sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O dia em que Jardel Filho quase morreu

Foto: Memória Globo
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Ele estava deitado, de olhos fechados. A respiração normal, o peito forte subindo e descendo regularmente. A camisa era alva como todo o enxoval da cama e contrastava com os cabelos louros do peito e os já alvejados nas têmporas. Um tubo de plástico enfiado pelo nariz tirava um pouco da sua beleza naquele momento. Entreabriu as pálpebras com alguma lentidão e com dificuldade seus olhos muito azuis apareceram. As sobrancelhas um pouco hirsutas, eriçadas, se levantaram e ele pôde enfim me ver.

Eu estava só.

Ameaçou um sorriso que foi proibido imediatamente com o tradicional sinal de silêncio juntando o dedo indicador nos lábios. Fez que entendeu com movimento lerdo. Sem querer andamos usando a linguagem muda para dizer que estava tudo bem (polegar para cima e a mão fechada), para pedir que não se movesse (mão espalmada para frente), para mostrar que já ia embora (movimentando a mão no sentido horizontal para lá e para cá), ate que recebi o olhar afetuoso de agradecimento pela visita, por tudo o mais, o qual achei por bem repelir como quem diz: “que é isso compadre, para nós não vale”, ou coisa parecida.

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Eu o levei ao hospital. Há poucas horas ele havia comentado com a mulher que iria descansar um pouquinho, mas o que fez foi descer e se lamentar para mim da dor intensa que sentia no peito. Falou calmamente como quem não quer assustar a ninguém (acho que agiu da mesma maneira lá em cima).

O que me veio na mente de imediato foi: infarto. Mais algum instante depois estava com o carro de um amigo levando-o ao hospital. Justificava a medida como “preventiva”, e na verdade era, pois alguém havia de pensar em ataque assim tão de repente? Os médicos ao primeiro exame se assustaram um pouco. Sem querer dar tal impressão ao paciente importante, como e de hábito.

Logo foi internado (por precaução e para exames mais profundos) e esta visita me foi concedida como um prêmio pelo fato de tê-lo trazido até ali. A todos os demais por enquanto as visitas estavam proibidas. Mas em breve muita gente estaria ali. Familiares, imprensa, TV. E não sairiam a não ser com a boa notícia da alta ou outra mais chata. Mas repórter é repórter. E foi assim, com esses temores, que me despedi dele. Na verdade, segundo um médico, eu o salvara da morte e não sabia.

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O queixo fendido ao meio, o jeito alemão, o nariz longo, davam-lhe certo ar de Karl Maden que o sorriso só confirmava. Antes de sentir tantas dores andou fazendo uma novela com nome de óleo de bronzear. Eram fragmentos de sua própria vida, narrados através do personagem que representava e das pessoas que com ele conviveram ou tiveram passagem relembrada em momentos de angústia, agora juntados num só vitral como cacos de vidros coloridos colados cuidadosamente um a um.

As dores no peito com reflexos desordenados em todo o corpo confundiram-no por surgirem assim em pedaços não tão coloridos, cacos negros da morte. Graças a Deus esta a salvo! Na verdade está deitado num leito de hospital, provavelmente se sentindo muito mal não tanto pela doença, mais por estar ali paralisado, estático, como nunca gostaria de estar, ele que sempre foi dinâmico. O peito arfando conformado, num sobe-e-desce irregular, pessoas ao redor falando em sussurro.

A visão cansada me confunde e o que vejo são muitas flores, cuja presença os médicos decerto condenarão – ou serão tubos plásticos conduzindo soro ao organismo debilitado? Eram médicos e enfermeiros que davam socos para fazer o coração retornar ao ritmo habitual ou era Betty Faria que, chorando desesperadamente, batia incontrolável os punhos em seu peito aos gritos, aos lamentos?

“Acorda, acorda! É tudo mentira, mentira! Você está apenas dormindo”.

Mas como podiam fazer tanto barulho num hospital, fotógrafos com flashes, as câmeras da TV, sem respeitar nem menos os doentes, mesmo que se trate de ator famoso?

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Ontem mesmo ele me dizia: “Já vivi mais de mil vidas no teatro, na TV, no cinema, mas esse Heitor, esse Heitor desta novela é a mim inteiro que retrata, eu mesmo”. Por isso não creio no que andam dizendo por aí. Claro que ele vai estar bem daqui a pouco e retornar ao trabalho, ao casarão, dar uma grande festa ou farto almoço para espantar a sombra da morte.

Comemorar a volta, não dele mesmo, mas do Heitor que e seu outro eu. E voltará sem queixumes, sem acusar as dores que atormentam internamente, como que para confirmar aquilo que um dia afirmou: "O artista vive mais de dor e suor que de glorias." Ele sabe que, terminada a novela, o telespectador no dia seguinte logo a esquece. Para ele assim também é a dor que o acompanha: coisa normal e faz parte da vida.

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Volta e meia, numa conversa fiada, eu lhe dizia: "Alemão", você já é famoso, realizado, poderia se aposentar e gozar um pouco a vida. Ele voltava os olhos azuis faiscando como se tudo aquilo fosse um insulto e me dava o troco com aquela frase da “dor”, “suor” e “glórias”. Ou então falava: “O sucesso é apenas uma palavra que deve ser pronunciada sempre entre aspas”. É claro que isso era dito de modo simples, sem a pretensão da eternidade, de maneira natural, coisa que saía fluente como predestinação.

Nesses momentos gostava também de recordar as boas representações tanto no teatro quanto no cinema e TV. Crescia-lhe certo orgulho, quase vaidade, saber – às vezes pelos próprios colegas – que tinha se saído muito bem num determinado trabalho. O mesmo ocorria quando afirmava ser monogâmico. Se é que tinha vaidade era só para essas coisas. A gente percebia depois que a monogamia anunciada era apenas fidelidade a si mesmo. Uma monogamia apenas para cada momento e para cada mulher, à qual se entregava total e amplamente. Uma monogamia, se e que se pode chamar assim, simultânea, múltipla.

Mas isso é porque se via claramente que seu coração era enorme e tinha amor para dar a muitas pessoas, a muitas mulheres. Inesgotável fonte de amor e carinho.

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Era uma lágrima cristalina. Eu vi. A claridade do lado oposto iluminou-a saindo do olho verde da Carla Camurati, escorregando lentamente na face, deixando um rastro úmido. Depois de uma pausa no canto dos lábios a gota d’água se perdeu absorvida na manga da camisa de malha.
        
“Não se preocupe Carla, pensei tentando consolar â distância, ele esta bem e logo ficara bom”.
        
Como que compreendendo minha atitude ele sorriu com o canto da boca um riso maroto. Assenti de modo imperceptível e em resposta dei uma piscadela cúmplice.

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Não falei? No dia seguinte (ou alguns dias depois?) lá estava ele lépido e fagueiro no vídeo, nas salas de milhares de casas em todo o Brasil, penetrando na intimidade dos lares, modificando um pouco a atitude de muitas pessoas. Bom. Lépido e fagueiro é certamente exagero, força de expressão. Via-se expressar no rosto certo cansaço que não era normal, e nos gestos um grande esforço para os menores movimentos, que contradizia o seu espírito desenvolto. 

Sentava-se mais frequentemente quando estava no cenário e foi curioso saber depois que numa cena de muitos abraços e apertos teve de sussurrar ao ouvido de Toni Ramos (que fazia papel de surdo-mudo): “Aperta devagar Toni. Estou sentindo muitas dores”. Mesmo assim, à vista de todos, ele estava bem, sem demonstrar qualquer sofrimento. 
        
Os olhos azuis ao extremo, aos poucos voltavam ao brilho exagerado e cintilante dos bons tempos. Na verdade ele deu um baita susto na gente!

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As sardas de Irene Ravache desapareceram do rosto lívido quando soube da notícia. Quando chegou ao local estremecida de emoção, foi impossível impedir de soltar grossas lágrimas, molhando inclusive o rosto dele ao leito. Enxuguei a face dele e então respirou aliviado. No fundo, no fundo, detestava tanto drama pelo que considerava um nada. Mas não poderia sequer repreender aquela que, sendo amizade nova, já era mais querida que muitos velhos amigos. Como se isso fosse possível.

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Vestido de macacão jeans, tipo holandesa, sentado num jardim improvisado, fingindo estar bêbado, bem parecia ele. Quis dizer “genial”, mas me lembrei da fúria fingida que o acometia quando ouvia alguém pronunciar essa palavra, querendo classificá-lo assim.

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“Veja só - disse-me depois - um médico receitar remédio de sinusite para curar coração.” O comentário ficou no ar. Não dei trela porque seguindo o hábito que tenho que ler tudo quanto é bula de medicamento vi entre as contraindicações o risco aos que sofrem de hipertensão. Não que ele fosse hipertenso, isso eu não sabia, mas que era multo emotivo isso era.

Disse logo: acho bom não usar essa porcaria (assim chamava todo remédio) e fui imediatamente tomando o nebulizador da sua mão porque sei que nessas horas ele ri e não liga muito para nada e vai comprar outro remédio ou mesmo não usa nenhum mais e fica satisfeito em saber que amigos têm cuidados especiais com a saúde dele. Inflava o tórax como Tarzan e soltava o grito animalesco.

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Grande Otelo, coitado, tem um coração de boi. Teve de sair carregado em prantos assim que soube. E só descansou quando foi colocado sob o efeito de calmantes. Qualquer dia desses morre um no lugar de outro.
        
(Mas ele vem morrendo aos poucos há anos toda vez que quase perde um amigo. Tem uma jarra de lágrimas nos olhos impossível de conter).

“Calma Otelo – murmurei de longe só para ele – Já fica bom. E concluindo adverti: cuida do teu coração.”

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Eu o via ali, descendo a escada do casarão com um copo de cerveja na mão, aos gritos, dando berros guturais, como que para anunciar ao mundo todo a sua presença.

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Dois ou três dias depois (ou uma semana, ou um mês?), tanta confusão confunde a memória da gente. Estavam todos reunidos no velho casarão reformado especialmente para filmar a novela. Era grande a movimentação de técnicos, câmeras, eletricistas, diretores e as pessoas estranhas sumiram, mesmo porque o serviço ê maçante, chato mesmo.
        
Agora o que se via era rostos só de conhecidos, de uns e outros mais intimamente ligados a ele pelo trabalho cotidiano. Ou no resultado do que dele é levado ao vídeo da TV depois da montagem, com trilha sonora. Algumas cenas secundárias foram antecipadas, mas as de maior envergadura e importância dependiam da presença dele.
        
Eu o acompanhei durante muito tempo, diariamente, e ali estava já há algum tempo, há horas, admirando a correria louca e nervosa daquele pessoal pra lá e pra cá, gritando, chamando por nomes que nunca apareciam, reclamando de coisas, elogiando outras, imagens esfalfadas, o calor irritante, e então compreendi porque a vida de certos atores é muitas vezes tão curta.

Estranhei por isso a razão de não me indagarem por ele.

Passavam para lá e para cá, como se eu não estivesse presente, só algumas vezes olhavam para mim demonstrando pena, não sei por quê.

Em sua casa não me disseram nada, nem “ele não irá hoje”, nem “ele já saiu”, nem sequer que “ele estava com pressa”, como algumas vezes ocorria. 

Nas faces de todos se via só apreensão, temor, sentimento de ausência, talvez causados mesmo por aquela demora inusitada. Até mesmo o jardim, que fora semidestruído para gravação de uma cena, parecia mais um cemitério. Ele certamente não iria gostar nada disso.

Mas estava mesmo demorando a e as cenas foram sendo gravadas, continuava o trabalho célere. A febre do trabalho tomou conta de todos, virou um tumulto generalizado. Podia ser um insulto, falta de coleguismo, assim, mal ausenta um amigo e será abandonado friamente? É assim mesmo? O espetáculo não pode parar? Para os demais sim, não para mim: aquilo tudo era habitual, como se ele estivesse presente, para sempre.

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       Jardel demorava muito e a vida parecia continuar sem se importar com isso. Saí então para dar uma olhada no tempo frio, girar um pouco a pé vendo vitrinas, tomar um cafezinho. Tudo para aliviar a cabeça de tanta confusão, esquecer a ilusão e a desilusão. Meti as mãos frias nos bolsos, caminhei no calçadão chutando chapinhas de cerveja. 

       O céu sem nuvens, azul e límpido como os olhos do Alemão, anunciava um verão inesquecível. 

Rio de Janeiro, Cachambi, 19 de fevereiro de 1983.