da TV, como também invadiram a internet, resistindo a tudo e a todos.

E “um pote de Cold Cream” – que diabo é isso? Por que o cara com a namorada a caminho do apartamento compra um creme? Pensei na Pomada Japonesa e no KY. A Pomada Japonesa é pra dor de cabeça e o KY é um gel pra ser usado quando se irá penetrar em locais apertados, mas que, depois, se vê que foi jogar dinheiro fora. Pois o Cold Cream (o nome vem da sensação de frio na epiderme) – emulsão de água, óleo, cera de abelha e perfume –, diz que é pra amaciar e limpar a cútis. No entanto é creme de múltiplo uso: remove maquiagem, limpa os olhos, enxágua o rosto, faz máscara facial, purifica a pele, alivia queimadura, e faz barba!  Como se vê, o Cold Cream, a Pomada Japonesa e o KY têm lá suas afinidades...
        
         Scott Fitzgerald tem a sua permanência assegurada não só por registrar o retrato de uma época e de uma sociedade, mas porque, como uma máquina fotográfica, fixou imagens da cidade que crescia vertiginosa, bonita, feliz e cruel. A Nova York simbólica ficou afamada com tais descrições, retratada por imagens que se transformaram, mas permanecem, são atuais, estão ainda presentes entre o volume assimétrico das edificações modernas.
        
Neste pequeno trecho vimos como F. Scott Fitzgerald se mostra observador do panorama de Nova York e adjacências, sem deixar de lado as mudanças e transformações sociais que se vislumbravam:

“Atravessávamos, agora, a grande ponte, com a luz do sol, através das barras de aço, a lançar sombras palpitantes sobre os automóveis que passavam, enquanto a cidade se erguia, do outro lado do rio, em brancos montes de edifícios, construídos sem se levar em conta o dinheiro. A cidade, vista da Ponte Queensborough, é sempre uma cidade vista pela primeira vez, em sua primeira e violenta promessa de todo o mistério e de toda a beleza existente no mundo”.  

É o próprio repórter fotográfico que fixa a fotografia de dois mundos, tão próximos: a cidade campo de guerra e a vila da paz, aonde se recolhem os guerreiros após a refrega para o banquete, a dissipação e o consumo dos lucros obtidos com o butim às vítimas saqueadas. Por outro lado...

“Ao atravessarmos Blackwell’s Island, uma limusine tomou-nos a dianteira, dirigida por um chofer branco, e nela se achavam três negras bem vestidas, dois sujeitos e uma menina. Ri às gargalhadas quando os seus olhos rolaram sobre nós em altiva rivalidade”.

“Tudo pode acontecer, agora que deslizamos sobre esta ponte”, pensei. “Tudo, absolutamente tudo...”

Por outro lado não deixa de reparar com argúcia as mudanças políticas, as transformações, advindas com a profética ascensão de uma nova classe social, aquela que ainda sofre consequências de uma discriminação odiosa em terras do Sul e do Oeste.

Na grande cidade, o acesso é permitido a todos que se propõem a realizar e a participar do seu engrandecimento, do seu progresso sem quaisquer barreiras. Nova York foi uma cidade preconcebida, primeiro como “porto livre” em que se permite liberdade de acesso e de se fixar residência, depois como “mercado livre”, quando o trabalho e o lucro são oferecidos abertamente – assim promoverá o progresso próprio, a ascensão da sociedade.

O registro geográfico também é parte do romance. A ponte Queensboro (atual Ed Koch Queensboro), foi inaugurada em 1909, cruza a Ilha Roosevelt e liga Manhattan ao bairro Queens atravessando o West River. A ilha Blackwell (atualmente Roosevelt), é uma pequena faixa de terra entre Manhattan e o Queens – no passado foi chamada Minnehanonck pelos índios Delaware, Varkens Eylandt (Ilha dos Porcos) pelos neo-holandeses e durante a era colonial Blackwell. Por um tempo, quando era ocupada principalmente por hospitais, foi também chamada Welfare. Em 1971 a Blackwell de Fitzgerald foi renomeada Ilha Roosevelt, em homenagem a Franklin Delano Roosevelt.

Como se vê, O grande Gatsby guarda motivos para ser Cult, reeditado: é um romance que fala a história da sociedade, registra os mitos de uma cidade em pleno crescimento e destaca a movimentação de toda uma sociedade, alcançando não só o centro da ebulição, mas por igual aos personagens periféricos (sem os quais o núcleo não existe). Fitzgerald narra de maneira tão convincente, que o próprio autor muitas vezes se vê confundido com seus personagens – e vice versa! – como se fizesse parte viva integrante do ambiente inventado.

“E, à medida que a lua se erguia, as casas, desnecessárias, começaram a se dissipar, até que, pouco a pouco, me pus a pensar na velha ilha que ali florescera em outros tempos, ante os olhos de marinheiros holandeses – um seio fresco, verde, do Novo Mundo. Suas árvores extintas – as grandes árvores que cederam lugar à casa de Gatsby – tinham servido de motivo, sussurrantes, ao último e maior de todos os sonhos humanos, durante um breve momento de encantamento, o homem deve ter ficado com a respiração em suspenso em presença deste continente, compelido a uma contemplação estética que ele não compreendia nem desejava, face a face, pela última vez na história, com algo proporcional à sua capacidade de espanto”.

Com esse parágrafo magnificente, Francis Scott Fitzgerald aproxima o seu romance a um ponto em que a natureza humana se sobrepõe ao ambiente, à história, para se transformar em sonho, em utopia. Porém, é neste exato momento, em que tudo parece caminhar para a fantasia, a tragédia e a comedia, através das quais os personagens cruzaram, como fantasmas atravessam paredes, neste exato momento a realidade do futuro se mostra bem ali, palpável.

[Gatsby] não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite”.
        
Apolo e Dionísio, as paixões da natureza, são convocados para completar em Gatsby o permanente duplo da alma humana, que vive entre a racionalidade – por um lado, e a fulguração – por outro. São essas as forças que se completam e têm livre trânsito no romance de F. Scott Fitzgerald: utopia, realidade, sonho. A ação se reparte, ora conforme o impulso, ora instintiva, racional, ambientes expressos de modo figurativo e clássico.

         “Gatsby acreditou na luz verde, no orgástico futuro que, anos após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços... E, uma bela manhã...” 


Rio de Janeiro, Cachambi, 17/11/2014.