quarta-feira, 1 de junho de 2016

Joaquim Itapary - O cronista consagrado

Foto: Biné Morais

“Ai dos que usam o mal como sinônimo de bem e chamam o bem de mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, fel”. (Isaías 5:20). Poderia ser este o repto que esperava Joaquim Itapary – o destino quis assim: em evento para lançar a público “Armário de Palavras” – livro sobre o qual já cometi algumas linhas neste mesmo blog. Não mais que de repente o autor se viu envolto em imprevisto furação de eventos, para o quê contribuíram todas as formas de comunicação: TV, jornal, colunas literárias e sociais, academias, blogs e tudo mais.
           
Melhor sorte teve o cronista Joaquim Itapary do que o seu companheiro de letras Miguel de Cervantes que, infelicitado com o bloqueio à divulgação de suas obras, sentenciou: Post tenebras spero lucem. Tomando nas rédeas a arte de escrever, o cronista seguiu aqueles que convertem a noite em dia, seguindo o bíblico Jó: “A luz está perto, na presença das trevas” (Jó, 17:12). E assim foi que às vésperas de cravar os 80 anos de existência viu-se o cronista consagrado.
           
Saí do modesto reduto do Cachambi com o intuito de levar o abraço fraterno pela efeméride – afinal não é todo dia que um bebedor de vinho e comedor de queijos supera a marca octogenária na vida. Ali chegando fui atropelado, pois não consegui me esgueirar do redemoinho que num átimo se formou em torno do cronista, na noite de lançamento e autógrafos do livro “Armário de Palavras”.

Para atender a multidão que acorreu ao local do evento, foi um corre-corre, uma afobação, uma azáfama danada. Nem mesmo Rita e Márcia, que organizaram com esmero os preparativos, puderam deixar de se surpreender com o inesperado da situação. Mas as meninas não deixaram o vagão descarrilar e mesmo com a correria, o lufa-lufa, o bafafá inevitável, tudo correu – como se diz – às mil maravilhas. Assim é que foi a festa cheia de alegria nos salões do Hotel Brisamar (Ponta d’Areia).
           
Inesperado, vírgula: o currículo do aniversariante, a caixa postal de e-mail cheia, as cartas que chegam ao suplemento Alternativo do jornal Estado do Maranhão e ao endereço físico do cronista, os telefonemas incontáveis, tudo, todos esses detalhes era adubo para prever o alcance e sucesso da coletânea de quase todas as crônicas publicadas semanalmente entre 2000 e 2015. O alicerce para o merecido foguetório, não se deve esquecer, é o livro “Sob o Sol”, volume raro (hoje só encontrado nas estantes virtuais e sebos), no qual Joaquim Itapary havia reunido as crônicas dos anos 1993 a 1999.
           
     A festança se prolongou por mais dois dias e duraria uma semana se o cronista não pedisse arrego, atraiçoado por virulentos ataques na cervical que o deixou entrevado em confortável espreguiçadeira, que só abandonava para esticar o espinhaço na aconchegante tapuirana, local mais adequado para recuperar as forças. A pajelança que conseguiu completar a recuperação, renovar rapidamente o alento, restaurar a confiança em si e também o entusiasmo pela vida, incluiu a Tiquira de Santa Quitéria e sudorosos caldinhos de sururu preparado pela enfermeira Ângela.
           
     Descansou o cronista ao sétimo dia? Necas! Nem bem secaram as folhas de louro, embrenhou-se o escritor nas centenas de Sermões que escreveu o Padre Antônio Vieira para destacar a vintena cuja temática abordasse o Maranhão do século XVII. Joaquim Itapary agora quer esmiuçar a questão social e política que Antônio Vieira pretendeu impor à sociedade maranhense – que principiava a formar o caráter próprio.
           
O Padre Vieira açoitava a sociedade comercial em preciosos sermões, que se mostraram capazes de colocar a vida desregrada da época nos trilhos, tanto políticos, quanto religiosos. Com prédicas morais, preleções duras em defesa dos escravos, as homilias em fé, ele condena a falação, o comércio em tudo, são predicações que em geral terminavam em bronca e carão, alguns moralmente ofensivos, mas que se mostraram cruciais (embora impiedosos). A obra de Vieira hoje o coloca como o maior escritor luso-brasileiro de todos os tempos.
           
     A presença de escritores maranhenses à festa de Joaquim Itapary foi maciça e mesmo Napoleão Saboya, escriba de estilo arredio, apartado dos faróis, largou os afazeres e a comodidade do Bairro Peixoto para comparecer à Ilha de São Luís iluminada pelas festas. Logo depois, cumprida a missão, exaltada em crônica memorável, ele retornou ao arvoredo que enfeita seu discreto apartamento – onde ali espera completar o seu mais novo romance, que avança em velocidade de trem bala. É aguardar para ver...
           
     Quem quiser saber mais é só ler a coluna do PH daquele dia 22 de abril de 2016. Foi milagrosa a noite: gratia plena...

Rio de Janeiro, Cachambi, maio de 2016.