segunda-feira, 12 de junho de 2017

Passaporte para o paraíso


Ivo Korytowski - Passaporte para o paraíso
Romance - Editora Fragmentos, Curitiba, 2017

A literatura está entulhada de depoimentos ficcionais ou memoriais, de emigrantes e exilados que fugiram dos horrores da guerra em busca de um futuro mais tranquilo. Entre a enorme massa humana que se movimentou por causa da guerra nazista os judeus se sobressaem, mas não foram a única classe perseguida: comunistas, ciganos, artistas, rebeldes, homossexuais, viciados, dissidentes – entre outros – navegavam o mesmo barco. Mas até hoje causa repulsa o tratamento inumano e violento empregado pelo governo nazista contra os judeus: a política ardilosa da solução final (cujas raízes estão no fim do império austro-húngaro) deixou-os num beco sem saída.

As opções seriam o exílio rumo ao paraíso ou à incógnita terra prometida – o Eldorado ou Israel. Na hora do desespero pouco importava o destino, mas a rota mais curta apontava para Nova York, a terra da promissão. Os antepassados de Ivo Korytowski, apesar do sonho da América (USA), vieram aportar no Brasil: não a Terra da Promissão, mas o desejado Paraíso. Devido à avalanche de histórias mais ou menos iguais, parece que Ivo Korytowski hesitou muito antes de publicar o seu relato pessoal. O texto também traz a ideia de que muita coisa ficou por ser dita.

Ao declarar peremptório que o livro não é um romance descarta a ideia de memória, mesmo sabendo-se que as duas expressões podem coexistir em paz. Ivo Korytowski não é o primeiro a se enredar ao classificar esse tipo de narrativa. Isaac Singer, atraído a New York pelo irmão, confessa: “Embora seja basicamente autobiográfico em estilo e conteúdo, Amor e Exílio certamente não é a história completa de minha vida. Na realidade a história verdadeira da vida de uma pessoa jamais poderá ser escrita. A história plena de qualquer vida seria a um tempo absolutamente aborrecida e absolutamente inacreditável”. (Amor e exílio, 1984). Melhor glosar Mário de Andrade e sacramentar: romance é aquilo que chamamos de romance...

O Talmude ensina que não existe recompensa no mundo material, só no mundo vindouro – ou seja, no paraíso. A recompensa para a mitsvot é o paraíso: os justos após a morte serão chamados de vivos. O paraíso não é o objetivo final e sim a ressurreição que ocorrerá após a era messiânica. No paraíso estacionam as almas que esperam a ressurreição (Nachmânides). Como seres dotados de livre arbítrio, temos chance de optar entre o bem e o mal. Deus pôs diante de nós a vida e o bem, a morte e o mal. Mas não se sabe se a vida é recompensa e a morte castigo. Isso tudo é só para dizer que Ivo Korytowski, dono de livre arbítrio e filósofo de formação, é livre pensador por opção e continua em busca do Paraíso.

De entremeio ainda no livro cabe espaço para especular sobre a existência e a vinda do Messias, a identidade de Jesus, a mística de ressurreição que, pelo menos para Machado de Assis, funcionou. Helena. Helena. Helena. Por que me deixaste? Exclama Ivo Korytowski em penúltima alegoria, pois também de alegorias é feito “Passaporte para o paraíso”. Talvez Alberto Dines tenha pensado algo assim ao escrever “Morte no paraíso” – não apenas a biografia de um escritor expatriado e infeliz, e sim um retrato de um mundo em transformação. No canal Arte-1 ainda sob a batuta do incansável Alberto Dines é possível assistir a bela série da TV “Canto do Exilado”. A série retrata a onda de perseguidos que entre 1933 e 1945 encontraram paz no Brasil e aqui plantaram sementes no campo do conhecimento.

Artistas, escritores, compositores, pintores, cientistas, poetas, passaram a figurar em nosso cotidiano deixando o legado do saber – porque tudo o que chegou foi dividido, expandido e compartilhado sem economia com os brasileiros. A Casa de Stefan Zweig (Rua Gonçalves Dias, 34 – Bairro Valparaíso, Petrópolis), oferece sessões dos documentários ilustradas com palestras de parentes, amigos e herdeiros. Ali se pode conhecer a trajetória do próprio Stefan Zweig; de Anatol Rosenfeld e Vilém Flusser; do compositor, flautista e mestre Hans-Joachim Koellreutter, que teve como alunos Cláudio Santoro, Guerra Peixe, Eunice Katunda, Edino Krieger e Tom Jobim.

A mostra inclui a história de amor e arte entre a portuguesa Maria Helena e o pintor húngaro Árpád Szenes, que viveram um idílio em Santa Teresa, Rio de Janeiro; documentário sobre Paulo Rónai, brilhante intelectual e ensaísta; a vinda de Emeric Marcier, apaixonado pela obra do Aleijadinho, que pintou, entre 1942 e 1947, à luz de velas, cenas de arte sacra no interior da capela da Santa Casa de Mauá – a "Sistina brasileira". Também são retratados: o maestro húngaro Eugen Szenkar, primeiro dirigente da OSB; a pianista Felícia Blumental e o marido Markus Mizne (íntimos de Villa-Lobos), a quem o compositor dedicou o 5º Concerto para Piano e Orquestra de 1954. E muita coisa mais.

A família, os antepassados, os descendentes de Ivo Korytowski, fazem parte dessa história. Por isso, no exato momento em que leio o seu modesto livro sinto como se estivesse assistindo a um episódio da série, agora eternizado em letras, entremeado de espantos filosóficos e com um tempero a mais! As relembranças de Ivo Korytowski detalham um fato até então camuflado sob o sigilo do pudor, do melindre, da vergonha ou da covardia: já naquele tempo era preciso molhar a mão da autoridade responsável para liberar o visto consular e abrir as portas da liberdade. O famoso jeitinho brasileiro é explícito na cena:

“Vou lhe fazer uma revelação que o surpreenderá, mas que é a pura verdade. Você só conseguirá o visto para seus pais se ‘molhar a mão’ do cônsul”. – Molhar a mão do cônsul? – perguntou Otto embasbacado. – Com um perfume?”

Tal era a ingenuidade que permeava o estrangeiro, pois não desconfiava que altos dignatários pudessem estar se aproveitando da desesperança, envolvidos em corrupção. Geralmente o suborno – propina como está na moda – era disfarçado a modo de presente, entregue direto ao corrupto ou para alguém da família – diplomata, consulesa ou embaixatriz. Uma obra de arte aqui, uma joia ali, uma antiguidade acolá ofertada num jantar e zás! – as dificuldades que emperravam a concessão sumiam como por milagre. Mas quem terá coragem de esgravatar tal ferida ainda mais sabendo que esses cargos eram ocupados por intelectuais reconhecidos?

Desde os tempos de Maquiavel que escritores e intelectuais serviam a seus países como diplomatas, cônsules, embaixadores. Aqui no Brasil sabemos que Joaquim Nabuco, Aluísio Azevedo, Antônio Houaiss, Raul Bopp, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Alberto da Costa e Silva, João Almino, Geraldo Holanda, Cavalcanti, Edgard Telles Ribeiro, André Amado, Vera Pedrosa, João Inácio Padilha, Adriano Pucci, Murilo Komniski e mais de uma centena foram e são escritores-diplomatas. Quem terá coragem de meter a mão nessa cumbuca?

PS. O historiador Roberto Lopes escreveu o livro “Missão no Reich - Glória e Covardia dos Diplomatas Latino-Americanos na Alemanha de Hitler” (Odisseia Editorial, 2008) no qual “relata episódios de heroísmo e covardia da diplomacia latino-americana”. Será que ele toca no assunto?


Rio de Janeiro, Cachambi, 12 de junho de 2017.