segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Gregor Samsa passou aqui


Certa noite acordei aos gritos escapando de um pesadelo intranquilo que costuma se meter entre os meus sonhos indecentes e me deixar arfando com taquicardia como se tivesse corrido uma maratona inteira me senti como se estivesse metamorfoseado em algum ser sobrenatural. Sentia minhas costas doloridas e duras como couraça, o ventre abaulado em excessiva flatulência, a pele amarronzada dividida em fibras arqueadas como as de um besouro monstruoso. Ao levantar um pouco a cabeça vi no espelho que meu tronco se apartava do pescoço, prestes a deslizar para outro espaço que mal se sustinha. Abaixo de meus olhos minhas pernas tremulavam desamparadas em estado lastimável e mais finas em comparação com o resto do corpo. 

– Que merda aconteceu comigo?

Agora não era mais sonho. Olhei em volta do meu quarto, um autêntico quarto sub-humano: pequeno demais, calmo, de quatro paredes, porta e janela, mobiliário bem conhecido. Roupas penduradas aqui e ali, cheiro de mofo vindo do piso de tacos. Sobre a mesinha se espalhava o mostruário de tecidos de quando eu fui caixeiro viajante e um tabuleiro de xadrez com a partida em meio jogo. O ventilador rodava no teto roncando como um motor de helicóptero.
           
Dava para ver na parede esquerda emoldurada em dourado a irada imagem de Marilyn Monroe deitada sobre um lençol vermelho em posição recostada de joelhos dobrados, pés levemente sujos, erguendo o braço esquerdo que expunha toda a sensualidade da axila depilada, recortada da revista Playboy de janeiro de 1955. Olhando pela a janela vi o tempo turvo de nuvens enfarruscadas, algumas gotas da chuva batendo no vidro da janela me deixaram idiota e melancólico com a boca salivando.

Voltei a vista de novo para a foto de Marilyn, imaginando estar ali ao lado dela esparramado sobre o lençol de cetim vermelho e chupando aquele sovaco meio suado – e comecei a me masturbar. Depois lavei as mãos e consegui me levantar. Fui à cozinha e requentei um copo com o resto do café e leite do dia anterior, fritei o pão quase mofado na margarina, bebi e comi a mistura com um comprimido de cafeína. Estava sozinho e resolvi fazer algo que me tirasse daquela situação incômoda. Ainda era de madrugada e assim como o cérebro embotado pelo álcool, as nuvens chuvosas deixavam o ambiente em idêntico lusco-fusco. 

Acordar assim deixa a pessoa palidamente desbotada. O ser humano precisa ter o sono como se fosse mulher de harém. Quando volto no começo da manhã da padaria muita gente ainda está sentada no sanitário se desfazendo dos resíduos digeridos ontem para encarar o café da manhã. Eu não! Comigo não! Meu nome é Elesbão.

– Que droga! Não consigo fazer isso com o espírito que tenho: voaria no ato para a rua. Aliás, quem sabe não seria muito bom para mim? Se não me contivesse por causa dos preconceitos e convenções teria podido há muito tempo me postar diante da vida e feito o que penso do fundo do coração. Bem, ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar o dinheiro para pagar as dívidas, isso deve demorar ainda de cinco a seis anos, vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura! Por enquanto tenho de me libertar dessa estranha submissão. Mas ainda estava risivelmente morto de ressaca, com uma baita dor de cabeça e ânsia de vômito. Minha gastrite se irritara com a quantidade de burbom que havia ingerido e como vingança ecoava a raiva por toda a parede estomacal.

Afastar o lençol foi muito fácil, precisei apenas inflar um pouco o tórax e ele caiu sozinho no chão depois de um peido. Mas daí em diante as coisas ficaram mais difíceis porque me sentia largo e gordo como um americano comedor de hambúrguer com bacon e bebedor de cerveja de arroz. Outra merda: tenho precisão de braços e mãos para me erguer, ao invés disso só disponho de alguns cambitos desarticulados que fazem os mais díspares e incontroláveis movimentos. Se quisesse dobrar um deles era o primeiro a esticar, se conseguia realizar algo com essa perna as demais se moviam na mais fodida e dolorosa agitação como se estivessem soltas e fossem independentes. É mole?

Sentei-me diante do notebook, entrei no Youtube e pus-me a ouvir La Risurrezione di Cristo, de Lorenzo Perosi, diante da página em branco do Word pronto para escrever a continuação de um conto que espicha e ameaça se transfigurar em novela ou algo parecido e assim dissipar as agruras de tão tortuoso pesadelo. Foi então quando o asqueroso Gregor Samsa se aproveitando do vento forte que sopra antes das tempestades passou voando sobre minha cabeça e pousou o corpo repugnante na cortina. Reparei bem: era o próprio Gregor Samsa jovem atlético de asas viçosas pernas de esportista e anéis ventrais brilhantes. O malacafento era grande e musculoso.

Estivessem aqui todos os moradores da pensão na presença desse nojento e sairiam correndo em busca de socorro, outros se armariam com paus e pedras, chinelos e inseticidas para atacar de morte aquela aberração da natureza. Eu não! Comigo não! Nem interrompi meus escritos nem deixei de ouvir o belíssimo oratório. Dei uma olhada na cortina onde pousara o repelente Gregor Samsa e pelo que vi ele reparou no meu olhar guante e odioso pois o repulsivo fantasma deu outro voo que lançou sombra por debaixo da lâmpada e foi tão rápido que não consegui determinar a rota. Sumiu. O execrando fugiu covardemente à vista das minhas intenções mais cruéis e repelentes. Não voltará é certo! Estarei armado com o Defense System: kill bugs on contact, kill bugs at the source, keep bugs out. Foda-se Gregor Samsa!

E foi o que em absoluto aconteceu. Jamais a criatura voltou a espargir as asas asquerosas sobre minha cabeça nem mais ousou revoar pela sala pousando nas cortinas e paredes. Nunca mais o vi nem mais senti seu odor fedorento recender no ambiente ferindo-me de ácido as narinas. Só algum tempo depois, um mês mais ou menos a faxineira dona Anelise ao varrer o meu cubículo encontrou o cadáver de Gregor Samsa. Primeiro ela tentou acordá-lo brincando com ele e dizendo algumas palavras obscenas. Depois de limpar a gosma branca que sempre ele expelia pelas dobras de gordura cutucou as asas com a ponta do chinelo. Nada. Levantou a saia e mijou sobre o ventre dele – coisa que Gregor Samsa gostava pois ria muito. Nada.   

Ainda hoje não sei por que dona Anelise aceitou vir trabalhar aqui. Ao saber que o horrendo Gregor Samsa sem convite algum tinha se hospedado em meu quarto todas as faxineiras da redondeza se recusaram a cuidar da limpeza da minha adorável morada. Menos dona Anelise. Isso me deixou desconfiado, vocês sabem, as faxineiras tem a má fama das ciganas: são ladras, agourentas, feiticeiras, praticam artes adivinhatórias. Por isso não me furtei a pesquisar logo na internet o significado de Anelise para conhecer melhor com quem estava lidando.

Pedaço aqui, pedaço ali, deu um súmula razoável: seu nome significa “pequena graciosa” ou “pequena cheia de graça”. “Deus dá tudo para essa mulher graciosa” ou “Deus dá dinheiro para essa mulher cheia de graça”. Embora não seja possível comprovar a origem do nome Anelise, é provável que o nome Ana faça parte do seu étimo. (Cortei essa merda e outras de igual valor de tão claro e óbvio). De acordo com estudiosos da onomástica (mais besteiras). Anelise também pode ter vindo do hebraico. Nesse sentido o significado do nome Anelise é “Deus é abundância para essa mulher cheia de graça”. Trata-se de um bonito nome feminino que reflete delicadeza e aproximação com o divino.

Isso foi suficiente para me manter alerta e evitar que Anelise obtenha algum dinheiro que não venha de Deus e sim de meu bolso vazio. Mas tal presunção onomástica não me afeta nem levo a sério ainda que fantástica. Aqui mesmo está a contradição: dona Anelise era toda desfavorável ao que presumia a intenção do nome: era baixinha, gorda, antipática, as bochechas cheias como se escondesse um biscoito furtado de cada lado. Não tinha “graça” nenhuma. Não sei o que Deus daria a ela a não ser a oportunidade de aliviar todos os clientes ricos e pobres de alguns bens. Por isso tenho que tomar cuidados além dos comprimidos para baixar a pressão e diminuir a ansiedade quando ela está aqui.

Esta dona Anelise (que o diabo carregue para bem longe o seu corpo defunto) não servia nem para dar um amasso ou meter as mãos entre as coxas obesas grudadas uma na outra nem para chupar as tetas anormais. Por outro lado acredito que Gregor Samsa não teria se hospedado aqui se dona Anelise estivesse presente naquela noite fatídica. Com a habilidade que ela tem no manejo do objeto de trabalho ela teria aposto violenta traulitada interrompendo o voo elegante abatendo o infeliz de uma porrada só pegando-o em pleno ar.

– Seu Elesbão venha ver: o seu amigo bateu as botas! – gritou ela no jargão comum das faxineiras.

– Como assim – perguntei – quem morreu? Meu inimigo Gregor Samsa, esse monte de bosta fedorenta enfim bateu as botas? Respondi no mesmo jargão. E por via das dúvidas segui para o quarto armado com o poderoso Defense System: kill bugs on contact, kill bugs at the source, keep bugs out. Caso Gregor tenha resistido aplicaria duas baforadas dessa arma química sobre o corpo abominável e pronto o desprezível voaria de vez para os quintos dos infernos!

– É o que estou tentando dizer seu Elesbão, cáspite! – disse Anelise e para comprovar o que descobriu empurrou para o lado o cadáver com a vassoura.

Não sei por quais razões sentimentais ou instintivas ameacei um gesto para deter a vassoura em seu movimento vil. Também por instinto fiz o sinal-da-cruz e a graciosa mulher seguiu meu exemplo. A coitada da Anelise não desviava os olhos religiosos do cadáver como uma freira ao corpo inerte de Cristo.

– Veja só como ele estava magro caramba! Também, fazia tempo que não comia nada sólido, só algumas migalhas e farelo de pão. Ademais, assim como entrava tão rápido a comida saía de novo líquida, branca, gosmenta...

De fato o corpo de Gregor estava reduzido às proporções naturais de sua espécie: plano e seco, as perninhas dobradas, as antenas diminutas encolhidas – nada mais tinha para se olhar e ainda assim exalava um fedor nojento.

– Entre um instantinho – disse a senhora com o sorriso mais melancólico que pôde arranjar, não sem olhar para trás na direção do cadáver. Antes ela fechou a porta e abriu completamente a janela. Embora fosse manhã cedo já se anunciava o calorão natural do fim de março.

– Qualé? – perguntei.
           
Dona Anelise estava junto à porta sorridente como fosse anunciar a grande boa notícia, mas fazia cu doce. Ela balançava a vassoura num vai e vem durante a execução do serviço, sacudia o rabo em todas as direções como uma dança, gesto que me irritava, como ela bem sabia.

– O que é que a senhora está querendo afinal? – insisti.

– Ah, sim – respondeu Anelise empunhando a vassoura como se fosse um fuzil AK 47. – O senhor não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora essa coisa aí. E com trejeito mímico apontou o polegar para os restos do lastimável e querido Gregor. – Deixa comigo e ficará tudo em ordem. – Com um gesto rápido e profissional passou a vassoura, recolheu o corpo inerte na pá e sem delongas atirou o pobre Gregor Samsa na lixeira.  


Rio de Janeiro, Cachambi, 4/5 de dezembro de 2016. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um dia direi que te amo


Rumo às praias. Dia ensolarado e quente que prometia se estender pelo feriado que colou ao fim de semana. Seriam quatro dias de lazer. Mário dirigia em baixa velocidade pela estrada velha, mesmo porque o trânsito era intenso no sentido dos balneários. Marília cochilava ao lado. Na pista oposta não: os poucos carros passavam velozmente, os motoristas dos ônibus, caminhões e carretas estavam ansiosos por terminar o serviço e também aproveitar as poucas horas de folga com a família e amigos. Mário aproveitou o espaço que se abriu à sua frente e acelerou mais rápido. Ficou de olho numa carreta que se aproximava veloz e tirou o pé do acelerador. A carreta ainda distante freou forte e a fumaça azulada subiu dos pneus que derrapavam no asfalto quente.

Carretas na estrada! Mário sabia: são veículos loucos e assassinos que precisam de mais de cem metros para iniciar a obedecer a qualquer comando do motorista, por isso puxou a direção um pouco mais para a direita invadindo o acostamento. Foi o suficiente para poder se defender do container que a carreta trazia e que com a freada súbita se deslocou para o lado dos carros que iam em direção às praias. Marília acordou sem entender o que ocorria. O violento giro do reboque atingiu dois carros à frente antes de Mário ver a quina de aço se aproximar. Não tinha mais pista, não tinha mais acostamento. Marília se segurava ao porta-luvas com os dois braços de olhos arregalados. Sem poder evitar o choque o único jeito que Mário encontrou foi girar mais à direita e atirar o pequeno carro no rumo do barranco cheio de pedras, mato e arbustos.

Agora estavam num quarto de hospital. Mário cochilava dopado por conta da medicação. Além de estar com o braço esquerdo imobilizado, ele sofreu várias escoriações que se espalhavam por todo o corpo. A perna esquerda doía demasiado, mas não o impedia de andar. Marília sofreu muito mais com os choques no barranco e nas árvores. Ela dormia inconsciente naquele estado que os médicos chamam coma induzido, para que o organismo como um todo, concentre seus esforços na recuperação. Além do oxigênio tinha uma agulha enfiada no braço direito, por onde recebia o soro que a alimentava. Alguns aparelhos mediam a pressão sanguínea e cardíaca, que era anunciada por um monitor que emitia um bip-bip regular e constante. Segundo todas as avaliações, dentro de dois ou três dias ela estaria recuperada e todo aquele aparato seria desmobilizado.

Quando Marília despertou no tempo aprazado se alegrou ao ver a mesinha cheia de buquês de flores. O quarto estava vazio, a cortina flutuava sob a leve brisa, Mário ainda com as escoriações enfaixadas com curativos dormitava numa cadeira bem próxima ao leito com um livro semiaberto nas mãos. Ela pegou o livro com todo cuidado para não despertá-lo, tentou ler algumas páginas, mas em pouco tempo seus olhos se fecharam de novo vencidos pela fadiga. Pouco tempo depois foi a vez de Mário acordar e vendo o livro com Marília tratou de chamar o médico.

Depois de vários testes o médico examinou o fundo dos olhos de Marília enquanto a enfermeira media a pressão. Não se verificando nenhuma anormalidade ele retirou o tubo plástico infiltrado na boca e garganta:

– Bom, parece que está tudo bem. Tente mover as pernas.

Marília acedeu à ordem e conseguiu dobrar ambas as pernas levantando-as até o joelho. Depois de ver o olhar aliviado tanto do doutor quanto de Mário ela começou a rir sem parar. Mario se aproximou dando beijos, acariciando os cabelos acalmando assim o nervosismo disparado pelo exame. O principal temor de todos era que Marília perdesse o movimento das pernas.

– Com mais alguns exames e poucos dias de repouso para completar a recuperação terei que devolvê-la para casa, disse o médico sorrindo. Sua garganta ainda irá doer por uns dias, mas isso é bobagem. Beba água gelada.

A alegria pelas boas notícias refletia nos olhares. Mario não tinha vontade de responder ao semblante preocupado de Marília. – O que aconteceu? – era a pergunta que soava na cabeça Del. Em vez disso Mario procurou outro assunto.

– Então andou lendo o meu livro.

– É verdade. Você estava cochilando. Peguei o livro sem te acordar e comecei a ler algumas páginas. Aí foi a minha vez de cair no sono de novo...

– Você está cansada, eu estou cansado. O melhor lugar para nós dois é a casa. Tomara que amanhã já estejamos liberados. Ah, sua mãe esteve aqui com Irene. Depois veio seu pai. Dona Nely trouxe sanduíche de queijo e maçãs. Imagine! Claro que roubei de você e comi tudo.

Marília riu e tentou falar alguma coisa, mas levou a mão à garganta que ardia e doía como se estivesse sendo arranhada.

– Não diga nada. Depois teremos todo tempo do mundo para conversar.

– Mas acho que já li esse livro, ela disse com algum esforço, a voz rouca.

Mario não esticou a conversa. Fazia sinal de silêncio com o dedo indicador nos lábios quando entraram dona Nely e Irene. Ele se levantou, abraçou e beijou a sogra e a cunhada.

– Que bom que vocês vieram! Assim terei tempo de sair e cuidar de algumas coisas. Olhando para Marília: – Vou antecipar minhas férias e arranjar uma secretária para nos ajudar em casa.

Dona Nely logo protestou a essa última observação: – Nada disso, eu cuido da minha filha! – dando muita ênfase ao EU. Mário riu e aproveitou para se despedir. Saiu com o pensamento ligado na frase de Marília sobre já ter lido o livro. Como poderia ter lido se ele havia comprado na banca de lançamentos da livraria?

Quando viu Mario lendo no quarto silencioso, o médico deu a recomendação padrão:

– Já que está lendo, leia em voz alta. Ajuda e acelera em muito a recuperação. Quando puder, converse sobre coisas comuns.

Mas isso de ler a viva voz e falar sozinho é coisa a que ele não estava habituado, por isso continuava a ler em silêncio até que se lembrava da recomendação e passava a murmurar o que estava lendo. Nas horas sem leitura Mario se aproximava bem perto do ouvido dela e conversava. O que dizia acabava sendo qualquer frase sem nexo, que vinha à cabeça leviana e saudosa dita na esperança de vê-la boa e saudável – e isso o deixava desnorteado.

Agora em casa ele esperava a hora certa para esclarecer aquela história do livro. Certa vez, para detonar o assunto, pegou o livro que já havia terminado de ler e fingiu reler as últimas páginas.

– Eu só não entendo porque você escolheu um assunto assim, uma mulher em estado terminal, lutando contra um mal incurável. Será porque eu estava no hospital?

– Na verdade eu nem li a sinopse, nem a orelha. Comprei apenas pelo título. Achei bonito, romântico, não sei mesmo. Foi impulso. Mas a personagem não está em hospital. Nem luta pela vida, como seria de pensar. Foi levada para casa e a luta se voltou para seguir o fio da vida ou da doença seguindo critério pessoal: ela se recusou a tomar qualquer medicação. 

– Hum. Entendi. Isso é heroísmo puro. Aqui não tem isso: o hospital é quem manda no destino do paciente. 

Emile ganhou a batalha e foi levada para casa. Lá chegando encontrou um ramo de flores do campo e um poema:

Cem vezes direi que te amo, se com isso conseguir fazer com que tua face de novo resplandeça em luz, e que teus olhos assim iluminados tornem a celebrar nossas vidas.
Mil vezes direi que te amo, sim, cortando o silêncio com que a rudeza e o trabalho taparam minha boca e secaram minha voz.
Cem mil vezes direi que te amo, para rever a cor de pétalas rosadas que surgem em teu rosto incendiado quando terminávamos de fazer amor.
Direi que te amo, droga, porque desconhecia quão preciosa é essa palavra que impulsiona a vida e faz com que os pulmões se encham de ar quando se precisa de força e coragem. 
Mil dias direi que te amo como o disse em oração quando me despedia nas manhãs frias indo para o trabalho e à noite ao voltar a casa fatigado...

– Isso me traz a lembrança de determinado cara...

Marília usou todo o talento para dar ênfase ao sarcasmo que acompanhou a observação. Mario murchou de repente pego em flagrante delito. Só que ela não sabia que muitas vezes quando acordava à noite ele ficava espiando aquela mulher que dormia a seu lado e se imaginava na manhã seguinte dizendo eu te amo. Mas as tarefas se antecipavam, os afazeres tomavam contas das manhãs e as palavras não saíam. Afinal, dizia para si mesmo tentando se redimir, eu te amo é uma frase que circula tão farta e falsamente nas redes sociais que se tornou vulgar usá-la.

Emile e Marília quebraram suas vidas como uma estrada em forquilha. Cada qual foi para um lado. Emile lutou para ter o direito de sair do hospital no qual fizera um tratamento quimioterápico cruel e voltar para casa. Lutou para ter de volta a sua varanda, os passarinhos que saltitavam na janela beliscando alpiste, semente de girassol, maçãs e outras frutas deixadas ali. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Da inutilidade de rabiscar livros


Você não pode escrever nada sobre si mesmo que seja mais verdadeiro do que você mesmo é. Esta é a diferença entre escrever sobre si mesmo e escrever sobre objetos externos. Você escreve sobre si a partir da sua própria altura. Não sobe em pernas de pau ou numa escada, mas está sobre seus próprios pés.
(Ludwig Wittgenstein)

O escritor maranhense Joaquim Itapary tem uma biblioteca de dar inveja. Somos primos e toda vez que tenho oportunidade dou jeito de fuçar seus livros para breve leitura. Estávamos juntos no Rio de Janeiro quando ele comprou Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell. Não poder eu também ter em mãos um exemplar desse livro de cavalaria que conheci através do Dom Quixote me trouxe pesadelos. Cobrei dele a promessa (não cumprida) que depois me emprestaria. Numa cena curiosa do romance de Cervantes, os amigos de Dom Quixote queimam sua biblioteca por conta de achar que os livros de cavalaria eram os responsáveis pela loucura aventurosa que quase lhe custou a vida.

E sem querer mais ler livros de cavalarias, mandou a ama pegar todos e atirá-los ao pátio. Isso não foi dito à tonta nem à surda, mas a quem tinha mais vontade de queimá-los do que deles tirar teias, grandes ou delgadas que fossem. Ela pegando oito de cada vez atirou pela janela. Jogando assim muitos, um caiu aos pés do barbeiro, que teve curiosidade de saber o que era e viu que se chamava História do Famoso Cavaleiro Tirant lo Blanc.

– Valha-me Deus! – disse o padre soltando um grito. – Temos aqui o Tirant lo Blanc? Me dê ele aqui compadre, faço conta de ter achado nele um tesouro de contentamento e mina de passatempos. Aqui está Dom Kiriéleison de Montalbán, valoroso cavaleiro e seu irmão Tomás Montalbán e o cavaleiro Fonseca, e a batalha que o valente Tirante fez com o alão; as agudezas da donzela Prazer-da-minha-vida, com os amores e trapaças da viúva Descansada; a senhora Imperatriz, namorada de Hipólito, seu escudeiro.

Resultou que daquela inaudita cremação o padre só deixou salvar quatro obras. Uma delas foi a edição espanhola de Tirant lo Blanc (1511), de Joanot Martorell. As demais eram: Diana (1558) de Jorge de Montemor; o Palmeirim de Inglaterra (1547), de Francisco de Morais; as publicações avulsas das Églogas del excelentísimo Camões. Publicado em 1490, Tirant lo Blanc reúne todas as aventuras da tradição cavaleiresca, sem descuidar da condição humana dos personagens, pois os cavaleiros comem, e dormem, e morrem em suas camas, segundo está no Dom Quixote:

– Deveras vos digo compadre, que por seu estilo é este o melhor livro do mundo: aqui comem os cavaleiros e dormem e morrem em suas camas e fazem testamento antes de sua morte, juntamente com todas essas coisas de que todos os demais livros deste gênero carecem. Posto isto, digo-vos que merecia o que o compôs, pois não fez tantas asneiras que o pusessem na prisão por todos os dias da sua vida. Levai para casa e leia verá que é verdade tudo quanto dele vos disse.

Pois foi esse Tirant lo Blanc de Joanot Martorell, um livrão de 850 páginas traduzido direto do catalão por Cláudio Giordano (Ateliê Editorial 2004) que meu primo teve a petulância de comprar e na minha frente enfiar debaixo do sovaco pra nunca mais me mostrar, apesar das lamentações e meu implorar de joelhos.

Certo dia em que visitava o homiziado em São Luís eis que vejo na mesinha de centro da sala um livro. Era o próprio! Estava ali à minha frente o Tirant lo Blanc que eu tanto ambicionei ter nas mãos. Mal abro, emocionado, o volume o que vejo? Centenas de frases marcadas em amarelo, marcadas em rosa, sublinhadas. Folheio as mais de 600 páginas – vejo que tá tudo igual: rabiscos, notas à margem, acima, comentários a textos, números de referência.

Horrorizado abandonei o belo volume ali e nunca mais sonhar ler. Não aquele exemplar. Ler um livro desse jeito rabiscado e marcado é como comprar uma revista de palavras cruzadas com todos os problemas resolvidos. Como cada leitor é um novo leitor, o livro rabiscado só serve a quem rabiscou.

Feito esse preâmbulo, de cuja memória ainda me traz pavor, é hora de perguntar: – A que serve? Comecei a ler e escrever ainda adolescente, portanto naquela atitude natural não havia um por quê nem para quê. Não fazia sentido, nada foi planejado, ler era puro instinto, um tipo de psicografia adquirida que Freud não explica. A leitura que eu fazia era cumulativa e quantitativa na confiança que o cérebro bem alimentado terá condições de regurgitar o que apreendeu como nova obra, adaptada ao seu tempo.

Por isso é que a literatura se gera através da reescrita, releitura de variações sobre os mesmos temas, em novas épocas. Toda arte carece de uma arte anterior. Essa lembrança caótica veio trazida pela leitura do artigo Da utilidade de rabiscar livros, de Barbara Maidel e está em: barbaramaidel.blogspot.com.br, texto que me deixou de certo modo enfarruscado. Então esta a minha reação, na qual uso muitas vezes palavras da própria autora.

A primeira dúvida que o texto me trouxe é: terei sido um leitor ou um não-leitor? Muitas pessoas viram em minha sala estantes abarrotadas de livros e também perguntavam se eu já tinha lido todos. Claro que não, explicava, tem muitos livros que são apenas para consulta, como os quase cem dicionários, enciclopédias, etc. Mas ao contrário de Joaquim Itapary e Barbara Maidel, sou um bibliófilo (vá lá) relapso. Me desfiz de todos os livros que acumulei... Para depois recomprá-los.

Como me senti humilhado ao ser pego no segundo método de identificar o não-leitor, segundo Barbara Maidel: a exaltada repulsa a livros riscados. Odeio livros riscados como odeio revistas de palavras cruzadas já preenchidas. Odeio ver alguém apertar o bumbunzinho da lapiseira na mínima presença de um livro aberto. Fico horrorizado ao ver parágrafos sublinhados, acho feio, um desperdício. Como outra pessoa irá ler o livro desse jeito?

Entendo como puro egoísmo o leitor jamais passar um livro adiante só porque já foi lido. Um livro delirante terminado de ler é mais uma razão para ser difundido a outras pessoas para que possam também se maravilhar.

Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler esse livro arrebatador e [não] sentir necessidade de marcar nada, assumir que o livro é excelente e não doá-lo para alguém ou alguma entidade? Obsessivo-compulsivo, eis aí uma boa definição para quem acha que rabiscar um bom livro é quase um dever. Ter a humildade de reconhecer o fiasco desse ato, é apenas um lenitivo: Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas: tal livro, inutilizei-o com sublinhados; aquele outro, errei ao maculá-lo – diz Barbara.

A confissão soa como mea culpa, mas pode ser um erro de perspectiva. Serve ao caso o que disse Ludwig Wittgenstein: Estipulamos regras, uma técnica para um jogo e depois ao seguirmos as regras as coisas não se passam como tínhamos suposto. Estamos como que presos em nossas próprias regras. Neste caso Joaquim Itapary e Barbara Maidel estipularam regras das quais não podem se libertar, mas que em algum momento se mostraram inúteis, fracassaram.

Senão vejamos o que Barbara Maidel escreveu: O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem. 

Falemos agora entre leitores habituais. Todas as justificativas que Barbara Maidel dá para inutilizar os livros que lê caem por simples aritmética. Ela diz que lê em média três livros por mês. São 72 livros em dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram eternos. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos.

Aritmética pura: serão 400 livros em dez anos (o dobro em vinte anos) – e cada releitura que ela faz conta como outra leitura! Por mais que sejamos superdotados não teremos condições de localizar o que foi rabiscado. Ademais, do jeito que o tempo avança célere, em dez anos muito do que foi escrito e riscado estará obsoleto.

Uso suas próprias palavras: As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. (...) Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Outras justificativas para ela mesma:

* Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 
* Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção.
* Rabiscar livros é para quem tem o hábito de ler deitada e vai para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira para ir marcando e rabiscando.
* Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem.
* Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico. Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Ou será preguiça, comodismo? Que tal pegar um caderno ou fichas para fazer as notas? Ou mesmo no tablet? Comece com os dados: autor, título, ano, editora, assunto. Aí é só fazer as anotações e as páginas respectivas. O texto é longo? Anote as primeiras e últimas palavras. Seja como for tem mil métodos de fazer a mesma coisa sem destruir o livro.

Creio que Barbara Maidel e Joaquim Itapary – dos quais sou leitor incondicional – estão prestes a se perder no labirinto que inventaram para si mesmos, ao seu gosto de ordem. Repito: rabiscar livros é puro egoísmo! Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e não o passe adiante – ou não o guarde – tão imaculado como adquiriu.

Realces, rabiscos, sublinhas, parecem me indicar o quê devo ler, o quê devo entender, tira de mim a liberdade de interpretar, de arrevesar o entendimento do que leio, de sonhar meu próprio sonho ou pesadelo. Sei que esta lamentação em defesa do livro limpo não surtirá efeito. Sei que muitos livros Brasil afora estão assim desfigurados, estuprados, sem salvação. Ainda uma vez me valho da palavra inspirada de Ludwig Wittgenstein:

Do fato de que a mim ou a todo mundo pareça ser assim, não decorre que seja assim. Mas o que podemos nos perguntar perfeitamente é se há algum sentido em duvidar disso.

Rio de Janeiro, Cachambi, 20/09/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Arte de criar periquitos

Foto Coave.org

A Paz reina na terra...

Ao entrar na loja de artigos para aves descobri a paixão de Pereirinha por periquitos. Na calçada diante da porta principal, chama a atenção a enorme gaiola cheia de periquitos, os mais variados possíveis, deixando empolgado quem vê. Elogiei a beleza das cores, o talho mavioso das estrias, o desenho das penas artisticamente traçado, a leveza da composição formada, as formas artísticas e a beleza do conjunto.

– Olha quanto passarinho bonito, disse.

– Passarinho não, Aníbal, periquitos, periquitos australianos. Os mais bonitos e inteligentes do mundo. Campeões de todas as raças, em todas as competições!

Ao denunciar minha santa ignorância a respeito de pássaros em geral e dos periquitos em particular, ganhei a primeira bronca de Pereirinha. E ficou claro que a razão do sem razão a outra razão enfraquece, pois enfim, sobre periquitos eu sabia que não sabia nada.

– E não estão nada bonitos – Pereirinha tinha o fito de me abater no ar, em pleno vôo – muito pelo contrário, as lojas costumam tratar mal os periquitos. É uma ave especial, igual gente, melhor, é gente mesmo, beleza inata, expressão divina de Deus. Aníbal, você precisa ir ver os que eu tenho lá em casa. Que boniteza, sim senhor!

Foi assim que tomei conhecimento da fama de criador de periquitos que Pereirinha tinha granjeado. Fomos comprar ração (Alimento, Vitamina, Comida, diz Pereirinha), coisa muito fina, escolhida meticulosamente. Composição, componentes, prazo de validade, tudo examinado, principalmente se era produto transgênico, definitivamente proibido.

– Tem de ser alimentação muito boa, saudável, específica. Estou levando alpiste, xerém de milho branco, aveia, combinados no ponto certo, alguns são importados. Brasileiro, como sempre, só faz porcaria. Se alimentar meus periquitos com qualquer coisa fabricada em fundo de quintal, sem controle de qualidade, mato o coitadinho na hora.

Ao passar pelo verdureiro, Pereirinha seleciona molhos de chicória e espinafre, verdinhos, úmidos, frescos, algumas espigas de milho verde, com os grãos macios ainda em crescimento. Pelo capricho pensa-se numa boa salada, mas são itens da dieta dos periquitos.

– Você precisa ver a farra que eles fazem com a chicória, o milho, o espinafre. Ao contrário do que dizem, não é bom pra o periquito comer alface, pois dá diarreia, maltrata o bichinho. Dá-se acelga, chicória, espinafre, que é amargoso e picante, com ferro, vitamina C, só faz bem. Alimento muito especial, iguaria igual à feita pra gente. Quando estão na cria o cardápio é reforçado com cálcio, pros filhotes crescerem fortes.

Pereirinha começou a lengalenga interminável. É um vasto conhecimento sobre periquitos. Por fim me arrastou pelo cotovelo pra ver a criação dele. Lá fui. Chegando a casa, Pereirinha me empurra direto pra cozinha, dali pra área nos fundos. Ele é aposentado e mora só. Não tendo o que fazer, dizem, Pereirinha se casou com periquitos.

De passagem vejo a pia cheia de panelas, copos e pratos por lavar. Recende o cheiro de cigarro e gordura queimada. Pereirinha escolhe a panela limpa, põe um bocado de água filtrada, salpica pitadas de bicarbonato de sódio. O cenho se franze, Pereirinha rosna: Faço isso pra tirar o veneno que esses agricultores de merda botam na verdura. Deixa a chicória e o espinafre de molho e vamos em frente.

– Vem ver minha família, diz orgulhoso. Muita gente cria periquitos em casa, mas os meus são sem igual. Se você tivesse máquina de fotografar, aposto que ia tirar uns retratos. Ninguém resiste ao colorido, à beleza das penas, ao arco-íris de algodão, à plumagem celestial. Veria como eles, ao se verem fotografados, fazem pose que nem gente.

Atravessamos a sala desviando de jornais velhos, sapatos, meias, cinzeiros, tralha de casa de solteiro. Pereirinha vai ajuntando o que pode aos montes sobre o sofá velho, nos móveis. Fica satisfeito com a arrumação. Ao lado tem uma varanda coberta, cheia de vasos de plantas que cresceram sozinhas, com pouco trato. No outro extremo a gaiola enorme se destaca no ambiente. 

– Aqui moram meus entes queridos, casa de gente limpa, asseada que nem a nossa.

– Que gaiola bonita! Vou de novo pelo caminho errado. O viveiro (fui prontamente corrigido), exceto a sujeira natural dos pássaros, é uma beleza. O alumínio polido brilha. Pra aprender a lição o ouço repetir mil vezes viveiro, viveiro, viveiro, tratando a gaiola como algo organizado nos moldes humanos.

– Pode elogiar, não é um lindo viveiro? Verdadeiro palácio. Aqui é a sala, ali são os quartos, suíte com sanitário, nos fundos o ninho. Nota que não se vê sujeira deste lado? É a piscina pro banho diário, os periquitos são mais asseados que muitos de nós.

O viveiro cintila de limpeza. Ao nos aproximarmos quatro ou cinco casais de periquitos fazem algazarra, pipilam sem juízo algum, trino coletivo, arruaceiro, com o poder da sirene de carro de bombeiro, ambulância, capaz de arrepiar qualquer tímpano. Fico admirado com a variedade de cores. Eles são amarelos, azuis, verdes, cinza-prata ou a combinação dessas cores. Estão sempre aos pares. Faço o elogio da beleza, Pereirinha reage feliz.

– Sabia que você ia gostar. Mas acredita que os periquitos tinham uma só cor? Eram todos verdes, tantos os australianos quanto os brasileiros. Mas a criação científica, alimentação apurada e rica, o cruzamento contínuo, resultaram matizes diferentes, de grande variedade. Hoje as feiras, exposições e campeonatos, distribuem prêmios para os mais bonitos e bem sucedidos cruzamentos. O ineditismo é ponto relevante, a cada ano surge novo matiz, a seleção se torna mais rigorosa, tudo é registrado, as associações têm um banco de dados mundial.

Rendo homenagem emocionada ouvir Pereirinha conversar com os bichinhos, chamar um a um pelo nome, com intimidade, ver como ele se transforma em criança. Acreditem, eles dialogam e respondem, beliscam os lábios de Pereirinha como se beijassem, aproximam-se arriando o cocuruto pra ser acarinhado, saltitam pra lá, pra cá. Uma festa!

– Pega ali a tesoura, por favor, Aníbal. A criação pra ser perfeita tem de ser aos casais. Sempre. Porque o periquito é que nem gente. Se deixar o macho solteiro ele vai dar em cima da parceira do outro. E como nós eles são ciumentos, briguentos, agressivos, alguns lutam até a morte. 

Vou lá dentro buscar a tesoura, varro o ambiente, os cantos, não acho. Olho a sala toda, os móveis, debaixo dos livros esparramados, garrafas de cachaça, o bar empoeirado. Nada. Essa tesoura deve estar numa pirâmide do Egito, aqui é que não encontro. Pereirinha me ouve e responde: Vê se não está na gaveta, aí, na de cima. A gaveta tem de tudo, botão, fita cassete, maço de cigarros vazio, rolha de cortiça, resultado de jogo de bicho, caixa de fósforos e, heureca, uma tesoura.

– Achei! Achei! Gritei como se tivesse alcançado o topo do Monte Everest.

Pereirinha pega a folha de papel pardo, mais outra, apara as pontas na medida do viveiro. Os periquitos sabem da limpeza, se alojam educadamente na parte superior da gaiola. Ficam observando, os olhinhos espertos, enquanto ele faz a troca, tira a folha que está molhada, suja de cocô, resto de comida, penas. Enquanto trabalha Pereirinha conversa ora comigo, ora com os periquitos.

– Já ouviu falar em ovo atravessado? É ver uma periquita de cabeça arriada, triste, jururu, está de ovo arriado, atravessado. Pra bichinha não sofrer tanto, o jeito é dar um pouco de óleo vegetal, mamona, soja, óleo de oliva é melhor, botam umas gotinhas no bico, outras no cu, pra azeitar. Fica boazinha, pode crer, periquito é quem nem gente.

Chega a vez dos alimentos. Os recipientes são retirados, lavados, secos e postos de novo nos lugares. A água dos bebedouros é trocada. Use sempre água filtrada. Sou convidado a colocar no viveiro o espinafre, a chicória, que estavam de molho, o milho verde. Bote em locais opostos, pra não haver disputa. Lembro que são como gente: se a fome ataca é que vira bicho, dá briga, até morte.

– A periquita sofre igual à mulher. Tem problema de o feto vir atravessado, com os pés pra baixo. Mas tem médico que sabe tratar. Às vezes o criador tem de ser o médico da periquita. Na minha criação só aconteceu com uma fêmea que perdi. Tive de arranjar namorada nova pra o viúvo. Deu dó...

Como Pereirinha havia antecipado, a festa dos periquitos é total. Primeiro se enroscam entre as folhas de chicória e espinafre, depois começam a bicá-las com prazer, pulam de um lado a outro, os casais trocam de lugar, uma ou outra vez algum expulsa o invasor que provocou o desequilíbrio na divisão da comida. No demais, tudo transcorre em ordem. Como gente.

– Agora bem que merecemos um cafezinho. Ou uma cachacinha ou os dois. Daqui a pouco estarão se banhando na piscina. É aquele reservatório maior. Respinga água pra todo lado. Chega mais. Vamos lá pra dentro. Você lê o jornal enquanto esquento o café, preparo tira-gosto pra a cachacinha. Esta é do interior, coisa de primeira. Vamos deixar a meninada se divertindo como gente.

Enquanto Pereirinha cavouca os trambolhos em busca da cafeteira, sento no sofá entre pilhas de coisas, papéis, objetos indefinidos. O jornal é velho, não leio. Espio o quarto de dormir pelo desvão da porta, na penumbra, a cama desarrumada, travesseiros amassados, lençol jogado pro lado, guarda-roupa com as portas abertas, camisas, cuecas, calças largadas a esmo, a TV em cores com antena de chifre, rádio e toca-discos.

– Então, que achou dos meus pupilos? São lindos não são? Gosto tanto deste plantel que vou inscrevê-lo no próximo concurso internacional. A medalha está garantida. No mínimo menção honrosa com medalha e diploma. Periquiteiros de todo o mundo vão se babar, porque o meu elenco tem os melhores conceitos: excelentes dedos e unhas, plumagem exótica, multicor, formação e linhagem nobre. Qualidade de cabeça, balanceamento, máscara, tudo beirando a perfeição.

Fica discorrendo um bocado sobre a arte de criar periquitos. Aceito o cafezinho, recuso a cachaça, mordo uma castanha de caju, depois é hora de ir. Pereirinha me acompanha até a porta, sinto o braço amigo sobre meus ombros, o tema da despedida é o mesmo: periquitos.

– Seria ótimo você montar um viveiro em casa. Vai se sentir bem e terá sempre companhia de alguém pra conversar. Ao despertar a periquitada deixa a gente alegre, disposta, pronta pra enfrentar as chatices do dia. Verdadeira terapia pode crer!

Não demonstrei a receptividade e empolgação que Pereirinha esperava. Atravessamos o pequeno jardim tratado com o mesmo desleixe, a velha roseira que disputa espaço com espada de São Jorge, os papéis trazidos pelo vento brigam com o capim e a hera, pra ele é como se todos fossem possuídos de igual beleza.

– Vai por mim Aníbal, não seria mal ter viveiro em casa. Acaba problema de pressão alta, falta de companhia, alguém com quem conviver. Vai se sentir realmente bem. Ânimo! Se tiver dificuldade, dou todas as dicas e com pouco tempo estará ganhando prêmios. Trocamos um abraço. Pensa bem na minha sugestão, vai ser ótimo.

Fico chateado por decepcioná-lo, mas como explicar que mal sei cuidar de mim e, definitivamente, não consigo compreender o ser humano, como poderia tratar e entender os periquitos?  O portão enferrujado geme, Pereirinha volta pra casa, direto ao paraíso. Antes de chegar à esquina ouço Pereirinha falar com seus pupilos, elogiar a beleza das mocinhas, repreender quem abusou do banho e molhou o papel recém-trocado. Entre ruídos, beijinhos, sorrisos, um pipilar alegre sobressai: é Pereirinha falando a fala deles – agora ele próprio é periquito.

Os periquitos que Teresa jamais viu...
               
Com Teresa não foi diferente. Encontraram-se de manhã cedo na padaria. Entre o bom dia e o até logo, Pereirinha convenceu Teresa de ir ver seus periquitos. Foi. Mas em lá chegando sequer passou do quarto. Mas seu Pereira, isto é jeito de deixar um quarto? E começou a azáfama, foi trabalho de dar dó, Pereirinha tentou, mas não foi dispensado: sem um mais nem menos, se viu envolvido no turbilhão de coisas a fazer.
               
Que periquito que nada! Era dá um pano cá, joga a tralha no lixo, limpa os cinzeiros, traz balde d'água, vassoura, escancara a janela, cuidado com a poeira, ordens tais enfim que Pereirinha jamais se deu conta que houvera de escutar. Não sabia se chorava ou ria, se negava ou obedecia. Por fim, rendido, abaixou os olhos, se entregou àquela mandona de olhos verdes, cuja voz começava a soar igual às valsas. Pereirinha sorriu feliz.

– Amanhã volto pra ver os periquitos. Teresa se despediu no portão, deixou Pereirinha na aflição de dar dó, como namorado de primeira viagem.

A limpeza imaculada deixou-o com medo de entrar no quarto. Isso que é mulher! - dizia consigo mesmo ao ver o quarto em ordem. Achou graça na arrumação, exatamente do jeito que ele gostava, o modo de pegar as coisas, a mesma ordem, o cinzeiro no lado direito da cama, o controle da TV, o jornal dobrado, revistas arrumadas em pilha, discos separados por tema.

A janela escancarada deixou entrar um raio de sol que jamais havia visitado tais paragens.  Pereirinha viu guardado com carinho tudo sobre sua criação: cartazes das exposições, fotos com amigos, recebendo prêmios, fazendo discursos. O que mais o deixou feliz, de boca aberta, abestalhado como pirralho diante de Papai Noel foi ver os quadros pendurados, diplomas, prêmios, menções, recortes de jornais, notícias em revistas, que constituíam a vitória e a glória dos periquitos.

A iluminação natural que invadiu o quarto abalou a imaginação de Pereirinha, que passou a ver tudo como se fosse cena de novela, teatro ou cinema. A magia, o milagre, o paraíso. Aquele contraste gritante entre o quarto e o resto da casa operou o prodígio. Pereirinha, lembrando os olhos verdes de Teresa, a voz musical de Teresa, as ordens peremptórias de Teresa, ajoelhou-se em agradecido silêncio, como um cavaleiro andante. Pereirinha estava apaixonado.

No dia seguinte se encontraram de novo na padaria, seguiram a rua deserta conversando. Teresa não pôde cumprir a promessa de ver os periquitos. Entrou na casa e mais uma vez não passou do quarto. Arrumou o que estava desarrumado, sem censurar. Elogiou o jeito de Pereirinha ao manter a arrumação. Pouco tinha a fazer, sentou-se na cama, tomou café, viu Pereirinha adorando-a mudo. Sentindo-se amada, Teresa arregalou os olhos verdes, despiu o vestido sépia de flores amarelas e se deitou. O sol pintou as paredes de ouro, os periquitos fizeram silêncio.

Daí em diante Teresa jamais deixou de encontrá-lo. Todo santo dia faça chuva ou faça sol, os dois vão à padaria, depois de tomar café, voltam juntos pra casa. Em caso de desencontro, ela ia direto pra casa, entrava no quarto, via o que tinha de fazer, largava os olhos verdes na face púrpura de Pereirinha e se despedia com um sorriso emocionado. Amanhã volto pra ver os periquitos. Voltava sempre, mas nunca viu.

Pereirinha sobe aos céus...
               
A rua inteira acordou com o alarido que vinha da casa de Pereirinha. Eram sete horas da manhã, os periquitos soltavam gritos num coro uníssono. Teresa, que ia pra a padaria, correu, chegou primeiro. O coração pulando. Outros vazaram pelo jardim abandonado, pisando nas rosas, quebrando as espadas de São Jorge, enterrando capim, até abeirar o degrau da varanda. Foram abrindo a porta, que Pereirinha nunca fechava. Ele nada tinha pra ser roubado. Quem iria querer um montão de periquitos que consome toda sua aposentadoria? Os vizinhos vinham aos poucos. Dona Maricota encontrou Aníbal no portão de Pereirinha. O que houve? O que foi? O que não foi? Ao ver o movimento mais pessoas chegavam. Vamos ver? Vamos saber?

Entraram esbarrando na espantosa cena: a sala estava toda tomada. Havia periquito em todo canto, sobre o sofá, na mesinha de centro, voando de cadeira a cadeira, nos espaldares, estantes. Muitos estavam esmagados pelo corpo de Pereirinha, sangue e penas se misturavam coloridos. Outros estremeciam com as patas quebradas, asas partidas, bicos rotos. Os livros, revistas e jornais se espalhavam picotados pelas avezinhas agitadas e pululantes, sujando tudo, provocando o bramido que alardeava pela rua. As aves aproveitaram a porta aberta e circulavam pelo jardim, pousavam no muro, no chão beliscando insetos, sementes de capim.

Na ânsia de chegar ao quarto, Teresa pulava raivosa sobre os pássaros. Não se contendo, gritou: Pereirinha! Ninguém acudiu. Passou da sala pra cozinha, de revés entreviu o quarto às escuras, no lusco-fusco viu a desarrumação, o corpo de Pereirinha na cama, sobre ele, sobre o lençol, no chão, em cima da cômoda, quantidade inumerável de periquitos. No quarto, pequeno e fechado, o alarido era mais ensurdecedor. Teresa estancou diante da cena. Chorou.

O silêncio tomou conta de tudo. Ouvia-se a respiração nervosa dos presentes. Teresa fungou, os olhos verdes marejados. Uma voz suspirou mais alto: Coitado! Dona Maricota se lembrou de botar comida pra os bichinhos. Como se tivessem combinado, os periquitos voltavam pra gaiola, atraídos pelas folhas de chicória. Logo, logo estariam todos trancados nos viveiros. O cuidado de se alimentar calou-lhes o bico. Ninguém notou Teresa, com as mãos trêmulas, fechar os olhos entreabertos de Pereirinha.

Antes de sair Aníbal tratou de arrumar a casa no que podia, fechou armários, guardou roupas, meteu o lixo no saco plástico. Deixa que eu cuide disso, disse Teresa. Pegou uma vassoura e começou a limpar a sujeira. Pontas de cigarro, latas de refrigerante, restos de comida. Fazia as coisas mecanicamente, mas os pés andavam por terreno sobejamente conhecido.

Aos poucos a gente foi saindo. Teresa, pálida, ao lavar a louça nem reparou as lágrimas que caem e se misturam ao detergente. 
Rio de Janeiro, Cachambi, 2003/2016

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Elementos para a história dos Rovedo


Rovedo (Rué in Diranese)  è un quartiere del Distretto Metropolitano di Borgo , facente parte della Città di Dirano . Si trova ad una distanza di circa 3 km dal Duomo di Santa Maria Maggiore in direzione Est, lungo Corso Unità e Corso Rivalto. Il quartiere ha una superficie di circa 1,9 kmq. Nato come paesotto rurale al di fuori della Cerchia Romana, nel corso dei secoli ha avuto un pesante e sostenuto sviluppo, che l'hanno reso uno dei quartieri più popolosi della Città Interna. Il nucleo storico di Rovedo si trova a circa 3,4 km a Est del Centro Storico, anche se oggi si rintraccia che la centralità della vita del quartiere si trovi in Piazza Murat, a soli 3 km dal Duomo. Lo sviluppo del Rovedo è avvenuto perlopiù lungo l'asse fondamentale Corso Unità - Corso Rivalto. Rovedo confina a Est con il Borgo di Porta Sole , a Sud con Borgo, a Ovest con il Rione Storico di San Gervasio ed a Nord con il Borgo di Porta Laria e Trissino e a Nordest con Orzago.

Epoca Romana e Medievale

Le prime testimonianze dell'abitato di Rovedo si hanno in epoca romana, di questo periodo infatti sono i ritrovamenti effettuati nel 1939 da Ignazio Arrigoni. Le prove archeologiche dimostrano che nella zona di Rovedo, in Via Gavretti, vi fosse una Villa Romana di notevoli dimensioni. Altre attestazioni più tarde (V-VI^Secolo) indicano la presenza di un vicus Roburetum , dovuto alla presenza di una grande macchia di Rovere nella zona delle attuali Piazza Murat e Largo Albertari. Nel IX^Secolo Rovedo è presente nel Censo delle Plebi di San Marco operato da Arnolfo da Bregnana: "in haec plebis quattras ecclesias sunt, Roburetum , Giscualvus, Amborigium, Sancta Marta paludi ". Nel Medioevo il villaggio di Rovedo, con la vicina Amborgio (villaggio che sorgeva nei dintorni dei Giardini Italia), dipendeva dalla Chiesa di San Marco, ed era soggetta a obblighi ed omaggi feudali.

Età Moderna e Contemporanea

Non lambita dall'Addizione Ludoviciana, Rovedo continua a svilupparsi e i Borghi di San Marco, cioè quelle case sorte fuori dalle mura Romane, sono sottoposte alla Plebania di Rovedo, presso la Chiesa di San Giovanni Evangelista, nel 1431 ad opera dell'Arcivescovo Azzone Tresoldi. Rovedo, durante l'amministrazione Francese e Spagnola non prospera affatto, anche se il censimento del 1650, operato dagli Spagnoli indica. "in comitatu Robureti 459 familiae vivunt, et in Amborigi pago et in Sancti Marci Burgo 129 familias vivunt". Si stima quindi una popolazione di circa 3000 anime nel Seicento. Lo sviluppo diviene via via crescente, con l'apertura di numerose osterie lungo la Via Imperiale, che inizia ad essere nota con il nome di Corso Rivalto, a partire dal 1757. Con l'arrivo dell'Illuminismo e dell'Età Napoleonica, il malfamato villaggio di Amborgio viene raso al suolo e sostituito dai Giardini Bonaparte, mentre la popolazione di Amborgio e quella espulsa dal Bottello (il quartiere di Pontenovo abbattuto per far spazio al futuro Parco Ducale) viene sistemata nelle nuove costruzioni lungo Corso Rivalto, che diventeranno il nuovo centro del Rovedo, spostato di poco a Sud della Chiesa di San Giovanni Evangelista. Con l'annessione al Regno di Lavinia il quartiere vede un boom demografico dovuto alla vicinanza con le fabbriche di Porta Laria e Porta Sole , trasformando completamente l'area e facendola diventare un Quartiere Operaio. Degna di menzione la modifica del tracciato della Via Imperiale, nelle attuali Corso Unità d'italia e Corso Rivalto, con l'apertura di Piazza Murat ove sorgeva una volta l'Osteria del Balun. Nel 1889, la costruzione della Linea di Cintura comportò l'abbattimento di diverse corti storiche popolari nell'area sudoccidentale del quartiere. La Metropolitana, per l'esattezza la M4, raggiunse il quartiere nel 1914, percorrendolo in modo latitudinale.

Il Rovedo oggi


Il Rovedo oggi è un quartiere centrale, con l'arteria principale Unità-Rivalto, che è un centro commerciale naturale, dopo essere stata a lungo un semplice collegamento con l'Oriente. Dagli anni '60 si è registrato un forte miglioramento del quartiere, con riqualificazione e gentrificazione dell'area lungo le due vie citate e nell'area che da sui Giardini Italia, giusto ad est della Linea di Cintura, interrata nel 1982. Rimangono invece pesantemente popolari e ad oggi con forte presenza di immigrati le aree a nord del Rovedo storico e quelle che danno verso la Stazione di Dirano Centrale, che mantengono un forte carattere proletario. I progetti di riqualificazione dell'asse Albertari-Medici-Dei Mille, a partire dal 2005 hanno iniziato una pesante opera di rinnovamento e di nuove costruzioni, con l'idea di costruire il nuovo Centro Direzionale di Dirano nell'area di Cascina Sogliero, nelle vicinanze (meno di 700 m) della Stazione Centrale. 

Fonte: http://mycity.wikia.com/wiki/Rovedo