terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Nauro Machado

Foto: Focaí


O primo Quincas manda de São Luís uma mensagem aflita: “Nesta madrugada, Nauro Machado faleceu em um hospital. Triste. O Maranhão vai a cada dia ficando mais miserável cultural, moral e economicamente”. Logo depois outro e-mail, desta vez do Fernando Braga, confirma a tragédia e dá “Adeus a Naurito”. Uma tragédia, sim. Era sexta-feira, 28 de novembro de 2015. Só agora, alguns dias depois, consigo me refazer da agonia de todos nós, admiradores e amigos de Nauro Machado: perdê-lo assim de modo inesperado, mesmo tendo ele somado agorinha mesmo os 80 anos de idade.

Disse de modo inesperado e assim foi. Ora, o poeta acabara de superar um câncer no esôfago, o que significa uma vitória, como quem diz: dona morte, vai te catar! Passa depois… Mas não, logo deram jeito de pegar o corpo fragilizado do poeta, cuja única vitamina de longevidade é a poesia, e metê-lo num hospital para outro procedimento. Ó humana burrice, quem se aventurará aos 80 anos na loucura de uma anestesia geral nessa idade? Quem ousará se internar nesses hotéis em que são hóspedes vírus e bactérias tão letais que derrotam a penicilina e todos os modernos antibióticos? Meu testamento tem um só parágrafo: – Não me interne em hospital.

Nem faz um mês contei a Quincas como conheci o lendário crítico e polemista Agripino Grieco, já beirando os 90 anos. Agripino vivia numa casa amarela, na Rua Aristides Caire, Méier, cercado de 40 mil livros. Desde a primeira vez que fui vê-lo, caía uma garoa gélida de umedecer os ossos, ele estimulou novas conversas. Disse-lhe que iria levar um gravador para registrar os encontros, a modo de entrevista. “Não precisa gravador, ele me disse, guarde de memória. Escreva. O que não lembrar, invente”.

A última vez que o vi estava se preparando para operar: Agripino Grieco era rendido, como se diz popularmente, não sei se em causa de hidroceles ou hérnia. Eu fiquei obtuso com isso. Ele me disse que não tinha jeito, os médicos insistiram, os filhos viram como única solução, etc. etc. Nem preciso dizer que ele morreu no hospital. Ah, porra, já tinha 91 anos… é essa a justificativa de sempre. E foi assim que os hospitais viraram açougues, câmaras mortuárias.

Nunca fui íntimo de Nauro Machado, nem poderia, ele em São Luís, eu no Cachambi. Mas sua poesia sempre me acompanhou através dos livros que conseguia adquirir por encomenda aos livreiros seu Alberto ou seu Carlos, da Livraria Padrão, Travessa Miguel Couto, no Rio. Os livros de Nauro “Do frustrado órfico”, “Noite ambulatória”, depois “O calcanhar do humano”, a alentada “Antologia Poética”, da Editora Quíron e “Apicerum da clausura”, foram lidos e relidos. Eles me serviram de base e estímulo para o artigo “Poesia Maranhense – a Atenas renascida” que escrevi para o Jornal DO Cultura (São Paulo, 1986).

Para dirimir o mal do exílio, algumas vezes vou à ilha de São Luís visitar o primo Quincas, o mano João, a grande parentada que me enche de saudade, pois a cada visita a recepção se esmera. Duas ou três vezes no intercurso dessas viagens tive a sorte de esbarrar corpo a corpo com o poeta. Nem sempre lhe dirigi a palavra: muitas vezes preferi acompanhar a figura esbelta e pacífica que descia flutuando a Rua do Sol.

Quando essa coincidência se deu no Centro Cultural Odylo Costa Filho, na Praia Grande, me acometeu uma crise de riso, meio lacrimoso: a maravilhosa emoção de ver os poucos cabelos brancos do poeta emergindo da multidão de jovens estudantes que o cercavam, não só para ouvir, mas para dirigir-lhe a palavra de igual para igual. Eram, poeta e leitores, irmãos que acaloravam a conversação animando o silêncio do salão cultural. E os olhinhos do poeta? Brilhavam como quem se diverte, reconhecido e venerado, por quem deve verdadeiramente venerar e reconhecer o intérprete de seu tempo, da sua cidade.

Houve um momento em que pensei estar ali o poeta que emudeceria a poesia de outro grande poeta maranhense: Bandeira Tribuzi. Mas esse não era algum plano do próprio Nauro Machado e o que se deu foi uma transição pacífica e sequencial. Entre a poesia agitada de Bandeira Tribuzi e a calmaria que representa os versos de Nauro Machado existiu apenas uma ponte era o José Chagas que estava ali espreitando...

Noutro dia espiei o poeta caminhando em direção à Praça João Lisboa. Deixei-o seguir o curso e passei direto para a Benedito Leite, que ali tem, ou tinha, um vendedor de sapotis maravilhosas, cuja polpa cede ao aperto mais leve e, ao ser mordida, transforma em mel a saliva que escorre pelo canto da boca. Depois de tanto prazer, segui em frente pela Av. Pedro II, aonde está o Palácio dos Leões que, recém-saído de uma reforma, reluzia ao sol em alvura mediterrânea. 

Lá adiante a maré cheia chacoalhava nos muros e rampas. Aí eu entrava pelas ruas Nazaré, Djalma Dutra, Portugal, até desembocar na Praia Grande, com a boca salivando e a garganta ressecada. Direto ao Mercado a fazer o teste das tiquiras e camarão seco. Refeito da caminhada, seguia sozinho tal qual um espião olhando lojas, redes, artesanato. De novo entrava no centro cultural que era certo estar ali o poeta. 

Nesse segundo encontro, como o assédio da estudantada não era tão acachapante, me aproximei e após os cumprimentos de praxe disse de supetão: 

– Poeta você me deve 15 reais! Nauro Machado, naturalmente espantado ante a inusitada cobrança, com o olhar exigiu explicações – e eu dei: 

– É que passando pela João Lisboa vi um livro de poesia numa banca de jornal. Na orelha você recomendava a poesia do fulano e eu comprei. Mas quando li…

Nauro era cabra difícil de rir, mas quando ouviu meus comentários sobre a poesia e o poeta do livro, quase deu uma gargalhada. Só aquele riso valeu a brincadeira que não carecia ser contestada. Mas ele ainda me disse ao pé do ouvido: 

– Aquele rapaz é muito esforçado, dono de uma gráfica. Eu devo a ele muitos favores e sou agradecido. 

Por que não? Nada errado. Eu e também os milhares de seus admiradores somos muito gratos a Nauro Machado pela poesia que a nós oferenda.

Nauro Machado é um poeta difícil? Já ouvi dizer. Nauro Machado é um poeta hermético? Já li por aí. Baboseira de intelectuais, críticos e ensaístas – a popularidade que Nauro Machado alcançou em sua terra, principalmente entre os jovens, é o contraditório de tais descobertas oriundas de banca universitária. Seus leitores repudiam tantas teses e desse modo carimbam o passaporte para que sua poesia alcance o universo. 

É também a resposta cabal a quem prefere cultuá-lo no limbo da “poesia para poetas”, na neblina cega da linguagem dos labirintos.  

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Joaquim Itapary, cronista por inteiro


Joaquim Itapary
Armário de Palavras
Crônicas
Edições AML
São Luís, 2015

A crônica, dizem os entendidos, é o gênero literário mais dinâmico, porque está localizado entre o jornalismo e a história: é o relato mais objetivo possível de um acontecimento, no tempo que ocorreu. Na verdade, a crônica hoje em dia tornou-se um gênero literário indefinido, assim como a novela, o conto, o romance. E para finalizar esta introdução, toda a literatura tá um cu-de-boi danado! Então, crônica é aquilo que o autor chama de crônica...

Há décadas que Joaquim Itapary anda de mãos dadas com a crônica semanal, mas demorou algum tempo para que assumisse de vez a crônica como gênero literário de sua preferência. Se isso ocorreu, diga-se, não foi por escolha própria, ao contrário, foi a crônica que o nomeou seu intérprete, assim como os espíritos elegeram Chico Xavier para narrar as histórias de outras vidas. São mistérios...

Ocorre que a crônica é um tipo de literatura cheia de pegadinhas, que começa desde o dia em que é enviada aos redatores, continua quando o leitor acaba de ler, segue quando o diário vai para o lixo e termina nas mãos do peixeiro ao embrulhar a pescada – se não lhe for dado destino menos nobre...

Nenhum cronista nem daqui nem d’alhures ousaria imaginar uma trajetória além desse circuito de vida tão curta e de pouca fama. Assim sendo, correria risco de ser xingado de pedante, metido a besta e outros adjetivos impublicáveis. E como tiro de misericórdia, lerá a crítica demolidora que decreta a sentença de morte da crônica no dia que sai no jornal.

Por isso disse acima que a crônica é um tipo de literatura cheia de pegadinhas e armadilhas que põe a biografia do cronista em constante risco de vida. Certo dia, porém, Joaquim Itapary dormiu e acordou com a ideia fervendo na cabeça: por que não publicar as crônicas em livro?

Aí foi um deus me acuda! Opiniões a favor, palpites contrários, nada fez o cronista desistir do intento. Centenas de folhas espalhadas pela mesa de trabalho obrigaram-no a pedir arrego.  A papelada teimava em não se organizar ao molde do autor.

Jogou tudo nas mãos de organizadores. As crônicas foram escolhidas por temática, outras pelo belo simples, mais algumas pela importância do assunto. Algum tempo depois, a maçaroca foi-lhe devolvida acompanhada de relatório, índice, colofão, notas explicativas, essas coisas feitas com profissionalismo e dedicação.

Mas qual nada!  O cronista Joaquim Itapary, acostumado ao rigor das lutas pessoais, não se deixou tombar pelo canto das sereias. Tomou o leme nas mãos, imaginou as crônicas recitando os nobres versos de Walt Whitman: – Ó Comandante! Meu Comandante! – como se a ele fizessem o apelo definitivo: – Por favor, guie-nos!

Desde que a primeira coletânea foi publicada (“Sob o sol”, 2000), estaria entregue aos leitores com recomendação de que seria a crônica o principal veio comunicador de Joaquim Itapary, embora não lhe falte talento nem competência para outras estiradas, como assim atesta a sua bibliografia. Em 2007 Joaquim repetiu o feito, desta vez declarando amor perpétuo à cidade de São Bento, que idolatra desde a infância e não deixa de visitar várias vezes por ano, assim que o tempo permite.

Agora que deixou as Folias de Momo de lado, deu conta de que as festividades carnavalescas andam muito desvirtuadas – como confirmam as crônicas Primeira, Segunda e Última do Carnaval, encontradas neste Armário de Palavras. Fugindo da folia, Joaquim Itapary arruma a mala e parte para a terra querida em busca da refrescância da alma, dos prazeres do corpo e da memória.

Assim nasceu o segundo livro de crônicas “Tapuiranas” (2007). Como a experiência seguiu o mesmo ritmo de “Sob o sol” (2000), em 2014 uma nova juntada se fez, estreando no volume a crônica de sabor universal que dá nome ao livro: “Onde andará Willy Ronis?”. Ambos foram publicados pelo autor, mas sob a chancela da Academia Sambentuense, da qual Joaquim Itapary é membro.

Com este “Armário de palavras”, saído neste ano de 2015, em coedição do autor com a Academia Maranhense de Letras, FAPEMA e SECMA, Joaquim Itapary prossegue no afã de resguardar um importante ciclo da história cotidiana de São Luís e do Maranhão, embora o cronista não deixe de lado o universo que cerca a Ilha Rebelde e de vez em quando traga para seus leitores notícia d’além mar. É pegar e ler.  

Rio de Janeiro, Cachambi, outubro de 2015.

domingo, 27 de setembro de 2015

Fernando Braga: Sonetário do Quixote Vencedor


Disse certa vez Dom Quixote a Sancho que contasse algum conto para o entreter, como teria prometido, ao que Sancho correspondeu que de boa vontade o fizera, se o modo do que estava ouvindo lho consentisse: 

– Mas enfim – disse ele – seja como for farei diligências para contar uma história. Dê-me Vossa Mercê toda atenção que já principio, a contar uma aventura sobre o próprio Cavaleiro andante, mas como se fora ele, o leal escudeiro, Sancho Pança, que assim o via através de seus olhos de fiel servidor e acompanhante... 

Era uma vez... O que era; como atrás de tempos, tempos vêm... Era uma vez um cavaleiro poeta apaixonado não por Dulcinéia Del Toboso. Mas por Nirciene Rosa, o que, não muito desigual ao da Triste Figura, assim começou, enamorado, um canto, a dizer ter perdido o destino: “Vede: Sou um louco sonhador cretino, / a quer o mundo sem dor, mal e peste / - pobre Quixote que perdeu o destino...” 

E depois do caminho, distraído, perdeu Rocinante: “E desenganado, sofre a dor angustiante / e vai trotando no vazio seco de um graveto / - pobre Quixote que perdeu Rocinante”. Adiante, o poeta cavaleiro, perdeu o próprio caminho: “Cruéis para mim foram os fados: / [tudo em mim foi dor ou desvario, / olhos postos na luz, e já vazados] / sempre morrer de calor dentro do frio”. 

E desditoso, o cavaleiro poeta perdeu a fantasia: “Sem uma gota de verdadeira poesia, /naufrago no pantanoso areal da Vida / - pobre Quixote que perdeu a fantasia...” E tempo há, dentro do tempo, que o cavaleiro poeta perde a amizade: “Se querem saber: sou eu mesmo Sancho. / Ele é o outro de mim mesmo dispersado. / E, pela metade, eu agora me desmancho, / que um não pode ser o ser dilacerado.” 

Lá pelas páginas tantas, Sancho diz que o amigo perdeu o projeto / e sem planta baixa edificou a casa. / Mas, mesmo assim, arquitetou o teto / escondeu na alma um pedaço de asa.”

Pobre Quixote – o herói de La Mancha, desta vez perde o melhor de seu, a vergonha: “Mesmo que contra o homem tudo deponha, / inclusive, por ser este animal que bate, / tudo logo corrompe em que a mão ponha: / e infamando seu cão, cruel, ainda late...” Depois, agora, para melhor, “Nobre Quixote perdeu a tristeza / e recuperou o horizonte da alegria. / Tirou o pombo da cartola da beleza /e na fileira do bem inventou o dia.” 

Neste momento, ele, Quixote, que também não é o andante da triste figura, ma o Cavaleiro poeta, da bela postura, apruma-se e canta uma Elegia dos Visionários: “E Quixote, todo ancho, / colherá um verde lírio / e responderá: bom Sancho, / somos filhos do delírio.”
        
        E Nirciene Rosa, que não é Dulcineia e tampouco Aldonza, mas o grande amor dest’outro Quixote, o poeta da bela figura, passa pelos moinhos de vento com o nome disfarçado de “Mona Lisa... Infinita das minhas emoções”, e a caminho, “Infinita Mona Lisa das minhas quimeras...”, e em serenata “Infinita Mona Lisa da minha guitarra” [...] E os dois, cansados de tantas andanças, chegam à Santa Helena, onde Bonaparte amargou a sorte de grande soldado, para dizer, ele, o Quixote poeta e da bela alegria, não de La Mancha, mas de uma Ilha com o epíteto de ser “dos amores”, não aquela cantada por Camões e pintada por Malhoa, mas a de São Luis do Maranhão... Descobrimo-lo pelo coloquial do termo, que só naquela doce ilha é usado, e brada feliz: “Como Bonaparte vão sonhando no caminho, / lambendo-se no cio à sombra de um vinho, / noivos chamando-se pequeno e pequena”.

Depois, o nosso herói que já se misturou com as histórias minha e de Sancho, chega à Ibéria, e canta sob o belo azul peninsular: “Colorido dia de Espanha, / de Espanha e Portugal: / [este ouro que o azul apanha e transforma em mel e sal]”. Este ouro não será o reflexo das areias do Tejo, visto pelos olhos de Sancho? Finalmente, o Quixote poeta e brilhante chega ao Quinto Encontro, ao lembrar-se talvez do Quinto Império, predito pelo Bandarra, sapateiro de tanto espanto: “Nunca jamais se turvam/ mesmo a Lisboa do alto... Com uma vontade de salto, / Lisboa meu chão de nuvem”.
            
           Por fim, lança esta sentença ao seu escudeiro: “Hás de saber, Sancho amigo, que eu nasci por determinação do Céu nesta Idade de Ouro para ressuscitar bela a de ouro ou dourada. Eu sou aquele para os que estão dados os perigos, as grandes façanhas, os valorosos feitos...” E assim tem sido este cavaleiro, poeta e da brilhante figura,ma transmitir bênçãos alegrias...  E esperanças! 

Este livro, ‘Sonetário do Quixote Vencedor’, “fora escrito entre o Cairo, no Egito e Valletta, em Malta. “em nítida demonstração de que o verbo, o princípio, a energia, o espírito e a substância são universais, legando ao barro humano e ao bicho da terra destinos estrelares. Nascer é renascer a cada dia, sob o norte, a bússola e o signo prognóstico da reinvenção do humano a melhor, com um par de asas suplantando os pés de ferro, chumbo e concreto.” 

            E quem será este Cavaleiro da fidalga e culta figura? É o escritor, poeta, jornalista, Doutor em Direito professora, Doutor em Filosofia, em Teologia e em Sociologia, além de ser um dos maiores advogados em exercício atualmente em Brasília, um pensador e um jusnaturalista por convicção e ciência, membro da Academia Brasiliense de Letras, a quem simplesmente o clássico Claude Lévi-Strauss o qualificou “como um sol, nos tristes nevoeiros dos trópicos, reconhecendo-o enquanto mestre na arte de pensar, na sua incontrastável vocação brasileira para a reflexão superior...” De José Rossini Campos do Couto Corrêa, ou simplesmente Rossini Corrêa, dissera Josué Montello, nos momentos de sua derradeira estada na Europa, como Embaixador do Brasil junto a UNESCO, através do saudoso erudito Sérgio Corrêa da Costa... “Em Paris, Rossini Corrêa é considerado um dos dez mais expressivos pensadores do segundo milênio da Cristandade.” 

            Em tempo, digo eu, Rossini Corrêa é um dos homens mais cultos que tive a felicidade de conhecer, meu queridíssimo amigo, a quem tanto respeito e muito amo, o irmão que nunca tive, e, para loas do meu espírito, é ele, ainda, meu compadre de alma.
---------------------
in “Toda Prosa”, Tomo III, do livro “Travessia” [Memórias de um aprendiz de poeta e outras mentiras], em organização.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Salomão Rovedo-Poesia escrachada












Surdo Enigma

Ó dúvida atroz! Diga-me:
foi Beethoven um cagão?
Poderia ter avançado mais
se não fosse um frouxo?

Ele estava com tudo na mão,
chamavam-no louco, famoso,
mais surdo que um tijolo,
era vantagem para declarar:

– Foda-se! Foda-se o mundo!
E ao fim compor algo além
daquelas Sonatas arrombadas
e alguns miseráveis Quartetos.

Que serviram apenas para ser
lembrado como um Gênio,
deixar os ouvintes maníacos
e inventar posições tântricas...


Bíblica dúvida

Quando Maria Madalena, a bíblica puritana,
se ajoelhou aos pés de Jesus para agradecer
por tê-la salvo da violenta morte a pedradas
(que bem merecia por ter corneado o marido),
enfim, lavou-lhe os pés ou fez-lhe um broche?


F’rnão P’ssoa

Que tratante foste, hem F’rnão? Um sacanão!
E que herança nos deixa além da magia negra?

Com o seudónimo bobo de Álvaro de Campos,
tal qual Walt Whitman, fizeste poemas futuristas.

Por outro lado, assinaste o nome de Ricardo Reis
nas odes, nas elegias e no trobar português/galego.

Sob a alcunha de Alberto Caeiro é que traduziste
o prazer, a sensação, a ironia, o gozo: foste hedonista.

– Um qualira, tal D. H. Lawrence metido à bosta.

Só para foder nossa paciência, ainda quiseste nos
emocionar sendo tu mesmo, o próprio F’rnão P’ssoa?

Além do mais escreveste o Livro do Desassossego
já alma morta, difunta d’além, ó Bernardo Soares?

Ó P’ssoa, dá-me um tempo, caralho! Ninguém merece!
Viadão! Será somente o vício da poesia que padeces?

– Com que heterônimo afinal entocavas rolas pelo reto?


O Poeta

Aproveitando que é bem apessoado
um poeta notório aqui bem ao lado
(do qual só vos digo as iniciais:
JRFG), arrumou uma bela gatinha
para ler-lhe poesias à noitinha
por conta de ensinar-lhe os beabás.

Mas a danada – que não é trouxa –,
aproveitando o estado quase broxa
que acompanha toda senectude,
do mestre destilou bem toda a lição:
hoje faz versos belos, de montão,
mostrando o quão sábia é a juventude...

Rio de Janeiro, Cachambi, 3/9/2015 
(Ressuscitado de 20/2/2004)

sábado, 15 de agosto de 2015

Literatura de cordel – patrimônio imaterial

Por Sá de João Pessoa

         Finalmente a inclusão da Literatura de Cordel na biblioteca de patrimônios culturais brasileiros toma forma.  Já não era sem tempo, porque desde muito se ouvia o reclamo dos poetas populares na busca de espaço próprio para formalizar a convivência entre os demais bens culturais já reconhecidos. A premência se fazia desde a criação, em 2004, do Departamento do Patrimônio Imaterial, sob a batuta do Iphan e do Centro de Folclore e Cultura Popular.
        
         As raízes desse reconhecimento remontam ao movimento modernista que aflorou nos anos 1920, que deve a Mário de Andrade a iniciativa: ele que intuiu a necessidade de incorporar a cultura popular em meio ao fluxo da agitação que se dava naquele momento. Com intuição visionária Mário de Andrade soube atrair um grupo para embarcar no trem da cultura popular e logo no percurso aderiram ao agito Luis Saia, Oneyda Alvarenga, Câmara Cascudo, entre outros.
        
Além do mais, com o poder de persuasão e sedução que possuía, Mário de Andrade conseguiu tirar o jovem Luís da Câmara Cascudo dos caminhos naturais da literatura, fazendo convergir seu interesse em torno da cultura popular nordestina. Com isso só o país ganhou...

Entre idas e vindas toda essa discussão – como é habitual no Brasil – ficou em banho-maria, vindo ressuscitar em 1988, na bíblica Constituição Cidadã (no dizer de Ulisses Guimarães), que em seu artigo 216 define como patrimônio cultural “os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.

Ainda assim, só alguns anos depois o país veio ratificar a Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2006). Determinar os bens de natureza imaterial, no entanto, se converte em penoso labirinto no qual o interessado em desvendá-lo se emaranha faz muito tempo.  É uma construção tijolo a tijolo, pedra a pedra...

Seguir à risca o texto do artigo 216 é uma aventura à parte, pois lá “os bens de natureza material e imaterial” estão assim fixados: I -  as formas de expressão; II -  os modos de criar, fazer e viver; III -  as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV -  as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V -  os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Como se vê, é difícil achar uma brecha para incluir a Literatura de Cordel, embora se saiba que não há dúvida em considerá-la um patrimônio do nosso povo – como também de muitos povos latino-americanos. É caso a se tratar com a mesma tenacidade com que Mário de Andrade cuidou, com esforço sem esmorecimento, muitas vezes pregação no deserto, como alguns muitos cordelistas vêm fazendo em todos os rincões em que a Literatura de Cordel prospera.

Agora é hora dos moços entrarem em ação. Com o advento da internet o Brasil se coalhou de sites de cordelistas que não só divulgam a própria produção, como reacende a história percorrendo o caminho dos pioneiros, propalam suas raízes, anunciando a boa nova aos quatro cantos.

Os jovens poetas de cordel estão disseminados em todo o país. A fronteira nordestina da Literatura de Cordel se moveu até são Paulo, cidade em que os descendentes de emigrantes daquela região apregoam a poesia popular, espalham as novas publicações, expressam e noticiam os temas mais atuais na rima fácil das sextilhas. São muitas as vozes que proclamam,  propagam, descobrem e desvendam para os calouros os segredos de sua cantoria.

Um novo ciclo começa nos novos autores que agarram com unhas de caranguejo os ares da modernidade que a internet trouxe, criam espaços inéditos para mostrar e publicar todo o conhecimento que adquiriram, tanto em estudo próprio como em reminiscência hereditária, e assim revelam um abundante material, rico e sólido, capaz de enterrar de vez o ciclo de morte e ressurreição que aterroriza a Literatura de Cordel desde sempre.

Porém a batalha só começou. Para culminar com o reconhecimento da Literatura de Cordel como bem imaterial existe uma longa estrada a percorrer. Todo esforço dos cordelistas deve se voltar para esse objetivo, divulgando, acumulando, protegendo e encaminhando para pesq.foclore@iphan.gov.br as informações pessoais, o legado de conhecimento, itens de acervo, elementos comprobatórios e subsídios. Mesmo aqueles detalhes considerados sem importância terão acolhimento, pois têm valimento na instauração do pedido e obtenção do título de Patrimônio Imaterial para a Literatura de Cordel.
        
         No Rio de Janeiro a burocracia está sendo enfrentada com denodo e coragem pela equipe do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular - CNFCP (Setor de Pesquisa) - Rua do Catete, 179 - Rio de Janeiro (RJ) - CEP 22220-000 - Tel.: (21) 3826-4317 e (21) 3826-6930. Liga pra lá e procura a Ana Carolina! Para melhor informação, visite o site: http://www.cnfcp.gov.br

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Valsa pra Joaquim Itapary

São Luís (MA) - Centro histórico
http://www.periodicoseletronicos.ufma.br

Lá vai Joaquim Itapary pela beira da calçada com seu passo de quelônio...
Diz-que vai caminhar, diz-que é bom pra saúde,
mas aquecido sob o sovaco leva o livro das aventuras
do cavaleiro catalão Tirant Le Blanch.
O padre Antônio Vieira viu-se assim destituído
pelo tal Johanot Martorell, pois remexeu a ossada no túmulo.

– Estará ele pensando nos desígnios da humanidade?

Lá vai Joaquim Itapary, o cronista mal amado com seu passo de Juriti...
Diz-que vai por aí levando Antônio Vieira debaixo do braço.
Cada passo que ele dá é uma nota que solfeja e se uma pipira
apurar bem os ouvidos vai logo descobrir que se trata
de uma arte de Bach ou Mendelssohn decantada pelo arco de Pau Brasil
que decola do cello majestoso de Antonio Meneses.

– Rejubila-se pela fumaça branca que elegeu o Papa Francisco?

Lá vai Joaquim Itapary, arqueado mas solene como o Jaburu pantaneiro...
Apertado junto ao peito carrega um livro de crônicas de Lago Burnett.
Entre o nadir e o zênite vagabundeia o pensamento fluido do cronista e vai.
Entre netos avós tios irmãos e primos tudo se materializa nas aventuras
do cavaleiro da triste figura que risca a vida entre porcos, donzelas, bandidos e moinhos.

– As passadas militares, solenes, se queixarão das mazelas de São Luís?

Lá vai Joaquim Itapary – o ex-sermonário das formigas e dos peixes...
Ora nomeado seresteiro de incelenças e réquiens:
– ao Rio Pimenta Olho d’Água e Rio Anil.
– às ladeiras lodosas de mijo e cocô
– às praias ferventes de coliformes fecais
– à natureza morta da cidade-porto que o lançou cronista.

– Irá dar a volta ao mundo tal Marco Polo tardio?

Lá vai Joaquim Itapary a passo e canto de siricora...
Com seu olhar sagaz, aquilino, com seu destino de Sísifo
montado no rocim tordilho Mercedes-Benz,
levado de roldão por toda São Luis farejando amores e ódios,
ração para uma crônica de flor e sangue.

– Esse íntimo sorriso é pelo florescer dos descendentes queridos?

Lá vai Joaquim Itapary o cronista felino, sagaz como a suçuarana...
Tento dissuadir o cronista enfezado a trocar o instilado fel das agruras inusitadas
pelo destilado malte produto das highlands escocesas ou pela tiquira de Barreirinha,
por uma cachacinha vinda lá de São Bento ou por um Casillero del Diablo –
todas essas maravilhas inventadas pelo bicho homem que entre rosas e açucenas
nos guardam e nos protegem de todos os males amém.

– Pensará no Muçum regado com pimenta e azeite da querida São Bento?

Lá vai Joaquim Itapary no compasso, com seu andar mocorongo...
Vai tourear a vida como o toureiro toureia o touro na arena de Sevilha,
vai botar cabresto na palavra como a muleta perversa que espicaça o lombo do miúra.
Com pensamentos mais profundos ele pensa consertar o mundo
com ares de salvador da pátria guerreia o vento as ondas as pedras a caatinga,
mas o que deseja mesmo é o porto a rede enseada entre coxas, a restinga...

– Ainda não imagina o Paraíso – mas pensará com saudade do abraço caloroso?

Lá vai Joaquim Itapary, santarrão disfarçado, com passo de calango...
Os joanetes assimétricos, aquela curvatura que leve assoma às costas
não é o peso das asas é também o peso da vida – que não lhe mete medo
mais do que dor de dente, vai o cronista matutando um sermão às saúvas,
pelejando pela remissão irrestrita dos pecados da carne humana,  
na perpétua Ressurreição da alma, na vida eterna, amém.

– Pensará na falta que faz as tapuiranas e o queijo de São Bento?

Lá vai Joaquim Itapary com seu passo de jaboti...
Andar triste, desinfeliz por sua amada São Luís, mas a sua carapaça
é tão mais leve como o algodão-doce, doçura de dar inveja e deixar saudades.
Portanto deste Rio de Janeiro em pleno mês de março e calor de 40 graus,
debaixo de um aguaceiro guaçu, mando um guaçu abraço e ponto final. 
Ciao! Saloca. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

WALT WHITMAN - OH CAPTAIN! MY CAPTAIN!

Walt Whitman (1887) por George Collins Cox 

Tenho lido várias traduções para o brasileiro deste poema de Walt Whitman, escrito em memória de Abraham Lincoln e citado no filme “Sociedade dos Poetas Mortos” de Peter Weir.
Quanto ao título, eco principal do poema, as traduções – inclusive as referências no filme – são literais. Ó Capitão, meu Capitão! – diz o refrão, a princípio em tom exclamativo, mas que aos poucos irá se transformando num lamento.
Entretanto, discordo dessa tradução literal. Aqui no Brasil ao Capitão de um navio, nave ou aeronave – figura principal do poema – dá-se o nome de Comandante, coisa que enriqueceria em muito a tradução.
Apesar do tom eloquente e chamativo que tem “Ó Capitão, meu Capitão!”, entre nós essa expressão remete imediatamente à patente militar – que não seria a intenção do poeta.
Então, Capitão é o militar. Já o Comandante é o líder que arrebata, aquele que dirige, que manda, é o chefe que ordena e governa.  
Aproveitando várias traduções lidas, compus uma versão livre, que vai a seguir, acentuando essa diferença.


OH CAPTAIN! MY CAPTAIN!
BY WALT WHITMAN

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;

                         But O heart! heart! heart!
                            O the bleeding drops of red,
                               Where on the deck my Captain lies,
                                  Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;

                         Here Captain! dear father!
                            This arm beneath your head!
                               It is some dream that on the deck,
                                 You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;

                         Exult O shores, and ring O bells!
                            But I with mournful tread,
                               Walk the deck my Captain lies,
                                  Fallen cold and dead.

Ó COMANDANTE! MEU COMANDANTE!
POR WALT WHITMAN

Ó Comandante! Meu Comandante! A terrível viagem terminou;
Bem dirigida a nave venceu a tormenta, o triunfo ansiado chegou;
O porto está próximo, lá longe ouço os sinos, o povo todo exulta,
Enquanto fixa o olhar confiante na quilha do navio raivoso e audaz;

Mas ó coração! Coração! Coração!
  Ó gotas vermelhas, sangrento horto,
    No convés o meu Comandante jaz,
      Está caído frio e morto.

Ó Comandante! Meu Comandante! Levanta-te e ouve os sinos;
Levanta-te – a bandeira tremula para ti – soam para ti os clarins,
Para ti láureas e buquês com fitas – para ti o povo nas ruas;
Por ti todos celebram, a multidão vibra com os rostos ansiosos;

Aqui Comandante! Querido pai!
  Eis sob a cabeça algum conforto!
    É um pesadelo ver que no convés,
      Tu estás caído frio e morto.

Meu Comandante não responde, seus lábios estão pálidos e hirtos;
Meu pai não sente o meu braço, não tem mais pulso nem alento;
O navio está ancorado a salvo e seguro, o trajeto findo e terminado;
Da tétrica viagem a audaz nave chega com o desígnio alcançado;

Exulta ó cercania, e repiquem ó sinos!
  Mas eu amargurado de passo absorto,
    Vagueio no convés onde meu Comandante
      Repousa caído frio e morto.

Source: Leaves of Grass (David McKay, 1891

Versão livre: Salomão Rovedo