quinta-feira, 27 de julho de 2017

Denise Bottmann: Lima Barreto em tradução


Lima Barreto está nas manchetes. Por isso, saiu bem a propósito o artigo Lima Barreto em tradução, publicado em www.academia.edu, no qual a tradutora e historiadora da tradução no Brasil Denise Bottmann apresenta breve bibliografia das obras de Lima Barreto traduzidas, “no que foi possível apurar”.

A própria autora adverte que “em que pesem inevitáveis lacunas e omissões, este levantamento abrange a grande maioria das publicações de obras de Lima Barreto em língua estrangeira, em livro físico e/ou digital”. O inventário minucioso está exposto em ordem alfabética de idioma e, dentro de cada idioma, por ordem cronológica da primeira edição”. 

Eram muitas as queixas de Lima Barreto pelo boicote às suas obras, censura que ele tentou superar se candidatando três vezes (todas frustradas) a uma vaga na A.B.L. Ao ver-se marginalizado nos meios literários, a que tinha algum acesso, enfim ele percebeu que era vítima de discriminação. O menosprezo oficial alimentado pela A.B.L. virá perdurar até depois de sua morte. Quando recrudesceu o clamor da liberdade contra a ditadura, o silêncio imposto ao conjunto da sua obra começou a ser levantado.

Assim, foi a partir do exterior que começamos a redescobrir a importância da literatura de Lima Barreto, enquanto que em terras tupiniquins o autor de “O homem que sabia javanês” foi ignorado ou largado em segundo plano, pois todos os incensos voluteiam em torno de Machado de Assis. Por que será?

O levantamento de Denise Bottmann, como dito, é minucioso e deve ser lido por estudiosos e interessados em Lima Barreto. Para saber quê e como a obra dele foi traduzida para Alemão, Catalão, Chinês, grandemente para Espanhol, para o Esperanto (imagine!), muitas traduções também para Francês e Inglês, para Italiano, Japonês, Polonês, Romeno, Russo (apenas uma obra, mas a Rússia merece muito mais), Sueco, Tcheco e uma para Islandês, por Luciano Dutra, ainda inédita.

Isso para falar em traduções oficiais, impressas, mas, ainda segundo Denise Bottmann, “na rede encontram-se algumas traduções ou compilações avulsas, disponíveis apenas em sites ou blogs, como, por exemplo, Cuentos del Brasil em https://goo.gl/CE7emS. Acredito que existe muito mais, pois as pesquisas feitas no Google e outros motores de pesquisas em geral estão emparedadas pela “democracia e moral” norte-americanas, que são, como se conhece, verdadeira censura...

Em resumo, escreve Denise: “Agora, detendo-nos brevemente nos dados apurados sobre as edições publicadas em formato de livro físico e/ou digital, podemos esboçar o seguinte quadro: Publicações: Encontram-se 49 volumes com obras de Lima Barreto em tradução. Idiomas: As traduções de obras de Lima Barreto se encontram em 15 idiomas”. Ademais, o levantamento revela que as obras de Lima Barreto mais traduzidas são: O homem que sabia javanês e Triste fim de Policarpo Quaresma.

Denise Bottmann é a mais importante referência sobre tradução e a história das traduções no Brasil. Seus trabalhos revelam fatos inéditos, traduções reaproveitadas, tradutores fantasmas, editores picaretas, especuladores, sabichões, piratas, editoras desonestas que usam traduções alheias para ganhar dinheiro. Suas descobertas são extraordinárias e inacreditáveis.

Para encerrar o trabalho sobre a obra de Lima Barreto, Denise deixa as portas abertas: “Em conclusão, são vários os fatores que se podem inferir ou conjeturar a partir de tais dados, abrindo várias perspectivas de novas pesquisas sobre a presença de Lima Barreto no exterior. O que fica claro é que Lima Barreto nunca esteve tão vivo quanto no século XXI”. Mãos à obra, pois!

Em 1917, de 26 a 30 de julho, realiza-se em Paraty – Rio de Janeiro a 15ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty – Flip onde o homenageado é justo Lima Barreto. Em entrevistas divulgando o evento os organizadores ressaltam as pedras no caminho da realização da feira devido à crise financeira que assola o país, resultante do assalto ao patrimônio público engendrado há décadas por políticos e empresários corruptos.

Sabendo-se que uma das tradições da Flip era trazer famosos convidados estrangeiros e brasileiros, que andam no topo das listas de vendas de best-sellers – por isso mesmo de cachê bem remunerado – deduzo que o convite mandado a Lima Barreto está conforme as necessidades atuais da economia de cinto apertado. Afinal, ele não estará presente para agradecer os aplausos, nem para receber cachê e direitos autorais, posto que a sua obra seja de domínio público.

Estou aqui com o programa do evento à minha frente. Minha primeira decepção é que não vi Denise Bottmann relacionada. Seria um acréscimo que iria enriquecer o falatório em torno de Lima Barreto. Vejo também que a abertura foi no dia 26 de julho com o tema Lima Barreto: triste visionário, apresentado por Lázaro Ramos e Lilia Schwarcz, sob a direção de Felipe Hirsch. Não vou comentar sobre os participantes, embora devesse. Mas “triste visionário”? Ah, caralho, não fode!


Rio de Janeiro, Cachambi, 27 de julho de 2017. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

14 Anos sem o Campeão José Másculo (1959-2003)

Por: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

“Teu roque, esse sarcófago vazio,
de vencidos peões vermiculares,
exposto ao mal de um xeque doentio,
espalha incenso triste pelos ares.”
- Hélder Câmara (1937-2016)

(Foto Flávio Rodrigues)

Em 15 de julho de 2003, vítima de câncer, falecia o enxadrista carioca José Soares Másculo, com a idade de 44 anos. Nascido em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, era advogado e contador. Foi tricampeão carioca juvenil, bicampeão brasileiro juvenil, duas vezes vice-campeão pan-americano de xadrez (1978/79), e aos 17 anos figurou entre os dezesseis melhores do mundo.

Cria do Clube de Xadrez Guanabara, Másculo representou o nosso país em diversas competições internacionais. Para ele o xadrez não se constituía apenas em um jogo, mas também em arte e ciência. Arte, porque através dele o homem extravasa a sua capacidade criadora, e ciência, porque o seu caráter lógico-matemático dela o aproxima. Por isso mesmo, é o xadrez adotado em escolas como um recurso auxiliar na educação juvenil. Aliás, são os jovens os que mais podem se beneficiar com a sua prática. A idade inicial para se iniciar uma criança no enxadrismo varia entre sete e doze anos.

A grande importância do enxadrismo, dizia Másculo, está no fato de que ele inevitavelmente conduz o seu praticante ao hábito da análise e da reflexão, tendo que avaliar as consequências de ações próprias e alheias. Responsável por uma pioneira escolinha de xadrez para crianças, em 1986, no Clube de Regatas do Flamengo – na maior renovação já conhecida pelo enxadrismo carioca –, afirmava que quem era bom no xadrez poderia ser bom em qualquer outra área, por causa da capacidade de concentração adquirida com ele.

Em um sistema educacional como o nosso, onde o ensino da filosofia foi abandonado e o aprendizado muitas vezes se resume em decorar fórmulas, o xadrez vem a fazer um bem. A importância do hábito de pensar é tão grande que a poderosa empresa de tecnologia da informação, a IBM, tinha a palavra “Think” (Pense) como lema – criado em dezembro de 1911 por seu fundador Thomas John Watson (1874 – 1956).

Ninguém precisa possuir um QI altíssimo para jogar xadrez, no entender do geminiano Másculo, um jogo até fácil. Basta um pouco de prática para qualquer um poder se beneficiar desta verdadeira ginástica intelectual e curtir horas agradáveis de lazer.

“O xadrez é um jogo de habilidade. O enxadrista mais hábil derrotará sempre o menos hábil. Esta habilidade, que é o segredo do jogo, se desenvolve com a prática e o estudo. Não há casos de habilidade alcançada somente com a prática ou apenas com o estudo. Neste peculiar o xadrez iguala-se a qualquer arte e ciência.”

“A habilidade individual, o poder de concentração, a capacidade de antecipação, a experiência, as manobras táticas, a estratégia e, sobretudo, a paciência e a tranquilidade influirão decisivamente no resultado final da partida.”

Moção da câmara em 1990

No Plenário Teotônio Villela, em 20 de abril de 1990, o vereador Túlio Simões (1957-), então líder do antigo PFL, na forma regimental, fez constar nos Anais da Câmara Municipal, “um voto de congratulações com o enxadrista carioca JOSÉ SOARES MÁSCULO pelo trabalho que vem desenvolvendo em prol da divulgação do xadrez no Rio de Janeiro, com o objetivo de conquistar um espaço para esta importante modalidade de esporte” (...).

“Como Parlamentar, como desportista amador, e principalmente como cidadão carioca, faço lavrar para sempre, nos Anais desta Egrégia Casa Legislativa, o nome de JOSÉ SOARES MÁSCULO, fazendo deste registro, o símbolo da admiração de todos os Cariocas, que nesta Colenda Câmara tenho a honra de representar”.

O amigo de praia

Conheci José Soares Másculo, o Zé, em 1987. Fui seu divulgador e amigo. Era um extrovertido parceiro de frescobol e aventuras nas praias de Ipanema, Diabo e Copacabana (Posto Seis) – praticou também futebol, surfe, peteca, vôlei e gamão, e ainda corria na areia.

De acordo com Másculo, “o xadrez fora inventado pelos povos árabes que viviam em guerra no deserto como forma de planejar melhor os ataques. Ao longo dos séculos o jogo foi sendo aperfeiçoado e hoje há verdadeiras teses sobre a melhor defesa”.

Em 1990, aos 30 anos, ensaiou uma volta aos torneios internacionais. Almejava a conquistar o título de Grande Mestre Internacional e tinha projetos de implantar uma Academia de Xadrez – a primeira do Rio de Janeiro – na sede de esportes aquáticos do clube Botafogo, no Mourisco. Queria ressuscitar o esporte em nosso estado. Lia mensalmente mais de dez publicações internacionais especializadas em xadrez.

Nessa época, namorava a Rose, que colaborava com ele na direção da tradicional Casa Soares, de bolsas femininas – herança do avô –, localizada na Rua Sete de Setembro, no Centro. O casal residia então em um pequeno apartamento na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, ao lado do Café Lamas.

Másculo partiu muito antes de sua hora. Não conseguiu evitar o xeque-mate que lhe impôs o mais temido, perigoso e traiçoeiro adversário que enfrentou: a Morte. Em outra dimensão, certamente deve estar aninhado aos braços de Caíssa, a deusa poética do enxadrismo. Ou, quem sabe, disputando animadas partidas de xadrez com o Criador.
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Registros póstumos de Másculo
CHESSGAMES.COM
JOSE SOARES MASCULO
Born Jun-02-1959, died Jul-15-2003, 44 years old, Brazil
Jose Soares Masculo
Number of games in database: 13
Years covered: 1977 to 1991”.
Overall record: +1 -7 =5 (26.9%)
Overall winning percentage = (wins+draws/2) / total games
Based on games in the database; may be incomplete

KIBITZER’S CORNER (Chessgames.com)
From Rio de Janeiro (*2.6.1959/†15.7.2003 ) Two times brazilian Junior Champion, played in two World Junior Ch 1977 and 1978, and some Opens and IT in Europe and USA. Not a pro full time, but his activities as trainer, teacher and player were remarkable - notably in the Flamengo Club from his native city. Always had a fragile health.

365chess.com
Masculo, Jose Soares
Years: 1977 - 1991
Total Games: 128
Wins: 41 (32,03%)
Draws: 53 (41,41%)
Losses: 34 (26,56%)
Score: 52,73% 

"Assim que o jogo acaba, o Rei e o Peão voltam à mesma caixa." - PROVÉRBIO ITALIANO