terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Fernando Braga: Conversas vadias

Rimances de ontem e sempre *

Recebi pelos correios ‘Canções de Roda nos pés da noite’, que seria na ordem cronológica de publicações, o 44º livro de Nauro Machado e ‘Colheitas’, de Arlete Nogueira da Cruz. Nauro, nos estertores da morte, pedira à Arlete, sua mulher, que o fizesses de logo publicar dentre seus trabalhos póstumos, vez que este livro é dedicado às netas Luísa e Júlia, filhas do cineasta Frederico Machado, filho único e herdeiro da eugenia brilhante do casal.

O outro exemplar, ‘Colheitas’, é uma antologia poética de Arlete Nogueira da Cruz, a enfeixar poemas de ‘Canções das horas úmidas’, 1973; ‘Litania da velha’, 1996/7 e ‘O quintal’, 2013/14.

Essas duas lembranças vieram acompanhadas de um terno e generoso bilhete de Arlete, a falar da dimensão do tempo que a assoberba de afazeres, bem como da nossa tríade saudosa, querida e fraterna. Juro que meus velhos e míopes olhos lacrimejaram. Realmente, o tempo é implacável!

I

N’O quintal dos Prazeres’, que se mais parece com um título de um romance dalguma quinta portuguesa, e o é por semelhança, porque lá foi a antiga morada do poeta, onde se ergue hoje a ‘Casa de Cultura Nauro Machado’, ele enobrece mais ainda aquele seu recanto neste canto:

“A poesia com que falo
pela boca em mim maldita,
querendo a que canta o galo
que pela manhã mais grita,
a poesia sem a sola
dos sapatos do poeta,
é a que leva em sua sacola
as cadernetas da neta,
a cantar pela manhã,
como quem abre a janela.”

E para o ‘Hotel Nazareth’, sobradinho verde, que abrigava nos baixos ‘A Casa Ribamar’, especialista em instrumentos musicais, e defronte do ‘Atenas bar’, nosso velho tugúrio alcóolico e poético, Nauro canta em contraponto:

“Se tocas cordas
cercando lívidos
pescoços-covas,
meus vocábulos
são de enforcados,
tombando do alto
de outros sapatos.”            

No ‘Sobrado do Carmo’, solar do clã dos Machado, velho e intransponível quartel das oposições coligadas do Maranhão e ainda redação de ‘O Combate’, onde nasceu o poeta e viveu parte de sua vida, seu choro é ecoado pelas centenárias sacadas a ferro:

“Do outro lado só há o nada:
ninguém te segura os dedos,
nem mesmo tua ama, a fada
que ainda te guarda os segredos.”

E clama em ‘A idade da pedra’, num laivo quase uterino:

“Nenhuma mãe
me teve velho;
vivendo em mim,
sou um homem órfão
desse menino
que não morreu.”

E ‘De vidro e treva’, Nauro projeta-se:

“Era tu espelho, filho,
o resto que era o meu.
Era o espelho de um pai,
a face que era a tua.
Nessa eterna presença
viverá nosso tempo.”

“Aos pés desse tempo em projeção do qual cada anoitecer precipita tanto nova aurora quanto o fim a todos comum, encontram-se os polos dos poemas aqui reunidos: o socorro do verbo a conclusão da matéria humana”, disse nas abas do livro, com muita propriedade, Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos.

Quem viu o rosto de Nauro não morre nunca! Nauro está vivo!

II

Sobre ‘Colheita’, de Arlete Nogueira da Cruz, endosso Assis Brasil quando diz que “ela atinge o ser da literatura poética, e, por sobre a norma da língua, atinge a arte da palavra, com seus poemas inefáveis, fiel à tradição da imagem, que tem marcado a poesia.”

E Arlete canta à Cidade de São Luís:

“Ó cidade de São Luís
estanco nestes degraus
subindo escadas que fiz
suando os mais altos graus.
Acolhe esta andarilha
subindo no desamor
das águas que me querem ilha,
de outras que me trazem dor.”

Ao alongar a vista desarmada para Itapu tapera [lê-se Alcântara], Arlete acende uma estrela na tosca luz da aristocrata cidade escondida na linha do horizonte, a cantar:

“Onde o verdugo passou
e a solidão ainda mora.
Alcântara suportou
sua noite e a sua aurora.”

E finaliza:

“Na quitanda que não vejo
para a fome deste dia,
da criança que eu almejo
nos paços da burguesia.” 

Como filha querida, volta à prosa, numa bela crônica, e canta sobre o pai em ‘Raimundo, simplesmente Raimundo’, de onde extraí este excerto:

“Era um homem recatado, contrito, humilde, que rezava o pai-nosso todas as noites com as limpas mãos cruzadas entre as pernas, e, depois de fazer o sinal da cruz, deitava e dormia sem remorsos, porque tinha o dever cumprido e a consciência limpa.”

Arlete retorna ao verso novamente e diz à sua mãe Enói, com muito amor:

“Neste mês de novembro
encontro a minha lua generosa.
Tu me tens, lua-luar,
desde quando me protegias
nessa tua forma ovular crescente,
mesmo depois, quando minguavas,
também hoje em plenitude,
nesta noite de novembro,
lua-minha que vai e volta,
lua cheia, tu me tens.”

E para Nauro, o velho marido e querido poeta, Arlete, engolindo o soluço e esboçando um sorriso se esforça para dizer em ‘Relíquia’:

“Nuvens avançam sobre líquidas travessias
enquanto sólidas lágrimas te guardam
sob pálpebras congeladas de assombro”.

E em ‘Regozijo’:

“Ó consumado gesto de uma alma
que aflorou desperto de seus dedos.
Para sempre, sobre a morte,
ele triunfa em tais segredos
para sempre ficará em júbilo de versos.”

Que trajetória ascendente e bem construída foi o caminho literário de Arlete Nogueira da Cruz, que ainda muito jovem, sob as vistas de uma crítica ferina encastelada nas muralhas centenárias de São Luís, fez explodir a novela ‘A Parede’, com uma apresentação emocionada de Josué Montello.

Depois a vida em si. o casamento, uma união do útil com o agradável, a paciência e a fragilidade de Arlete ante o espírito ambulatório e a genialidade de Nauro Machado, surgindo os dois de uma mesma lâmpada mágica.

Depois Frederico, a estudar cinema, a dar, assim, um conteúdo acadêmico ao que o pai de há muito já aprendera na forma poética nas telas do Roxy e do Éden.

Por fim, o nascimento de Luísa e Júlia, as netas. A litania da velha que é um livro fantástico. E mais versos, contos, conferências. Entendi Arlete, porque faltou tempo para te alongares no bilhetinho que mo fizeste! 
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*Fernando Braga, in Apontamentos para jornal e para a antologia de textos do autor.

Ilustração: Capas dos livros ‘Canções de roda nos pés da noite’, edição póstuma, de Nauro Machado, [poemas], 2016 e ‘Colheita’ [antologia] de Arlete Nogueira da Cruz, 2015. 
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