quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Acadêmico: Ser ou não Ser, eis a questão


Estava pronto para fazer uma introdução para este ensaio, quando li o artigo “Chás, intrigas e bajulação”, de Norma Couri no site do Observatório da Imprensa (19/11/2013). Era tudo que eu queria: Norma Couri antecipou com talento o que eu gostaria de referir sobe o tema. Então pego emprestado excertos de seu artigo, que boto aqui como intróito.

“A ABL optou pela abertura a não literatos, mas escancarou demais. Acolheu o general que integrou a junta militar 1969, Aurélio Lyra Tavares. Em 1912 a casa já havia tornado imortal outro militar, Lauro Muller, ministro das Relações Exteriores que nunca havia publicado nada além de um folheto impresso às pressas em Paris. Santos Dumont, foi eleito em 1931, arrependeu-se, desistiu, os acadêmicos não aceitaram e mantiveram a posse, mas o inventor se enforcou, sem tomar posse. Hoje a cadeira 38 é ocupada por José Sarney [que não se enforcou]. Imortal foi o ditador Getúlio Vargas em 1943, cujos dedos, segundo Guilherme Figueiredo, usaram mais o charuto do que a caneta, mas serviram para doar, em agradecimento, a sede da ABL.

A torcida política integrou no time o senador José Sarney, e não foi pelos romances. Depois de Sarney imortalizado, Sergio Buarque de Holanda e Carlos Drummond assinaram um documento recusando-se a pertencer à ABL. Golbery do Couto e Silva não pretendia entrar, mas também impediria que Juscelino Kubitschek, opositor ao golpe de 1964, entrasse, e a Academia obedeceu por conta de um cheque felpudo. Juscelino não entrou e mais tarde Josué Montello batalhou pela candidatura de Roberto Marinho visando coluna no Globo e sonhando ver “Os Tambores de São Luis” virar telenovela. Nem uma coisa nem outra aconteceu, mas Roberto Marinho entrou.

O poeta Mario Quintana foi preterido três vezes: entrou Eduardo Portela, Ministro da Educação de João Figueiredo e Secretário de Cultura do Rio de Janeiro. O economista Roberto Simonsen morreu discursando; Guimarães Rosa perdeu a primeira, voltou, ganhou, sofreu um ataque cardíaco e morreu três dias depois da posse. Muitos nem entraram. Oswald de Andrade concorreu duas vezes em vão. Clarice Lispector, por ser ucraniana, era mantida ao largo como o tradutor e escritor húngaro Paulo Rónai. Cecília Meirelles ficou de fora. Clarice declarava jamais querer pertencer à ABL. São do mesmo time o arquiteto Oscar Niemeyer, o poeta Ferreira Gullar, os escritores Érico Veríssimo, Fernando Sabino e Rubem Fonseca, o crítico literário Antonio Cândido – anti-fardão, anti-acadêmicos.

Muito chá, muita intriga, muita vaidade, muita bajulação, colunismo social, política, politicagem para conseguir o voto que garante a imortalidade, [a ajuda de custo de] 9 mil reais por mês, duas vagas para carros no centro do Rio, seguro saúde de luxo, enterro de primeira y otras cositas más. A ABL garante o mimo com o aluguel das salas do Palácio Austregésilo de Athayde, vizinho ao Petit Trianon. Mas o Petit Trianon já viu guerras surdas ou explícitas. Como a ocorrida entre os desafetos Lêdo Ivo, chamado de “poeta de quinta categoria” por Eduardo Portella, e o próprio, em quem Ivo atirou um copo d’água e justificou: “Ele é dono de uma cabeleira obscena”. Briga de foice também da ala esquerda contra a direita, como quando o economista Roberto Campos ocupou, em 1999, a cadeira do dramaturgo comunista Dias Gomes, morto num desastre de carro. Briga de foice pelo fardão que custa a bagatela de 70 mil reais e, segundo Gullar, “que esquisito usar capa e espada no Rio numa época dessas”.

“Ele está dizendo que eu devia entrar pra ABL... Quem devia entrar é ele. A ABL já fez tudo pra eu entrar pra lá e eu digo: Não! Todo mundo sabe disso, não sabe? Jamais entrarei para a ABL. Eu tenho muitos amigos que entraram na ABL, pessoas de valor também. Agora, como eu não tenho cabeça acadêmica, como não é a minha, não vou entrar pra lá”. (Ferreira Gullar, Entrevista, 01/8/2011)

“O poeta Ferreira Gullar entregou carta à ABL em que declara a intenção de ocupar a vaga do poeta e ensaísta Ivan Junqueira, morto no começo do mês. O maranhense de 83 anos já repetiu o gesto cinco vezes, mas sempre desistia e rasgava a carta. Agora Gullar pretende ir até o final, porque já tem os votos contados e deverá ser escolhido por grande maioria”. (Noticiário, 12/07/2014)

"Por 36 votos a favor e um nulo, o poeta Ferreira Gullar foi eleito o novo imortal da ABL. Na sessão que aconteceu na sede da instituição no Rio, estavam presentes 19 acadêmicos e outros 18 votaram por correspondência". (Noticiário, 09/10/2014). 

Pergunta. Como você se sente, agora sendo parte da ABL?

Resposta. Sinto-me bem, né? O fato de eu ter sido aceito pela ABL é uma coisa que me alegra. Durante anos e anos, me neguei a me candidatar, não porque tivesse restrições maiores, mas nunca foi projeto meu entrar para uma instituição como a ABL. Eu não pensava nisso e, sempre que me convidavam, eu dizia que não queria e tal. Mas aí, depois de muitos anos, achei que estava ficando muito arrogante dizer “não”. (Ferreira Gullar, Entrevista, 21/10/2014)

“É com enorme alegria que assumo a honrosa condição de membro da ABL Brasileira de Letras. Agradeço a generosidade dos que votaram em apoio à minha candidatura, aceitando-me como seu companheiro nesta casa a que já pertenceram e pertencem nomes altamente significativos da nossa literatura e da nossa cultura. Agradeço particularmente a alguns companheiros que durante anos, pela amizade que me tinham, insistiram incansavelmente para que eu me candidatasse, como Eduardo Portella, José Sarney e outros, além de amigos que já se foram, como o próprio Ivan Junqueira, a quem tenho a honra, mas não a alegria de substituir”. (Ferreira Gullar, Discurso de posse - 5/12/2014)

Em contrapartida, várias observações sobre outros candidatos.

“Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário desta instituição naquela fase da vida em que devemos ser necessária e obrigatoriamente contra o assentado e o definitivo. Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor que no início de seu caminho, não venha, quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Quanto a mim, felizmente, muita pedra atirei contra vossas vidraças, muito adjetivo grosso gastei contra vossa indiferença, muitas vaias gritei contra vossa compostura, muito combate travei contra vossa força. Mas tudo na vida obedece a formalidades e se eu sou socialista não quer dizer que ignoro o mundo formal que me rodeia”. (Jorge Amado, Discurso de posse, 17/7/1961)

“Amamos Jorge Amado e temos confiança nele. Eu só o vi numa fotografia, em fardão de acadêmico, um pouco mais gordo. Olhei e sorri. Aos acadêmicos brasileiros dão um luxuoso fardão. Além disso, usam espadas como seus colegas franceses. Não há nada de mal em que o homem simples de ontem apareça uma vez por ano na roupagem de imortal”. (Ilya Ehremburg)

“Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!”

O poeta Mário Quintana tentou vaga na ABL três vezes, mas não conseguiu. Ao ser indicado uma quarta vez, com promessa de eleição certa, recusou: “A ABL só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades. É pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada. Só dá ministro”.

“Tem uma pedra no meio do caminho”. O poeta Carlos Drummond de Andrade não entrou para a ABL por um motivo simples: nunca se candidatou. “A palavra é meu domínio sobre o mundo”. A romancista Clarice Lispector, autora de “A Hora da Estrela” e “Laços de Família”, também nunca pretendeu entrar para a ABL. “Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”. O autor de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos, não entrou para a ABL.

A ABL também não admitiu: Lima Barreto, Monteiro Lobato, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Érico Veríssimo. E mais: Jorge de Lima e Gerardo Melo Mourão, indicados ao Prêmio Nobel de Literatura; Antônio Cândido, Autran Dourado, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, vencedores do Prêmio Camões, não foram admitidos na Academia. Por outro lado, a ABL acolheu: Getúlio Vargas, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel, Lauro Müller, Ivo Pitanguy, Santos Dumont, Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Merval Pereira, Gen. Aurélio de Lyra Tavares e Paulo Coelho. 

No texto dos discursos de posse, sempre suntuosos e untuosos, a maioria dos recém-empossados procura um meio de justificar e justificar-se o porquê estar ali. Em segundo lugar o foco se desvia apara aguilhoar desafetos, condenar as objeções que por acaso se fizeram públicas – jogando para um plano inferior o elogio técnico e obrigatório do antecessor e do patrono.

Começando com o próprio Machado de Assis, quando tomou posse da cadeira e da presidência da ABL, em cujo discurso já expande a perspectiva para temas vindouros:

20/07/1897 - Machado de Assis - Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloqüência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira.

06/06/1918 - Emilio de Menezes - Dizer-vos que nunca desejei fazer parte da vossa nobre agremiação seria mentir à minha própria consciência. Afirmar, entretanto, o emprego dos esforços desairosos que se me atribuem para a conquista da insigne distinção de ser dos vossos, sobre ser um meio de escapulir aos limites da verdade, é transbordar dos da decência. Fundada a Academia, se eu a não recebi com as irreverências e até torpezas, cuja paternidade me foi dada, não tive para com ela, é certo, grandes e entusiásticos aplausos. Influências múltiplas da época fizeram tomar, à primeira vista, o novo instituto literário como um enxerto, uma cópia, uma espécie de naturalização de hábitos infensos às nossas tradições e usanças. Por essas influências não era eu o único dominado. Era uma corrente quase geral, como bem o podem atestar todos os membros sobreviventes à sua fundação. Essa atmosfera, senão de hostilidade, de suspeição, em que talvez houvesse despeito e inveja, envolveu por espaço, mais ou menos longo, a Academia. Aí é que os escritores de nome feito devem ir buscar os verdadeiros inimigos que, além do mais, têm a cobardia de atirar para cima de outrem a responsabilidade do que fazem e dizem. Coitados! Querem, abrindo caminho na suntuosidade da floresta virgem, abater cedros e jacarandá com membros que foram feitos para o retuço nos gramados. A esses (a Academia que me perdoe o emprego de um vocábulo que, além de mau inquilino da nossa língua, é de gíria e só agasalhado pelo noticiário policial), a esses pivetes da literatura, junta-se infalível e diariamente, às mesmas longas horas e à mesma soleira, uma classe dez vezes mais venenosa, mil vezes mais perigosa. É a dos velhos inéditos à força de publicidade. É composta de uns venerandos senhores que já publicaram por dezenas de anos, dezenas de livros, volumosos e ponderados, mas sem alguém que lhes repita o nome. Daí a intoxicação pelo ineditismo e o ódio à repercussão do nome alheio.

04/06/1955 – Josué Montello - Entre a vaidade arrogante, que não se coaduna com o meu feitio nem condiz com a minha obra, e a exculpação mortificatória, que igualmente pecaria pelo exagero, de mim para mim explico este triunfo, que sou o primeiro a conquistar em minha geração –, não como um prêmio aos meus trabalhos e sim como um estímulo à minha vocação de escritor. Não havendo ainda atingido a idade em que o exercício reiterado das limitações converte a fraqueza da véspera na força do dia seguinte e que assim permite aflorar a obra-prima onde somente deveria vingar a mediania, galgo a eminência da Academia Brasileira, por uma deliberação de vossa benevolência, que generosamente se ampara na prospecção da obra que talvez eu chegue a realizar. Assim fazendo, meus mestres e meus companheiros, redobrastes a vossa munificência na proporção em que se ampliaram minhas obrigações. E só posso responder a essa prova de confiança com o penhor de meus dias advindos e o resgate de meu trabalho, a fim de que não mereçais, pelo pecado de intuir benevolentemente o meu futuro, aquele castigo que Dante infligiu a Tirésias como adivinho: retroceder sobre os próprios passos, com a cabeça voltada para trás. Porque, unindo o passado ao presente, no confronto do deslumbramento desta hora com as emoções ressurretas de minha juventude, jubilosamente verifico que, ao volver as folhas do meu compêndio, na tranqüilidade feliz da província natal, eu vos havia imaginado, senhores acadêmicos, exatamente como sois.

15/12/1956 - José Lins do Rego - Aqui estou sem ter feito uma caminhada de aventuras. Não me pus na luta empenhando o que podia e o que não podia. A Academia não me foi uma idéia fixa, um posto a conquistar com todo o meu sangue. E nem vendi a alma ao demônio para obter a vossa imortalidade. Chego sem alvoroço e sem tropeçar na glória dos outros. Para muitos, a posição vale bem a missa de Henrique IV. Para mim, vale como um remanso, o convívio amável, a paz entre os homens. Quando jovem, disse muito mal da Academia. Fora a contingência dos que não se conformam com a ordem das coisas. Há de ter sorrido a Academia das investidas furiosas dos que desdenham de suas honrarias. Assim devem fazer as academias quando não são de pedra. Aos moços, as intemperanças, os arroubos e mesmo a violência. Às academias, o bom humor de não se exasperarem. Muitos dos vossos grandes de hoje, que vejo tão sólidos em suas poltronas, foram dos que sacudiram pedras em vossas vidraças. Jovens intempestivos, que se jogavam sobre o estabelecimento como ciclones desencadeados. O espírito dos jovens não faz mal aos que sabem envelhecer. O que nos mata é a intolerância para com a intolerância dos que têm o fogo da juventude. Por tudo isto é que me sinto em casa, no meio de homens que sabem valorizar os que vêm de fora com a cicatriz das batalhas. Precisamos nos ligar aos jovens, porque viver com a mocidade é condição de vitalizar-se. Ser acadêmico nem sempre é uma elevação entre montanhas. Mas ser acadêmico é sempre uma dignidade que enobrece, pelo que há de melhor no homem. Não tenho rancores e nem simulo bondades. Dou-lhes a minha alma despida. E nem o fardão luzente e nem a espada virgem me farão diferente do que sou e quero ser: um homem simples. O que me basta é o que já tenho nas mãos.

16/11/1967 - João Guimarães Rosa - Para tanto, terei de à - pauta citar-me. Embora. No que refiro, sub-refiro-me. Não para a seus ombros aprontar minha biografia, isto é, retocar minha caricatura. Não eu, mas mim. Inábil redutor, secundarum partium, comparsa, mera pessoa de alusão, e há de haver que necessária. O espelho não porfia brilhar nem ser; mas, por de-fim, para usação, bem tem de relustrar-se. Direi. O afeto propõe fortes e miúdas reminiscências. Por essa mesma proximidade, tanto e muito me escapa; fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente. Neles podia-se experimentar não apenas a comensura de facúndia e talento: mas coragem, de cor, ânimo, de alma. Tive-o, imediato, antes que outro incorporando em si o movimento que arrancava. Todo o mais adiante foi confirmação. Graças por este sóbrio meu não desacerto.

17/07/1971 - Jorge Amado - Penso, assim, poder afirmar que chego à vossa ilustre companhia pela mão do povo, pela fidelidade conservada aos seus problemas, pela lealdade com que procurei servi-lo tentando fazer de minha obra arma de sua batalha contra a opressão e pela liberdade, contra a miséria e subdesenvolvimento e pelo progresso e pela fartura, contra a tristeza e o pessimismo, pela alegria e confiança no futuro. Segundo a lição da literatura baiana, fiz de minha vida e de minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor, aprendida na estrela maior do céu baiano, o poeta Castro Alves, estrela matutina da liberdade, estrela vespertina dos ais de amor.

09/08/1990 - Ariano Suassuna - Sei, perfeitamente, que não é o fato de me vestir de certa maneira, e não de outra, que vai fazer de mim um camponês pobre. Mas acredito na importância das roupagens para a liturgia, como creio no sentido dos rituais. E queria que minha maneira de vestir indicasse que, como escritor pertencente a um País pobre e a uma sociedade injusta, estou convocado, “a serviço”. Pode até ser que o País objete que não me convocou. Não importa: a roupa e as alpercatas que uso em meu dia-a-dia são apenas uma indicação do meu desejo de identificar meu trabalho de escritor com aquilo que Machado de Assis chamava o Brasil real e que, para mim, é aquele que habita as favelas urbanas e os arraiais do campo. Voltarei depois a este assunto, de tal modo é ele importante na minha visão do mundo e, em particular na do nosso País, a esta altura submetido a um processo de falsificação, de entrega e vulgarização que, a meu ver, é a impostura mais triste, a traição mais feia que já se tramou contra ele.

07/06/1999 - Murillo Melo Filho - Muito desejei estar convosco e muito ansiei por este momento. Eu queria humildemente ficar em vossa companhia para formar, ombro a ombro, ao vosso lado. Por isso, candidatei-me e conquistei os vossos votos. As Academias de Letras estão divididas somente e sempre entre os que se vão e os que estão chegando. Elas têm apenas uma síndrome e um tabu: o de que, aqui dentro, não se deve falar em vagas, pelo menos enquanto elas não existirem. Antes do nosso Mausoléu, no Cemitério de São João Batista, dizia o Acadêmico e Confrade Olavo Bilac: - Somos imortais porque não temos onde cair mortos...

06/08/2004 - Antonio Carlos Secchin - Não interpreto os limites como região de plácido descompromisso entre o lá e o cá, mas como um tenso território em cujas bordas vivenciamos o risco e o fascínio do duplo. Dissolvida a confortável ilusão da unidade, aprendemos a confrontar-nos com o território do que desconhecemos. Percorrer o intervalo não é abrigar-se entre dois espaços, é expor-se a ambos. É aceitar o assédio e o aceno de tudo aquilo que, em nós ou fora de nós, se recusa à apropriação apaziguadora da identidade. Assim gostaria de entrar na Academia Brasileira de Letras: entendendo-a como fronteira franqueada ao livre trânsito de todas as temporalidades. De um lado, receptáculo de nossas mais fundas, atávicas, heranças; de outro, passagem para a paisagem do novo. Neste discurso, balizado por dois poetas, a primeira palavra, acolhendo o passado, foi de Cecília Meireles. Que a última seja de Carlos Drummond de Andrade: “Ó vida futura! nós te criaremos”. 

18/10 /2010 - Geraldo Holanda Cavancanti - A nós, que nestas cadeiras nos sentamos, atribuem-nos, os de fora, pretendermos ser imortais. Ora somos mortais como qualquer um e a imortalidade que se inscreve na divisa da Academia está mais referida a ela como instituição, com tudo o que a palavra tem de exacerbação do contingente, do que a cada um de nós como contribuintes para sua continuidade. Aqui estamos apenas para demonstrar quão passageiro é o renome que ela nos possa dar. Ela, a Academia, é que perseverará, recolhendo a contribuição que cada um de nós lhe possa prestar na realização de seus cometimentos. E sua missão nunca terminará... eterna enquanto dure, diria o poeta.

05/12/2015 - Ferreira Gullar - É com enorme alegria que assumo a honrosa condição de membro da Academia Brasileira de Letras. Agradeço a generosidade dos que votaram em apoio à minha candidatura, aceitando-me como seu companheiro nesta casa a que já pertenceram e pertencem nomes altamente significativos da nossa literatura e da nossa cultura. Agradeço particularmente a alguns companheiros que durante anos, pela amizade que me tinham, insistiram incansavelmente para que eu me candidatasse, como Eduardo Portella, José Sarney e outros, além de amigos que já se foram, como o próprio Ivan Junqueira, a quem tenho a honra, mas não a alegria, de substituir. Como minha vida tem se caracterizado não pelo previsível, mas pelo inesperado, ao decidir-me pela candidatura à que nunca aspirei, agi como sempre agi, ou seja, optar pelo imprevisível. Estou feliz da vida, uma vez que, aos 84 anos de idade, começo uma nova aventura pelo inesperado que a algum lugar desconhecido há de levar-me. Pode alguém se espantar ao me ouvir dizer que posso encontrar o novo nesta casa que é o reduto próprio da tradição. E pode ser que esteja certo. Não obstante, como na vida, em qualquer lugar, em qualquer momento, o inesperado pode acontecer.


(Fonte: Internet e site da ABL)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Carnaval Carioca de 1929, segundo Manuel Bandeira

O Estado de S. Paulo
O mau tempo prejudicou muito os festejos do Carnaval carioca, o carnaval popular, o das ruas — porque o dos salões, o da gente rica, esteve mais animado do que nunca. (No Copacabana Palace venderam-se entradas para 3 mil pessoas e setecentas mesas bordavam nos sete salões o retângulo central reservado aos dançarinos). Com a chuva incessante que caía a partir das quatro horas da tarde, não havia outra coisa a fazer senão entrar num teatro ou num hotel para maxixar ou beber. E havia às vezes lá dentro coisas curiosas de ver.

O hall e bar do Palace, por exemplo, é um ponto que intermitentemente assume aspectos divertidos. Ali se juntam os exemplares mais disparatados da sociedade: a menina de olhos ingênuos, prostitutas, artistas, o chefe de polícia, cocainômanos e canalhas, políticos. A alegria é provocada por meia dúzia de rapazes que beberam demais e circulam de copo na mão, cantando, dançando e dizendo à direita e à esquerda bestialidades engraçadas. Cheira-se o éter à vontade. Há quem traga lança-perfume só para o seu lenço. E quem o está gastando nos outros recebe de vez em quando pedidos de prise de droga no lenço estendido. Alguns rapazes excedem-se e deitam-se num recanto do bar embriagando-se de éter indiferentes a tudo o mais.

Outro espetáculo curioso é o do Teatro Fênix que se especializou em bailes para homens. Ali as senhoras pagam entrada porque não é possível distingui-las dos tipos que se fantasiam de mulher com uma perfeição em que não entra somente a habilidade e a arte, mas o temperamento também. E há-os de todas as cores, de todas as idades, de todas as classes, nacionais e estrangeiros. O círculo de mirones toma com eles liberdades cruéis que vão do carinho acanalhado ao pontapé de troça. No meio disso sujeitos maduros, de capote, guarda-chuvas e óculos de tartaruga combinando com seriedade encontros acenando os dedos para ajustar preços.

Aqui e ali, nas frisas e camarotes, a timidez de um grupo cuidadosamente mascarado trai a família que veio só para ver. Aquele português, porém instalou-se com a sua gente numa mesa da plateia em plena bagunça. A mulher traz ao colo um menino de peito e amamenta-o ali mesmo. De um camarote bisnagam-lhe o seio exposto. O português dana-se, não por causa do seio, mas por causa da criança: “Olha a criança, seu estúpido!” Passa lindo rapaz que a assistência aclama de miss Brasil. E João, que está comigo, confessa desesperado que há nos olhos da falsa mulher qualquer coisa que ele nunca encontrou nas mulheres de fato.

Como festa popular a segunda-feira, consagrada aos ranchos, é o dia mais característico. Esses ranchos resultaram da evolução dos antigos cordões, nenhum dos quais substitui na forma e organização primitivas. Eram blocos bem mais reduzidos que os ranchos atuais. Vinha à frente do estandarte um grupo de índios, caprichosamente fantasiados, executando umas danças de guerra que serviam para abrir caminho entre o povo; seguiam-se ao pé do estandarte os “velhos”, de passo grotesco, com as enormes cabeças de papelão oscilando em longos bastões; depois duas alas de sócios vistosamente trajados, tangendo as chulas no couro teso dos pandeiros; e atrás finalmente a canalha que não teve dinheiro para a fantasia, os amigos do clube ou simples curiosos.

O Ameno Resedá, o Flor de Abacate e outros grupos mais ricos começaram, de uns dez anos para cá, a aumentar e complicar o cortejo. Hoje são sociedades para julgamento de cujos préstitos o Jornal do Brasil, instituidor do Dia dos Ranchos, reúne no júri profissionais de cenografia, dança, música, e até de bordado — porque há um prêmio de estandarte que requer as luzes de um artista bordador. Os outros prêmios são de harmonia e enredo, fora os títulos de campeão e vice-campeão.

Nos ranchos há batedores a cavalo, clarins, comissões de honra precedendo o “enredo”, atrás do qual vem uma verdadeira banda instrumental e coros obrigados a engraçados regentes que andam de um lado para o outro atentos à harmonia do conjunto. A iluminação do cortejo, que a princípio era a querosene ou acetileno, é hoje feita de maneira engenhosa. O rancho inteiro fica envolvido num cordão de fio elétrico ligado a baterias dispostas num caminhão que fecha o préstito. De espaço a espaço saem ramais para as varas dos candelabros de quatro ou cinco lâmpadas elétricas, carregados à mão. Esse cordão ao mesmo tempo isola o rancho da massa popular. O efeito é muito característico.

Para dar uma ideia do que são os “enredos” basta citar dois deste ano. Os Caprichosos da Estopa apresentavam a história de Salomé “baseada na imortal obra do grande escritor inglês Oscar Wilde”. Os Parasitas de Ramos buscaram inspiração na história do Brasil revivendo cenas de costumes do nosso passado: os presos carregando água, a sinhá transportada na cadeirinha, o negro apanhando no pelourinho, os anjinhos das procissões… As personagens de todas essas cenas eram criancinhas, o que acrescia ainda mais a deliciosa ingenuidade do cortejo.

É na Praça Onze que esses ranchos são mais apreciados. Para lá aflui o povinho miúdo, a mulataria que dá cor e pitoresco ao carnaval famoso da praça. Ali há duas coisas gostosíssimas de ver: os “sambinhas” e as “batucadas”.

Os primeiros são rodas de baianas pegadas de colares de contas doiradas revezando-se em solos de samba. É impressionante espetáculo quando alguma boa velha cai na roda dançando de olhos fechados, religiosamente, como as macumbas.

As “batucadas” improvisam-se e desmancham-se logo porque a polícia dá-lhes caça. Consistem numa dança de capoeiragem ao som do batuque. Formado um largo quadrado ou retângulo o pessoal da rapa entra a saltar, tentando derrubar uns aos outros ou aos que fecham o quadrado. De vez em quando um tombo de rasteira diverte os espectadores. Mas o prazer é perigoso: toda aquela gente tem cara inquietante e é de fato a pior malandragem da cidade. Volta e meia a brincadeira degenera em conflito e acaba em navalhadas. 


Copiado de Ivo Korytowski: http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com.br  (03/02/2016)