domingo, 11 de fevereiro de 2018

O gato que ouvia Mahler

Hunter
Foto: Priscila Rovedo

Sou três vezes apátrida!
Em toda parte um intruso, em nenhum lugar desejado!
Gustav Mahler

         Para contar esta história seria preciso usar um método que fizesse reviver meu nascimento e infância. Mas não quero isso. É sofrido, triste. Por outro lado, não tenho alternativa. Não se pode fugir de Freud, Jung ou mesmo Lacan. Sei que nos problemas das áreas médica e biológica é interessante verificar se as variáveis estão relacionadas. E que, para explicitar essa relação, é preciso usar o por vezes doloroso método da regressão.

         Só a análise regressiva possibilita confrontar relações razoáveis e relações empíricas. Essa abordagem, porém, exige coleta de dados e uso de análise linear. Só a impiedosa coleta de dados permite saber a natureza da relação entre passado e presente, capaz de neutralizar situações inusitadas e perigosas. Como se sabe, a regressão objetiva faz botar para fora o desconhecido – aí que está o perigo. É o procedimento mais comum usado para explorar as negações inseridas num contexto ignoto, capazes de florescer de modo espontâneo e cruel.

Até em Centro Espírita se sabe disso. O que está fora desse conceito é pura extrapolação e deve ser analisada com cuidado, pois pode não estar correta: o presságio – não a extrapolação – é o prognóstico mais aplicado na regressão. Também a escolha do ponto xis deve ser baseada combinando a sensibilidade com a especificidade, fugindo de classificar o evento e o advento.  (Antônio Vieira – Sermões).

Séculos depois Jung achou isso justo, já que o não-evento é classificado não-ser, posto que é falso. Para Freud a avaliação metódica foi criada inserindo, na acurácia, a sensibilidade, a especificidade, o verdadeiro, o falso, o previsível positivo, o imprevisível negativo, o improvável positivo e negativo – todos são como elementos circundantes da regressão. E mais: não cabe à imperfeição do julgamento indagar se cada caso é justo ou injusto. Isso seria como o julgamento falso, mas isso não é problema ético, já que pecamos por imperfeição moral e ampla corrupção.

Até mesmo as ciganas, leitoras de cartas, das linhas das mãos, do tarô, que profetizam dichas y desdichas, revelam suertes y sueños, chegam à mesma conclusão: 

Recuerde lo que le dice la gitana: por bueno y amable que parezca, ¡las obras buenas ocultan a menudo corazones repletos de lujuria y orgullo! Que no la apene mi predicción, sino sométase resignada. Aguarde serena la desdicha inminente, y espere la dicha eterna en otro mundo mejor.

Por isso, jamais se deve tomar decisão sobre o bem e o mal, pois isso significaria que tais categorias são inválidas, inexistem – o que é totalmente falso. O julgamento moral deixa sequelas, mas a injustiça será apagada da alma, seja qual seja o curso da vida. Desde Paulo – Coríntios, 13:12:

– Porque agora vemos por espelho um enigma, mas depois o veremos face a face. Agora conheço em parte, mas então conhecerei também como eu fui.

No entanto, não é o que dizem os filósofos:

O conteúdo dos julgamentos muda: nada pôde poupar a crucificação da decisão ética. Quem é culpado? Os judeus. Por pior que possa parecer, é preciso demarcar o desvio da moral e estigmatizar o infortúnio. É imperativo não sucumbir aos opostos, ao netineti hindu. O código moral nulificado não é novidade, é apenas ordem do dever cumprido.

Mas o que sei sobre isso? Sou apenas um gato. Um gato preto. E a vida do gato é uma tentativa aleatória, um fenômeno monstruoso por causa do número: sete vidas! É uma vida tão fugidia e imperfeita que a própria consciência da exuberância felina parece um prodígio. Só posso compreendê-la através das ocorrências anteriores.

Jamais esquecerei as palavras de Jung relatando a mais antiga das imagens que conseguiu recompor fazendo análise regressiva. Bebê ainda, ele descreve o passeio no parque, levado por uma babá. Está deitado num carrinho e o que vê? Só aquilo que um bebê poderia ver, imóvel em decúbito dorsal: raios solares trespassando a folhagem das árvores.

Era outono. As folhas das velhas árvores estavam já douradas, um doce raio de sol iluminava a paisagem.

Ele ouvia o burburinho dos passantes, o canto dos pássaros e outros ruídos. Fiquei pasmo. Como pode? Como pôde? Por outro lado, se Jung pôde eu também posso! Apesar de ser apenas um gato, um gato preto, posso tentar.

A mais antiga imagem que tenho de minha infância bem que poderia ser aquela de um saco de pano ruim em que estávamos metidos eu e meus irmãos, a viagem trepidante, o inesperado voo espacial e a queda súbita num rio fedorento. Mas não. Relembro ainda que horas atrás, antes desse desfecho, éramos uma turminha barulhenta que vivia brincando, lutando e caçando, até que todos, exaustos e famintos, corríamos aos mamilos da querida mamãe que jamais tornaria a rever.

No rio o saco flutuou um pouco até engatar num móvel abandonado. Arrisquei a fuga e consegui fincar as unhas no braço de um gasto e acabado sofá antes do saco se soltar e ser levado pela correnteza até desaparecer. Nunca mais revi meus irmãos, nem sei qual o destino deles. Quanto a mim, fiquei escondido no forro entre restos de algodão, até a escuridão chegar, trazendo fome, sede e medo: não tinha mais a mãe que me protegia e alimentava.

Tive que aprender a caçar baratinhas e arriscar a comer restos que pelo olfato tentava saber se estavam bons ou não. Sofri muitas vezes com dores, vômitos e diarreias, mas a cada dia melhorei e aprendi a não me alimentar de coisas estragadas ou não alimentícias. Em seguida descobri o perigo: enormes ratos, ratazanas, urubus, gaviões, as notívagas corujas, todos vasculhavam os lugares em busca de alimento para si, para os filhotes. Os menores não eram ameaça para mim: em breve seria forte e grande, mas agora não, eu não era páreo para os grandões.
        
O velho sofá me abrigou a contento num nicho de flocos de algodão e espuma sintética. Muitas e muitas vezes sonhei que estava agasalhado sob o ventre peludo de minha querida mãe. Outras vezes me senti bem aquecido, como se estivesse com o corpo enrolado como um caramujo junto aos meus irmãos. Uma noite despertei debaixo de chuvarada inclemente. Sentindo o sofá flutuar, prestes a ser levado pela correnteza violenta, em dois saltos rápidos pulei para fora.

Fiquei encolhido no meio-fio enquanto carros passavam atirando mais água sobre meu corpo transido. Nunca senti tanto frio na vida. A chuva também fez o trânsito andar mais devagar, os carros se moviam alguns metros e paravam. Eu me sentia cada vez pior, estava mal, mal mesmo. Em certa hora senti todo o meu corpo estremecer, estava febril com o sentimento de que algo ruim iria acontecer. Que triste fim me esperava: morrer ainda criança!
        
De repente o trânsito estancou de vez. Um carro ficou parado a meu lado, vi a porta se abrir, alguém olhando a situação da pista – fui localizado. Nem tinha mais como me encolher para não ser visto. Dois olhos grandes se fixaram em mim. Então, senti uma mão peluda e gorda me atracar pela barriga, depois fui atirado para dentro do veículo.

Fiquei jogado ali no chão enquanto o carro enfrentava a chuva. Ao ouvir o ruído do motor me lembrei do ronronar carinhoso de minha mãe, ao sentir o ar aquecido que vinha das frestas recordei do meu cantinho no sofá. Em pouco tempo dormi e só acordei quando o sol clareou o local onde estava. Era uma garagem – fui esquecido dentro do carro. 

A casa a que fui levado depois – após passar pelo doutor de gatos, ser lavado com água e sabão e receber várias agulhadas – era uma casa habitada por gente barulhenta, com exceção de um velho que, sentado à cadeira de balanço, constatava atônito e em silêncio as mudanças de humor que se processavam ao seu redor. Seus olhos bailavam para todos os lados sempre que acontecia algo assim – como se estivesse alucinado.

Quando o barulho parecia alegria e era ilustrado por risos, abraços e beijos o velho até ameaçava rir, mas noutras ocasiões quando em meio à gritaria todos lutavam como se estivessem num ringue, os risos se transformaram em palavras que soavam a raiva, ódio e briga. Era tempo de guerra, pura guerra. Quando todos silenciavam, começavam a se arrumar para abandonar a casa.  O velho, mal via o silêncio reinar, tratava de se arrumar e fugir dali rapidinho, que nem passarinho que encontra a porta da gaiola aberta. Mais do que corria, voava. Se não saía, botava música para tocar e fechava os olhos.
        
Vi logo que para sobreviver teria que me adaptar a esse ambiente insano e inseguro tanto quanto me adaptei ao sofá no canal fedorento a que fui atirado. Só que ali consegui a simpatia de pelo menos um companheiro: um menino da minha idade que brincava comigo por algum tempo, mas depois me largava de lado para mexer num estranho jogo eletrônico. Por mais que me esforçasse para retê-lo a meu lado oferecendo variados modos de luta e caça, os ruídos alucinantes da máquina eletrônica o atraíam e logo eu era abandonado.

As lutas começavam a sobrepujar as festas e, como resultado, também a tristeza começou a expulsar as alegrias. As discussões se tornaram tão insuportáveis que às vezes me sentia mais feliz e seguro quando morava no sofá velho à beira do rio fedorento do que naquela casa que, segundo meus pensamentos, seria confortável, segura, cheia de alegria e paz. Como pode isso?

De repente, como se um show tivesse acabado no teatro, todos saíam da casa cada qual a seu modo e jeito e para destinos diferentes. Depois da última batida da porta fazia um silêncio aliviado cujo ritmo e cadência era dada pelo ranger da cadeira de balanço, soando como uma música. Após algum tempo o velho se levantava, botava ração no meu prato e água no bebedouro, abria a gaveta superior da cômoda, tirava um CD e botava para tocar.

A música não era funk nem hip-hop, que sempre ouvi tocar nos bailes e festas da favela. Quando a noite avançava, os batidões se emendavam, as palavras eram de desordem e revolta, mas tinha espaço para o amor. Lá pelas tantas, quando o sol se avizinhava, estavam todos loucos de alegria e coragem. Os casais se abraçavam e se beijavam, grudados um ao outro ao som do pancadão. Isso não acontecia aqui e agora sei por que esta é uma família triste e briguenta de raros momentos de falsa felicidade. Também a música é triste, às vezes cheia de lutas, sons que chocam como o ruído de balas perdidas.

Não contive a curiosidade e na primeira oportunidade fui ver que música de morte era aquela. Joguei ao chão a capa do CD e lá estava o nome longo e esquisito da música, acompanhado de frases que não entendi. Gustav Mahler: Die glorreichen Adagios Direktor Herbert von Karajan. Nem precisava entender: a linguagem incompreensível que saía da garganta do velho era a visão daquela música toda, o espectro catastrófico do som, a assombração da tragédia ocorrida na vida do compositor.

A música enchia o ambiente com a melodia triste, muito magoada mesmo, tão deprimida que o velho se curvava atirando os olhos para o chão. Seus lábios se moviam mudos, aos poucos emitia um som como o zumbido das abelhas, um grito principiava a se transformar em palavra: Mahler! Mahler! Mahler! Eu me recolhia a um canto do sofá e ficávamos os dois ouvindo aquela música estranha de invisíveis sons, comoventes, desesperados. Depois o velho pendia para o chão até ficar de joelhos, e chorava.

E posto que Mahler! Mahler! Mahler! o fazia morrer ali mesmo, por que não teria de me afetar também? A música Mahler! Mahler! Mahler!, lembrava mamãe, meus irmãos, a sarjeta e o rio mal cheirosos, a fome, ratos e baratas. Eu também chorava, mas o velho não tinha noção de que choro de gato é expresso em lamentos guturais: talvez a ele chateasse minha lamentação, pois se levantava de supetão da cadeira, calçava os chinelos e voava para a rua em passos mais rápidos do que as pernas podiam.

Pouco tempo depois voltava, esbarrando os braços nas paredes do corredor, ralando os cotovelos, seguia direto para seu quartinho escuro, se atirava na cama sem tirar a roupa e dormia. O som da música de Mahler! Mahler! Mahler! continuava tocando no aparelho, que não desligava sozinho. Eu voltava à sala e encolhido no sofá acompanhava o som com gemidos que significavam saudade de meus irmãos, de minha mãe e do pai que só vi uma vez. O sofrimento mental me perseguia e me fazia definhar, até que chegasse alguém da rua e desligasse o aparelho de supetão.

Antes de dormir pensava na nova família confusa que tinha sem entender porque as brigas se sucediam e todos partiam para algum lugar e apenas eu e o velho ficávamos sós, ouvindo Mahler! Mahler! Mahler! Porque nada sei sobre isso (sou apenas um gato preto), me sinto impotente e incapaz de fazê-los entender que o mundo ao qual somos paridos é bruto e cruel, mas traz o dom da beleza divina. O sopro. Mas se até a música aqui é melancólica o que será alegre? 
          
Dentro das possibilidades de gato, fiz muito para fazer crescer o amor dentro daquele ambiente confuso, admito. Mas não posso afirmar em sã consciência que consegui mudar algo. Aquela gente optava pela luta, ainda em tempos de alegria e felicidade, ambiente que me trazia euforia, me fazia correr pela casa toda, saltar nas cadeiras e armários, esconder-me entre os livros e nos vãos que só caberia o corpo de um gato. Tentei infundir esse amor em memória de meus irmãos, de meus pais.

Por ignorância desconheço se o amor reside no fundo de todas as coisas, a não ser que se adicione a ele também o ódio. Mas neste caso o mundo – aquele mundo particular – decerto ficaria bem mais triste, como de fato ocorreu. Considero inacreditável que essas pessoas não entendam patavina da língua dos gatos, embora me esforçasse para ensiná-los. Era incrível vê-los traduzir meus gestos, olhares e vozes em coisas absurdas, opostas ou a simples sinal de quem não entendeu. Pode ter cena mais inditosa, ambiente mais jururu do que aquele que brigas e xingamentos reinam? Um infortúnio maior do que passei? E meus irmãos, que será deles?

Foi ouvindo aquela gritaria sem fim onde ninguém conseguia dar a última palavra, pois sempre haveria réplicas, berros e insultos tais que até os vizinhos reclamavam, foi assim que aprendi os nomes de cada um: Gordo Escroto, Puta Doidona, Velho Cachaceiro e Pivete – o menor e meu amigo – mas a mim me chamaram Caçador só porque fui visto de noite caçando e comendo baratas. Ora.

Velho Cachaceiro, certo dia de lutas insanas, saiu rápido direto porta a fora, sem mesmo esperar a discussão violenta terminar, como era seu hábito. Nessas ocasiões eu e Pivete procurávamos refúgio seguro, pois às vezes, além de palavras de guerra e insultuosas, que feriam todos os entes familiares passados e presentes, além das palavras graves que feriam as almas, também voavam objetos, pratos, facas, garfos – o que tivesse à mão.

Os projéteis circulavam com rapidez assassina pelo ambiente, acertavam paredes e portas, atingiam o rosto, braços e pernas, deixavam hematomas roxos e feriam, deixando incisões que faziam o sangue correr. Não tinha mais jeito. Era sempre assim até o dia insuportável que as queixas de vizinhos levaram Gordo Escroto e Puta Doidona para a delegacia e resolveram sair cada um pro seu lado.

Entrementes, eu e Velho Cachaceiro ficávamos sozinhos e esquecidos no apartamento abandonado, que apodrecia aos poucos. O CD da tal música Mahler! Mahler! Mahler! ficava girando enchendo o ambiente com aquela sonoridade triste que fazia Velho Cachaceiro chorar copiosamente e me deixava triste com saudade de minha mãe e irmãos, do sofá que me serviu de morada. Eis porque lamento ter nascido apenas um gato preto.

Nunca pensei que iria me encontrar mais infeliz do que no dia em que o grupo de seis ou sete gatos tirados da mãe, metido dentro de um saco de aniagem cujo destino seria um rio fedorento, a provável morte num canal asqueroso de uma favela. Velho Cachaceiro se esqueceu de cortar o cabelo e de fazer a barba: o café da manhã era uma talagada de bebida, água correndo nas torneiras e Mahler! Mahler! Mahler! tocando, tocando, tocando. Nem um gato preto encontrado num canal de esgoto suporta tanto sofrimento, tanta tortura sonora. Ai saudades dos bailes funk da favela! 

Velho Cachaceiro, sentado na cadeira cuja perna quebrada não balançava mais, chorava, chorava falava palavras inaudíveis, nomes de mulher. Repetia Mahler! Mahler! Mahler! Meu amor, meu amor para a vida, para a morte! E então saía apressado, correndo, não sei por que nem para aonde, voltava cada vez mais bêbado ainda e dormia. 

Certo dia de domingo, depois de todo esse ritual aloucado ser cumprido e repetido ao extremo mais uma vez e para sempre, quando a casa ficou vazia e só Mahler! Mahler! Mahler! enchia o ambiente de dor, fugia pelas frestas e se perdia no corredor, Velho Cachaceiro solene, em lágrimas, se levantou da cadeira, levantou os braços, atirou os olhos para o alto e se foi correndo aos gritos: meu amor, meu amor para a vida, para a morte! Só que desta vez saiu pela janela, coisa pouco recomendável já que estamos no 6º andar.  


Rio de Janeiro, Cachambi, janeiro de 2018. 
Postar um comentário