terça-feira, 20 de setembro de 2016

Da inutilidade de rabiscar livros


Você não pode escrever nada sobre si mesmo que seja mais verdadeiro do que você mesmo é. Esta é a diferença entre escrever sobre si mesmo e escrever sobre objetos externos. Você escreve sobre si a partir da sua própria altura. Não sobe em pernas de pau ou numa escada, mas está sobre seus próprios pés.
(Ludwig Wittgenstein)

O escritor maranhense Joaquim Itapary tem uma biblioteca de dar inveja. Somos primos e toda vez que tenho oportunidade dou jeito de fuçar seus livros para breve leitura. Estávamos juntos no Rio de Janeiro quando ele comprou Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell. Não poder eu também ter em mãos um exemplar desse livro de cavalaria que conheci através do Dom Quixote me trouxe pesadelos. Cobrei dele a promessa (não cumprida) que depois me emprestaria. Numa cena curiosa do romance de Cervantes, os amigos de Dom Quixote queimam sua biblioteca por conta de achar que os livros de cavalaria eram os responsáveis pela loucura aventurosa que quase lhe custou a vida.

E sem querer mais ler livros de cavalarias, mandou a ama pegar todos e atirá-los ao pátio. Isso não foi dito à tonta nem à surda, mas a quem tinha mais vontade de queimá-los do que deles tirar teias, grandes ou delgadas que fossem. Ela pegando oito de cada vez atirou pela janela. Jogando assim muitos, um caiu aos pés do barbeiro, que teve curiosidade de saber o que era e viu que se chamava História do Famoso Cavaleiro Tirant lo Blanc.

– Valha-me Deus! – disse o padre soltando um grito. – Temos aqui o Tirant lo Blanc? Me dê ele aqui compadre, faço conta de ter achado nele um tesouro de contentamento e mina de passatempos. Aqui está Dom Kiriéleison de Montalbán, valoroso cavaleiro e seu irmão Tomás Montalbán e o cavaleiro Fonseca, e a batalha que o valente Tirante fez com o alão; as agudezas da donzela Prazer-da-minha-vida, com os amores e trapaças da viúva Descansada; a senhora Imperatriz, namorada de Hipólito, seu escudeiro.

Resultou que daquela inaudita cremação o padre só deixou salvar quatro obras. Uma delas foi a edição espanhola de Tirant lo Blanc (1511), de Joanot Martorell. As demais eram: Diana (1558) de Jorge de Montemor; o Palmeirim de Inglaterra (1547), de Francisco de Morais; as publicações avulsas das Églogas del excelentísimo Camões. Publicado em 1490, Tirant lo Blanc reúne todas as aventuras da tradição cavaleiresca, sem descuidar da condição humana dos personagens, pois os cavaleiros comem, e dormem, e morrem em suas camas, segundo está no Dom Quixote:

– Deveras vos digo compadre, que por seu estilo é este o melhor livro do mundo: aqui comem os cavaleiros e dormem e morrem em suas camas e fazem testamento antes de sua morte, juntamente com todas essas coisas de que todos os demais livros deste gênero carecem. Posto isto, digo-vos que merecia o que o compôs, pois não fez tantas asneiras que o pusessem na prisão por todos os dias da sua vida. Levai para casa e leia verá que é verdade tudo quanto dele vos disse.

Pois foi esse Tirant lo Blanc de Joanot Martorell, um livrão de 850 páginas traduzido direto do catalão por Cláudio Giordano (Ateliê Editorial 2004) que meu primo teve a petulância de comprar e na minha frente enfiar debaixo do sovaco pra nunca mais me mostrar, apesar das lamentações e meu implorar de joelhos.

Certo dia em que visitava o homiziado em São Luís eis que vejo na mesinha de centro da sala um livro. Era o próprio! Estava ali à minha frente o Tirant lo Blanc que eu tanto ambicionei ter nas mãos. Mal abro, emocionado, o volume o que vejo? Centenas de frases marcadas em amarelo, marcadas em rosa, sublinhadas. Folheio as mais de 600 páginas – vejo que tá tudo igual: rabiscos, notas à margem, acima, comentários a textos, números de referência.

Horrorizado abandonei o belo volume ali e nunca mais sonhar ler. Não aquele exemplar. Ler um livro desse jeito rabiscado e marcado é como comprar uma revista de palavras cruzadas com todos os problemas resolvidos. Como cada leitor é um novo leitor, o livro rabiscado só serve a quem rabiscou.

Feito esse preâmbulo, de cuja memória ainda me traz pavor, é hora de perguntar: – A que serve? Comecei a ler e escrever ainda adolescente, portanto naquela atitude natural não havia um por quê nem para quê. Não fazia sentido, nada foi planejado, ler era puro instinto, um tipo de psicografia adquirida que Freud não explica. A leitura que eu fazia era cumulativa e quantitativa na confiança que o cérebro bem alimentado terá condições de regurgitar o que apreendeu como nova obra, adaptada ao seu tempo.

Por isso é que a literatura se gera através da reescrita, releitura de variações sobre os mesmos temas, em novas épocas. Toda arte carece de uma arte anterior. Essa lembrança caótica veio trazida pela leitura do artigo Da utilidade de rabiscar livros, de Barbara Maidel e está em: barbaramaidel.blogspot.com.br, texto que me deixou de certo modo enfarruscado. Então esta a minha reação, na qual uso muitas vezes palavras da própria autora.

A primeira dúvida que o texto me trouxe é: terei sido um leitor ou um não-leitor? Muitas pessoas viram em minha sala estantes abarrotadas de livros e também perguntavam se eu já tinha lido todos. Claro que não, explicava, tem muitos livros que são apenas para consulta, como os quase cem dicionários, enciclopédias, etc. Mas ao contrário de Joaquim Itapary e Barbara Maidel, sou um bibliófilo (vá lá) relapso. Me desfiz de todos os livros que acumulei... Para depois recomprá-los.

Como me senti humilhado ao ser pego no segundo método de identificar o não-leitor, segundo Barbara Maidel: a exaltada repulsa a livros riscados. Odeio livros riscados como odeio revistas de palavras cruzadas já preenchidas. Odeio ver alguém apertar o bumbunzinho da lapiseira na mínima presença de um livro aberto. Fico horrorizado ao ver parágrafos sublinhados, acho feio, um desperdício. Como outra pessoa irá ler o livro desse jeito?

Entendo como puro egoísmo o leitor jamais passar um livro adiante só porque já foi lido. Um livro delirante terminado de ler é mais uma razão para ser difundido a outras pessoas para que possam também se maravilhar.

Quem é o obsessivo-compulsivo que vai ler esse livro arrebatador e [não] sentir necessidade de marcar nada, assumir que o livro é excelente e não doá-lo para alguém ou alguma entidade? Obsessivo-compulsivo, eis aí uma boa definição para quem acha que rabiscar um bom livro é quase um dever. Ter a humildade de reconhecer o fiasco desse ato, é apenas um lenitivo: Nem todas as minhas experiências com rabiscos de livros são boas: tal livro, inutilizei-o com sublinhados; aquele outro, errei ao maculá-lo – diz Barbara.

A confissão soa como mea culpa, mas pode ser um erro de perspectiva. Serve ao caso o que disse Ludwig Wittgenstein: Estipulamos regras, uma técnica para um jogo e depois ao seguirmos as regras as coisas não se passam como tínhamos suposto. Estamos como que presos em nossas próprias regras. Neste caso Joaquim Itapary e Barbara Maidel estipularam regras das quais não podem se libertar, mas que em algum momento se mostraram inúteis, fracassaram.

Senão vejamos o que Barbara Maidel escreveu: O que estou fazendo agora que terminei de lê-lo e rabiscá-lo? Estou relendo o que marquei. Por quê? Porque é muito difícil apreender tudo de um livro de uma leitura só. A primeira leitura serviu para meu entendimento amplo de tudo, para que eu tentasse organizar os conhecimentos do livro. Agora posso reler o que está organizado de acordo com o meu gosto de ordem. 

Falemos agora entre leitores habituais. Todas as justificativas que Barbara Maidel dá para inutilizar os livros que lê caem por simples aritmética. Ela diz que lê em média três livros por mês. São 72 livros em dois anos. Desses, suponhamos que 32 não eram eternos. Sobram 40 bons livros lidos em dois anos.

Aritmética pura: serão 400 livros em dez anos (o dobro em vinte anos) – e cada releitura que ela faz conta como outra leitura! Por mais que sejamos superdotados não teremos condições de localizar o que foi rabiscado. Ademais, do jeito que o tempo avança célere, em dez anos muito do que foi escrito e riscado estará obsoleto.

Uso suas próprias palavras: As conexões estão perfeitas e não preciso forçar meu cérebro a lembrar de todas as passagens importantes dos 40 livros bons que li nos últimos dois anos. (...) Dentro de cada livro de minha biblioteca há uma pequena biblioteca, com capítulos e páginas catalogados conforme os assuntos. 

Outras justificativas para ela mesma:

* Meus rabiscos salvam meu eu futuro de agonia. 
* Livros rabiscados são lindos para seu dono, mas emprestá-los é um erro, geralmente. A marcação feita por outra pessoa influencia nossa leitura, nossa atenção.
* Rabiscar livros é para quem tem o hábito de ler deitada e vai para a cama ou para o sofá com o livro e uma lapiseira para ir marcando e rabiscando.
* Aos que leem e não marcam, não organizam, não sintetizam: não sei como vocês vivem.
* Não quero incentivar o desespero, a queima de cidades e bibliotecas por causa do pânico. Mas acho que é hora de rever o modo como se lê, que é quase tão importante quanto aquilo que se lê. Seja o tipo de leitor que você gostaria de ter se fosse um bom autor.

Ou será preguiça, comodismo? Que tal pegar um caderno ou fichas para fazer as notas? Ou mesmo no tablet? Comece com os dados: autor, título, ano, editora, assunto. Aí é só fazer as anotações e as páginas respectivas. O texto é longo? Anote as primeiras e últimas palavras. Seja como for tem mil métodos de fazer a mesma coisa sem destruir o livro.

Creio que Barbara Maidel e Joaquim Itapary – dos quais sou leitor incondicional – estão prestes a se perder no labirinto que inventaram para si mesmos, ao seu gosto de ordem. Repito: rabiscar livros é puro egoísmo! Não me entra nas dobras cerebrais que alguém leia um livro excelente e não o passe adiante – ou não o guarde – tão imaculado como adquiriu.

Realces, rabiscos, sublinhas, parecem me indicar o quê devo ler, o quê devo entender, tira de mim a liberdade de interpretar, de arrevesar o entendimento do que leio, de sonhar meu próprio sonho ou pesadelo. Sei que esta lamentação em defesa do livro limpo não surtirá efeito. Sei que muitos livros Brasil afora estão assim desfigurados, estuprados, sem salvação. Ainda uma vez me valho da palavra inspirada de Ludwig Wittgenstein:

Do fato de que a mim ou a todo mundo pareça ser assim, não decorre que seja assim. Mas o que podemos nos perguntar perfeitamente é se há algum sentido em duvidar disso.

Rio de Janeiro, Cachambi, 20/09/2016

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Arte de criar periquitos

Foto Coave.org

A Paz reina na terra...

Ao entrar na loja de artigos para aves descobri a paixão de Pereirinha por periquitos. Na calçada diante da porta principal, chama a atenção a enorme gaiola cheia de periquitos, os mais variados possíveis, deixando empolgado quem vê. Elogiei a beleza das cores, o talho mavioso das estrias, o desenho das penas artisticamente traçado, a leveza da composição formada, as formas artísticas e a beleza do conjunto.

– Olha quanto passarinho bonito, disse.

– Passarinho não, Aníbal, periquitos, periquitos australianos. Os mais bonitos e inteligentes do mundo. Campeões de todas as raças, em todas as competições!

Ao denunciar minha santa ignorância a respeito de pássaros em geral e dos periquitos em particular, ganhei a primeira bronca de Pereirinha. E ficou claro que a razão do sem razão a outra razão enfraquece, pois enfim, sobre periquitos eu sabia que não sabia nada.

– E não estão nada bonitos – Pereirinha tinha o fito de me abater no ar, em pleno vôo – muito pelo contrário, as lojas costumam tratar mal os periquitos. É uma ave especial, igual gente, melhor, é gente mesmo, beleza inata, expressão divina de Deus. Aníbal, você precisa ir ver os que eu tenho lá em casa. Que boniteza, sim senhor!

Foi assim que tomei conhecimento da fama de criador de periquitos que Pereirinha tinha granjeado. Fomos comprar ração (Alimento, Vitamina, Comida, diz Pereirinha), coisa muito fina, escolhida meticulosamente. Composição, componentes, prazo de validade, tudo examinado, principalmente se era produto transgênico, definitivamente proibido.

– Tem de ser alimentação muito boa, saudável, específica. Estou levando alpiste, xerém de milho branco, aveia, combinados no ponto certo, alguns são importados. Brasileiro, como sempre, só faz porcaria. Se alimentar meus periquitos com qualquer coisa fabricada em fundo de quintal, sem controle de qualidade, mato o coitadinho na hora.

Ao passar pelo verdureiro, Pereirinha seleciona molhos de chicória e espinafre, verdinhos, úmidos, frescos, algumas espigas de milho verde, com os grãos macios ainda em crescimento. Pelo capricho pensa-se numa boa salada, mas são itens da dieta dos periquitos.

– Você precisa ver a farra que eles fazem com a chicória, o milho, o espinafre. Ao contrário do que dizem, não é bom pra o periquito comer alface, pois dá diarreia, maltrata o bichinho. Dá-se acelga, chicória, espinafre, que é amargoso e picante, com ferro, vitamina C, só faz bem. Alimento muito especial, iguaria igual à feita pra gente. Quando estão na cria o cardápio é reforçado com cálcio, pros filhotes crescerem fortes.

Pereirinha começou a lengalenga interminável. É um vasto conhecimento sobre periquitos. Por fim me arrastou pelo cotovelo pra ver a criação dele. Lá fui. Chegando a casa, Pereirinha me empurra direto pra cozinha, dali pra área nos fundos. Ele é aposentado e mora só. Não tendo o que fazer, dizem, Pereirinha se casou com periquitos.

De passagem vejo a pia cheia de panelas, copos e pratos por lavar. Recende o cheiro de cigarro e gordura queimada. Pereirinha escolhe a panela limpa, põe um bocado de água filtrada, salpica pitadas de bicarbonato de sódio. O cenho se franze, Pereirinha rosna: Faço isso pra tirar o veneno que esses agricultores de merda botam na verdura. Deixa a chicória e o espinafre de molho e vamos em frente.

– Vem ver minha família, diz orgulhoso. Muita gente cria periquitos em casa, mas os meus são sem igual. Se você tivesse máquina de fotografar, aposto que ia tirar uns retratos. Ninguém resiste ao colorido, à beleza das penas, ao arco-íris de algodão, à plumagem celestial. Veria como eles, ao se verem fotografados, fazem pose que nem gente.

Atravessamos a sala desviando de jornais velhos, sapatos, meias, cinzeiros, tralha de casa de solteiro. Pereirinha vai ajuntando o que pode aos montes sobre o sofá velho, nos móveis. Fica satisfeito com a arrumação. Ao lado tem uma varanda coberta, cheia de vasos de plantas que cresceram sozinhas, com pouco trato. No outro extremo a gaiola enorme se destaca no ambiente. 

– Aqui moram meus entes queridos, casa de gente limpa, asseada que nem a nossa.

– Que gaiola bonita! Vou de novo pelo caminho errado. O viveiro (fui prontamente corrigido), exceto a sujeira natural dos pássaros, é uma beleza. O alumínio polido brilha. Pra aprender a lição o ouço repetir mil vezes viveiro, viveiro, viveiro, tratando a gaiola como algo organizado nos moldes humanos.

– Pode elogiar, não é um lindo viveiro? Verdadeiro palácio. Aqui é a sala, ali são os quartos, suíte com sanitário, nos fundos o ninho. Nota que não se vê sujeira deste lado? É a piscina pro banho diário, os periquitos são mais asseados que muitos de nós.

O viveiro cintila de limpeza. Ao nos aproximarmos quatro ou cinco casais de periquitos fazem algazarra, pipilam sem juízo algum, trino coletivo, arruaceiro, com o poder da sirene de carro de bombeiro, ambulância, capaz de arrepiar qualquer tímpano. Fico admirado com a variedade de cores. Eles são amarelos, azuis, verdes, cinza-prata ou a combinação dessas cores. Estão sempre aos pares. Faço o elogio da beleza, Pereirinha reage feliz.

– Sabia que você ia gostar. Mas acredita que os periquitos tinham uma só cor? Eram todos verdes, tantos os australianos quanto os brasileiros. Mas a criação científica, alimentação apurada e rica, o cruzamento contínuo, resultaram matizes diferentes, de grande variedade. Hoje as feiras, exposições e campeonatos, distribuem prêmios para os mais bonitos e bem sucedidos cruzamentos. O ineditismo é ponto relevante, a cada ano surge novo matiz, a seleção se torna mais rigorosa, tudo é registrado, as associações têm um banco de dados mundial.

Rendo homenagem emocionada ouvir Pereirinha conversar com os bichinhos, chamar um a um pelo nome, com intimidade, ver como ele se transforma em criança. Acreditem, eles dialogam e respondem, beliscam os lábios de Pereirinha como se beijassem, aproximam-se arriando o cocuruto pra ser acarinhado, saltitam pra lá, pra cá. Uma festa!

– Pega ali a tesoura, por favor, Aníbal. A criação pra ser perfeita tem de ser aos casais. Sempre. Porque o periquito é que nem gente. Se deixar o macho solteiro ele vai dar em cima da parceira do outro. E como nós eles são ciumentos, briguentos, agressivos, alguns lutam até a morte. 

Vou lá dentro buscar a tesoura, varro o ambiente, os cantos, não acho. Olho a sala toda, os móveis, debaixo dos livros esparramados, garrafas de cachaça, o bar empoeirado. Nada. Essa tesoura deve estar numa pirâmide do Egito, aqui é que não encontro. Pereirinha me ouve e responde: Vê se não está na gaveta, aí, na de cima. A gaveta tem de tudo, botão, fita cassete, maço de cigarros vazio, rolha de cortiça, resultado de jogo de bicho, caixa de fósforos e, heureca, uma tesoura.

– Achei! Achei! Gritei como se tivesse alcançado o topo do Monte Everest.

Pereirinha pega a folha de papel pardo, mais outra, apara as pontas na medida do viveiro. Os periquitos sabem da limpeza, se alojam educadamente na parte superior da gaiola. Ficam observando, os olhinhos espertos, enquanto ele faz a troca, tira a folha que está molhada, suja de cocô, resto de comida, penas. Enquanto trabalha Pereirinha conversa ora comigo, ora com os periquitos.

– Já ouviu falar em ovo atravessado? É ver uma periquita de cabeça arriada, triste, jururu, está de ovo arriado, atravessado. Pra bichinha não sofrer tanto, o jeito é dar um pouco de óleo vegetal, mamona, soja, óleo de oliva é melhor, botam umas gotinhas no bico, outras no cu, pra azeitar. Fica boazinha, pode crer, periquito é quem nem gente.

Chega a vez dos alimentos. Os recipientes são retirados, lavados, secos e postos de novo nos lugares. A água dos bebedouros é trocada. Use sempre água filtrada. Sou convidado a colocar no viveiro o espinafre, a chicória, que estavam de molho, o milho verde. Bote em locais opostos, pra não haver disputa. Lembro que são como gente: se a fome ataca é que vira bicho, dá briga, até morte.

– A periquita sofre igual à mulher. Tem problema de o feto vir atravessado, com os pés pra baixo. Mas tem médico que sabe tratar. Às vezes o criador tem de ser o médico da periquita. Na minha criação só aconteceu com uma fêmea que perdi. Tive de arranjar namorada nova pra o viúvo. Deu dó...

Como Pereirinha havia antecipado, a festa dos periquitos é total. Primeiro se enroscam entre as folhas de chicória e espinafre, depois começam a bicá-las com prazer, pulam de um lado a outro, os casais trocam de lugar, uma ou outra vez algum expulsa o invasor que provocou o desequilíbrio na divisão da comida. No demais, tudo transcorre em ordem. Como gente.

– Agora bem que merecemos um cafezinho. Ou uma cachacinha ou os dois. Daqui a pouco estarão se banhando na piscina. É aquele reservatório maior. Respinga água pra todo lado. Chega mais. Vamos lá pra dentro. Você lê o jornal enquanto esquento o café, preparo tira-gosto pra a cachacinha. Esta é do interior, coisa de primeira. Vamos deixar a meninada se divertindo como gente.

Enquanto Pereirinha cavouca os trambolhos em busca da cafeteira, sento no sofá entre pilhas de coisas, papéis, objetos indefinidos. O jornal é velho, não leio. Espio o quarto de dormir pelo desvão da porta, na penumbra, a cama desarrumada, travesseiros amassados, lençol jogado pro lado, guarda-roupa com as portas abertas, camisas, cuecas, calças largadas a esmo, a TV em cores com antena de chifre, rádio e toca-discos.

– Então, que achou dos meus pupilos? São lindos não são? Gosto tanto deste plantel que vou inscrevê-lo no próximo concurso internacional. A medalha está garantida. No mínimo menção honrosa com medalha e diploma. Periquiteiros de todo o mundo vão se babar, porque o meu elenco tem os melhores conceitos: excelentes dedos e unhas, plumagem exótica, multicor, formação e linhagem nobre. Qualidade de cabeça, balanceamento, máscara, tudo beirando a perfeição.

Fica discorrendo um bocado sobre a arte de criar periquitos. Aceito o cafezinho, recuso a cachaça, mordo uma castanha de caju, depois é hora de ir. Pereirinha me acompanha até a porta, sinto o braço amigo sobre meus ombros, o tema da despedida é o mesmo: periquitos.

– Seria ótimo você montar um viveiro em casa. Vai se sentir bem e terá sempre companhia de alguém pra conversar. Ao despertar a periquitada deixa a gente alegre, disposta, pronta pra enfrentar as chatices do dia. Verdadeira terapia pode crer!

Não demonstrei a receptividade e empolgação que Pereirinha esperava. Atravessamos o pequeno jardim tratado com o mesmo desleixe, a velha roseira que disputa espaço com espada de São Jorge, os papéis trazidos pelo vento brigam com o capim e a hera, pra ele é como se todos fossem possuídos de igual beleza.

– Vai por mim Aníbal, não seria mal ter viveiro em casa. Acaba problema de pressão alta, falta de companhia, alguém com quem conviver. Vai se sentir realmente bem. Ânimo! Se tiver dificuldade, dou todas as dicas e com pouco tempo estará ganhando prêmios. Trocamos um abraço. Pensa bem na minha sugestão, vai ser ótimo.

Fico chateado por decepcioná-lo, mas como explicar que mal sei cuidar de mim e, definitivamente, não consigo compreender o ser humano, como poderia tratar e entender os periquitos?  O portão enferrujado geme, Pereirinha volta pra casa, direto ao paraíso. Antes de chegar à esquina ouço Pereirinha falar com seus pupilos, elogiar a beleza das mocinhas, repreender quem abusou do banho e molhou o papel recém-trocado. Entre ruídos, beijinhos, sorrisos, um pipilar alegre sobressai: é Pereirinha falando a fala deles – agora ele próprio é periquito.

Os periquitos que Teresa jamais viu...
               
Com Teresa não foi diferente. Encontraram-se de manhã cedo na padaria. Entre o bom dia e o até logo, Pereirinha convenceu Teresa de ir ver seus periquitos. Foi. Mas em lá chegando sequer passou do quarto. Mas seu Pereira, isto é jeito de deixar um quarto? E começou a azáfama, foi trabalho de dar dó, Pereirinha tentou, mas não foi dispensado: sem um mais nem menos, se viu envolvido no turbilhão de coisas a fazer.
               
Que periquito que nada! Era dá um pano cá, joga a tralha no lixo, limpa os cinzeiros, traz balde d'água, vassoura, escancara a janela, cuidado com a poeira, ordens tais enfim que Pereirinha jamais se deu conta que houvera de escutar. Não sabia se chorava ou ria, se negava ou obedecia. Por fim, rendido, abaixou os olhos, se entregou àquela mandona de olhos verdes, cuja voz começava a soar igual às valsas. Pereirinha sorriu feliz.

– Amanhã volto pra ver os periquitos. Teresa se despediu no portão, deixou Pereirinha na aflição de dar dó, como namorado de primeira viagem.

A limpeza imaculada deixou-o com medo de entrar no quarto. Isso que é mulher! - dizia consigo mesmo ao ver o quarto em ordem. Achou graça na arrumação, exatamente do jeito que ele gostava, o modo de pegar as coisas, a mesma ordem, o cinzeiro no lado direito da cama, o controle da TV, o jornal dobrado, revistas arrumadas em pilha, discos separados por tema.

A janela escancarada deixou entrar um raio de sol que jamais havia visitado tais paragens.  Pereirinha viu guardado com carinho tudo sobre sua criação: cartazes das exposições, fotos com amigos, recebendo prêmios, fazendo discursos. O que mais o deixou feliz, de boca aberta, abestalhado como pirralho diante de Papai Noel foi ver os quadros pendurados, diplomas, prêmios, menções, recortes de jornais, notícias em revistas, que constituíam a vitória e a glória dos periquitos.

A iluminação natural que invadiu o quarto abalou a imaginação de Pereirinha, que passou a ver tudo como se fosse cena de novela, teatro ou cinema. A magia, o milagre, o paraíso. Aquele contraste gritante entre o quarto e o resto da casa operou o prodígio. Pereirinha, lembrando os olhos verdes de Teresa, a voz musical de Teresa, as ordens peremptórias de Teresa, ajoelhou-se em agradecido silêncio, como um cavaleiro andante. Pereirinha estava apaixonado.

No dia seguinte se encontraram de novo na padaria, seguiram a rua deserta conversando. Teresa não pôde cumprir a promessa de ver os periquitos. Entrou na casa e mais uma vez não passou do quarto. Arrumou o que estava desarrumado, sem censurar. Elogiou o jeito de Pereirinha ao manter a arrumação. Pouco tinha a fazer, sentou-se na cama, tomou café, viu Pereirinha adorando-a mudo. Sentindo-se amada, Teresa arregalou os olhos verdes, despiu o vestido sépia de flores amarelas e se deitou. O sol pintou as paredes de ouro, os periquitos fizeram silêncio.

Daí em diante Teresa jamais deixou de encontrá-lo. Todo santo dia faça chuva ou faça sol, os dois vão à padaria, depois de tomar café, voltam juntos pra casa. Em caso de desencontro, ela ia direto pra casa, entrava no quarto, via o que tinha de fazer, largava os olhos verdes na face púrpura de Pereirinha e se despedia com um sorriso emocionado. Amanhã volto pra ver os periquitos. Voltava sempre, mas nunca viu.

Pereirinha sobe aos céus...
               
A rua inteira acordou com o alarido que vinha da casa de Pereirinha. Eram sete horas da manhã, os periquitos soltavam gritos num coro uníssono. Teresa, que ia pra a padaria, correu, chegou primeiro. O coração pulando. Outros vazaram pelo jardim abandonado, pisando nas rosas, quebrando as espadas de São Jorge, enterrando capim, até abeirar o degrau da varanda. Foram abrindo a porta, que Pereirinha nunca fechava. Ele nada tinha pra ser roubado. Quem iria querer um montão de periquitos que consome toda sua aposentadoria? Os vizinhos vinham aos poucos. Dona Maricota encontrou Aníbal no portão de Pereirinha. O que houve? O que foi? O que não foi? Ao ver o movimento mais pessoas chegavam. Vamos ver? Vamos saber?

Entraram esbarrando na espantosa cena: a sala estava toda tomada. Havia periquito em todo canto, sobre o sofá, na mesinha de centro, voando de cadeira a cadeira, nos espaldares, estantes. Muitos estavam esmagados pelo corpo de Pereirinha, sangue e penas se misturavam coloridos. Outros estremeciam com as patas quebradas, asas partidas, bicos rotos. Os livros, revistas e jornais se espalhavam picotados pelas avezinhas agitadas e pululantes, sujando tudo, provocando o bramido que alardeava pela rua. As aves aproveitaram a porta aberta e circulavam pelo jardim, pousavam no muro, no chão beliscando insetos, sementes de capim.

Na ânsia de chegar ao quarto, Teresa pulava raivosa sobre os pássaros. Não se contendo, gritou: Pereirinha! Ninguém acudiu. Passou da sala pra cozinha, de revés entreviu o quarto às escuras, no lusco-fusco viu a desarrumação, o corpo de Pereirinha na cama, sobre ele, sobre o lençol, no chão, em cima da cômoda, quantidade inumerável de periquitos. No quarto, pequeno e fechado, o alarido era mais ensurdecedor. Teresa estancou diante da cena. Chorou.

O silêncio tomou conta de tudo. Ouvia-se a respiração nervosa dos presentes. Teresa fungou, os olhos verdes marejados. Uma voz suspirou mais alto: Coitado! Dona Maricota se lembrou de botar comida pra os bichinhos. Como se tivessem combinado, os periquitos voltavam pra gaiola, atraídos pelas folhas de chicória. Logo, logo estariam todos trancados nos viveiros. O cuidado de se alimentar calou-lhes o bico. Ninguém notou Teresa, com as mãos trêmulas, fechar os olhos entreabertos de Pereirinha.

Antes de sair Aníbal tratou de arrumar a casa no que podia, fechou armários, guardou roupas, meteu o lixo no saco plástico. Deixa que eu cuide disso, disse Teresa. Pegou uma vassoura e começou a limpar a sujeira. Pontas de cigarro, latas de refrigerante, restos de comida. Fazia as coisas mecanicamente, mas os pés andavam por terreno sobejamente conhecido.

Aos poucos a gente foi saindo. Teresa, pálida, ao lavar a louça nem reparou as lágrimas que caem e se misturam ao detergente. 
Rio de Janeiro, Cachambi, 2003/2016