segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

João Rovedo, A outra face da Ilha


João Rovedo, meu irmão, foi poeta. Poeta-menor, porque prisioneiro da poesilha – a poesia que encarcera do mesmo jeito que o mar enclausura a ilha. Não foi o primeiro nem será o último a se emaranhar nesse asilhar voluntário que encerra corpo e espírito. Uma ilha é potencial Alcatraz da alma, no entanto, nem tudo se enjaula, nem tudo se fecha em si.

No primeiro clamor, a própria natureza que isola e prende e recolhe, sob a tranca de aparência inviolável, a assombração se revolta, liberando o espectro da poesia. Então, tudo se transfigura, tudo é visão, aparição daquilo que o poeta viveu e morreu.

O livro “A outra face da Ilha” – do qual segue uma antologia – reflete toda a fantasmagoria que os meios sobrenaturais e extraordinários da ilha estilhaçam o ser e a poesia. Quimera, utopia, aparições, fazem parte do conjunto de visões fantásticas e irreais que povoam a poesia de João Rovedo. Está tudo ali, sem tirar nem pôr.

O poeta Fernando Braga conta como escreveu a introdução ao livro, onde esmiúça com melhor visão a poesia de “A outra face da Ilha”:

Parece que foi ontem... Uma noite só nós dois, na casa em que eu morava no Araçagy, diante de uma pinga boa que trouxera do Mercado Central, começamos a bebericar, e eu apostilei essas notas.  Nós dois nos encantamos... Deu-me vontade de chorar agora...

Apresentação

Fernando Braga

João Rovedo é o autor de “A outra face da Ilha”, livro com que abre uma porta ao universo poético maranhense, mais particularmente, de São Luís, esse território de artistas e pensadores, de lendas e abusões.
Nesse campo real e mítico, os versos desse mercador de sonhos atrelam-se em espaços lúdicos onde, na maioria das vezes, se abstraem tomados pelas formas livres como a viração nas tardes da Ilha.

São versos quase dispersos que migram entre si, se identificam com os fatos visíveis da paisagem ludovicense, marcante no seu todo como contexto a realizar-se como ancoradouro emocional e visionário tendo como objetos os sobrados e sacadas, portais e janelas, fontes e mirantes, becos e azulejos como projeções em seus sentimentos e lembranças, símbolos mais que suficientes para motivação poética.

São ainda carregados de signos os poemas deste livro, que os fazem cambiantes, alguns aflitos e com gritos sociais, estridentes mesmo, bem à moda do tempo que ora passa; outros, embalados na boa querência, falam de amor à Ilha e aos frutos de sua eugenia, mas todos recortados por vezes de uma realidade que o limite é a franqueza.

“A outra face da Ilha”, do poeta João Rovedo, é manejado com características pessoais: são versos que emergem como partes naturais de seu intimismo, engenhados por crença do autor, sem pontuação, a conduzi-los a um único fôlego, mas que mesmo assim chegam plenos e inteiros ao outro lado da travessia, agarrados à palavra, essa lavoura indomável de estrutura verbal, esse encanto linguístico que faz a essência do poema ser eterna e com ela se corporifica e se espiritualiza e se personaliza.

Meu caro João Alfredo Boabeyd Rovedo, em obediência às determinações de Deus, sempre é tempo de ser poeta, mesmo que ali não mais tenha a face de ontem.

Antologia
RETRATOS

O que descrevo da cidade
É o que os artistas pintam
É o que os poetas cantam.

Está tudo aí à luz do sol
Sobre este chão que pisamos
Sob este céu que nos cobre.


VITRAIS

Nos entrepassos do alvorecer
sobre paralelepípedos da rua grande
rumo ao abrigo da praça João Lisboa
para saciar a ressaca do bar
Duas Nações.

É quando os reflexos do sol
como vias cambiantes da vida
irradiam novo ciclo na Ilha
nas sacadas e janelas abertas
da manhã.


IDOS

Quando ainda existiam
na Rua da Palma
os cabarés e a boemia
deixei a minha alma
dividir amor em demasia
entre putas que fingiam
na ilusão não percebia
a verdade nua e crua:
de que muitos chorariam
a morte daquela rua.


MATUTINA

Na excomunhão da noite
foi somente o que restou:
uma estrela a testemunhar
as lágrimas da lembrança.

Na Ilha sequer a lua cheia
que o amor incendeia
vem dar o ar da sua graça
para aplacar a solidão.


ÍNCOLA

No entremeio dos gatos
e ratos do Beco da Bosta
uma rosa viceja ao rés
dos últimos raios de sol.

Somente então o poeta
adormece os seus medos.


LAGOA

            “Porque o que é verdade à luz da lamparina,
            também é verdade à luz do sol”.
                                   Salomão Rovedo

Lagoa Nhá Jansen empírica
vives de causas e de dramas
entre uma e outra política
muitas lágrimas derramas.

Lagoa Nhá Jansen cativa
dos prédios e dos manguezais
que ainda te mantém viva
ecoando gritos e tristes ais.

Lagoa Nhá Jansen concreta
de coração sangrado e exposto
estás sem rimas e sem poeta
que te possa cantar sem desgosto.

Lagoa Nhá Jansen sem pose
foram-se os tempos de esplendor
és somente uma lagoa – à la rose
com o mesmo cheiro e a mesma cor.


PALAFITAS

Sobre o reino do Chama maré
As vidas em pau a pique e embira
Brincam no boi-de-taipa e de fé
Outras brincam no boi da mentira.


LIUZ

Pelos cantos das ruas e do passado
piso as pedras calçadas da história,
marco os passos e ao silêncio atado
trago amores e encantos à memória.


LUX

Estou no pensamento isolado
na folha que baila ao vento
no papel que carece de sorte
sonho mais que um sonhador.

Estou no fim da fumaça
olhando o mundo inteiro
começo no meio da ilha
na ilha que está em mim.

Estou na estrela pálida
na terra que não tem luz
sou o fluido do carinho
do amor que não se calou.


MÃE D’ÁGUA

O corpo das vestes despido
que o circo lar te conduz
sabe ser inconteste na fome
da rima faz o pão.
Na viagem de uma gota d’água
a luz viole(n)ta da vida
converge às palafitas
que emergem da solidão.
E do mirante dos pós
onde a palavra edita
os dias que a vida escoa
no escarro dos avós.


AS PRAÇAS

“Mas o nosso povo, punge dizer, tem particular
desamor à coisa pública, mormente ruas e praças”.
Domingos Vieira Filho

Algumas sem graça mas belos acervos
são essas tais praças jardins florestais
umas com muitos ou poucos relevos
outras com pompas são quase reais.

Se uma do Lobo leva o abono
uma outra seu dono é o Reis
a do Dias é sem abandono
até a noite tem muito freguês

A do Leite não assiste a enterro
esse evento é diário na Saudade
enquanto reina calma na do Desterro
a do Lisboa movimenta toda a cidade

Nem a do Souza nem a do Andrade
não se empresta sequer para fuxico
além da do Deodoro por sua idade
tiraram a sombra também do Odorico.

O poder não tem pena da Misericórdia
nem do Catulo nem do Duque de Caxias
já que servem como exemplo em paródias
incluam a do Panteon nas profilaxias

A Primeiro de Maio foi com a da República
rogar com Pedro II junto a Santaninha
para que seja praça de fato pública
e escusa aquela que omitiu a mente minha.


ROSA DOS VENTOS

Se me sinto nulo
Mudo e sem norte

Como a prece no escuro
A incomodar o silêncio

Logo me conduzo
Ao róseo retilíneo

Onde me transverso
Na via púbere do ócio

Pois a Ilha saliente
Em versos me convida

A bailar como um louco
Na dança do cio da vida.


MIRAMAR

Nos mirantes da cidade
Ervas nascem plantação

Nos mirantes ziguezague
Racham réstias

Lodo limo construção
Nos mirantes da cidade

Vigas do tempo que pariu
Pontes vias invasões

Nos mirantes da cidade
Delírios visuais

Bondes odes procissão
Nos mirantes da cidade

Os fantasmas ameaçam
Do Portinho ao Pespontão

Nos mirantes da cidade
O só e a solidão.


SEDIMENTAÇÃO

Na Ilha vou ficar
Vou andar até aonde
Deus não andou
Vou ficar sem pauta

Não irei sem lume
Como vagalume no dia
Sem algo além da solidão
Ilhado vou ficar

Sem pedir e sem medir
Fico o tempo preciso
Para que eu veja
O que Deus não vê

Antes de vagar pela Ilha
Travesso
Do que ir sem depois
Ou que eu me sinta

No anverso
No avesso.


OLHO D’ÁGUA

Do Olho d’Água
a água nos olhos
nos olhos da menina
espraiam a mágoa.

Meus olhos enxáguam
a menina dos olhos
seus olhos espelham
nos olhos da água.

A minha menina
dos olhos deságua
na menina da praia
do Olho d’Água.


OCASO

Quando o canto da andorinha emudece
O bando de guarás ao manguezal desce

O sol se esconde no mar
A Ilha se instala no bar

Lá do alto do céu estrelado vigia
Um homem na noite de almas vazia

A OUTRA FACE DA ILHA

Foi amor à primeira vista
Por ser menino não sabia
Que a Ilha o atraía
Com a bruma do amanhecer
Para seus braços mornos
Braços de verde mar e sol
Onde brancas dunas o acolheram
As sombras de verdes matas
Muitas garças poucas farsas
No Largo dos Amores.

Foi paixão à segunda vista
Ainda rapaz não percebera
Que a Ilha o seduziria
Com o céu estrelado
Como um véu de luar
Luas diurnas na Beira-Mar
Cheia de cruzes vazia de luzes
Aonde o sal das lágrimas
O transpôs às lembranças
Que adulto não esquece jamais.

Foi solidão à terceira vista
Pois homem logo se deu conta
Que era a Ilha uma fantasia
Emergida de histórias desbotadas
Azulejadas de casualidade histórica
Porque a realidade do homem ilhéu
É que na maresia ele se esvai
Entre becos de lioz e cantaria
Até que de si ecoa um sussurro a Deus
Enquanto a Ilha festeja o Boi Barrica.


JURIS(IM)PRUDÊNCIA

...que poesia seria escrita hoje para o caso
do Convento das Mercês?
...qual bardo falaria do promiscuo caso
entre a memória e o poder?
Wagner Cabral Costa

À mercê está o sacrossanto Convento
Sem o oráculo do Padre Antônio Vieira
Que não permitiria servir de alojamento
A alma impura e fausta em eira e beira
Fosse ainda das Mercês o santo escudo
Epistolava aos quatro ventos sem louvor
Quem opugnou sua obra em fulcro mudo
Em espaço vadio e pagão o transformou
Ao discorrer o padre e verdadeiro mito
Usou o sermão como punhal latente
Em todos os escritos nos revelou
A certeza que não calaria o grito
Do estupro jurídico à luz do presente
Que ao bigodear espúrio acordo sela
O sepultar do corpo sem alma e sem critério
Convento é lugar de vida e contemplação
Lugar de mausoléu é no cemitério
Sem manto de jurisconsulto sem apelação.


TAPUITAPERA

“Ainda hoje em cada grupo de doze
há sempre um que se vende por 30 dinheiros.”

Alcântara
De lendas em ruínas
E das doces ervas.

Enquanto a chuva
Encharca o corpo
Os teus nativos
Ressecam o suor
Nas almas do Divino.

E desse parágrafo histórico
Ao espaço te lançam metálica
Pois da Mesa do Imperador
Ao Pelourinho
Tens hoje o perfil
De futuras Malvinas.

RURAL

Ai quanta saudade do meu chão
            Da lua cheia que a Ilha acata
Da luz oscilante do lampião
            Ai saudade como és ingrata.


S.O.S.

Elevem-me aos cumes santos
Atirem-me contra as pedras carcomidas
                                                           Desta Ilha
Levem-me aonde não possa eu
Ver-me nos esgotos da superfície
Tirem-me de dentro dos becos
De paredes racistas
                                                           Salpicadas
Com bosta de burros
Suguem-me o sangue e derramem-no
Nos murmúrios do sonho
                                                           Nas raízes do mar
Joguem-me dos curtidos mirantes
Dos telhados suicidas
Das sacadas salitradas
Cercadas de medo
            De se ir
                        De se ficar
                                   E não se voltar.


ILHÉU

Venho no caminho longínquo
Da Ilha pequena maior que eu

Sentindo a veia pulsar
A saudade que eu deixo

Que levo das paisagens
De rosas no verde florir

Com doce sorriso despeço-me
Do silêncio profundo do mar

Para  sair em grande cidade
Sem passar a minuída vivência

Mas com toda certeza de ser
Maior que o gigante concreto.


TRANSE

Em justa memória a esses malucos-beleza que, com peculiaridades distintas, marcaram época no calendário da Ilha.

Nos paços da Ilha há falso traquejo
Ao lembrar Maria-Tostão em becos insanos

Como de um fantasma o mesmo manejo
De Cara-Cagado veem ecos profanos

Incide o tempo travesso com graça
Mangando de João Pessoa e assim

Como íncola das travessas da Ilha
Ser Vassoura um dos parentes afins

O abrigo passarela de bondes na praça
Testemunho à desgraça de Boca-de-Solha

Que nas roucas estórias noturnas sofria
Bógues e chutes de putas e qualhiras
Sobre portuguesas pedras em simetria
Rei-dos-Homens infante e dândi desfilava

Nenhum por mais que fosse afoito
De Bota-pra-Moer o lábaro tomava

Aquém do Paralelo-Trinta-e-Oito.


ENTRETANTOS

“minha cidade não é mais aquela...
... os demônios do passado não são mais
meus companheiros”.
                                   Fernando Braga

Embora que muitos ainda te queiram
Já não quero tanto quanto quis outrora
Mesmo porque de uma ou outra maneira
Em mim muita saudade tua inda mora

Ébrio no entanto nos cantos das ruas
Vezes sem conta fiquei sem par
Sem saber qual face nua e crua
Na lenda das Minas querias ocupar

Assim te guardo na minha algibeira
Para não se perder a lírica encantada
Depois de ser a Atenas Brasileira
És capital da cultura nomeada.


BECOS

“... E porque tudo tem dois, três e mais nomes”.
                                   Joaquim Itapary

Beco da Alfândega
da Baronesa
da Barreira
da Bosta
da Cadeia
da Cancela
da Faustina
da Felicidade
da Funerária
da Imprensa
da Lapa
da Pacotilha
da Palhoça
da Passagem
da Prensa
da Quinta do Barão
da Sé
da Varacaria

Beco das Águas Verdes
das Garrafas
das Laranjeiras
das Minas

Beco de Catarina Mina
de João do Vale
de Santo Antônio
de Todos os Santos

Beco Escuro
            Feliz

Beco do Capela
do Caga Osso
do Coito
do Couto
do Deserto
do Desterro
do Jaú
do Mijo
do Oscar Frota
do Panaca
do Portão
do Portinho
do Precipício
do Prego
do Quebra-bunda
do Quebra-costa
do Rancho
do Seminário
do Silva
do Teatro
do Vira-mundo
do Xirizal
do Zé Coxo

Beco dos Barbeiros
dos Barqueiros
dos Burgos
dos Burros
dos Catraieiros
dos Craveiros
dos Engenheiros

Beco da Vida
Beco sem Saída.


SOB O CÉU

“Todas as coisas de que falo
estão na cidade entre o céu e a terra”.
Ferreira Gullar

No baixo do casarão
            O artesão

No Beco da Faustina
            A cafetina

Na cachaçaria do Batista
            O artista

No Canto da Viração
            O ladrão

No Convento das Mercês
            O burguês

Na Fonte Maravilhosa
            A religiosa

No Largo dos Amores
            Os sedutores

No Comércio do Ezequias
            As especiarias

Na padaria Santa Maria
            A iguaria

Na Ponta d’Areia
            A sereia

Na praça Maria Aragão
            O cidadão

No rés do abrigo
            O mendigo

Na Rua do Chafariz
            A meretriz

Na Travessa do Mercado
            O diabo

Na Vista do Mirante
            O traficante.


AS FONTES

Na Ilha das fontes vertentes
            A das Pedras é de lioz perene
Em águas de encantos perpétuos
            Na Colonial ou na do Marajá
Há contos reais quase inconfessos
            Como a das Bicas de indutiva sonata
Na do Ingazeiro ou na do Apicum
            Onde as mentes como almas afins
Assombram o tempo na do Mamoim
            Com louco tropel nas cantarias
Que ecoa nas galerias do Ribeirão
            Mas a face elipse da Ilha inata
No silêncio da Saudade se desnuda
            Se a face rebelde da Ilha reclama
A bênção a do Bispo inócua lhe dá
            Então a outra face da Ilha
Suplica à Fonte (Iara) Maravilhosa
            Que na dança das águas ensina
Entre cores e sons lágrimas derrama
            Com medo da Fonte da Vida secar.


FRAGMENTOS

Da Ilha despeço-me

Nos subúrbios da solidão
Deixo meus traços meus laços
E o meu ensandecido aceso
A seus filho e netos e bisnetos

Da Ilha despeço-me

Nos braços tão gastos
Deixo meu coração em pedaços
Que os antigos azulejos
Moldam seu pretenso ser

Da Ilha despeço-me

Deixo na ótica do tempo
Os anos sem quatro estações
Alço voo dos seus mirantes
Como aves de arribação.


TELHADOS

Nos telhados da cidade
Os preconceitos no tempo param
Sob os telhados sob entalhados
Nos tristes jardins suspensos
Como operários da mesma agonia
            Da construção

Nos telhados da cidade
Um guardião do censo aborta
O encontro de todas as verdades
Nos mirantes alcoólatras
Como túmulos sobre a cidade
            Em hibernação

Nos telhados da cidade
Gerações surgem sem comunhão
Sob as torres inservíveis catedrais
Ao homem sem padrinho sem telhado
No sobe e desse no desse e sobe
                                                                       Da especulação

Nos telhados da cidade
Memorial compromisso do passado
Que sob aflitos telhados sofre
Apunhalado pela solidão cosmopolita
Que flutua como grilos como gritos
                                               De paixão

Nos telhados da cidade
A história de estórias adormecida
Na integração do tempo nulo
Como encardido cemitério burgo
Destelhado sem opção de futuro
                                                                       Sem ação.


MARÃ ILHA

Ilha
Beijada por marés e chuvas
Abraçada por fauna e flora
Por vezes até triste beleza
Em certas partes da História

Ilha
Às voltas com gaivotas em delírio
Agalha nas águas doces do tempo
As graças da garça alvo do homem
Como vigia os filhos da madrugada

Ilha
Sob o céu de soluaestrelas luzentes
As ondas de espuma avisam ao Norte
Que a brisa marinha azul espelhada
É um reflexo do semblante do Sul

Ilha – Complexa maravilha!


UPAON AÇU

A chuva respinga no telhado
O rouxinol canta no ninho da nação

A rosa vira estilhaços carnais
Na brisa florida estuprada

Pela pipira amarela e branca
Ou azul quem sabe verde

O sabiá já canta lá fora
No clarão do amanhã

De natureza sem dono sem patrão
Pois sem matas sem passarada

Já não há mais cores na Ilha
Não mais se ouve o canto da terra

A criança de encantos mil
Com se fosse de outro filho

Que quando nasce logo emperra
O ventre que lhe pariu.


MIRANTE

Para Artur Vieira

Ele viu a terra distante
Numa nau amurada de ferro
Flutuando no mar ondulante
Que lhe afogou o berro

Então seu grito emigrante
Gravou na areia o recado
De quem pariu soluçante
Deixando o coração fincado

Na certeza de voltar ele seguiu
Sentindo da intempérie a colisão
Até que um viver sólido sentiu
Ao desembarcar no berço irmão

Fica na Ilha o recado escrito
Esperando hora quase chegada
No regresso se ouvirá o grito
Avivando a palavra semiapagada.


BEIRA MAR

Manhãs de sol
São tantas são
O céu azul
Pinta de azul o mar
Doce balanço
Banco a navegar
Navegando o amor
No coração

Eu vou amor eu dou
Eu dou amor eu vou

Vejo mil letreiros
Coloridos
As copas na brisa
A bailar
Sonham em si
Sonhos queridos
Os que não tem
Tempo de amar

Eu vou amor eu dou
Eu dou amor eu vou.


IDÍLIOS

Os meus sonhos estão na Ilha
            Perdidos na solidão da noite
                        Se encontrá-los
Não os pise
            Pois os sonhos
                        São tudo o que tenho.


SENTINELA

Tu que ficaste na Ilha
A velar pelos restos de vida
                                   Mortais
De um brado sem pai sem mãe
                                   Sem filha
Buscando o quê homem-ilhéu
Sem pensamentos sem ventos
                                   Sem cais?

Tu que ficaste na Ilha
Não pela ausência infinda
Ou pelos anos sedentos
Mas pela sepultura úmida e fria
Onde mesmo quando lembrada
Em coitos vadios e ébrios
                                   Não vás.

Tu que ficaste na Ilha
Com a vida inerte isolada
No parêntese dos parentes
Sem voz sem aparte
                                   Penais.

Tu que ficaste na Ilha
Sem rota sem leme sem rima
Nem simples contos arrotas
                                    Sem paz.

E desavisadas mentes padecem
Por não te separarem da Ilha
Ou não poderes ser como tu
                                   Jamais.


São Luís, Maranhão, 1984/2014.
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