quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Balão – Entre o folclore e o crime

Balão Felipinho
http://felipewasser.blogspot.com.br
“Na noite escura, profundamente estrelada – a surpreendente beleza desse céu do sertão brasileiro! – balões sobem, aos boléus no vento, de formas impagáveis chameiam estrelinhas, esfuziam as rodinhas, lampejam os pistolões, as fogueiras ardem, piramidais, alumbradamente”. Assim Gastão de Bettencourt – escritor português apaixonado pelo folclore brasileiro – no livro “Os três santos de Junho no folclore brasílico” (Agir, Rio de Janeiro, 1947), inicia o capítulo dedicado aos balões coloridos, que um dia já iluminaram, sem o pecado da culpa, nossas Festas Juninas.

Essa descrição “de um céu de beleza ímpar, iluminado pelos balões juninos”, hoje não se aceita mais – fabricar, portar ou soltar balões é crime! (Lei 9.605 de 12/02/1998 - Art. 42Fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano: - Pena - detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente). 

Os noticiários da TV gritam o decreto com tanta ênfase, com o tom de voz mais acusatório e ameaçador possível, fazendo o corpo do telespectador tremer, o sofá tremer, a sala toda tremer – pois o pavor de ser tachado de criminoso nele cai como uma carapuça, na medida. Porém, a tradição das Festas Juninas – aqui incluído o sagrado tríduo de Junho: São João, Santo Antônio, São Pedro – não deixa esquecer esse acessório que torna a noite de Junho mais lúdica e bonita, consagrado através dos tempos pela música, pelas de advinhas, cirandas e outros folguedos típicos da época.  Que o diga o cancioneiro popular...

“Cai, cai balão
Você não deve subir
Quem sobe muito
Cai depressa sem sentir
A ventania
Da tua queda vai zombar
Cai, cai balão
Não deixa o vento te levar”
(Assis Valente)

“Olha pro céu meu amor
Vê como ele está lindo
Olha aquele balão multicolor
Meu amor vê como no céu vai sumindo”
(José Fernandes)

“Meu balão azul
Foi subindo devagar
O vento soprou
Meu sonho carregou
Nem vais mais voltar”
(Carlos Braga Alberto Ribeiro)

É assim a cada ano, quando ressurgem as tradições do mês de Junho, assentado como o Mês do Folclore Brasileiro. Em toda a parte ardem fogueiras, sobem balões, dançam-se quadrilhas, girândolas e fogos rebentam no ar. Fogueiras e balões, fogos de artifício, sortes, adivinhas, canjica, pamonha, milho assado na brasa da fogueira, música ao som da viola e da sanfona, roupa colorida, lenço no pescoço, chapéu de palha, para dançar, ouvir cantoria, cirandar nas rodas. Na preparação tem o banho de cheiro, exposição de pássaros, dança de boi no terreiro, eis completado o emaranhado cultural que ocorre nos meses de Junho e Julho. O país é tomado de uma febril excitação, tanto o Norte/Nordeste quanto o Sudeste e tantas as terras que acoitaram emigrantes nordestinos. Paira no ar estagnado a mistura de aromas, o povo se confraterniza, a sanfona, a viola e o balão fazem o furor, nos terreiros a alegria se estampa.

A Prefeitura Municipal de Nísia Floresta todos os anos divulga a programação para a Festa do Balão, em 2014 entrando na 9ª Edição! O evento acontece nos dias 28, 29 e 30 de agosto, com palco montado ao lado da igreja matriz de Nossa Senhora do Ó, situada no centro da cidade. Quem olhar para o céu nas noites dos festejos pode ver mais que estrelas e faíscas das fogueiras. É Dia de São João e os balões de festa junina – ou balões de São João – continuam colorindo o céu em todo o Brasil, apesar da proibição. Apesar de serem acusados de provocar incêndios e prejudicar a aviação. A tradição trazida de Portugal se mantém nos meses de inverno principalmente no Nordeste, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Sensível à questão, o Congresso analisa dois projetos de lei: um que aumenta a punição para quem solta balão e outro que regulamenta a soltura de balões. Os dois projetos foram apresentadas pelo mesmo parlamentar, deputado Hugo Leal (RJ). “Primeiro apresentei o projeto que aumenta as penas. Logo comecei a receber mensagens de várias pessoas, entidades, associações, todos os setores, até bombeiros. Estudei o assunto e apresentei o segundo projeto sem retirar o primeiro porque temos que diferenciar o balão criminoso, que muitas vezes carrega fogos de artifício, daquele balão de festejo, chamado japonês, o balão junino da cultura popular”.

A Sociedade Amigos do Balão, do Rio de Janeiro, através do seu presidente Marcos Real, garante que os parâmetros propostos resultam em balões incapazes de causar incêndios. Ele estima que mais de 100 mil balões voam soltos nos céus do Brasil e não há um só registro de acidente aéreo causado por balão. “Em nenhum país do mundo existe proibição total como a que existe no Brasil. Agora em julho é realizado no México o Festival de Balões, com participantes de todo o mundo – o Brasil estará representado. Em Mianmar [antiga Birmânia], a soltura de balões faz parte do circuito turístico oficial”.

O senador Humberto Costa (PT-PE) discorda dessa estimativa. Representante de um estado onde é forte a tradição das Festas Juninas (Pernambuco), ele garante que não vê ninguém soltando balões nessas ocasiões. “O projeto tenta se justificar apenas pela preservação da cultura popular, sem dados científicos sobre riscos”. Humberto Costa demonstra que sua herança está alinhada com a oligarquia e com os governos autoritários do passado. Não basta ostentar a estrela do PT para se considerar desvinculado do terror. Hoje em dia cada vez mais isso se apresenta como improvável. Ademais é pouco plausível que o deputado passe as Festas Juninas em Pernambuco – aposto mais na Avenue des Champs-Élysées.

Já existem outras opções para manter essa tradição nas Festas Juninas: são os chamados “balões sem fogo”, já admitidos por leis municipais nas cidades de Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e São João de Meriti (Rio de Janeiro) e Cerro Azul (Paraná). Em São Paulo, a ideia está sendo discutida. Não existe uma estatística que prove que a maioria de incêndios florestais tem como causa os balões. Quem incendeia floresta impunemente são madeireiros, plantadores de soja, criadores de gado, grileiros e invasores de terra. Também nunca li notícia que avião tenha caído, nem que uma refinaria de petróleo tenha se incendiado por causa de balões. A não ser na Síria, onde as refinarias de petróleo são bombardeadas pela França – em nome da Máfia Internacional dos Crimes Contra a Humanidade – a Coalizão.  


Pesquisa e parte dos textos são de: 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Francis Scott Fitzgerald - O grande Gatsby (Romance)

(Biblioteca O Globo, 2007
Trad. Brenno Silveira) 

Estou relendo “O grande Gatsby” de Scott Fitzgerald. A edição é da Biblioteca O Globo, com tradução assinada por Brenno Silveira (quanto a isto, preciso do aval de Denise Bottman, minha consultora especial para assuntos de tradução honesta). Gosto de rever romances antigos, porque aguça a curiosidade a cada nova leitura. Tipo essa:

“Numa banca de jornais, [Tom] comprou um exemplar do “Town Tattle” e uma revista de cinema e, numa drogaria da estação, um pote de Cold Cream e um pequeno frasco de perfume”.

O que é Town Tattle? Agora sei que, como o nome diz, é uma revista de fofocas da década de 1920, igual à Broadway Tattler. Em nossa terra também tivemos um boom de revistas desse tipo – Revista do Rádio, TV Hora, Pop, Tititi, Paparazzi, Caras, Gente – que mudaram o denegrido “fofocas” por “celebridades”. Tais revistas – apoiadas pelos famosos fotógrafos paparazzi – volta e meia enfrentam processos judiciais por calúnia, difamação, exposição não autorizada, etc. E não só se expandiram do papel para programas de Rádio, faixas sensacionalistas da TV, como também invadiram a internet, resistindo a tudo e a todos.

E “um pote de Cold Cream” – que diabo é isso? Por que o cara com a namorada a caminho do apartamento compra um creme? Pensei na Pomada Japonesa e no KY. A Pomada Japonesa é pra dor de cabeça e o KY é um gel pra ser usado quando se irá penetrar em locais apertados, mas que, depois, se vê que foi jogar dinheiro fora. Pois o Cold Cream (o nome vem da sensação de frio na epiderme) – emulsão de água, óleo, cera de abelha e perfume –, diz que é pra amaciar e limpar a cútis. No entanto é creme de múltiplo uso: remove maquiagem, limpa os olhos, enxágua o rosto, faz máscara facial, purifica a pele, alivia queimadura, e faz barba!  Como se vê, o Cold Cream, a Pomada Japonesa e o KY têm lá suas afinidades...
        
         Scott Fitzgerald tem a sua permanência assegurada não só por registrar o retrato de uma época e de uma sociedade, mas porque, como uma máquina fotográfica, fixou imagens da cidade que crescia vertiginosa, bonita, feliz e cruel. A Nova York simbólica ficou afamada com tais descrições, retratada por imagens que se transformaram, mas permanecem, são atuais, estão ainda presentes entre o volume assimétrico das edificações modernas.
        
Neste pequeno trecho vimos como F. Scott Fitzgerald se mostra observador do panorama de Nova York e adjacências, sem deixar de lado as mudanças e transformações sociais que se vislumbravam:

“Atravessávamos, agora, a grande ponte, com a luz do sol, através das barras de aço, a lançar sombras palpitantes sobre os automóveis que passavam, enquanto a cidade se erguia, do outro lado do rio, em brancos montes de edifícios, construídos sem se levar em conta o dinheiro. A cidade, vista da Ponte Queensborough, é sempre uma cidade vista pela primeira vez, em sua primeira e violenta promessa de todo o mistério e de toda a beleza existente no mundo”.  

É o próprio repórter fotográfico que fixa a fotografia de dois mundos, tão próximos: a cidade campo de guerra e a vila da paz, aonde se recolhem os guerreiros após a refrega para o banquete, a dissipação e o consumo dos lucros obtidos com o butim às vítimas saqueadas. Por outro lado...

“Ao atravessarmos Blackwell’s Island, uma limusine tomou-nos a dianteira, dirigida por um chofer branco, e nela se achavam três negras bem vestidas, dois sujeitos e uma menina. Ri às gargalhadas quando os seus olhos rolaram sobre nós em altiva rivalidade”.

“Tudo pode acontecer, agora que deslizamos sobre esta ponte”, pensei. “Tudo, absolutamente tudo...”

Por outro lado não deixa de reparar com argúcia as mudanças políticas, as transformações, advindas com a profética ascensão de uma nova classe social, aquela que ainda sofre consequências de uma discriminação odiosa em terras do Sul e do Oeste.

Na grande cidade, o acesso é permitido a todos que se propõem a realizar e a participar do seu engrandecimento, do seu progresso sem quaisquer barreiras. Nova York foi uma cidade preconcebida, primeiro como “porto livre” em que se permite liberdade de acesso e de se fixar residência, depois como “mercado livre”, quando o trabalho e o lucro são oferecidos abertamente – assim promoverá o progresso próprio, a ascensão da sociedade.

O registro geográfico também é parte do romance. A ponte Queensboro (atual Ed Koch Queensboro), foi inaugurada em 1909, cruza a Ilha Roosevelt e liga Manhattan ao bairro Queens atravessando o West River. A ilha Blackwell (atualmente Roosevelt), é uma pequena faixa de terra entre Manhattan e o Queens – no passado foi chamada Minnehanonck pelos índios Delaware, Varkens Eylandt (Ilha dos Porcos) pelos neo-holandeses e durante a era colonial Blackwell. Por um tempo, quando era ocupada principalmente por hospitais, foi também chamada Welfare. Em 1971 a Blackwell de Fitzgerald foi renomeada Ilha Roosevelt, em homenagem a Franklin Delano Roosevelt.

Como se vê, O grande Gatsby guarda motivos para ser Cult, reeditado: é um romance que fala a história da sociedade, registra os mitos de uma cidade em pleno crescimento e destaca a movimentação de toda uma sociedade, alcançando não só o centro da ebulição, mas por igual aos personagens periféricos (sem os quais o núcleo não existe). Fitzgerald narra de maneira tão convincente, que o próprio autor muitas vezes se vê confundido com seus personagens – e vice versa! – como se fizesse parte viva integrante do ambiente inventado.

“E, à medida que a lua se erguia, as casas, desnecessárias, começaram a se dissipar, até que, pouco a pouco, me pus a pensar na velha ilha que ali florescera em outros tempos, ante os olhos de marinheiros holandeses – um seio fresco, verde, do Novo Mundo. Suas árvores extintas – as grandes árvores que cederam lugar à casa de Gatsby – tinham servido de motivo, sussurrantes, ao último e maior de todos os sonhos humanos, durante um breve momento de encantamento, o homem deve ter ficado com a respiração em suspenso em presença deste continente, compelido a uma contemplação estética que ele não compreendia nem desejava, face a face, pela última vez na história, com algo proporcional à sua capacidade de espanto”.

Com esse parágrafo magnificente, Francis Scott Fitzgerald aproxima o seu romance a um ponto em que a natureza humana se sobrepõe ao ambiente, à história, para se transformar em sonho, em utopia. Porém, é neste exato momento, em que tudo parece caminhar para a fantasia, a tragédia e a comedia, através das quais os personagens cruzaram, como fantasmas atravessam paredes, neste exato momento a realidade do futuro se mostra bem ali, palpável.

[Gatsby] não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite”.
        
Apolo e Dionísio, as paixões da natureza, são convocados para completar em Gatsby o permanente duplo da alma humana, que vive entre a racionalidade – por um lado, e a fulguração – por outro. São essas as forças que se completam e têm livre trânsito no romance de F. Scott Fitzgerald: utopia, realidade, sonho. A ação se reparte, ora conforme o impulso, ora instintiva, racional, ambientes expressos de modo figurativo e clássico.

         “Gatsby acreditou na luz verde, no orgástico futuro que, anos após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços... E, uma bela manhã...” 


Rio de Janeiro, Cachambi, 17/11/2014.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fernando Braga - Magma (Poesia) - 2014


Fernando Braga - Magma - Ed. Kelps (GO) 2014
 
Chegou MAGMA, de Fernando Braga. Veio escorrendo, líquido e poderoso, desde o planalto central. Fernando Braga é poeta que dorme com as palavras. Mas será verdade que o poeta não gosta de palavras? Que escreve pra se ver livre delas? Talvez. Como fica no talvez que a palavra torna o poeta pequeno. No abismo da morte o poeta escreve terra, palavra que ele se apega e suja a página. O poeta sangra, com raiva inicia a escrita. Cada palavra é vidro em que se corta (Couto). Com fúria e raiva o poeta acusa o demagogo, o capitalismo das palavras: é preciso saber que a palavra é sagrada, a ela o poeta deixa a alma confiada. Desde o início o homem soube de si pela palavra e nomeou a pedra, a flor, a água, e tudo emergiu. O homem se promove à sombra da palavra, da palavra faz poder e jogo, transforma palavras em moeda, como se faz com o trigo e a terra (Andersen). 

Tudo serve pra escamotear o vezo censório, a amperagem moralista contra as locuções chulas e o palavrão. Os deliciosos fonemas que nomeiam as partes pudendas, ignorando que não existe palavra impura (Barros). Não existe palavra nobre, sancionada pra a poesia, nem mesmo a proscrita do verso, que deveria ser escorraçada ao inferno da língua (Back). Certas palavras dormem à sombra do livro raro. É a senha da vida, a senha do mundo – buscada a vida inteira. Se tarda o encontro ou não a acho, não desanimo, procuro e a procura será a palavra. Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar, em hora qualquer. São restritas, reservadas pra companheiros de confiança, devem ser sacralmente ditas, em tom especial, onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. São palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que a nós é defendido por sentença. Quando tudo é proibido, então falamos (Drummond). 

Não importa a palavra corriqueira: é esplêndido o caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o “porém” e o “que”, compreensíveis muletas. Quem entende a linguagem entende Deus cujo Filho é o Verbo. A palavra é disfarce da coisa mais grave, surda-muda, inventada pra ser calada. Em momentos de graça se poderá apanhá-la: peixe vivo com a mão. Puro susto e terror (Prado). O que é a palavra descansada? Haverá sempre no mundo as palavras descansadas ou haverá ainda outras, as que não se cansam nunca, as mortas? As palavras morrem ou são esquecidas? As palavras que estão no dicionário, elas estão recuperadas, estão salvas ou apenas prisioneiras: quem terá interesse na prisão das palavras? As palavras simples navegam o mundo complicado com a verve de sempre ou perdem a compostura? Haverá, no meio delas, as tontas, as virgens, as palavras desavergonhadas, as vesgas? Existirá a palavra que tem em si a fuga dos sentidos e as que, resguardada do tédio, pode ministrar no silêncio a dor e a mentira? 

No sentido figurado, poesia é tudo aquilo que comove, sensibiliza e desperta sentimentos. É qualquer forma de arte: o ritmo, os versos, o som, a cor e as estrofes. Os versos livres têm liberdade pra definir o seu próprio ritmo e criar as próprias normas. A poesia é usada como forma de expressar sentimentos, como o amor, amizade, tristeza, saudade. A poesia é o espelho que torna bonito aquilo que é distorcido (Shelley), é a música da alma, sobretudo de almas grandes e sentimentais (Voltaire), é o eco da melodia do universo no coração humano (Tagore). A humilde canção popular é poesia (Croce), quando a emoção encontra o pensamento e o pensamento encontra a palavra (Frost), é o sentimento que enche o coração (Conde), é a religião sem esperança (Cocteau), é a arte de materializar sombras e dar existência ao nada (Burke), são pensamentos que respiram, palavras que queimam (Gray), está na alma, como o rouxinol nos ramos (Musset). A poesia genuína pode comunicar-se antes que se seja entendida (Eliot). Se alguém perguntar o que quiseste dizer com o poema, pergunta o que Deus quis dizer com o mundo (Quintana). 

Só os poetas têm autorização pra mentir (Plinio); o poeta nunca vive, morre aos pedaços (Félix); não há poema em si, mas em mim ou em ti (Paz); a poesia é ao mesmo tempo o esconderijo e o autofalante (Gordimer), é a metralhadora na mão do palhaço (Mattoso), a ilha cercada de palavras por todos os lados (Ricardo), a eterna Tomada da Bastilha, o eterno quebra-quebra, a queimação de Judas (Quintana). O poema está em tudo, tanto no amor como no chinelo, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas (Bandeira). Cadê a poesia? Indaga-se por toda parte. E a poesia vai à esquina comprar jornal (Gullar). Poesia é brincar com as palavras como se brinca com bola, papagaio, pião. Só que bola, papagaio, pião de tanto brincar se gastam. As palavras não (Paes). Eu faço versos como quem chora de desalento, desencanto.  Fecha o meu livro, se por agora não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente, tristeza esparsa, remorso vão. Dói-me nas veias. Amargo e quente cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca assim dos lábios a vida corre, deixando o acre sabor na boca. – Eu faço versos como quem morre (Bandeira). 

O poema deve ser como a nódoa no brim: fazer o leitor satisfeito que dá desespero. A poesia é também orvalho. Mas este fica pra as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento, as amadas que envelhecem sem maldade (Bandeira). Escrever a água da palavra mar, o voo da palavra ave, o rio da palavra margem, o olho da palavra imagem, o oco da palavra nada (Maciel). Explicar a poesia ninguém consegue explicar. É mais pesada que o chumbo e leve igualmente ao ar. É fina como cabelo, é bela como o luar! Toca na alma da gente fazendo rir ou chorar. Faz a tristeza morrer e o sonho ressuscitar. A poesia é tão santa que, quando o poeta canta, Deus pára pra escutar! E pra terminar meu hino, a poesia seu menino, como tudo que é divino não dá pra gente pegar (Dedé). Quem faz o poema salva o afogado, abre a janela. 

O poema continua sempre, o poema que não ajuda a viver e não prepara pra a morte não tem sentido. Todo livro de poesia deve ter margens largas, páginas em branco, muito espaço pra a lágrima, o sorriso, a dor, a alegria e pra que as crianças possam encher de desenhos, gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão a fazer parte dos poemas (Quintana). O poema é o mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor (Mallarmé). O poema nunca está acabado, somente abandonado (Valéry). O poema não deve significar, mas ser (McLeish). Os poemas têm direito à liberdade (Virgílio). Poemas não morrem (Ovídio). O que vou dizer da Poesia? O poeta não pode dizer nada da poesia. Nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia (Lorca). 

Poeta Fernando Braga, é assim que dou recebimento de MAGMA, espelhando, com palavras alheias, por toda parte, o teu engenho e arte. Pra que gastar saliva? Os poetas que celebraram de outros a fama e a vitória, hoje cantam valor mais alto, que do planalto se alevanta. Nada mais justo, né? 

Rio de janeiro, Cachambi, 05/11/2014.