segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mario Martins Meireles-São Luís, minha terra...

Foto: Marko Itapary

Hoje em dia, com o advento e predomínio dos transportes aéreos, o visitante chegado de avião desembarcado no Aeroporto do Tirirical, a treze quilômetros da cidade, entra em São Luís pelos fundos. Atravessa-a de ponta a ponta, desde os arrabaldes e subúrbios mais afastados, inclusive a pinturesca vila do Anil a meio caminho, até alcançar o coração da cidade, a tradicional Praça João Lisboa, até chegar à sala de visita da urbe, a modernizada Avenida Pedro II.

Não era assim, porém, quando o meio de comunicações ordinário e único era o marítimo, quando se lhe vinha, na colônia, no império e na primeira república, embarcado obrigatoriamente num veleiro de muitos panos ou num navio a vapor, que demandava o porto no fundo do golfão.

A ilha, que Aires da Cunha conhecera em 1535 como da Trindade, tal como a conheciam os franceses no século XVII quando nela vieram instalar a França Equinocial, que já fôra das Vacas e pretendera ser de Todos-os-Santos, mas que para os tupinambás nativos era simplesmente Upaon-açu – Ilha Grande, repousa no fundo do golfão que é tríplice desaguadouro do Munim, do Itapicuru-mirim e do Mearim, com o Pindaré seu afluente, formadores da mesopotâmia da baixada mara­nhense, de ubertosas terras; golfão que ela reparte em duas baías – a de São Marcos, ao poente, a de São José, ao levante.

O navio que nela entrasse, como ainda hoje, demandando ancoradouro no porto que os franceses de La Ravardière chamaram de Santa Maria, viria pela de São Marcos, com a ilha à esquerda, o continente à direita.

E na ilha, do convés de bombordo, o visitante veria se suceder urna sequência infinda de estendais de areia, limitados por insuladas falésias que os apartam, cada qual mais belo – as praias, dentre as mais formosas de todo o litoral nordestino brasileiro, de Araçagi, do Olho de Porco, de Jaguarema, do Olho d'Água, do Calhau e, por fim, da Ponta d'Areia que, com a pequena Ilha do Medo defronte, assinala a entrada da barra. E olhando-as à distância, pensar-se-á como serão, mas belas na extensão quase imensurável de suas areias e com suas muitas dunas: se à luz do dia, sob o sol causticante, se à meia luz da noite, sob o palor da lua, se mergulhadas na escuridão misteriosa das noites de muitas estrelas!

Do outro lado, no continente a estibordo, na fímbria do horizonte, veria a silhueta da vetusta e senhoril cidade de Alcân­tara, levantada nos chãos da nativa Tapuitapera, capital da donataria de Cumã no Estado do Maranhão e Grão-Pará; a veneranda Santo Antônio de Alcântara, hoje monumento nacional, de cuja praça principal, na esplanada que sobranceira ao mar é o ponto mais elevado do sítio, ergue-se, defronte à arruinada Matriz de São Matias, exemplar raríssimo e fielmente restau­rado, o Pelourinho, símbolo da autonomia municipal nos tempos do domínio lusitano.

E um binóculo o ajudaria, talvez, a adivinhar, entre as ruínas de São Francisco, do Convento do Carmo, do Palácio do Imperador, o perfil das igrejas do Rosário, do Carmo, da Casa da Câmara e do “Cavalo de Tróia”. E, no relampejo de uma fachada azulejada, ferida do sol ao perpassar da vista, veria – quem sabe! – o aceno amistoso de um convite a visitar a velha cidade prenhe da história de nossas melhores tradições, terra dos barões e dos estadistas do Maranhão Imperial.

A seguir, a entrada da barra, já dentro da Ilha-Grande.

À esquerda sempre de quem entra, na foz do Anil, o Maioba nativo, pela ordem – a Ponta de São Marcos, na ante porta, onde a luz de um farol mal deixa adivinhar onde ali fora o forte que anunciava, com os tiros de seus treze canhões, o número de navios que buscavam o porto; a seguir, a Ponta d'Areia, a antiga Ponta de João Dias, em cujas areias frouxas se afundam os alicerces da velha fortaleza de São Antônio, ini­ciada em 1691, guardiã intemerata da cidade e que teima em sobreviver, carcomida em suas cicatrizes pelas ondas do mar e esquecida embora dos homens na crônica de seus fastos glo­riosos; finalmente, a Ponta de São Francisco, jeviré dos tupinam­bás, onde, a seis de agosto de 1612, o Senhor Du Manoir, já aí de tempos estabelecida sua feitoria de corsário ofereceu lauto banquete de boas-vindas ao recém-chegado Senhor De La Ravardière  e seus nobres acompanhantes, e onde em 1720 foram lançados, no mesmo lugar em que em 1616 Alexandre de Moura fizera construir de pau a pique o Forte do Sardinha, os fundamentos da fortaleza do nome daquele santo, hoje igualmente desaparecida com suas vinte e uma peças de todos os calibres. Foi desta fortaleza de pau a pique, dita do Sardinha, que La Ravardière  datou, a 4 de novembro de 1615, o termo de sua rendição.
           
São Marcos, Santo Antônio, São Francisco, sentinelas avan­çadas desta São Luís do Maranhão e que a incúria e a sensibi­lidade das novas gerações não souberam conservar para a edificação dos pósteros e que o passar do tempo consome sob o peso dos anos!
           
À direita, na foz do Bacanga, ou melhor – Ibacanga, compondo a entrada da barra, a Ponta do Bonfim, onde hoje a Colônia Aquiles Lisboa de hanseanos, cujos chãos foram doados, em 1616, por Jerônimo de Albuquerque, primeiro Ca­pitão-mor da Conquista do Maranhão, à Ordem Carmelitana, cujo provincial em 1718, Frei Antônio de Sá, fez construir ali um hospício, hoje desaparecido. César Marques, incansável pesquisador de nossa História, aí não mais encontraria, em 1863, que uma lápide com estes versos:
           
Sabes já a invocação
Deste santo hospício? Sim.
É o Senhor do Bonfim,
Espelho do Maranhão,
Pois já vês, povo cristão,
Que se bom fim queres ter,
E a Deus bem parecer,
Te deves sempre compor,
À vista deste Senhor,
E dele espelho fazer.

Por trás da Ponta do Bonfim, a da Guia, doada aos carme­litas Frei Cosme d'Anunciação e Frei André da Natividade pelo General Alexandre de Moura quando da reconquista portuguesa em 1615, e onde existiu por muitos anos, nos primeiros tempos, a Ermida de Nossa Senhora da Guia, hoje também desaparecida como outras tantas relíquias e que se nos faria tanto mais valiosa porque em seus chãos, sugere Varnhagen, parece que uma voz íntima me diz que (...) jazem sepultados os veneráveis padrões da primeira tentativa frustrada de colonização do Maranhão.

Teria sido ali, então, que os sobreviventes do naufrágio da expedição mandada, em 1535, por João de Barros, primeiro donatário da Capitania do Maranhão, sob o comando de Aires da Cunha, estabeleceram a efêmera povoação de Nossa Senhora de Nazaré, na ilha a que chamaram de Trin­dade – como denunciado ao Imperador Carlos V, de Espanha, por seu embaixador Luís de Sarmiento, em Lisboa, por carta datada de 15 de julho de 1536. Denunciou-o porque, constara-lhe, os portugueses pretendiam, do Maranhão, ir à conquista do Peru!

Entre a pequenina ilha do Medo e a Ponta da Guia, o famoso estreito do Boqueirão, cujas águas traiçoeiras seriam as responsáveis pelo desastre de Aires da Cunha, em 1535, como pelo de Luís de Melo e Silva, o segundo donatário do Maranhão, em 1554, e que, passagem obrigatória dos veleiros e gaiolas que, de São Luís, demandam as vias fluviais que penetram o interior do continente e, por isso, sepultura de muitos deles pela força da correnteza sobre os escolhos que ali se escondem, fez-se temerosamente lendário entre os nossos homens do mar, tanto quanto para os marujos da Antiguida o fora o de Caribdes e Cila, na Sicília. Ali, no Boqueirão, passava-se em completo silêncio, as velas recolhidas, a boca muda, o ouvido surdo, que nada fosse despertar as Iaras que, se não lograssem encantar os navegantes com a sedução de seus cantos, enfureceriam as éguas e de qualquer modo arrastariam para as profundezas de seus domínios os incautos marujos.

Por fim, apontando sobre alcantilado promontório, no fundo da restinga formada pelo Anil e pelo Bacanga, como estreitado em carinhoso amplexo pelos dois ribeiros gêmeos, a cidade de São Luis, a terra das palmeiras onde canta o sabiá, a Atenas do Brasil – la petite ville aux palais de porcelaine, disse o visi­tante francês.

Enfim – São Luís, minha terra...

Notas:

Extraído de: São Luís, cidade dos azulejos-Deptº de Cultura do Estado-MA, 1964.

Mário Martins Meireles (1915-2003), nasceu e faleceu em São Luís do Maranhão. Professor desde 1940, fundou a Faculdade de Filosofia de São Luís, onde ocupou a cátedra de História. A Faculdade de Filosofia foi uma das instituições que deram origem à Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

Daniel de La Touche (1570-1631), intitulado Senhor de La Ravardière. Lugar-tenente General da Marinha Francesa do século XVII, fundou a cidade de São Luís em 8 de setembro de 1612.

Cavalo de Tróia – É assim chamado o casarão mais bizarro da cidade histórica de Alcântara, localizado à Rua Grande, no Centro Histórico. O prédio recebeu este nome por ser uma “esplendorosa edificação” que constituía orgulho dos proprietários.