sábado, 15 de agosto de 2015

Literatura de cordel – patrimônio imaterial

Por Sá de João Pessoa

         Finalmente a inclusão da Literatura de Cordel na biblioteca de patrimônios culturais brasileiros toma forma.  Já não era sem tempo, porque desde muito se ouvia o reclamo dos poetas populares na busca de espaço próprio para formalizar a convivência entre os demais bens culturais já reconhecidos. A premência se fazia desde a criação, em 2004, do Departamento do Patrimônio Imaterial, sob a batuta do Iphan e do Centro de Folclore e Cultura Popular.
        
         As raízes desse reconhecimento remontam ao movimento modernista que aflorou nos anos 1920, que deve a Mário de Andrade a iniciativa: ele que intuiu a necessidade de incorporar a cultura popular em meio ao fluxo da agitação que se dava naquele momento. Com intuição visionária Mário de Andrade soube atrair um grupo para embarcar no trem da cultura popular e logo no percurso aderiram ao agito Luis Saia, Oneyda Alvarenga, Câmara Cascudo, entre outros.
        
Além do mais, com o poder de persuasão e sedução que possuía, Mário de Andrade conseguiu tirar o jovem Luís da Câmara Cascudo dos caminhos naturais da literatura, fazendo convergir seu interesse em torno da cultura popular nordestina. Com isso só o país ganhou...

Entre idas e vindas toda essa discussão – como é habitual no Brasil – ficou em banho-maria, vindo ressuscitar em 1988, na bíblica Constituição Cidadã (no dizer de Ulisses Guimarães), que em seu artigo 216 define como patrimônio cultural “os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.

Ainda assim, só alguns anos depois o país veio ratificar a Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2006). Determinar os bens de natureza imaterial, no entanto, se converte em penoso labirinto no qual o interessado em desvendá-lo se emaranha faz muito tempo.  É uma construção tijolo a tijolo, pedra a pedra...

Seguir à risca o texto do artigo 216 é uma aventura à parte, pois lá “os bens de natureza material e imaterial” estão assim fixados: I -  as formas de expressão; II -  os modos de criar, fazer e viver; III -  as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV -  as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V -  os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Como se vê, é difícil achar uma brecha para incluir a Literatura de Cordel, embora se saiba que não há dúvida em considerá-la um patrimônio do nosso povo – como também de muitos povos latino-americanos. É caso a se tratar com a mesma tenacidade com que Mário de Andrade cuidou, com esforço sem esmorecimento, muitas vezes pregação no deserto, como alguns muitos cordelistas vêm fazendo em todos os rincões em que a Literatura de Cordel prospera.

Agora é hora dos moços entrarem em ação. Com o advento da internet o Brasil se coalhou de sites de cordelistas que não só divulgam a própria produção, como reacende a história percorrendo o caminho dos pioneiros, propalam suas raízes, anunciando a boa nova aos quatro cantos.

Os jovens poetas de cordel estão disseminados em todo o país. A fronteira nordestina da Literatura de Cordel se moveu até são Paulo, cidade em que os descendentes de emigrantes daquela região apregoam a poesia popular, espalham as novas publicações, expressam e noticiam os temas mais atuais na rima fácil das sextilhas. São muitas as vozes que proclamam,  propagam, descobrem e desvendam para os calouros os segredos de sua cantoria.

Um novo ciclo começa nos novos autores que agarram com unhas de caranguejo os ares da modernidade que a internet trouxe, criam espaços inéditos para mostrar e publicar todo o conhecimento que adquiriram, tanto em estudo próprio como em reminiscência hereditária, e assim revelam um abundante material, rico e sólido, capaz de enterrar de vez o ciclo de morte e ressurreição que aterroriza a Literatura de Cordel desde sempre.

Porém a batalha só começou. Para culminar com o reconhecimento da Literatura de Cordel como bem imaterial existe uma longa estrada a percorrer. Todo esforço dos cordelistas deve se voltar para esse objetivo, divulgando, acumulando, protegendo e encaminhando para pesq.foclore@iphan.gov.br as informações pessoais, o legado de conhecimento, itens de acervo, elementos comprobatórios e subsídios. Mesmo aqueles detalhes considerados sem importância terão acolhimento, pois têm valimento na instauração do pedido e obtenção do título de Patrimônio Imaterial para a Literatura de Cordel.
        
         No Rio de Janeiro a burocracia está sendo enfrentada com denodo e coragem pela equipe do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular - CNFCP (Setor de Pesquisa) - Rua do Catete, 179 - Rio de Janeiro (RJ) - CEP 22220-000 - Tel.: (21) 3826-4317 e (21) 3826-6930. Liga pra lá e procura a Ana Carolina! Para melhor informação, visite o site: http://www.cnfcp.gov.br

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Valsa pra Joaquim Itapary

São Luís (MA) - Centro histórico
http://www.periodicoseletronicos.ufma.br

Lá vai Joaquim Itapary pela beira da calçada com seu passo de quelônio...
Diz-que vai caminhar, diz-que é bom pra saúde,
mas aquecido sob o sovaco leva o livro das aventuras
do cavaleiro catalão Tirant Le Blanch.
O padre Antônio Vieira viu-se assim destituído
pelo tal Johanot Martorell, pois remexeu a ossada no túmulo.

– Estará ele pensando nos desígnios da humanidade?

Lá vai Joaquim Itapary, o cronista mal amado com seu passo de Juriti...
Diz-que vai por aí levando Antônio Vieira debaixo do braço.
Cada passo que ele dá é uma nota que solfeja e se uma pipira
apurar bem os ouvidos vai logo descobrir que se trata
de uma arte de Bach ou Mendelssohn decantada pelo arco de Pau Brasil
que decola do cello majestoso de Antonio Meneses.

– Rejubila-se pela fumaça branca que elegeu o Papa Francisco?

Lá vai Joaquim Itapary, arqueado mas solene como o Jaburu pantaneiro...
Apertado junto ao peito carrega um livro de crônicas de Lago Burnett.
Entre o nadir e o zênite vagabundeia o pensamento fluido do cronista e vai.
Entre netos avós tios irmãos e primos tudo se materializa nas aventuras
do cavaleiro da triste figura que risca a vida entre porcos, donzelas, bandidos e moinhos.

– As passadas militares, solenes, se queixarão das mazelas de São Luís?

Lá vai Joaquim Itapary – o ex-sermonário das formigas e dos peixes...
Ora nomeado seresteiro de incelenças e réquiens:
– ao Rio Pimenta Olho d’Água e Rio Anil.
– às ladeiras lodosas de mijo e cocô
– às praias ferventes de coliformes fecais
– à natureza morta da cidade-porto que o lançou cronista.

– Irá dar a volta ao mundo tal Marco Polo tardio?

Lá vai Joaquim Itapary a passo e canto de siricora...
Com seu olhar sagaz, aquilino, com seu destino de Sísifo
montado no rocim tordilho Mercedes-Benz,
levado de roldão por toda São Luis farejando amores e ódios,
ração para uma crônica de flor e sangue.

– Esse íntimo sorriso é pelo florescer dos descendentes queridos?

Lá vai Joaquim Itapary o cronista felino, sagaz como a suçuarana...
Tento dissuadir o cronista enfezado a trocar o instilado fel das agruras inusitadas
pelo destilado malte produto das highlands escocesas ou pela tiquira de Barreirinha,
por uma cachacinha vinda lá de São Bento ou por um Casillero del Diablo –
todas essas maravilhas inventadas pelo bicho homem que entre rosas e açucenas
nos guardam e nos protegem de todos os males amém.

– Pensará no Muçum regado com pimenta e azeite da querida São Bento?

Lá vai Joaquim Itapary no compasso, com seu andar mocorongo...
Vai tourear a vida como o toureiro toureia o touro na arena de Sevilha,
vai botar cabresto na palavra como a muleta perversa que espicaça o lombo do miúra.
Com pensamentos mais profundos ele pensa consertar o mundo
com ares de salvador da pátria guerreia o vento as ondas as pedras a caatinga,
mas o que deseja mesmo é o porto a rede enseada entre coxas, a restinga...

– Ainda não imagina o Paraíso – mas pensará com saudade do abraço caloroso?

Lá vai Joaquim Itapary, santarrão disfarçado, com passo de calango...
Os joanetes assimétricos, aquela curvatura que leve assoma às costas
não é o peso das asas é também o peso da vida – que não lhe mete medo
mais do que dor de dente, vai o cronista matutando um sermão às saúvas,
pelejando pela remissão irrestrita dos pecados da carne humana,  
na perpétua Ressurreição da alma, na vida eterna, amém.

– Pensará na falta que faz as tapuiranas e o queijo de São Bento?

Lá vai Joaquim Itapary com seu passo de jaboti...
Andar triste, desinfeliz por sua amada São Luís, mas a sua carapaça
é tão mais leve como o algodão-doce, doçura de dar inveja e deixar saudades.
Portanto deste Rio de Janeiro em pleno mês de março e calor de 40 graus,
debaixo de um aguaceiro guaçu, mando um guaçu abraço e ponto final. 
Ciao! Saloca.