terça-feira, 29 de julho de 2014

Onde andará Willy Ronis? (Crônicas 2000-2007)

Joaquim Itapary - Onde andará Willy Ronis? (Crônicas 2000-2007)
Edições Academia Sambentuense - São Luis – MA - 2014

Esta não será apenas mais uma apresentação pedante, cheia de gabolice, perfunctória – mesmo porque o autor não necessita de tais malabarismos. Espero, ao contrário, passar um texto claro e compreensível de modo que qualquer curioso pegue o livro e se transforme em leitor, que possa formar ideias ao primeiro olhar, sem lambanças nem puxa-saquismo.

Portanto, desocupado leitor, a este blog coube prelecionar a primeira leitura deste “Onde andará Willy Ronis?” – livro saído do forno, que reúne as crônicas de Joaquim Itapary entre 2000/2007. Não me tocará de todo predizer a sua leitura, nem tampouco decifrá-lo ou decodificá-lo. O texto do cronista é de fácil entendimento, de interpretação cabal, de simples compreensão.

Em cronologia se poderia pensar que o volume trata de temas esquecidos e obsoletos. Esquecidos talvez, obsoletos jamais. Além da crônica que dá título ao volume, Joaquim Itapary trata de temas da sua cidade – São Luís – mas não só. Aonde quer que vá o cronista, em qualquer ponto desta Terra, aparece o sinal, o relógio, a agenda ou diário (algo biológico, enfim), para fixar o momento exato que o registro deva surgir e passar ao papel.

Nesse diapasão segue a cantoria e assim ele estabelece a cumplicidade necessária para que a leitura se derrame gostosa, apetitosa, fácil de saborear no pouco tempo que hoje sobra para a leitura: em casa, no ônibus, no avião, no terminal – em ambientes insulsos por natureza.

A curiosidade primordial do livro será: Onde andará Willy Ronis? Partindo de caso fortuito, a crônica incute a necessidade de considerar o “incidental”, não apenas aleatório, casual, mas um imprevisto cuja eventualidade persistirá importante, cotidiana. “Toda vez que vejo um retrato de criança, menino qualquer, costumo perguntar a mim mesmo: Onde andará ele hoje? O que teria ele feito de sua vida? Ou, o que a vida teria feito dele? É sempre assim”.

E será sempre assim: quando sentarmos ao sofá com um velho álbum de fotografias, coleção de recortes de revistas e jornais, as interrogações abancarão ao lado, impondo-se como companhias irreversíveis, para o bem ou para o mal. Derramar alguma lágrima, espantar do ambiente a tristeza, soltar gargalhadas com mel, meditar sobre a eventualidade da vida – algo nos ocorrerá, repleto de comoção!

“Agora mesmo olho um retrato meu feito tem mais de sessenta anos. Sentado em pequena cadeira forrada de sola tingida de castanho, dessas que se abre e fecha para facilitar o transporte, baixa, quase a uns dois palmos do chão do grande quintal, cheio de fruteiras viçosas, da nossa bela e clara casa em São Bento, vejo-me vestido apenas de calções e sandálias, cabelos repartidos ao meio, enormes óculos de aro de tartaruga mal apoiados sobre o incipiente nariz, livro aberto sobre as coxas pequeninas, ar compenetrado de leitor imperturbável”.

Em todas as crônicas deste livro haverá matéria para refletir, mas nem tudo será escuro, tenebroso. Não. Aqui terá o leitor companhia do contentamento, de frases que refletem o júbilo do instante, da situação que provocará o riso hilariante, fará passeios por avenidas e vielas inóspitas – são crônicas que trazem satisfação e jovialidade – porque nem só de tristeza é feita a vida, né?

Para ter o livro passe um e-mail pro autor: j.itapary@gmail.com. Como aperitivo vai uma crônica escolhida ao acaso...
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Taririnha, o exemplar
Luís Gago

São Bento, bem ali do outro lado da baía de São Marcos, tranquilidade e paz seculares situadas sobre uma feliz ponta de terra antigamente coberta de altos matos, elevada apenas um pouco acima do nível da lâmina d’água que periodicamente nutre os campos gerais da Baixada, é uma cidade singularíssima. 
Entre os costumes distintivos dos seus filhos há um excepcionalmente curioso: O de apelidar pessoas de maneira tão adequada que estas praticamente perdem o nome de batismo, incorpora o apelido aos nomes de família e o transmitem de geração em geração.   Lá, por exemplo, há famílias Pisa Ouro, Bate Banha, Peixe Frito, Afoga Gato e outras de nomes até mais exóticos. 
Na década de 40, a segurança pública da cidade estava confiada ao honrado delegado de polícia Luís Reis, com casa de moradia ao lado da nossa na principal praça da cidade e que, por ser tatibitate, ficou mais conhecido pelo apelido de Luís Gago. Seus auxiliares eram os policiais Balbino, apelidado de Balbino Perna-dura e um outro, conhecido por Taririnha, de quem o nome próprio até hoje ignoro. 
Balbino ganhou o apelido de “Perna-dura” muito em razão de que uma de suas pernas quase não se dobrava durante o caminhar. Foi, ao que suponho, o primeiro e único militar soldado incapaz para a marcha regular. Contudo, aquele modo diferente de caminhar não deixava de emprestar à sua alta e robusta figura um quê de solenidade, um ar de eminência. Tinha fama de sério e valente, cumpridor de ordens. 
Já o Taririnha era tipo mirrado, magro e pequenino, meio amarelento, condição física que ficava mais evidente quando os dois únicos militares da cidade caminhavam juntos. Naquele tempo, o uniforme da polícia era feito em tamanho único. Cabia ao militar mandar recortá-lo, se quisesse, por sua conta. Solene dólmã de caqui abotoado até o gogó, quatro enormes bolsos, cinto e talabarte de couro negro, quepe armado com pala e distintivo, calças folgadas enfiadas em perneiras de couro. Tudo em tamanho grande. 
Quando o fardamento chegava da capital, duas mudas para cada soldado, a gente logo sabia. Bastava ver o Balbino bem vestido, engomado, acessórios luzindo ao sol, farda bem caída sobre o corpo esbelto. Já o Taririnha, ao contrário, pobre demais, não tinha dinheiro para mandar que recortassem os uniformes recebidos. Sempre estava perdido dentro da farda enorme, olhos desaparecidos sob o quepe, três dedos maior do que a cabeça, pés 38 metidos em botas 44, braços sumidos no oco das mangas, apenas as unhas dos dedos médios subsaíndo no largo punho do dólmã. De tão folgado, o quepe de Taririnha não se movia mesmo quando ele bruscamente virava o rosto para os lados ou para trás; A pala, como agulha de marear, apontava sempre a mesma direção. Era uma boa pessoa. Mas o seu tipo não era o teoricamente adequado a um militar. 
Pois bem, certo dia, o delegado Luis Gago ordenou a Taririnha que, armado de fuzil, sabre e revólver, trouxesse à delegacia, vivo ou morto, um homicida e desordeiro que infernizava sossegado lugarejo. Deixando a cidade em suspense, o intrépido policial partiu em diligência. A expectativa era: como Taririnha trará o bandido, vivo ou morto? Duas noites e dois dias de ansiedade geral se passaram. Ao crepúsculo do terceiro dia de agônica espera, na ponta da Rua Grande surgem homens extenuados, ofegantes e calados, de vara aos ombros carregando uma rede toda ensanguentada. 
Logo, dezenas de curiosos acompanham o macabro cortejo que pára apenas à porta da Delegacia. Solene, Luis Gago abre a rede e fica estupefato; Lá no fundo, rosto arroxeado, corpo e membros como se moídos em poderosa engenhoca, completamente emplastrado de mastruço e sal-grosso estava o resultado de suas ordens terminantes: Taririnha, desacordado, abraçado a seu fuzil, mal respirava. (27/10/2005)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Chaplin - Uma Vida


Chaplin – Uma vida –Stephen Weissman
Trad. Alexandre Martins – Ed. Lafonte, 2012

Deus meu! O que se terá para escrever ainda sobre Charles Chaplin? Pois saibam ainda tem gente que arrisca tempo e dinheiro para descobrir detalhes da vida de Carlitos, inéditos ou que ainda não foram esmiuçados de todo. Neste Chaplin, Uma vida, de Stephen Weissman, psiquiatra de formação, obrigou o autor a andar anos e anos cavoucando a vida de Chaplin em busca de aspectos ainda não enfocados em biografias anteriores, para isso voltando os holofotes e seus esforços justos para a área de sua especialidade.

Teria Chaplin projetado em seus filmes aspectos de sua vida pessoal? Debaixo dessa interrogação Mr. Weissman utiliza-se do poder de seu cargo de professor da Washington School of Psychiatry e organiza um grupo de estudo para trabalhar essa particularidade da vida de Carlitos, que inclui um confronto entre textos biográficos, entrevistas, filmes e teatro, sem deixar de lado o monumental “My autobiography” publicada pela Simon and Schuster, New York 1964 – no Brasil saído em pela Editora José Olympio (1ª edição 1965), sob o título “História da minha vida”, com excelente tradução tripla de Raimundo Magalhães Jr., Rachel de Queiroz e Genolino Amado, prefácio de Octavio de Faria, que inclui a poesia “Canto ao homem do povo”, de Carlos Drummond de Andrade – coisa que não se verá jamais.  

Após esse calhamaço biográfico de quase 600 páginas, o que sobrará? O principal sustento do livro se baseia nas projeções autobiográficas atiradas por Charles Chaplin não só ao tipo que criou, como também aos enredos dos filmes dirigidos por ele na Keystone, que começou como subsidiária da New York Motion Picture Company.

Ora, qualquer um que leia a biografia de Chaplin poderá chegar direto a essa conclusão, como fato irreversível. Chaplin teve uma infância que muitas vezes comparava à de Charles Dickens, tirando dele até exemplos para espelhar-se e direcionar sua própria vida.  Assim, como é natural que Charles Chaplin tenha transposto os sofrimentos próprios para a tela, também é inequívoco o fato de que atores, precoces ou não, com certeza absoluta um dia irão mesclar a existência real com a interpretação em seus papeis e personagens do cinema. Todos hão de lembrar que o Presidente Ronald Reagan em seus discursos oficiais repetia frases inteiras das falas do Ator Ronald Reagan no cinema. 

Chaplin – Uma vida, de Stephen Weissman se resume a isso, sem delongas, mas poderia ser mais bem incrementado se o autor buscasse na própria psiquiatria descobrir verdades e mentiras sobre algumas acusações de pedofilia que pesam sobre Carlitos, aparecidas no livro “A Vida Íntima Sexual de Gente Famosa” (Record, 1981, trad. Vera Mary Whately), de Irving Wallace, Amy Wallace, David Wallechinsky e Sylvia Wallace.

Que Chaplin era “espada” todo mundo sabe: teve centenas de esposas, mulheres, amantes, amores instantâneos e porrada de filhos. Até aí tudo bem, mas o custo de ser acusado de ‘pedófilo’ é toneladas e toneladas mais pesado que qualquer outra acusação.  O que se deduz do livro da família Wallace é que tem algo de sensacionalismo nisso.

A primeira vítima da ‘pedofilia’ de Chaplin é Mildred Harris de 15 anos, que acabou se casando com ele depois de, com interferência da mãe, anunciar uma falsa gravidez. Ou seja, foi na verdade um golpe... A segunda pretensa vítima, Lita Gray, confessou que Chaplin a perseguia e acabou por deflorá-la na sauna da residência dele. Lita Gray já estava com 16 anos e ficou grávida, por isso transformou-se na segunda esposa de Chaplin.  Que diabo de pedófilo é esse que casa com as suas vítimas? Ora vejam que história! Ademais, o que uma menina de 16 anos fazia na sauna da casa de um homem de 35 anos? 

Dá pra relembrar aquele caso do Mike Tyson que foi condenado por estuprar uma moça que o acompanhou até seu apartamento às 4 horas da madrugada! Bem a história é rica desses casos, mas ainda assim acredito que em termos jurídicos de hoje não cabe acusação de pedofilia dentro dessa faixa de idade.  Porém, não é disso que trata o livro do Dr. Weissman porque, em sendo, não teria jamais o aval de Geraldine Chaplin, com certeza, não. O que foi uma pena o Dr. Weissman saltar esse ponto da vida de Chaplin, em que caberiam muitos estudos psicanalíticos e psiquiátricos.

Sobre a publicação da editora Lafonte há que se reclamar de falhas na tradução, bem encontráveis, ainda que não lesse o original. Parágrafos enormes, longos, em que não aparece uma vírgula sequer para que o leitor possa ao menos respirar. Palavras repetidas, repetidas, na mesma frase, por preguiça de consultar sinônimos. Por fim, é condenável a adoção do título de "Adorável Vagabundo”, pelo qual o personagem Carlitos é cunhado no livro – porém não aqui no Brasil! As expressões “adorable ragamuffin” ou “the adorable vagabond” foram cunhadas e são populares na Inglaterra e USA,. Aqui no Brasil o personagem de Chaplin foi adotado e conhecido como Carlitos – é sobre ele que depositamos todas as gargalhadas, toda a alegria, principalmente quando dá aquele pontapé tradicional na bunda do guarda, do polícia.  

Reproduzo a poesia de Carlos Drummond de Andrade, que pouco estava se importando com as diatribes que assacam post morten a Charles Chaplin, preferindo-o como aquele que alegrava o povo em lugar de despertá-lo para a lágrima da miséria.

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Carlos Drummond de Andrade

Canto ao homem do Povo - Charles Chaplin

I

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mando por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os parias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.

II

A noite banha tua roupa.
Mal a disfarças no colete mosqueado,
no gelado peitilho de baile,
de um impossível baile sem orquídeas.

És condenado ao negro. Tuas calças
confundem-se com a treva. Teus sapatos
inchados, no escuro do beco,
são cogumelos noturnos. A quase cartola,
sol negro, cobre tudo isto, sem raios.

Assim, noturno cidadão de uma república
enlutada, surges a nossos olhos
pessimistas, que te inspecionam e meditam:
Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde
a um mundo muito velho.

E a lua pousa
em teu rosto. Branco, de morte caiado,
que sepulcros evoca mas que hastes
submarinas e álgidas e espelhos
e lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas em farinha. O bigode
negro cresce em ti como um aviso
e logo se interrompe. É negro, curto,
espesso. O rosto branco, de lunar matéria,
face cortada em lençol, risco na parede,
caderno de infância, apenas imagem
entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha, experiente, calada vem a boca
sorrir, aurora, para todos.

E já não sentimos a noite,
e a morte nos evita, e diminuímos
como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos
ao país secreto onde dormem os meninos.
Já não é o escritório e mil fichas,
nem a garagem, a universidade, o alarme,
é realmente a rua abolida, lojas repletas,
e vamos contigo arrebentar vidraças,
e vamos jogar o guarda no chão,
e na pessoa humana vamos redescobrir
aquele lugar - cuidado! - que atrai os pontapés: sentenças
de uma justiça não oficial.

III

Cheio de sugestões alimentícias, matas a fome
dos que não foram chamados à ceia celeste
ou industrial. Há ossos, há pudins
de gelatina e cereja e chocolate e nuvens
nas dobras do teu casaco. Estão guardados
para uma criança ou um cão. Pois bem conheces
a importância da comida, o gosto da carne,
o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,
e sabes a arte sutil de transformar em macarrão
o humilde cordão de teus sapatos.

Mais uma vez jantaste: a vida é boa.
Cabe um cigarro: e o tiras
da lata de sardinhas.
Não há muitos jantares no mundo, já sabias,
e os mais belos frangos
são protegidos em pratos chineses por vidros espessos.

Há sempre o vidro, e não se quebra,
há o aço, o amianto, a lei,
há milícias inteiras protegendo o frango,
e há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que mal decifras
o cristal infrangível. Entre a mão e a fome,
os valos da lei, as léguas. Então te transformas
tu mesmo no grande frango assado que flutua
sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro
e chama, comida geral, que tarda.

IV

O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.
No festim solitário teus dons se aguçam.
És espiritual e dançarino e fluido,
mas ninguém virá aqui saber como amas
com fervor de diamante e delicadeza de alva,
como, por tua mão a cabana se faz lua.

Mundo de neve e sal, de gramofones roucos
urrando longe o gozo de que não participas.
Mundo fechado, que aprisiona as amadas
e todo o desejo, na noite, de comunicação.

Teu palácio se esvai, lambe-te o sono,
ninguém te quis, todos possuem,
tudo buscaste dar, não te tomaram.
Então encaminhas no gelo e rondas o grito.

Mas não tens gula de festa, nem orgulho
nem ferida nem raiva nem malícia.
És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo, os copos voam,
os corpos saltam rápido, as amadas
te procuram na noite... e não te veem,
tu pequeno, tu simples, tu qualquer.

Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino,
e ter braços enormes sobre as casas,
ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês a maranhense,
a russo, a negro: ser um só, de todos,
sem palavra, sem filtro,
sem opala:
há uma cidade em ti, que não sabemos.

V

Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.

Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos

VI

Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.

Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.

O ofício é o ofício
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.

Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.

E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
Ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopros exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada,
contra a miséria e a fúria dos ditadores,

ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e de esperança.  

(1945)