terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008

Waldemar Costa
 
Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008
Editora Solis – 2009
 
Os primeiros dias de janeiro de 2015 me deram a alegria de reencontrar um grande amigo: Waldemar Costa, jornalista, historiador e romancista – que durante décadas fez parte da equipe do Jornal dos Sports (o ‘cor-de-rosa’), de Mário Filho onde, extra-pauta, assinava uma coluna diária de xadrez, sempre carente na imprensa. Editou por anos a Revista Caissa e o semanário Xadrez Expresso. Além disso Waldemar Costa ainda encontra tempo e joga xadrez, participa da Federação, dirige o Departamento de Xadrez do Jacarepaguá Tênis Clube,  e foi co-fundador do Praça Seca Xadrez Clube.    

Waldemar Costa, bairrista por excelência, nasceu em Jacarepaguá e ali vive até hoje, sem perder nenhuma oportunidade de divulgar a história de seu lugar. Sobre o bairro já publicou os livros “O Vale do Marangá” e “Imagens de Jacarepaguá”.

Na sua página na internet, http://www.wsc.jor.br, Waldemar Costa historiou os  “Governantes de Jacarepaguá”, a “Paróquia de N. S. de Loreto”, recuperou as fotos antigas do bairro em “Imagens de Jacarepaguá” e desvendou o  “Significado dos nomes das ruas de Jacarepaguá”. Quer dizer, em http://www.wsc.jor.br  se encontra um verdadeiro manancial de informações sobre o bairro de Jacarepaguá e adjacências, onde Waldemar Costa nasceu, estudou, cresceu e sempre residiu.  

Como romancista Waldemar Costa já publicou “O Estigma da Cruz de Rubis”, “O Paraíso Azul” e “O Ferrador”, romance de época que daria excelente série ou filme ou novela, se os diretores não fossem tão corporativistas e burros, laureando-se mutuamente, sem olhar em volta.  

O xadrez nos uniu em grande amizade e foi visitando a Associação Shalom Aleichem, que realizava o Torneio Aberto da Fexerj 2015, onde o reencontro se deu. Waldemar Costa divulgava ali a 2ª edição do livro “Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008” (Editora Solis 2009), que, por inexplicável que seja, permanecia engavetado  na editora, sem distribuição. Antes que apodrecesse Waldemar Costa resgatou a publicação que está sendo avidamente comprada pelos xadrezistas e se esgotará em pouco tempo. Empresários brasileiros...

Para Waldemar Costa a republicação de “Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008” guarda, no íntimo, outra emoção que não seja o significado do fato em si. É que a 1ª edição do livro (saída em dois pequenos volumes em edição limitada), teve e participação e atuação decisiva de dona Lina de Mello Costa, mãe do autor, que atuou como pesquisadora, na editoração e como revisora. Além disso, dona Lina não hesitava em ‘agredir’ o filho com o indispensável e rigoroso estímulo, instigando-o à persistência num tempo em que não existia internet. Esse trabalho minucioso, de formiga, foi bem descrito pelo Campeão Brasileiro de Xadrez, Hermann Claudius van Riemsdijk, no Prefácio ao volume.  

Por que os livros feitos à moda antiga, isto é, em papel, letras e tinta, são e serão importantes? Porque as informações contidas em “Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008” não se encontra em outra parte, inclusive na internet. Precisava ver como os participantes do torneio se aproximaram do livro de Waldemar Costa, folhearam as páginas, devorando, comiam as informações enciclopédicas e, por fim, não se importando com a idade da pedra do livro de papel, compraram e carregaram como tesouro, preciosidade. Em pouco tempo o estoque acabou e não tinha mais nenhum – Waldemar Costa voltou com a mochila vazia.   

O livro está cheio de informações históricas, ali estão os campeões do passado, é narrada uma pré-história do xadrez aqui no Brasil, que Waldemar Costa situa no século XIX. Tenho cá minhas dúvidas, pois o tabuleiro de xadrez era – junto com o baralho – peça indispensável nos baús, porque serviria para distrair a tripulação do estresse de que era vítima nas caravelas de antanho. É caso para pesquisar...  

Para mim “Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008” trouxe outras emoções. Li nele informações, as imagens, as partidas de xadrez e muitas notícias sobre pessoas amigas com as quais tive o prazer da convivência durante a participação dos torneios. Amigos que não estão mais entre nós, amigos que estão dispersos pelo sopro dos tempos, cada qual levado pelas responsabilidades da vida.  

Entre muitos deles minha lembrança caiu em José Soares Másculo, jovem Campeão Brasileiro Juvenil,  5º lugar invicto no 44º Campeonato Brasileiro de 1978. Além das qualidades enxadrísticas, Másculo também era, apesar de jovem, muito responsável com a ética no esporte. Pelo seu talento, José Soares Másculo teria pela frente não só o título de Grande Mestre, como também o futuro como dirigente, capaz de elevar com responsabilidade o nome do xadrez brasileiro. Abatido por doença grave, José Soares Másculo teve a carreira enxadrística interrompida prematuramente...  

E agora que fiquei chateado, triste com essa lembrança, não conto mais nada. Quem quiser saber mais ou adquirir “Epopeia do Campeonato Brasileiro de Xadrez 1927-2008”, entre em contato com Waldemar Costa e corra porque a edição está acabando.  

Rio de Janeiro, Cachambi, 27 de janeiro de 2015.  

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Gallego José - Miguel Ábalos (especial para Argenpress Cultural)



Caminha lentamente até a praça, buscando o morno sol de um inverno que se faz longo. Conheceu outros invernos muito mais rigorosos, com neve e temperaturas abaixo de zero. Isto não é inverno... um pouco de frio, nada mais. Não será esse mísero inverno que o deixará imobilizado diante de uma estufa elétrica. Estufas bobas, sem ruído, silenciosas; não como aquelas de seu povoado de Galícia, onde se divertia olhando a dança das chamas formando dantescas figuras ao chiar das lenhas.

Arruma a boina azul para que o vento não a leve e apoia firme sua bengala. Ah... a bengala. Quando era jovem e forte como um carvalho, jamais pensou que algum dia iria usar. O trabalho, a luta diária para dar à sua família o melhor, foi gastando seu corpo fornido. Depois, os anos fizeram o resto. Hoje, completamente só, com a carga enorme de incontáveis anos, resta-lhe o morno sol da praça... e suas recordações.

Ajusta melhor o cachecol e acomoda devagar o corpo no banco de pedra. As árvores... As árvores mantêm algumas poucas folhas tristes, que se recusam a cair, aferradas à sua origem, para não ser joguetes ao vento. Acomoda a bengala ao seu caminhar. Nestes últimos anos a mesa do boliche da esquina da praça foi ficando vazia. Os invernos foram devorando lentamente seus companheiros e amigos, com quem as horas passavam alegres e divertidas. Estava o basco Inzúa com suas estórias, Fernández com suas arapucas no baralho, os irmãos Varelas com seus copos de vinho, o baixinho Rodríguez e suas eternas mentiras.

Já não sobra nada para falar e recordar. Ah... recordar. Sempre é lindo recordar. Quem não gosta reconhecer nos olhares a nostalgia de outros céus distantes? Aqueles povoados da Galícia, que foram abandonados, em busca de coisas materiais, que de nada serviram – porque para encontrar a autêntica felicidade tem que olhar para dentro e não navegar mar afora. Hoje tudo passou, já foi.

O cansaço das pernas que se negam a sustentá-lo. Humilhante cansaço, depois de tanta altivez. O cansaço das mãos calejadas por centenas de horas de trabalho. O cansaço dos pés, endurecidos de tanto andar. E o amor-próprio que se rebela ante tanto cansaço. O tempo, a velhice, gallego. Também a velhice, contra a qual no se pode lutar, que põe lágrimas mudas nos olhos, já secas, sem rebeldia.

Mantém presente a mirada materna, a partir do povoado, nublada pela aflição. E o rosto austero do pai, envelhecido, com o qual procurava ocultar a tristeza. As montanhas, os montes, dando-lhe seu adeus eterno. O campanário da igreja, as casinhas baixas, ficando cada vez mais atrás, cada vez mais distantes. Os sapatos úmidos de orvalho na partida silenciosa, quase secreta. Tudo está tão nítido.

É a velhice, gallego. A velhice que traz a nostalgia do abraço de outros braços. A nostalgia que aperta sem deixar-se ver. O tempo tirano, que puxa pelo braço, que chama, reclamando, sussurrante, insistente.

O sol vai marchando para o poente e a praça, só, vai ficando fria. Tem que retornar. Pegar a bengala, arrumar a boina, apertar o cachecol, o cachecol. Como pesam as pernas e o corpo. Como custa mover as mãos adormecidas. Porém, tem que voltar. Enquanto se pode, tem que voltar. Ah... voltar. Retomar o caminho com o passo cansado e voltar amanhã, talvez. Voltar... para quê? Para quê, gallego, para quê?


Trad. Salomão Rovedo

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O Quixote de Avellaneda

Alonso Fernández de Avellaneda
O livro apócrifo de Dom Quixote de La Mancha (1614)
Editora Itatiaia Limitada - Belo Horizonte, 1989

Vale a pena ler esse maravilhoso romance ‘apócrifo’, que descreve com humor e ligeireza a continuação das façanhas de Dom Quixote, até então escamoteadas pelo seu criador Miguel de Cervantes. Essa publicação veio cair sobre a cabeça de Cervantes, como se fosse a estrela anunciadora do nascimento de Cristo. O milagre se deu: nenhuma campanha publicitária serviria tanto aos propósitos de exorcizar o estresse e a depressão que naquele momento abatia Cervantes, deixando-o derrotado para a arte de escrever.

Depois disso Cervantes despertou mais gênio do que nunca, completou o Dom Quixote, sem deixar de se mostrar exímio espadachim – duelou com Avellaneda com honra e glória. Sabiamente, preservou o Dom Quixote ‘apócrifo’ de maior dano (que poderia advir com algum processo) e assim protegeu o seu romance, legando para a posteridade o tríptico literário de maior genialidade erigido até hoje. Hoje o Dom Quixote de Cervantes só deve ser lido tendo de entremeio o livro de Alonso Fernández de Avellaneda.

Isso porque, tecnicamente falando, o Dom Quixote de Alonso Fernández de Avellaneda não deixa a desejar a nenhuma das publicações da época. Quem escreveu, ao contrário do que dizem alguns críticos, conhecia a técnica dos textos produzidos num tempo em que a novela crescia, tornava-se adulta, paria o romance, “gênero literário de natureza narrativa, do grupo ficção, em que se narra um episodio ou incidente da vida, em geral fictício”. (Afrânio Coutinho).

Além das raízes mais antigas (a epopéia e as gestas medievais), o romance moderno firmou-se esteticamente submetendo-se ao poder da novella italiana de Bocaccio, Bandello, Fiorentino e Masuccio, desembocando no romance picaresco (Lazarillo de Tormes, Guzmán de Alfarache, el Bucón, El diablo cojuelo), que definitivamente são as fontes do romance de costumes e de aventura tais como Dom Quixote, de Cervantes, o Gargântua, de Rabelais, Astreé, de Honoré d’Urfé e por aí afora.

Pois o livro apócrifo de Dom Quixote enquadra-se perfeitamente na estética daquela época, fato reconhecido por Miguel de Cervantes, cujas críticas ao volume foram amenas. Na tradução brasileira o crítico Lucílio Mariano Jr. em nota de orelha, observa esse detalhe:

“O livro apócrifo, sem ter a genialidade do modelo, possui inegável valor literário, desde que considerado como uma farsa, uma paródia da história escrita pelo “manco de Lepanto”. Suas situações são sem dúvida hilariantes, além de possuírem como marca registrada o tempero forte de uma linguagem bem mais desabusada, que às vezes atinge níveis rabelaisianos de grotesco e de “grossura”.

Pode-se acrescentar que a “dureza de pedra” à qual Cervantes alude no texto de Avellaneda, deve-se ao fato do mesmo ter sido obrigado a seguir o roteiro previsto no tomo I, o que limita o campo de ação do narrador e dos personagens. Voltando a Lucílio Mariano Jr.:

“Alguém asseverou certa vez que o livro de Avellaneda seria considerado uma verdadeira obra de arte... se nunca tivesse havido o livro de Cervantes. (...) é um livro bem escrito – isto é fora de questão.”

Lucílio Mariano Jr. observa a falta de grandiosidade em Dom Quixote o a ausência de pureza em Sancho Pança, “mas isto é porque Avellaneda (...) preferiu realçar o lado pior de ambos, acentuando a loucura do fidalgo e tornando Sancho um misto de bufão e de glutão”. E para concluir: “Se o dramático saiu perdendo, o cômico pôde ser potencializado, sucedendo-se situações engraçadíssimas, uma após outra”.

Como Cervantes reagiu ao romance? Vejamos como o livro de Avellaneda se encaixou bem no espírito de Cervantes. Logo de cara serviu de provocação e estímulo para que ele mesmo saísse da letargia e partisse para pôr no papel a segunda parte da história, que havia prometido ao encerramento do primeiro romance, “a fim de tirar a náusea causada por outro Dom Quixote, que, com o nome de segunda parte, se disfarçou e correu pelo orbe”.

Cervantes, que andava demasiado inepto, enclausurado nos limites das suas moléstias,  deu graças a Deus ter surgido, assim do nada, um motivo para reviver as aventuras de Dom Quixote, cujas edições se expandiram e replicaram rápido, como fogo na palha, por toda a Ibéria, Portugal, França, Itália e Inglaterra. A continuação do Quixote medrava em sua cabeça como erva no campo.

Não só o Dom Quixote II foi assim induzido ao sucesso. Cervantes não deixou passar em branco a menção às Novelas Exemplares e replicou a lembrança: “Mas, efetivamente, agradeço a este senhor o dizer que as minhas novelas são mais satíricas do que exemplares, porque isto mostra que são boas e não o poderiam ser se não tivessem de tudo”.

Tudo é publicidade... bem sei que são tentações do Demônio, que uma das maiores é meter-se-lhe a um homem na cabeça que pode compor e imprimir um livro com que ganhe tanta fama como dinheiro e tanto dinheiro como fama
Talvez aconteça o mesmo a este historiador, que não se atreva a tornar a soltar a presa do seu engenho em livros que, em sendo maus, são mais duros que pedras.
e pouco me importa que haja ou não haja imprensas no mundo e que se imprimam ou não contra mim mais livros do que letras têm as coplas de Mingo Revulgo.
Não se parecerem com as dele são as razões desta história, que se prossegue com a autoridade com a qual ele começou, e com a cópia de fiéis relatos chegados a sua mão.
mas que se queixe de meu trabalho pelo ganho que lhe tiro de sua segunda parte; pois não poderá, pelo menos, deixar de confessa termos ambos o mesmo fim, qual seja o de desterrar a perniciosa lição dos vãos livros de cavalaria, tão encontradiça em gente rústica e ociosa
Não só tomei por meio entremear a presente comédia com as ingenuidades de Sancho Pança, evitando ofender a quem quer que seja ou fazer ostentação de sinônimos desnecessários, embora pudesse fazer bem o segundo, e mal o primeiro.
Só digo que ninguém deve espantar-se de pertencer a autor diferente esta segunda parte, pois não é novidade pessoas diferentes prosseguirem a mesma história. Quantos não trataram dos amores de Angélica e de seus sucessos? As Arcádias, diversos as descreveram. A Diana não é toda de uma só mão.

Em algo esta segunda parte se diferencia da sua primeira, porquanto tenho humor oposto ao seu, e, em matéria de opiniões quanto às coisas da História – e tão autênticas quanto esta – cada qual pode dar as que melhores lhe parecerem, mormente se para tanto lhe abre campo dilatado a cáfila dos papéis que para compô-la ele leu, e que são tantos como os que deixei de ler.

Não me venha quem quer que seja murmurar que não deveria permitir a impressão de semelhantes livros, pois este não ensina a ser desonesto, ma sim a não ser louco. E permitindo-se tantas Celestinas, que já andam mãe e filha pelas praças, bem s pode permitir pelos campos um Dom Quixote e um Sancho Pança, a quem jamais se conheceu vício; antes mui bons desejos de desagravar órfãs, desfazer tortos, etc.

Com esse prólogo cheio de prevenções contra o que viesse de ataques ao seu atrevimento, Alonso Fernández de Avellaneda inicia o livro, sabendo de antemão que deveria a obra ter a mesma altura do talento e simplicidade de Cervantes. E assim foi. Não é mau o livro, diverte, é fiel, espalha-se derramando as aventuras como se o Quixote tivesse dois pais, iguais em talento.

DUELO IMAGINÁRIO ENTRE DOIS PRÓLOGOS

Avellaneda: – Como é quase comédia a história de Dom Quixote de La Mancha, não pode nem deve sair sem prólogo. Assim, no princípio desta segunda parte de suas façanhas, sai este, menos cacarejado e menos agressor de seus leitores do que aquele que na primeira parte escreveu Miguel de Cervantes Saavedra e mais humilde do que aquele saído em suas novelas, mais satíricas que exemplares, se bem que não pouco engenhosas.

Cervantes: – Valha-me Deus! Com quanta vontade deves estar esperando agora leitor, ilustre ou plebeu, este prólogo, julgando achar nele vinganças, pugnas e vitupérios contra o autor do segundo Dom Quixote; quero dizer, contra aquele que foi gerado em Tordesilhas e nasceu em Tarragona! Pois em verdade te digo que não hei de te dar esse contentamento, pois ainda que os agravos despertam a cólera nos mais humildes peitos, no meu há de ter exceção esta regra. Quererias que eu lhe chamasse asno, atrevido e mentecapto, mas tal coisa não me passa pelo pensamento. Castigue-o seu pecado, engula-o a seu bel prazer e que não lhe provoque engulhos.

Avellaneda: – Não será estranho a ele o tom e as razões desta história, que se continua com a autoridade que ela a começou, com a cópia de fiéis relatos que à sua mão chegaram. E digo mão, pois confessa de si que tem só uma. E falando tanto de todos, vamos dizer dele que, como soldado tão velho em anos quanto moço em brios, tem mais línguas que mãos. Porém é certo se queixar do meu trabalho pelo ganho que dele tiro da sua segunda parte...

Cervantes: – O que não pude deixar de sentir foi que me chamasse de manco e velho, como se estivesse na minha mão retardar o tempo, fazer que parasse para mim ou como se tivesse saído manco de alguma rixa de botequim e não do mais nobre feito que viram os séculos passados, presentes e esperam ver os vindouros. Se as minhas feridas não resplandecem aos olhos de quem as mira, são estimadas, pelo menos, por aqueles que sabem onde se ganharam. Que ao soldado melhor parece morto na batalha do que livre na fuga. E tanto sinto isto que digo que, se agora me propusessem e facilitassem o impossível, antes quisera ter estado naquela peleja prodigiosa, do que curado das minhas feridas sem lá ter ido. As cicatrizes que o soldado ostenta no rosto e no peito são estrelas que guiam os outros ao céu da honra e ao desejar justo louvor.

Avellaneda: – Uma coisa não poderá, pelo menos, deixar de confessar: que temos ambos um fim, que é desterrar a perniciosa lição dos vazios livros de cavalarias, tão comum na gente rústica e caseira. Se bem que nos meios diferenciamos, pois justamente tais livros celebram as nações mais estrangeiras e a nossa deve tanto a eles, por haver entretido, honestíssima e fecundamente tantos anos os teatros da Espanha com estupendas e inumeráveis comédias, com o rigor da arte que pede o mundo, com a segurança e limpeza que de um ministro do Santo Ofício da Inquisição se deve esperar.

Cervantes: – Sendo assim como é não tenho motivo para perseguir nenhum sacerdote que, de mais a mais, seja também familiar do Santo Ofício da Inquisição. E se ele o disse referindo-se a quem parece [Lope de Vega], de todo em todo se enganou, que desse tal adoro eu o engenho, admiro as obras e a ocupação contínua e virtuosa. Mas, efetivamente, agradeço a este senhor dizer que as minhas novelas são mais satíricas do que exemplares, porque isto mostra que são boas e não o poderiam ser se não tivessem de tudo.

Avellaneda: – Não só tomei por meio entremesar a presente comédia com as simplicidades de Sancho Pança, fugindo de ofender alguém e de fazer ostentação de sinônimos inventados, apesar de saber fazer muito bem o segundo e mal o primeiro. Peço que ninguém se espante de ver sair de diferente autor esta segunda parte, pois não é novidade o prosseguir uma história diferentes pessoas. Quantos têm falado dos amores de Angélica e suas aventuras? As Arcádias, diferentes autores têm escrito. A Diana não é toda de uma só mão.

Cervantes: – Sabendo que não se deve acrescentar mais aflições ao aflito e as que este senhor deve ter são enormes sem dúvida, pois não se atreve a aparecer em campo aberto e com céu claro, encobrindo o seu nome e falseando a sua terra como se tivesse feito alguma traição de lesa-majestade. Da minha parte não me tenho por agravado, bem sei que são as tentações do Demônio e uma das maiores é meter na cabeça de alguém que pode compor e imprimir um livro com que ganhe tanta fama como dinheiro e tanto dinheiro como fama. E para confirmação disto quero que com todo o donaire e graça lhe contes este conto: "Havia em Sevilha um doido que deu no mais gracioso disparate e teima que nunca se viu. Fez um canudo de cana pontiagudo e apanhando um cão na rua ou em qualquer outra parte, prendia uma pata com os pés, com a mão levantava a outra e, como podia, lá lhe adaptava o canudo no lugar em que, soprando, o deixava redondo como uma bola. Quando ficava desse jeito dava duas palmadinhas na barriga e soltava dizendo aos circunstantes, que sempre eram muitos: – Pensarão agora vocês que é pouco trabalho inchar assim um cão?" – Pensará agora você que é pouco trabalho fazer um livro?

Avellaneda: – Também Miguel de Cervantes, já tão velho como o castelo de São Cervantes, anda pelos anos tão descontente, que tudo e todos o enfadam. Por isso está tão carente de amigos que, quando quiser adornar seus livros com sonetos campanudos, terá de solicitá-los - como ele mesmo diz - ao Preste João das Índias ou ao Imperador de Trapizonda, porque não encontrará autor, quiçá em toda a Espanha, que não se ofenda de que mencione seu nome. Como permitirão tantos ter os seus versos no princípio dos livros do autor de quem murmura? Rogue a Deus que também o deixe, agora que se recolheu à Igreja e foi consagrado!  Contente-se com a sua Galatea e as comédias em prosa, que apenas isso é a maioria de suas novelas.

Cervantes: – Dizes que ando muito acanhado e que me mantenho demasiadamente dentro dos limites da minha modéstia. Convém advertir que não se escreve com cabelos brancos, mas sim com o entendimento, que costuma aprimorar-se com os anos. Se este conto não se enquadrou, conto outro que também é de orate e de cão: "Havia em Córdoba um doido que tinha por costume carregar na cabeça uma pedra de mármore ou um pedregulho. Ao topar com algum cão descuidado, aproximava-se e deixava cair o peso em cima dele. O cachorro se machucava e ladrando e ganindo corria tanto que não parava nem em três ruas. Acontece que entre os cães atacados um deles era o cão dum chapeleiro, que o estimava muito. O doido atirou a pedra na cabeça do cão que desatou a ganir dolorido, quando o dono viu tudo e tudo sentiu, agarrou na vara de medição, foi ter com o doido e não lhe deixou uma costela inteira. A cada paulada que lhe dava, dizia: – Ah! ladrão! Ah! cachorro! Pois não viste, cruel, que o meu cão era podengo? E repetindo o nome “podengo” muitas vezes, enfim largou o louco, depois de ter deixado seus ossos num feixe só. Se lamentando da sova que levou, o doido sumiu e por mais de mês não saiu à praça. Ao cabo desse tempo voltou com a mesma invenção e com maior carga. Chegava aos cães, olhava fixo para eles por muito tempo e sem querer nem se atrever a descarregar a pedrada, dizia: – Este é podengo! Cautela!" E efetivamente, quantos cães topava, ainda que fossem sadios e fortes, dizia que eram podengos e nunca mais disparou o pedregulho. Talvez aconteça o mesmo a este historiador: que não se atreva a tornar a soltar a presa do seu engenho em livros que, em sendo maus, são mais duros que pedras.

Avellaneda: – Não me canses. São Tomás ensina que a inveja é a tristeza do bem e do progresso alheio, doutrina que tomou de São João Damasceno. A este vício dá por filhos São Gregório na exposição e detração do próximo, gozo dos pesares e pesar das alegrias. E bem se chama este pecado inveja a non videndo, quia invidus non potest videre bona aliorum.  Efeitos todos tão infernais como sua causa, tão contrários aos da caridade cristã, de quem disse São Paulo, charitas patiens est benigna est, non emulatur; non agit perperam, non inflatur, non est ambitiosa, congaudet, veritati. Desculpem os erros das citações da primeira parte, porque o fato dele tê-la escrito entre companheiros de cárcere, não pôde deixar de sair tisnada deles, nem menos queixosa, murmuradora, impaciente e colérica, igual ficam todos os presos.

Cervantes: – Senti também que me chamasse invejoso e me descrevesse como a um ignorante. Qualquer coisa que seja a inveja, verdade, verdade, de duas que há eu só conheço a santa, a nobre e a bem-intencionada. Viva o grande Conde de Lemos, cuja cristandade e liberdade bem conhecida, contra todos os golpes da minha aziaga fortuna, me conserva de pé. E viva para mim também a suma caridade do ilustríssimo [Cardeal-arcebispo] de Toledo. Pouco me importa que haja ou não haja imprensas no mundo, que se imprimam ou não contra mim mais livros do que letras têm as coplas de Mingo Revulgo. Estes dois príncipes, sem que a minha adulação solicite, nem outro gênero de aplauso, só por sua bondade tomaram a seu encargo favorecer-me. E nisso me tenho por mais ditoso e mais rico do que se a fortuna pelos caminhos ordinários me tivesse posto no pináculo.

Avellaneda: – Em algo diferencia esta parte da primeira sua; porque tenho o humor também contrário ao seu. E em matéria de opiniões em coisas de história, tão autêntica como esta, cada qual pode caminhar por onde melhor pareça. Ainda mais dando para ele tão dilatado campo, a cáfila dos papéis são tantas, tanto quanto os que deixei de ler.

Cervantes: – Digo-lhe também que a ameaça que me faz, de que me há de tirar os lucros com seu livro, nada se me dá que, acomodando-me ao entremez famoso de A Perendenga, lhe respondo que viva para mim o vinte e quatro meu senhor e Cristo para todos.

Avellaneda: – Não me murmure nada de que se permitam impressões de semelhantes livros, pois este não ensina a ser desonesto e sim a não ficar louco. E permitindo-se tantas Celestinas, que já andam mãe e filha pelas praças, bem se pode permitir pelos campos um Dom Quixote e um Sancho Pança, dos quais jamais se conheceu algum vício, antes somente muitos desejos de desagravar órfãos e desfazer os tortos da vida.


Cervantes: – A honra pode-a ter o pobre, mas não o vicioso. Pobreza pode enublar a fidalguia, mas não escurecê-la de todo. Mas como a virtude dá alguma luz de si, ainda que seja pelos inconvenientes e vestígios da estreiteza, vem a ser estimada pelos altos e nobres espíritos e, portanto, favorecida. E eu quero dizer mais a ti leitor, senão advertir-te, que esta segunda parte de Dom Quixote que te ofereço é cortada pelo mesmo oficial e no mesmo pano que a primeira e que te dou nela Dom Quixote dilatado e finalmente morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos, pois já bastam os passados e basta também que um homem honrado desse notícia destas discretas loucuras, sem querer de novo entrar com elas. A abundância das coisas, ainda que sejam boas, faz com que se não estimem e a carência, ainda que das más, alguma coisa se estima.