sexta-feira, 18 de abril de 2014

Machado de Assis vs. Lima Barreto


Acabo de assistir ao filme “Policarpo Quaresma – Herói do Brasil” (1998), baseado no romance de Lima Barreto “O triste fim de Policarpo Quaresma”, direção de Paulo Thiago. A filmografia brasileira tem aproveitado em bom nível a literatura, pois romances de Machado de Assis foram bem realizados quando transpostos aos telões. Dom Casmurro, outro bom trabalho dirigido por Paulo César Saraceni, saiu com o título de “Capitu”, em 1968. Ambos refletem fidelidade às ideias centrais dos romances, sem temor de que ambos se transformassem, para usar o jargão, em meros filmes de época. Duas belas realizações da cinematografia nacional que se juntam ao monstro de Joaquim Pedro de Andrade chamado “Macunaíma” (1969), da sinfonia de Mário de Andrade.
Duas coisas, porém, não irei fazer aqui: crítica literária, muito menos de cinema. O paralelo que me vem à cabeça é sobre o significado dos trabalhos de Machado de Assis e Lima Barreto quando traduzidos em roteiro e imagens, encaminhados, nessa condição, ao espectador. Essa compreensão se faz necessária porque é a que toca à vida de hoje, conquanto que os autores sejam lembrados nas elites literárias de modo apaixonado ou somente como modelos teóricos da literatura nacional.
Machado de Assis, filho de mulatos, nasceu no Morro do Livramento, de família pobre, mal estudou em escola pública muito menos em qualquer universidade. Querendo ter acesso à boemia e namorar a corte, estudou sozinho e sozinho se tornou intelectual. Assumiu cargos públicos e conseguiu notoriedade nos jornais para os quais escreveu poesias e crônicas. Já famoso na maturidade, reuniu colegas e escritores para fundar e presidir a Academia Brasileira de Letras.
          Lima Barreto também era filho de mulatos. Seu pai foi tipógrafo e a mãe, educada com maior esmero, chegou a lecionar o primeiro grau. Ela faleceu quando o menino tinha apenas seis anos, obrigando-o a trabalhar muito para sustentar os quatro filhos do casal, nada lhe valendo o fato de ser afilhado do visconde de Ouro Preto (alguma suspeita de filiação?). Essa condição, cujo cotidiano ligava ao fim da monarquia, bem como as lembranças negativas da Abolição da Escravatura – dizem – exerceram forte influência nas críticas cáusticas ao regime republicano.
[Aqui cabe um parêntese para registrar que o mulato foi o primeiro negro a ser aceito pela sociedade escravocrata – depois republicana. Tanto o homem quanto a mulher mulata tiveram tratamento diferenciado do negro puro, ascendendo em escala social e intelectual. Gilberto Freyre bem que reparou nisso: muitos mulatos tiveram acesso à banca de advocacia, a cargos públicos, ao jornalismo, à literatura e às artes em geral. As mulatas, “de pés compridos” (GF), alcançaram notoriedade pela beleza peculiar e não tiveram problemas em se estudar, se formar em professoras, até mesmo em namorar e casar com brancos, de família tradicional ou não].
De Machado de Assis já se disse tudo e são tantas as louvações, as influências, as imitações literárias, a grandeza das influências que a ele imputam, que é impossível falar mal desse desgraçado, um tiquinho que seja. Com efeito, como levantar a voz contra aquele de quem se diz que “a revolução modernista se aproveitou da obra de Machado em objetivos da vanguarda?” E de que estudos da sexualidade, da psique humana e do existencialismo, “atribuiu-se certo psicologismo às suas obras, muitas vezes comparando-as com as de Freud e Sartre”? Como contestar a declaração de que “nos últimos tempos, com recentes traduções para outras línguas, Machado de Assis tem sido considerado, por críticos e artistas do mundo inteiro, um gênio injustamente relegado à negligência mundial?” E o que dizer de Harold Bloom, que o posicionou “entre os 100 maiores gênios da literatura universal e o maior literato negro surgido até o presente"? 
De Lima Barreto, falam pouco – e o que dizem é que também foi um dos que tiveram a obra influenciada por Machado de Assis. No entanto, uma pequena frase distingue muito bem Lima Barreto de Machado de Assis: “Ele foi o maior escritor libertário do Brasil”. Talvez essa tenha sido uma das razões de Lima Barreto ter colocado como citação ao seu Policarpo Quaresma: “O maior inconveniente da vida, que a faz insuportável ao homem superior, é que, se ele for um visionário, as qualidades se tornam defeitos, de modo que muitas vezes, embora realizado, tem menos sucesso do que aqueles motivados pelo egoísmo e pelo hábito vulgar”.
Essa paráfrase tem a assinatura “Renan, Marc-Auréle” (citação do livro “Marco Aurélio”, imperador romano biografado por Ernest Renan), reflete sua própria amargura, já que Lima Barreto não teve a mesma sorte de Machado de Assis, embora tenha galgado a mesma culminância na arte de escrever. Não está em má companhia, pois muitos outros escritores provaram do mesmo fel, inclusive Cervantes. Talvez, por isso, Lima Barreto pudesse também parafrasear o próprio Renan, repetindo: “Os maiores acontecimentos da minha vida foram muitos pensamentos, leituras, alguns pores-de-sol à beira-mar e palestras com amigos”.
E lembrar-se, como o citado Marco Aurélio, estoico na plena acepção da palavra, quando disse em suas “Meditações”: “O homem cujo coração palpita pela fama depois da morte não pensa que todos aqueles que se lembrarem dele em breve estarão também mortos, e que, com o correr do tempo, geração após geração, até ao fim, depois de sucessivamente cintilar e se sumir, a centelha final da memória se extingue”.
Voltando à vaca fria (ou revenons à nos moutons), falávamos de filmes brasileiros sobre romances brasileiros, e o que deduzi é que tanto “Capitu”, quanto “Policarpo Quaresma, herói do Brasil” são ótimas realizações sobre o Brasil, mas de destinos tão desiguais que cravam em nosso peito a mesma dor que sofreu Lima Barreto. Como traduzir em poucas palavras a vida de dois seres cujos bisavôs foram pretos escravizados, grandes escritores brasileiros, mas cujas vidas tomaram rumo tão dessemelhante? Já que li os livros e assisti aos filmes, posso tentar fazer uma comparação, mas de jeito não tão técnico como douto escritor faria.
Machado de Assis teve vida longeva de classe média, fundou, presidiu e pertenceu à Academia Brasileira de Letras, trabalhou e progrediu em seus empregos, tornou-se jornalista e escritor famoso. A página que lhe dedica a Wikipédia é enorme, como é grande a sua fortuna crítica, seus livros foram traduzidos para centenas de idiomas, vários romances foram escritos sob a inspiração de seus textos, estudos, continuações, os volumes inspirados em sua obra já a ultrapassam em número e quantidade. Nomes importantes da literatura universal, em razão disso, trataram-no como igual, um par, membro do clã. Machado de Assis foi, enfim, como diria a minha avó, um preto de alma branca – portanto, inserido no contexto e aceito pela sociedade.
E Lima Barreto? Se em algo superou a Machado de Assis foi o próprio nome, pois a maioria prefere referir-se a ele como Afonso Henriques de Lima Barreto – coisa que, por princípio (acho), ele mesmo depreciaria. Lima Barreto tentou várias vezes ser membro da Academia Brasileira de Letras, mas sempre seu nome foi rejeitado. Como a instituição de elite republicana poderia aceitar como membro um contra, alcoólatra e louco? A sua página na Wikipédia é tão mísera que nela se podem contar as linhas, a fortuna crítica que lhe dedicam é maior acentuada na sua vida recheada de desgraças do que em sua obra, os livros que falam dele são poucos e seus romances só inspiram alguns loucos, revoltosos e visionários, como a refletir a própria imagem.
Machado de Assis era Freud, Lima Barreto era Nietzsche. Machado de Assis nos endereçou às enfermidades de uma sociedade mestiça e triste – mazelas que nos acompanham até hoje; Lima Barreto nos ensinou a rebeldia, o não conformismo – que os cara pintadas e baderneiros honram ao mantê-los de pé. Machado de Assis era a assimilação, Lima Barreto era a anarquia. Ambos também se desigualam no endereço do pó: seus ossos e almas jazem no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro: – os de Machado de Assis entre sábios fraternos, no mausoléu de ouro e mármore da Academia Brasileira de Letras; – os de Lima Barreto junto ao populacho, misturados a cantores, artistas, santas, palhaços, anjinhos milagrosos e ilustres desconhecidos.
Agora adivinhem com quem eu fico? Com a dúvida que nos deixou Machado de Assis: a formosa Capitu (com “aqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e que já “aos quatorze anos, tinha já ideias atrevidas”), foi ou não foi comida pelo malandro Bentinho? Doutor Santiago é ou não é um chifrudo?  Ou estarei ao lado do louco visionário Lima Barreto, que teve a audácia de atacar os republicanos, de sacrificar o personagem do romance a balaços, fazendo com que Policarpo Quaresma, amado por duas belas heroínas, seja fuzilado pelo chumbo da República (que nos governa até hoje), bradando, de braços ao alto: – Viva o povo brasileiro! Com quem fico, hem, hem?
(Rio de Janeiro, Cachambi, 18 de abril de 2014).